Considerações pós-modernas sobre a ciência, ou… Tudo que tem casca voa!

 

DSC07282Considerações pós-modernas sobre a ciência, ouTudo que tem casca voa! 

(I Parte)

(Entrevista concedida à Marcelle Jiroux D’ Ataign – junho / 2011)

Prof. Celso Lugão, o que o senhor tem a dizer sobre estas críticas que têm sido feitas à ciência, pelo discurso pós-moderno?

Se você se refere à chamada “crítica pós-moderna” da ciência, concordo inteiramente com R. Dawkins, quando este diz que esta é uma forma de retórica anticientífica, ou seja, uma forma de expressão elegante (um falar bem) e que no fundo tenta persuadir as pessoas colocando-as contra a metodologia e a prática científica.

 A ciência enfrentou e enfrentará em seu caminho muitas distorções e confusões. Desde o criacionismo até o uso inadequado de conceitos da física, como por exemplo, o princípio da incerteza de Werner Heisenberg e a teoria da relatividade de Albert Einstein até os conceitos de holografia e física quântica. 

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Quer dizer então que o senhor não aderiu a estes conceitos?

Note… Não se trata de “aderir” a conceitos… Quando você me convidou, pela Internet, para realizar esta entrevista… E enquanto estava pensando no título para a mesma, resolvi comer uma tangerina. Como estava num lugar alto e ventava muito e estava muito frio, não joguei as cascas e as sementes lá do alto – faço isto porque é ecológico! (risos); simplesmente imaginei que poderia ter feito isto porque eu não queria me expor ao frio lá de cima; algo como as experiências imaginárias de Galileu Galilei. (Segundo Alexandre Koyré a tal experiência na Torre de Pisa é uma lenda – ver referência bibliográfica).

 

 

 

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 Assim, tal qual Galileu, imaginei-me arremessando cascas de tangerina, maçã, pêra e até abacaxi e melancia lá de cima!… E todas sairiam “voando” com aquele vento.

Coloco “voar” e “aderir” entre aspas porque este é justamente um dos problemas que a ciência enfrenta: a tremenda confusão conceitual que se faz… Sabemos que a ciência, cada vez mais, tem campos de especialização e exige uma metodologia rigorosa em busca da verdade (lá vamos nós)… Que verdade é esta? Busca-se uma objetividade, um entendimento de como a natureza age.

 Independente de um partidarismo ideológico, político ou religioso, se você ligar o seu chuveiro e estiver em dia com a conta da luz (risos), a água sairá quente… O ventilador também irá funcionar… E a marca da vacina em seu braço lembrará a você dos bons usos da ciência… Assim como as bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki mostraram o mau uso da ciência. O fato é que ambas as situações, a vacina e as bombas, mostram que a ciência é capaz de ter um entendimento da dinâmica da natureza e reproduzir esta, assim como interferir, evitando doenças ou gerando destruição.

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Sendo psicólogo e não físico não posso “aderir”, ou me apropriar, dos termos da física, seria um absurdo e uma ingenuidade, Richard Feynman que era uma autoridade no assunto costumava dizer que “se você acha que entende a física quântica, é porque não entende a física quântica”.

Richard Feynman

Richard Feynman Einstein

 

 

 

Portanto, como psicólogo, leio sobre alguns conceitos de outras disciplinas e aprecio estar atualizado no que tange aos avanços da ciência, mas não posso “aderir” ingenuamente; assim como sei que as cascas estavam “voando” porque eu as remessei, em minha imaginação, lá para baixo e resolvi rotular a queda delas de vôo e deduzir uma “lei” –> tudo que tem casca voa… De fato elas não estavam voando. Eu forcei, inventei, uma idéia.

 Pensemos, qual é a utilidade disto para a ciência? Que avanços isto traz? Não se trata de retirar o lado contemplativo da ciência, o chamado “elogio ao ócio” como Bertrand Russel alertou e recomendava. O uso da imaginação é importantíssimo, afinal o cérebro é um simulador de primeira.

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Então o senhor é contra o uso da apropriação inadequada destes conceitos, ou seja, quando alguém fala da incerteza ou da relatividade, ou ainda de fenômenos quânticos na psicologia, o senhor discorda?

Se possível saio de perto porque posso quanticamente me contaminar (risos).

Na verdade penso que tal pessoa deve ser uma autoridade no assunto e aí pergunto o que ela sabe sobre matemática,  a relatividade, ou o Princípio da Incerteza de Werner Heisemberg…

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Se ela diz “não gosto de matemática” e pergunta, princípio de quem? Eu trato de correr para não me contaminar (risos).

Já ouvi coisas do tipo… “Depois de Einstein tudo é relativo, logo toda verdade é relativa”.

Tudo é incerto após o “tal” princípio da incerteza, e agora, tudo é quântico!

Como diria o menino prodígio: “Santa besteira, Batman!” Ou já que estamos na era quântica… “Quanta besteira, Batman!”.

Simplesmente não se acrescenta nada a pesquisa se apropriando de uma terminologia sem propor ou mostrar qual será a vantagem desta mudança.

B. F. Skinner chama isto de ficções explanatórias, ou seja, parece que você está explicando algo, mas não está. O que vem a ser a tal hipnose quântica?

Não sei, sinceramente, não sei.

Bem, esta seria uma das perguntas que eu tinha aqui…

Ganhamos tempo (risos). Mas posso acrescentar que muito do que estamos conversando aqui, sobre confusões, distorções e pós-modernismos (repito, realmente ainda não entendi o que este “movimento” traz de novo), está na obra de R. Dawkins… Desvendando o arco-íris. Há também um pensador que aprecio muito e, se me permite, colarei um trecho extraído da Wikepedia sobre este assunto. Trata-se de Avram Noam Chomsky, lingüista, filósofo e ativista político. Segue o texto na cor azul…

Chomsky

Chomsky tem refutado fortemente o desconstrucionismo e as críticas do pós-modernismo à Ciência:

“Tenho passado muito tempo da minha vida a trabalhar em questões como estas, a utilizar os únicos métodos que conheço e que são condenados aqui (pelo pós-modernismo, acrescenta o prof. Lugão) como “ciência”, “racionalidade”, “lógica” e assim por diante.

Portanto, leio esses artigos com certa esperança de que eles me ajudassem a “transcender” estas limitações, ou talvez me sugerissem um caminho inteiramente diferente.

Temo ter me desapontado.

Reconheço que isso pode se dever às minhas próprias limitações.

 Muito frequentemente meus olhos se esgazeam quando leio discursos polissilábicos de autores do pós-estruturalismo e do pós-modernismo. Penso que tais textos são, em grande parte, feitos de truísmos ou de erros, mas isso é apenas um pequeno pedaço dessa coisa toda.

 É verdade que há muitas outras coisas que eu não entendo: artigos nas edições atuais dos periódicos de Matemática e de Física, por exemplo. Mas existe uma diferença, neste último caso, eu sei como entendê-los, e tenho feito isto em casos de particular interesse para mim; e eu também sei que outras pessoas que trabalham nestes campos podem me explicar seu conteúdo em meu nível, de modo que possa obter uma compreensão (embora às vezes parcial) que me satisfaça.

Em contraste, ninguém parece ser capaz de me explicar que o último artigo “pós-isto-e-pós-aquilo” não seja (em sua maior parte) outra coisa que não truísmos, erros ou balbúcios, de maneira que eu não sei o que fazer para prosseguir com eles.”

Chomsky nota que as críticas à “ciência masculina branca” são muito semelhantes aos ataques antissemitas e politicamente motivados contra a “Física judaica” usada pelos nazistas para minimizar a pesquisa feita pelos cientistas judeus durante o movimento Deustche Physik:

“De fato, por si só a ideia de uma ‘ciência masculina branca’ me lembra, eu temo, a ideia de uma “Física judaica”.

Noam Chomsky“Talvez seja outra inaptidão minha, mas quando leio um artigo científico, eu não consigo dizer se o autor é branco ou se é homem”.

 O mesmo é verdade para o problema do trabalho ser feito em sala de aula, no escritório, ou em qualquer outro lugar. Eu duvido que os estudantes não-masculinos, não-brancos, amigos e colegas com quem eu trabalho não ficassem deveras impressionados com a doutrina de que seu pensamento e sua compreensão das coisas seria diferente da “ciência masculina branca” por causa de sua “cultura ou gênero ou raça”. Suspeito que “surpresa” não seria bem a palavra adequada para a reação deles.

 

Bem, professor Lugão, então não devemos ousar e ser criativos em ciência? É perigoso?

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Pelo contrário… Ousadia e criatividade fazem a ciência avançar. Há uma diferença também aqui entre o entendimento de certos conceitos… Há uma diferença brutal entre ser ousado e ser imprudente, assim como a criatividade necessita de uma base sólida para dar frutos.

 

Sempre menciono a obra de Salvador Dali para exemplificar que antes dele criar as suas expressões surrealistas, com suas fantásticas formas distorcidas ele havia dominado as formas clássicas com tal maestria que seus quadros do corpo humano parecem fotografias de anatomia.

 

Dali

Relógios moles Salvador Dali

 

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 Você não irá ver um especialista em química ganhar um prêmio de psicologia, e nem verá uma grande atriz de teatro ganhando o prêmio Nobel de Medicina ou Biologia.

Ou seja, não haverá uma contribuição notável se você estiver fora daquele campo.

Você não ouvirá que o último Teorema de Fermat foi resolvido por uma pessoa que não conhecia matemática profundamente. Aliás, é preciso esclarecer que existem contribuições de pessoas que conhecem um assunto porque são autodidatas, mas mesmo assim aí está o que se argumenta… É preciso conhecer, estudar, o assunto. Talvez você não precise ter um conhecimento formal, digo,  há tempos atrás não havia a formalização de um diploma, de uma carreira universitária, donde você poderia pesquisar independente de ter um diploma, uma profissão.

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Ainda se pode agir de tal forma, mas isto agora é bem mais difícil porque as informações se multiplicaram e a ciência cada vez mais se torna um empreendimento conjunto. A Internet mostrou ser uma ferramenta poderosa porque pode integrar e levar informação a uma distância incrível e de forma praticamente simultânea. Basta você clicar a tecla “enter” ou “send”.

Ouvi falar que Pierre de Fermat não era matemático…

Bem, pelo que recordo ele é justamente o meu bom exemplo de uma pessoa não formada num campo, mas que se dedicou ao estudo a tal ponto de ser capaz de dar contribuições.

Creio portanto, se minha memória não me trai, que ele não era formado em  matemática, mas tinha um domínio enorme desta disciplina e seus problemas para ter formulado teoremas. Foi isto que eu quis dizer acima. Ninguém que odeie matemática, ou saiba apenas matemática elementar poderá dar alguma contribuição ao campo da matemática. Isto é lógica e é psico-lógica também. Portanto, não faz sentido uma pessoa que desconhece um assunto dar alguma sugestão válida.

 

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(No detalhe: o título do capítulo… Estatística para estudantes que detestam estatística, no manual de Psicologia de James Whittaker da editora Interamericana).

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Li em seu site uma referência ao Dr. Judah Folkman ( no artigo: Memória e Psicoterapia: Milton Erickson & Eric Kandel)… Os cientistas não deram importância ao que ele argumentava sobre a angiogênese… O Sr. pode explicar isto?

O Dr. Folkman era médico e cirurgião e devido a sua prática clínica observou certos padrões em relação aos tumores cancerígenos… Eles precisavam de uma rede de vasos sanguíneos de abastecimento para se desenvolver… Como ele não era um “pesquisador de carteirinha”, isto é, embora fosse médico não era reconhecido pelo seleto grupo de pesquisadores da época…

Judah Folkman TributeJudah Folkman

 

 

Perdoe-me interromper… Neste caso, prof. Celso Lugão, a ciência se mostrou preconceituosa?

Bem, a ciência é feita por cientistas, e cientistas são pessoas. E esta é outra questão que confunde os leigos…  Justamente por ter uma metodologia que visa a imparcialidade ideológica o argumento científico poderá ser censurado por um grupo, mas acabará vingando e prevalecendo. Foi o que houve com a hipótese da angiogênese e o Dr. Folkman deu um depoimento fantástico sobre isto.

Cada vez fica mais claro que se você recebe uma crítica de um colega e mais tarde a tua hipótese prevalece ele ficará numa posição difícil se a crítica dele não tiver sido baseada em argumentos científicos, mas sim em preconceitos.

Porque se a crítica não se apóia na argumentação científica ela é tão leiga quanto qualquer opinião leiga, só que isto mostraria aspectos da personalidade daquela pessoa. Em psicologia social se estuda o fenômeno da polarização de atitudes, isto é, depois de investir durante uma vida numa hipótese é bem humano você se apegar emocionalmente àquela. Talvez você perca a criatividade por que estará sempre repetindo um caminho. A teoria por um lado organiza o conhecimento, por outro (o lado humano) ela pode cegar o pesquisador.

Einstein no quadro

 Einstein no quadro

 

 

 

Parece que só após vinte anos ele teve sua hipótese reconhecida… Isto não atrasou o desenvolvimento científico?

Certamente, por isto os órgãos de financiamento têm um papel fundamental ao escolher as pessoas para os cargos de decisão e distribuição de verbas. O criacionismo foi péssimo para a ciência e quando os soviéticos começaram a ganhar a corrida espacial o governo norte-americano teve que repensar o lugar do evolucionismo nas escolas. Refletindo sobre isto e o caso do Dr. Judah Folkman fica patente a enorme importância de se pensar sobre a psicologia dos cientistas e dos administradores… E o papel da ciência no desenvolvimento da espécie humana.

 

 

Suas últimas palavras prof. Celso…

Bem, espero que não sejam as últimas, rss. Desculpe a brincadeira, mas você me lembrou de Grouxo Marx e de seu epitáfio: “Perdoem-me por não levantar”.

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Eu diria que o os problemas levantados pelo pós-modernismo e suas reflexões, os que consegui entender após árdua peregrinação, são antigos e colocados com uma clareza maior por autores como os sociólogos da ciência Karl Mannheim, Robert King Merton. Ou filósofos da ciência como Karl R. Popper, Mario Bunge… Enfim, faço coro com R. Dawkins e N. Chomsky, não entendo o que é esta nova visão porque me parece que ela não é nova… Mas se está dando lucro aos autores é melhor eu ficar quieto e encerrar esta entrevista.

Muito obrigado, prof. Celso.

Foi agradável rever alguns temas, agradeço também.

Popper livro

livro Popper

 

” Toda teoria é um mapa que tenta simular a realidade.” Prof. Lugão
Vi a citação acima no facebook, atribuída a minha pessoa por uma aluna.

Naturalmente que enfatizo isto e mais um monte de coisas p/ “contextualizar”  esta frase em sala de aula.
Abaixo havia outra contribuição de outra pessoa; embora jocosa, importante, cito:

…E que no meu caso se não se somar um FS e um FC, com certeza a teoria nunca será boa!!!!! geralmente dando em algum problema sério!!!!!

*FS = Fator de segurança!
*FC = Fator de cagaço!!!!! Esse é o mais importante de todos!!!

Resolvi comentar ambas e anexar este material ao  final do artigo

Raramente faço incursões no face pos o tempo urge, mas ao perceber a citação acrescento que ela não é propriamente minha mas sim um pensar que vem desde S. Pepper, G. Bateson e outros. Outra coisa importante, além dos fatores Fs e Fc, sem dúvida fundamentais, é preciso entender que este tal movimento pós-moderno tem feito uma confusão na cabeça de muitos professores e alunos. Creio ser nocivo p/ a ciência e servir a interesses dúbios. Por exemplo, há uma tentativa de se falar em um criacionismo científico, ou se equiparar o mito da criação do mundo na visão egípcia ou dos índios brasileiros ou povos nórdicos com o evolucionismo. Nada mais tolo, a teoria evolucionista assenta em bases científicas e não pode ser colocada no mesmo nível do processo mitopoético, ou seja, de criação de mitos. Seria o mesmo, como digo em artigo recente que colocar no mesmo nível a explicação antiga japonesa sobre os terremotos e o conhecimento geológico atual. Dizer que um terremoto é causado por um peixe gigante * que dorme embaixo da terra e se sacode de vez em quando pode estar no nível de mitos como o criacionismo…  Mas a sismologia e a teoria da evolução possuem teorias, que mesmo podendo ser metáforas da realidade estão num nível científico de explicação, ao contrário do nível metafórico mitológico.

 *Os japoneses acreditavam que sobre tal peixe havia um deus segurando-o p/ evitar que ele se movimentasse, porém quando o deus se descuidava o peixe se retorcia e lá vinham os terremotos. Parece absurdo mas ainda hoje o criacionismo tem sido ensinado nas escolas como uma alternativa p/ explicar a vida.

O perigo disto está bem nítido na obra de Sam Harris. Carta a uma nação cristã. Ed. CIA das Letras. Com prefácio desafiador de Richard Dawkins.

Sam Harris book

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