História do Brasil – curiosidades?

Campos de
tconcentração em Santa Catarina

Entre 1942 e 1945, pelo menos 200 pessoas foram confinadas no Estado. Ao contrário, do que acontecia na Europa, não eram judeus, mas suspeitas de nazismo.

 

 

As drogas e  o poder – o movimento militar e o “discurso” de Jango.

Campos de
concentração em Santa Catarina

Entre 1942 e 1945, pelo menos 200 pessoas foram confinadas no Estado. Ao contrário, do que acontecia na Europa, não eram judeus, mas suspeitas de nazismo

Leandro S. Junges

Santa Catarina manteve dois campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Num período ainda obscuro da história catarinense, entre 1942 e 1945, pelo menos 200 pessoas foram confinadas sob a acusação de “invasores infiltrados”, “espiões” ou “agentes de Hitler” em campos montados em Florianópolis e Joinville.
Ironicamente, aqui não eram os judeus, mas os nazistas que foram retidos em campos de concentração. Enquanto Hitler exterminava milhões de judeus, os alemães – simples imigrantes ou simpatizantes do nazismo – que moravam no Brasil foram perseguidos pelo governo Getúlio Vargas, que contava com um eficiente aparelho nacionalista.
Além dos dois campos, delegacias serviram para que milhares de estrangeiros e descendentes fossem detidos em todo o Estado, interrogados, e não raras vezes torturados por agentes da Delegacia de Ordem Política e Social (Dops), simplesmente porque falavam alemão ou italiano.
Em todo o País, o governo de Getúlio Vargas perseguiu, prendeu e confinou mais de 3 mil alemães, italianos e japoneses em campos de concentração criados em oito Estados brasileiros (além de Santa Catarina, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Sul). Como na época a colônia japonesa praticamente inexistia no Estado, a polícia catarinense caçou italianos e, especialmente, alemães. Quando a guerra acabou, os arquivos oficiais foram lacrados e esquecidos. A legislação sobre o acesso aos documentos, que proibia consultas ou pesquisas por 50 anos, foi abrandada em 1988, e o prazo caiu para 30 anos. Mesmo assim, só em 1996 os historiadores tiveram acesso ao acervo.
O número correto das áreas de prisões criadas pelo Brasil ainda é impreciso. De acordo com os documentos, os campos de concentração brasileiros foram criados a partir de agosto de 1942, quando o País deixou a neutralidade e passou a lutar ao lado dos Aliados (França, Inglaterra e Estados Unidos) contra os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão).
Pelo menos 13 áreas de confinamento já foram mapeadas por um grupo de historiadores que mergulhou nos documentos oficiais da Divisão de Polícia Política e Social (Deops) e em prontuários e relatórios da polícia política, o Dops.
Não há registros de que tenha havido qualquer execução, extermínio ou morte em câmaras de gás, como na Alemanha, mas os documentos mostram que houve trabalho forçado, tortura e, como em todos os episódios históricos em que o poder é prevalece pela força, prisões ilegais.
Em Santa Catarina, o interventor Nereu Ramos manteve uma linha dura e um regime considerado pelas autoridades militares do governo Vargas como exemplar. O Estado também teve um brutal sistema de captura. Sob o comando do chefe do Dops, Antônio Lara Ribas, policiais em todo o Estado produziram verdadeiras caçadas a nazistas e fascistas, com tortura em praça pública, invasão de casas, apreensão de objetos e vingança pessoal.
Na época, nas colônias e cidades mais vigiadas, ninguém saía de casa ao anoitecer e todos os que falam português com sotaque europeu silenciaram, com a certeza de que as próprias palavras seriam utilizadas como prova do subjetivo crime contra a segurança nacional.

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O assunto é tema de uma tese de doutorado em história na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), defendida pela historiadora Marlene De Fáveri, e dos livros “O Perigo Alemão e a Repressão Policial no Estado Novo”, de Priscila Ferreira Perazzo, e “O Canto do Vento” (em alemão, Windhuk, que era o nome de um navio), do jornalista Camões Filho. “A perseguição era justificada pela presença de nazistas no Brasil. Havia muitos alemães fascinados por Hitler em Santa Catarina”, diz Marlene.A Notícia passa a contar hoje, numa série de reportagens, parte desta história, que jamais foi impressa em livros didáticos e ficou silenciada entre traumas e dramas de consciência.

Nesta segunda, data em que o fascismo completa exatos 60 anos, A Notícia conta as histórias de quem foi perseguido, torturado e preso nos campos de concentração de Santa Catarina. Também mostra que a rotina das cidades do Estado foi transformada num cenário que reproduzia a guerra que acontecia na Europa.

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Ruínas em cemitério de Joinville e três prédios centenários reformados na UFSC é o que restou das unidades

Três prédios centenários reformados em Florianópolis e ruínas quase imperceptíveis entre túmulos do Cemitério Municipal de Joinville é tudo o que restou dos prédios onde funcionaram os campos de concentração em Santa Catarina durante a Segunda Guerra Mundial.
A ala masculina do campo da Trindade, onde ficaram internados quase todos os alemães presos durante a guerra, abriga hoje a Prefeitura do campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Antes de ser local para o exílio dos “súditos do Eixo” era apenas uma seção agrícola da penitenciária estadual.
No primeiro andar do edifício funcionava o refeitório, e quase 100 presos dormiam no segundo andar. Há poucos registros sobre a ala feminina, um prédio longo e estreito de apenas um piso, no centro do campo. Hoje, a vigilância e o serviço de manutenção de telefonia ocupam a ala.
O terceiro prédio, onde funcionava a administração da prisão e eram realizados todos os longos interrogatórios, é ocupado atualmente por um projeto de educação ambiental, o Larus. “A gente sabe que funcionou um campo de concentração no prédio. Mas não há mais qualquer sinal disso. O que impressiona é que o prédio foi muito bem construído”, diz o professor Alcides Dutra, do Projeto Larus.
A sala mais escura do prédio, que hoje abriga o almoxarifado do projeto, possivelmente serviu como local de tortura. Apesar de recuperados, os três edifícios ainda destoam da moderna arquitetura do campus da UFSC.
Tanto em Florianópolis quanto em Joinville, quase todos os presos eram imigrantes alemães radicados no Estado desde o período de colonização ou casados com brasileiras.
Em Joinville, o campo de concentração ainda não foi incluído na listagem de áreas destinadas à prisão de alemães, italianos e japoneses. Ele foi descoberto por pesquisadores da Universidade da Região de Joinville (Univille) e do Arquivo Histórico de Joinville em 1999.
Estudiosa da saúde, a historiadora Arselle de Andrade Foutura descobriu um relatório confidencial do Ministério do Exterior em Bohn (Alemanha), que relatava como funcionava o campo de concentração de Joinville.
O prédio que serviu para a instalação do campus era utilizado, até 1942, como hospício. O Hospital Oscar Schneider foi construído na década de 20 para servir como local de isolamento para doentes mentais, e desativado em 1942, exatamente no ano em que o governo de Getúlio Vargas decidiu declarar guerra contra a Alemanha, o Japão e a Itália (Eixo).
O prédio foi requisitado pelo governo e nele foram confinadas as pessoas presas em Joinville. Segundo o relatório do Ministério do Exterior, em 1944 as condições do Oscar Schneider eram melhores do que as de outras prisões brasileiras, especialmente porque havia mais higiene nos quartos.
O campo tinha capacidade para 200 presos, mas o relatório diz que, em 1944, havia apenas 28 detentos e a maioria deles era descendente. Só quatro eram alemães.
O prédio ficava numa das planícies do terreno onde hoje está o Cemitério Municipal de Joinville, no bairro Atiradores. “Hoje, existem apenas ruínas no chão, que dão uma vaga idéia de que ali havia um hospital”, explica a historiadora.
Segundo ela, a partir da reabertura do Arquivo Histórico de Joinville, fechado para desintoxicação e microfilmagem do material, novos estudos devem ser realizados e podem revelar mais detalhes do campo.
O trecho mais contundente sobre a existência da prisão política diz que “a instituição Oscar Schneider é um prédio antigo, vizinho do cemitério de Joinville. Funcionava antigamente como hospício. O local não é insalubre. A vigilância está a cargo de uma divisão da polícia, sob as ordens de um sargento, que é o comandante da instituição. Os internados estão alojados em celas espaçosas. A administração fornece apenas a cama, mas, neste meio tempo, os internados já puderam prover-se de colchões e cobertores próprios. Em cada cela há uma mesa e um banco, há chuveiros e pias, bem como um grande salão para jogos e bastão e quintal para passeios e jogos de bola. Os presos não são obrigados a nenhum tipo de trabalho, muitos se dedicam a diversos trabalhos manuais. Periodicamente os internados recebem a visita de um médico. Em caso de acidentes ou doenças graves, ocorre a transferência para o hospital municipal. Não são realizados cultos dominicais. Visitas de familiares apenas são permitidas com autorização especial, com exceção do Natal, quando há uma permissão geral. As cartas são limitadas a 15 linhas.” (LSJ)

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Tripulação de
navio presa em São Paulo

O maior campo de concentração do Brasil foi instalado em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo e nele foi confinada, durante toda a guerra, a tripulação do navio alemão Windhuk (que em português significa canto do vento). A embarcação partira de Hamburgo, na Alemanha, para uma viagem à África do Sul, em outubro de 1936. Em 1939, na sua 13ª viagem, quando voltava para Hamburgo, vários países da África declararam guerra à Alemanha e o navio não conseguiu mais voltar à Europa.
Como Getúlio Vargas tomara a decisão de manter o Brasil neutro – situação que se manteve apenas até 1942 -, o capitão do navio resolveu navegar até o porto de Santos, onde ancorou o Windhuk em 7 de dezembro de 1939, com o mundo já em guerra. Mal sabia ele que toda a tripulação acabaria presa durante cinco anos.
Primeiro, todos ficaram no próprio navio, durante três anos. Em 1942, foram levados para a Casa de Detenção do Carandiru e, depois, confinados definitivamente no maior campo de concentração do Brasil, de onde só saíram quando a guerra acabou. Foram presos os 244 tripulantes (todos alemães). Entre eles havia engenheiros, médicos, marinheiros e famílias inteiras que faziam uma viagem considerada luxuosa para a época. A maioria deles tinha entre 20 e 30 anos.
Em Guaratinguetá, também no interior de São Paulo, o regime do campo de concentração era mais rígido, e os alemães não tinham contato com os brasileiros. Os prisioneiros não podiam improvisar a alimentação e comiam invariavelmente arroz com feijão. O trabalho nas lavouras começava cedo e terminava à noite.
A rotina do campo de concentração de Chã Estevam, em Pernambuco, foi uma das primeiras a ser desvendadas, no final da década passada, por pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco. A jornalista e pesquisadora Susan Lewis revirou documentos, cartas, telegramas e ofícios do Departamento da Ordem Política e Social (Dops) e descobriu que ele ficava em Araçoiaba, município localizado a 60 quilômetros do Recife. O Chã de
Estevam, como foi batizado, foi criado em 22 de novembro de 1942 e também funcionou durante todo o período da guerra.
O curioso é que este é o único campo do Brasil onde os alemães e italianos foram forçados a trabalhar. Enquanto estiveram presos, eles trabalharam na Fábrica de Tecidos Paulista, da família Lundgren, fundadora das Casas Pernambucanas.
De acordo com documentos reunidos pela jornalista, foram confinados em torno de 30 estrangeiros, com mulher e filhos. Mas não há qualquer registro de maus tratos ou extermínio, como na Europa. Embora não comprovada, há uma teoria de que os Lundgren tenham protegido os nazistas no Brasil, uma comparação com o que fez Oscar Schindler com os judeus da Alemanha.
Apesar de serem em menor número do que alemães e italianos, os japoneses foram os que mais sofreram dentro das prisões no Brasil. Embora houvesse imigrantes em vários Estados, só em São Paulo e Pará eles foram presos. O campo de concentração de Tomé-açu, uma ilha próxima de Belém (PA), foi utilizado para manter os japoneses isolados do resto do Brasil. Uma fechada floresta amazônica e a falta de alimentos tornaram a área uma das mais hostis de todo o País. Em Belém também foram registrados levantes populares nacionalistas que transformaram as ruas da capital num campo de batalha. Nenhum descendente do Eixo na região escapou de hostilidades, interrogatórios e agressões.
O Presídio Daltro Filho, em Charqueadas, no Rio Grande do Sul, seguiu a linha das prisões do Sul do País, com controle rígido. Os outros campos de concentração ainda estão sendo estudados, e novos livros devem ser lançados nos próximos anos, desvendando um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. (LSJ)

 

 

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O nazismo no Brasil e mundo

1937
10/11
Golpe do Estado Novo. Getúlio Vargas cerca, fecha o Congresso e outorga a Constituição Polaca (por ser copiada da Carta da ditadura polonesa do marechal Pilsudski). Prisões políticas no RJ, SP, RS e BA são embriões dos campos de concentração. O vigor do nacionalismo começa a aparecer em decretos e atos do Estado Novo, que intervém em praticamente todos os Estados (só Minas Gerais escapa).

1938
17/3
Começa a perseguição, com a promulgação do decreto-lei 341. O texto regula a apresentação de documentos pelos estrangeiros. Para tomar qualquer iniciativa na vida civil, era exigido até um “atestado de bom procedimento do estrangeiro”, expedido pela polícia.

18/4
Decreto-lei 383 (federal) proíbe toda e qualquer atividade política aos estrangeiros. Ficava vedado organizar sociedades, portar bandeiras ou qualquer objeto alemão.

27/4
Decreto-lei 392 (federal) regulamentava a expulsão dos estrangeiros. A “segurança nacional” era o motivo principal, e qualquer acusação poderia levar a ela.

18/5
O Estado Novo endurece a Lei de Segurança Nacional e define os nove crimes contra a segurança nacional e a ordem social. A pena de morte, por fuzilamento, seria imposta a todos os que atentassem contra a unidade da soberania do Estado.

1939
7/3
A Itália fascista invade a Albânia, para alguns o marco inicial da 2ª Guerra.

1/9
Alemanha e Rússia invadem a Polônia. Inglaterra e França declaram guerra à Alemanha e é iniciada a Segunda Guerra Mundial.

25/8
O governo brasileiro silencia os estrangeiros. A partir desta data ficou proibido o uso da língua estrangeira no ensino e em praticamente todas as atividades públicas. Falar alemão, italiano ou japonês era motivo de denúncias que, a partir de 1942, levaram milhares de pessoas à prisão em todo o País.

2/9
Getúlio Vargas declara que o Brasil se manterá neutro e, no dia seguinte, países americanos assinam a Declaração do Panamá, de neutralidade.

12/10
Começa, na Alemanha, a deportação de judeus para campos de concentração.

1940
27/4
Hitler ordena a criação do campo de concentração de Auschwitz, que acabaria com algo em torno de 3 a 4 milhões de vidas (especialmente judeus).

25/5
O governo do Estado proíbe a recepção radiofônica de notícias de guerra. A punição é curiosa: quem desrespeitar será “severeamente castigado”.

7/9
A aviação nazista inicia o bombardeio de Londres, durante a 2ª Guerra. A blitz dura 57 noites consecutivas.

27/9
Formado o eixo Roma-Berlim-Tóquio (Itália, Alemanha e Japão), expressão diplomática do nazifascismo, a partir do Pacto Anticomunista.

1941
22/3
Navios alemães metralham o navio brasileiro Taubaté, no Mediterrâneo.

22/6
Hitler invade a URSS sem declaração de guerra.

7/12
O Japão ataca base dos EUA em Pearl Harbor (Havaí).
Os EUA declaram guerra ao Japão, seguidos por 12 países latino-americanos.

11/12
Hitler declara guerra aos EUA.

1942
28/1
O Brasil corta relações com a Alemanha e a Itália. Cresce a pressão pró-ingresso do País na guerra contra o nazifascismo.

28/1
O governo do Estado anuncia que os estrangeiros naturais dos países do Eixo devem comunicar a sua residência às autoridades policiais em 15 dias. O decreto também proibia reunir-se (mesmo em casa) e viajar sem licença (salvo-conduto).

14/2
Submarino alemão afunda o navio brasileiro Buarque (54 mortos), iniciando escalada de ataques.

11/3
Decreto-lei 4.166 (federal) diz que os bens de alemães, japoneses e italianos respondem pelo prejuízo que brasileiros viessem a ter por causa de atos de guerra praticados pelos seus países de origem.

22/8
Brasil declara guerra à Itália e Alemanha, e o “estado de guerra” toma conta de todo o Brasil.

1943
2/2
URSS vence a batalha de Stalingrado e passa à ofensiva contra a Alemanha.

18/2
Goebbels anuncia “guerra total” e põe em prática a maior ofensiva militar da Alemanha.

24/7
Mussolini é deposto e preso (mas será libertado por um comando alemão).

31/7
Avião da FAB põe submarino alemão a pique e recolhe 12 sobreviventes.

23/11
A Força Expedicionária Brasileira é criada, para dar combate ao nazifascismo na Europa.

18/12
Criado o 1º Grupo de Aviação de Caça, destinado à campanha contra a Alemanha de Hitler (com o lema “Senta a pua”).

1944
28/1
Exército Vermelho, da URSS, liberta Leningrado e começa a virar o jogo.

6/6
Dia D, desembarque aliado na Normandia de 55 mil soldados, em 5 mil navios e mil aviões.

2/7
Primeiro contingente da FEB, com 5.379 homens, parte do RJ. Chega em Nápoles 14 dias depois.

4/8
Anne Frank, a prisioneira que escreveu um diário que ficou famoso em todo o mundo, é descoberta pela Gestapo.

15/9
Batismo de fogo da FEB, em Vada-Ostedaletto, na Itália.

1945
27/01
Soviéticos libertam os primeiros prisioneiros do campo de concentração de Auschwitz.

13/2
A aviação anglo-americana joga 40 toneladas de bombas em Dresden, centro industrial e cultural alemão.

19/3
“Decreto Nero” de Hitler ordena a destruição dos bens alemães que possam cair nas mãos dos Aliados.s

11/4
O STF concede habeas corpus aos exilados políticos durante o Estado Novo.

7/5
Rendição da Alemanha nazista.

6/8
Os EUA lançam a primeira bomba atômica, em Hiroshima.

9/8
Os EUA lançam a segunda bomba atômica, em Nagasaki.

14/8
Rendição incondicional do Japão.

29/10
Golpe militar depõe Getúlio, que se auto-exila em São Borja, no Rio Grande do Sul.

 

 

Os campos de concentração no Brasil

Campo de Concentração de Tomé-Açu/PA
Campo de Concentração de Chã Estevam/PE
Campo de concentração de Ribeirão Preto/SP
Campo de Concentração de Bauru/SP
Campo de Concentração de Pouso Alegre/MG
Presídio de Niterói/RJ
Campo de concentração de Garatinguetá/SP
Campo de concentração de pindamonhangaba/SP
Presídio Daltro Filho/RS
Hospício Oscar Schneider/Joinille, SC
Presídio da Trindade/Florianópolis, SC

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FARSA PRECIPITOU O MOVIMENTO MILITAR


 

 

Na noite de 30 de março, todo o país estava ligado no discurso de Jango no Automóvel Clube do Rio


JANIO DE FREITAS
Colunista da Folha

     A parte militar do golpe de 64 foi precipitada por uma grande farsa, vivida por uma parte dos seus protagonistas como farsa mesmo e, pela outra, como um equívoco, mas tomada pelos adeptos do golpe como realidade. A farsa tinha o nome de “dispositivo militar do Jango”, uma suposta estrutura montada organicamente dentro das Forças Armadas, para sustentar as “reformas de base” que nunca saíam do papel e se tornavam cada vez mais radicais no palavrório propagandístico dos janguistas.

     Nas mesmas proporções, o “dispositivo militar” inspirava confiança ao janguismo e temor a seus adversários. Os militares mobilizados pelo “perigo de comunização” seguiam, mais do que a qualquer outra, a orientação do general Castello Branco, chefe do Estado-Maior do Exército. Contrário a qualquer iniciativa golpista, que considerava como o pretexto esperado pelo “dispositivo militar” do janguismo para pôr-se em ação contra os oposicionistas, o general pregava a tática inversa: as possibilidades de êxito do antijanguismo estavam em agir como resistência militar, quando o governo passasse do estímulo à agitação para o primeiro ato transgressor das normas então vigentes.

     Inspirador e coordenador da guerra psicológica contra as reformas econômicas e pela derrubada de Jango, mobilizando o empresariado e usando os meios de comunicação, o general Golbery, já reformado, tinha o mesmo ponto de vista tático de Castello Branco. O lacerdismo militar era mais afoito, mas o fracasso de suas aventuras golpistas contra Juscelino o desacreditava e, sobretudo, o temor suscitado pelo “dispositivo militar” o refreava e subordinava à orientação mais cautelosa de Castello. Assim, a conspiração fervilhava, mas as incompatibilidades políticas no seu interior (Castello e Golbery, por exemplo, repeliam o lacerdismo) não impediam a observância monolítica à tática de não provocar o perigoso “dispositivo militar”, esperando para reagir.

     Repentinamente, um dos ramais da conspiração rompeu com a tática e em 5 dias, a partir da semi-anistia aos marinheiros rebelados no Sindicato dos Metalúrgicos do Rio, em 27 de março, ultimou e desfechou um golpe independente. Neste intervalo, tentara atrair os líderes de outras correntes, não incluído nisso o lacerdismo, mas seu êxito limitou-se ao embarque de um punhado de oficiais para Minas, onde eclodiria o levante para o golpe. A quase totalidade dos demais foi surpreendida pelo 31 de março, restando-lhe aderir -juntamente com muitos dos considerados confiáveis pelo “dispositivo militar”. O que acontecera para motivar a repentina cisão tática, afinal vitoriosa?

     Na noite de 30 de março todo o país estava ligado no discurso que Jango faria para um auditório superlotado de cabos e sargentos, no Automóvel Clube do Rio. Dois dos seus amigos pessoais, Samuel Wainer e João Etcheverry, foram ao encontro dele no Palácio Laranjeiras, para repassar o discurso preparado e acompanhá-lo ao clube. Encontraram um Jango inesperado. Abatido, muito nervoso, relutava em ir ao encontro de um pessoal que andava exaltadíssimo e vinha tomando atitudes de audácia crescente. Jango temia sofrer provocações, e estava convencido de que aconteceriam. Fracassados os argumentos em contrário, Samuel Wainer deu a Jango um produto estimulante, uma das chamadas bolinhas, de que era consumidor habitual na sua vida agitada. O remédio funcionou. Foi um Jango mais do que animado que saiu do Laranjeiras para o clube.

     O Jango que se viu e ouviu, naquela noite, era desconhecido. De ar sempre plácido, fala pausada, gestos comedidos e todo o aspecto de forte timidez, este era o Jango conhecido. O que se mostrou na noite de 30 de março de 64 era um homem exaltado, de fisionomia alterada pela ira –os gestos endurecidos, as veias das têmporas intumescidas. O discurso escrito era abandonado para a inclusão de frases cada vez mais fortes.

     Resultou em discurso de incitação. Foi ovacionado pelos cabos e sargentos já em francas e sucessivas atitudes de demolição da hierarquia militar. Mas eles não sabiam que Jango não estava em seu estado normal. O efeito animador da primeira bolinha levou à ingestão de mais uma, no carro, já a caminho do clube. E Jango, dotado de boa intimidade com os efeitos do whisky, não tinha o menor preparo para a mistura de álcool e bolinha, aliás, duas (quando, bem depois do golpe, Etcheverry contou este episódio a José e Maria Yedda Linhares e a mim, disse haver desaconselhado a primeira bolinha e protestado contra a segunda e, tendo-o conhecido bem, acredito que tenha dito a verdade).

     Na noite do dia 30, estava generalizada a convicção de que o discurso indicara faltar pouco para alguma iniciativa extremada de Jango. Duas personagens puseram-se imediatamente de acordo na idéia de antecipar-se, precipitando o levante, já no dia seguinte, 31: Magalhães Pinto, governador de Minas e aspirante à sucessão de Jango, e o marechal Odylio Denys, que nove anos antes conduzira as derrubadas dos presidentes Café Filho e Carlos Luz. A decisão consolidou-se com a adesão do ramal-motriz da conspiração: o general Vernon Walthers, cabeça da CIA no Brasil, garantia a intervenção militar americana se o êxito da rebelião fosse ameaçado pelo “dispositivo militar”.

     Iniciado o levante em Minas, San Thiago Dantas foi a Jango comunicar-lhe que uma frota americana estava a caminho da costa do Espírito Santo, para o possível apoio ao golpe. O aviso apenas apressou a fuga de Jango do Rio: o “dispositivo militar” não apareceria e Jango não quis acionar o que lhe restava. Nem mesmo quando a tropa gaúcha, ao menos esta, propôs-se a resistir.

Publicado na Folha de São Paulo, domingo, 27 de março de 1994

Fonte: Banco de Dados Folha – Acervo de Jornais

 

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