Memória e Psicoterapia: Milton Erickson & Eric Kandel

erickson_in_college

Eric Kandel

Milton Erickson

Reconstruindo o passado emocional dos clientes    Eric Kandel–> Acima (à esquerda – Milton Erickson)   O jovem  Erickson (in College) – acima

“Não tenho amigos, vivo sozinha e sou muito sem graça para me casar. Decidi procurar um psiquiatra antes de cometer suicídio. Vou tentar por três meses, e então, se as coisas não se endireitarem será o fim “.  Estas foram as palavras de uma jovem de 20 anos para Milton Erickson…

Por outro lado o prêmio Nobel em fisiologia ou medicina no ano 2000, Eric Kandel, nos fornece dados consistentes sobre a memória para embasar a psicoterapia e a hipnoterapia.

DSC03765

A estratégia usada por Milton Erickson neste caso clássico é uma combinação de habilidades técnicas e uma sensibilidade em relação aos dilemas e sofrimento humanos que nos remete a uma série de questões epistemológicas.

A primeira está na relação entre o conhecimento teórico e a prática. Milton Erickson, além de ter um domínio enorme das técnicas psicoterápicas e hipnoterápicas, possuía uma percepção aguçada em relação aos dilemas humanos, fruto de seus estudos e de sua prática diária consigo mesmo, em virtude de sua luta com a poliomielite.

Algumas pessoas que o conheceram o descreveram como alguém possuidor de uma intuição incrivelmente poderosa, por exemplo, o Dr. J. Fink conta uma passagem em que outro médico disse que Erickson era abominavelmente intuitivo porque em apenas 30 segundos observando  uma paciente havia acertado o diagnóstico que custara três meses a este médico. Esta entrevista na íntegra consta na obra “O HOMEM DE FEVEREIRO” de Milton Erickson e Ernest Rossi.  Aliás, esta obra fantástica é a tentativa de explicitar a metodologia e as técnicas empregadas por Milton Erickson em um único caso clínico que foi batizado pelo nome que deu título ao livro. O subtítulo – Evolving consciousness and identity in hypnotherapy, em tradução livre: expandindo (evolving, o sentido de evoluindo também é necessário) a consciência e a identidade em hipnoterapia, (in hypnotherapy, portanto, usando a hipnoterapia).

Exatamente, neste caso, se mostra como se usa a regressão hipnoidal de uma forma elaborada, elegante e eficaz. Isto exige o conhecimento das particularidades de cada cliente. Aquilo que J. Zeig chamou de “A posição do cliente” no referencial clínico e epistemológico denominado “O Diamante de Erickson”. Tal esquema pode ser lido em outro artigo neste site através deste mesmo nome. Tive a possibilidade de aplicar tal metodologia e técnicas em alguns casos para remodelar interpretações, percepções e afetos. Realmente funciona e mudou os rumos da vida de várias pessoas.

DSC03732

O tema da resiliência, por exemplo,  era aguçado e lapidado dia após dia na própria vida de Erickson.

Logo, ele percebeu que a memória teria mais do que a função de armazenar dados, pois o sentido do tempo usado pela mente consciente (passado->presente->futuro) se processa emocionalmente no inconsciente, ou seja, a linguagem do cérebro é analógica e na mente inconsciente as conexões emocionais têm um enorme peso podendo ligar eventos distantes no tempo instantaneamente.

 Um símbolo  ou um aprendizado sempre têm uma carga emocional vinculada. Donde Erickson percebeu a importância de se regredir no tempo emocional para se proceder a reconstrução das memórias que simbolizam os problemas, e assim alterar a carga emocional vinculada a certas lembranças.

Logo, quando Milton Erickson fazia uma regressão com seus clientes ele sempre procurava dar um jeito de colocar algo mais ali, ou seja, não apenas regressar ao passado mas colocar nestas lembranças novos recursos, ângulos novos de observação. Em certo sentido, isto é exatamente o que as pesquisas sobre a neuroplasticidade apontam hoje.

Com o treinamento se pode mudar o cérebro, não apenas a mente, conforme as pesquisas em neurociências apontaram (Ver Treine a mente, mude o cérebro, de Sharon Begley, ed. Objetiva, 2008).

A cada nova pesquisa  fica mais evidente que não só o cérebro afeta a mente, mas a mente pode afetar o cérebro.

Se você pode ver o passado através de novas lentes, com mais recursos, você certamente irá modificar os sentimentos em relação aos eventos. Um pai ou uma mãe percebidos como analfabetos e cercados pela vergonha dos filhos de apresentá-los perante a sociedade letrada, podem ser vistos com orgulho pelo sacrifício que fizeram para que seus filhos pudessem aprender a ler e escrever. O ódio sobre uma mãe que abandonou seu filho, pode ser percebido como a consciência de alguém que não tinha meios de criar um filho e preferiu entregá-lo a um orfanato ou a alguém com mais condições. São decisões difíceis que só quem está naquele momento vivenciando o presente, com os recursos disponíveis, diga-se, pode experimentar.

Estudar M. H. Erickson é aprender a não julgar os outros, é aprender que todo  e qualquer comportamento, por mais estranho que pareça pertence a gama de possibilidades humanas. Milton Erickson ensina muito sobre a aceitação incondicional que Carl Rogers também indicava como princípio básico de conduta para os psicoterapeutas. Aceitar o cliente como ele é, e depois tentar ampliar e/ou modificar uma conduta.

Pacing (espelhar) e leading (guiar) são os nomes que R. Bandler e J. Grinder deram a isto, entrar no ritmo do cliente e depois guiá-lo.

O campo da psicoterapia sempre teve seus ícones , como S. Freud, C. G. Jung, A. Adler e H. S. Sullivan, F. Perls, A. Ellis, A. Beck … Cada um deles,  a sua maneira, deu contribuições notáveis ao campo, porém agora a psicoterapia conta com os avanços das neurociências.

O estudo do cérebro e da mente, as pesquisas sobre a neuroplasticidade, tudo isto nos remete a só uma conclusão… É preciso sistematizar o conhecimento para uma análise das contribuições e dos caminhos (rumos) que a psicoterapia deverá tomar.

Por exemplo…

Vilayanur Ramachandran, em sua fascinante obra Fantasmas no cérebro: uma investigação dos mistérios da mente humana (ed. Record, originalmente publicada em 1998, traduzida em 2004, prefaciada por Oliver Sacks, e escrita em conjunto com a jornalista especializada em neurociências Sandra Blakeslee), nos diz que quando se estuda os casos de paralisia os clínicos acabam se deparando com o fenômeno da anosognosia (desconhecimento da doença).

Este fenômeno foi observado por J. F. Babinski em 1908. (op. cit., p. 170).

Foi assim que Ramachandran acabou se deparando com as idéias de S. Freud sobre os mecanismos de defesa, como a negação, as racionalizações e assim pensou na possibilidade de testar algumas destas idéias.

Remeto o leitor a sua obra, garanto que não irá se arrepender.

O intuito deste excerto é por um lado instigar a curiosidade (pacing) e por outro levar (leading) o leitor a ampliar seu conhecimento lendo as obras aqui citadas. Pode-se dizer também que há um terceiro propósito, introduzir as contribuições dos pesquisadores da memória, em particular a obra de Eric Kandel.

Recomendo fortemente a leitura de sua excelente obra… Em busca da memória… Há um vídeo, onde se faz um bom apanhado da obra disponível no YouTube

<iframe width=”560″ height=”315″ src=”https://www.youtube.com/embed/iYKQQ0lc470″ frameborder=”0″ allow=”accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture” allowfullscreen></iframe>

Celso Lugão,Tempus fugit…CarpeDiem…

DSC03728

DSC03945

Carpe diem, quam minimum credula postero, é uma expressão em latim que significa “aproveite o dia de hoje e confie o mínimo possível no amanhã”. A frase foi escrita por Horácio Flaco (65 a.C.- 8 a.C.), poeta e filósofo da Roma Antiga, no livro “Odes”, uma das obras mais importantes da literatura universal.

 

 
 

Leave a Reply