Considerações sobre a função de ensinar

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Sensei Marcio Fontes

Prof. Marcio Fontes entrevista o Prof. Celso Lugão da Veiga

Questões:

  1. Que teorias alicerçam a sua prática educativa?
  2. Como você interpreta o processo ensino-aprendizagem?
  3. Quais são os comportamentos, as atitudes, os instrumentos utilizados pelo professor em sala de aula?
  4. Como se relaciona com os alunos? Que linguagem é utilizada?

Entrevista para a disciplina Prática Pedagógica II, concedida pelo Professor Celso Lugão da Veiga ao Professor Marcio Fontes, em 25 / 10 / 2015.

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1 – Que teorias alicerçam a sua prática educativa?

  • Muitas são as classificações sobre as abordagens pedagógicas, entretanto todas repousam em uma análise sobre as principais variáveis envolvidas (o sujeito que aprende e o que ensina, o tema a ser ensinado e seus possíveis vínculos com o contexto histórico-social), dando ênfase maior ou menor para determinados aspectos, tendo mais ou menos preocupação explícita com certos parâmetros. Tais parâmetros, cognitivo-comportamentais, humanísticos e críticos, dependem de inúmeras circunstâncias. Se a atuação do professor é num regime ditatorial explícito, a preocupação com o livre pensar torna-se implícita, oculta, pois, se for explícita, o professor será perseguido, preso e assassinado. Mesmo em regimes ditatoriais implícitos, como percebo o Brasil agora, se deve tomar extremo cuidado com o ensinar a argumentação crítica… Saber onde se pisa, diz a sabedoria popular. O caso do rapaz recentemente assassinado em Alagoas (Brasil) certamente por ser um crítico dos políticos da região em seu “blog”, o caso de Wei Wei na China, Giordano Bruno e Galileu Galilei no passado, são fatos que ilustram as  declarações precedentes. Portanto, tentando ser menos prolixo, uso todas as abordagens, temperando conforme a dança política; a proximidade de ameaças nos faz retrair certas argumentações, mas, de todo, minhas opiniões costumam ser mais fortes do que meu juízo. Assim, dou ênfase tanto aos aspectos cognitivos e comportamentais quanto aos humanísticos e sócio-políticos e históricos, até porque as disciplinas que leciono no curso de psicologia exigem e/ou permitem que assim o seja.

 

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2 – Como você interpreta o processo ensino-aprendizagem?

  • Exatamente como este hífen sugere, ensino <- ->  aprendizagem … Trata-se de um binômio, de um processo, não existem separados, é um caminho árduo que incide em outro binômio, a formação e a informação, se poderia dizer que a diferença proposta (ou atribuída) por Rubem Alves entre os conceitos de professor e  educador, sendo o primeiro aquele que ensina conteúdos e o segundo o que se preocupa também com a formação do caráter da pessoa, isto revela o por que deste caminho ser árduo, ou, como diz o aforisma atribuído ao dramaturgo inglês Douglas Jerrold… “Educar um homem é questão de muitas vidas… Para enforcá-lo basta um segundo”.    golpeProcuro ser um educador, se possível, se confiam e me permitem. É uma questão de pessoa para pessoa, há alunos cuja psicopatologia esbarra na minha, não há encontro, então me limito a tentar ser um professor para estes, eu disse “tentar” porque até isto se torna impraticável se não houver um mínimo de respeito, boa vontade e responsabilidade de ambas as partes. Como nas artes marciais se diz… “Nunca estique o braço totalmente, você vai levar uma chave e podem quebrar teu braço”… Para haver o contato ambos têm que se esforçar em dar as mãos, esticar seus braços um pouco… Assim, uso a ideia de um terapeuta, infelizmente fumante inveterado, e não falo de S. Freud, da psicanálise, mas sim de Frederick Perls, um dos idealizadores da Gestalt Terapia… Nem eu e você estamos aqui para preenchermos as expectativas um do outro, então se nos encontrarmos será lindo, senão, não há nada fazer, cada um que tome seu rumo em paz.

 

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3  – Quais são os comportamentos, as atitudes, os instrumentos utilizados pelo professor em sala de aula?

  • As lousas digitais mais comumente encontradas nas escolas de primeiro mundo, são ligadas a um computador (por cabo ou via wireless) e a um projetor multimídia (o velho “datashow”). Na verdade a lousa digital pode ser entendida como esse conjunto de três componentes: a lousa propriamente dita, um computador e um projetor multimídia. Algumas lousas já estão incorporando o computador em seu próprio corpo, mas todas elas precisam de um computador para funcionar, e de uma internet excelente. Logo, não temos nada perto disto aonde leciono, creio que no Brasil não tem, mas não posso afirmar tal generalização, falta muito ainda para isto ser um processo ágil, fácil e barato. Logo, do ponto de vista tecnológico ainda sou adepto do velho e bom retroprojetor, ele me permite alguma organização linear na forma de expor. Raramente uso o Datashow. Felizmente com o advento dos novos quadros brancos, e os agora implantados “quadros de vidro”, ambos escritos com canetas, ao invés do “alérgeno giz”, mesmo aquele que na caixa estava escrito “antialérgico”, ainda prefiro as aulas de “cuspe e giz”, ou, oração/discorrer e caneta.

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  • As universidades em que lecionei e leciono acompanham a evolução devagar, não há uma infraestrutura ágil, há roubo de aparelhos na UERJ, por exemplo, as salas precisaram ser trancadas, e há armários dentro com chaves também, o policiamento tem que ser feito. Assim, mais simples do que destrancar armários (professores vivem correndo de um lado para o outro, tudo isto implica mais perda de tempo) é o uso do quadro, sempre uso, mesmo se uso datashow ou retroprojetor, preciso ir pontuando na lousa os argumentos processados por meu cérebro, gosto muito de rabiscar conceitos, não exponho de forma linear, não tenho muita paciência para isto. Funciono, e aviso aos alunos sobre isto, num padrão analógico de pensamento, ou seja, uso muitas analogias, metáforas, humor, encenações dramatizando certas passagens (casos clínicos ou situações do dia a dia que ilustram conceitos e processos); também sou conhecido por, de vez em quando dar socos nas mesas ou paredes, de modo geral, quando percebo a desatenção de alguém ou quero marcar uma passagem, ou mesmo me livrar de algum tipo de irritação proveniente desta dança que é ser professor em um país que vive do lema… O Brasil é o país do futuro… Queria que fosse do presente, queria que nossos administradores nos dessem este país das promessas de presente. Diria que minhas ferramentas preferidas são as metáforas e o humor, trocadilhos inusitados… “Tá lento gente é diferente de talento, vamos lá, já organizaram os grupos, pesquisaram os temas, leram os textos?”… Aprecio citar aforismas e cuidados com a saúde… “Se você construiu castelos no ar, ótimo, é lá onde eles devem ficar, agora construa as bases” H. D. Thoreau… Um colega professor, meu antigo aluno, me disse outro dia… “Sabe Lugão, desde aquela aula em que você falou do requeijão como sendo conhecido como gesso de Paris, que entupia as artérias, eu nunca mais comi requeijão”, conselho/alerta feito em sala já faziam mais de quinze anos (risos). As metáforas permitem comunicações indiretas, é uma forma de avisar sobre algo, gentilmente, não se trata de evitar a linguagem direta, o faço quando é necessário quando já tentei a comunicação indireta e não surtiu efeito. Ensino para motivar e não me preocupo com um conteúdo específico, se o aluno se motiva, se aquilo faz sentido para ele, se compra a ideia e entende o processo, então ele se torna um parceiro na busca pelo conhecimento de um determinado campo de interesses. Seu cérebro se transformou, já não é mais um ser passivo, é alguém que busca informação.

Ghandi

 

 

 

 

 

 

4 -Como se relaciona com os alunos? Que linguagem é utilizada?

  • Exerço o magistério em universidades desde 1981, antes fui professor particular, e sempre apreciei entender todo este processo. Como diz Eric Kandel, prêmio Nobel em 2000, se você prestar atenção em algo, seja isto que estou dizendo, seja um documentário, haverá uma mudança biológica em seu cérebro depois, uma mudança bioquímica em sua memória, isto é o conceito de neuroplasticidade, significa que com treinamento você pode mudar, se transformar de um aprendiz em um mestre, o conhecimento passa a ser visceral, vital, e carregado de emoção. O conhecimento precisa encantar, sem encantamento não há como este binômio funcionar, como dizia Milton H. Erickson, e eu já disse sem tê-lo citado, ensino para motivar. Cada pessoa se interessa por um aspecto, há pessoas que estão dissociadas em sala, basta um tema tocá-la para ela sair do torpor, é interessante porque antes ela estava conversando e atrapalhando a atenção de um colega ao lado, agora o colega dispersa e ela o cutuca pedindo silêncio. A maioria dos alunos universitários é muito mal preparada em termos de atenção, a maioria não tem hábitos como fazer anotações, isto fortalece a atenção, todo treino aumenta uma capacidade, por exemplo, a atenção deve ser treinada. Os alunos ganhariam mais se o vestibular os preparasse de um outro jeito, creio mesmo que o ensino deve ser mudado, deve haver ênfase nas capacidades e funções, em aprender também estratégias eficazes, por exemplo, como assistir uma aula, como aprimorar a atenção. Sem atenção nada se aprende, não há como fixar nada. Este é o problema do distúrbio conhecido como Alzheimer. Assim, explano os temas, pergunto sobre dúvidas, indico textos, livros, criei um “site” na área denominada psicoterapia estratégica, meus supervisandos (sou supervisor em psicoterapia) têm um outro acesso através de um grupo de e-mail. Os alunos, através de seus representantes podem se comunicar comigo por mail também. A linguagem depende do conteúdo, se falo de temas na área da filosofia da ciência sou mais formal, porém sempre gosto de usar anedotas, ilustrar usando uma linguagem mais do cotidiano, menos rebuscada, coloquial. Considero que a há uma distância entre a minha jornada, a minha quilometragem e a dos aprendizes, mas tento me manter num plano próximo, acessível. Sei que não estou no mesmo plano, dizer isto seria hipocrisia, tentar uma falsa igualdade para impressionar por algum motivo, é mentira, não funciona… Não é genuíno… O vaso mais cheio de água deve ficar acima do mais vazio, dizem os sábios monges de várias culturas. Como conheço algumas coisas da área da hipnose uso tais conhecimentos para me comunicar, para motivar. Bem… Espero que eu tenha entendido e atendido ao que se pergunta. De qualquer forma, em caso de dúvida, ou se houver algo a mais fiques a vontade, meu nobre amigo. Abração.
Construir

Eu não treino Aikido a 50 anos para derrubar as pessoas. Qual a graça de ficar 50 anos derrubando as pessoas? Eu treino para construir e não para destruir. Keizen Ono Shihan

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Homenagem

Reconhecimento pelos serviços prestados ao AIKIDO

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espada

 

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One Response to “Considerações sobre a função de ensinar”

  1. ana claudia  on September 27th, 2016

    ótimas dicas continua postando.


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