A responsabilidade social dos cientistas: porque a epistemologia é importante

A responsabilidade  social dos cientistas ou … Porque a epistemologia é importante by Prof Celso Lugão

Radithor

Radhitor – água radioativa

Hans Jurgen Eysenck, em uma de suas obras, disse que quando um cientista faz declarações fora de sua especialidade, estas têm o mesmo valor das declarações dos leigos, entretanto, por se tratarem de declarações feitas por um cientista, estas têm um impacto social enorme porque pegam emprestado o aspecto de credibilidade da ciência.
A este aspecto, se pode somar ainda as confusões e distorções causadas pela mídia, seja por um desconhecimento da atitude de vigilância epistemológica por parte da imprensa, seja por interesses financeiros ou mesmo escusos de certos órgãos de comunicação.

Radithor, foi um “elixir energizante” feito com água radioativa. Quando da descoberta da radioatividade os interesses comerciais e financeiros criaram vários produtos à base de radioatividade!!! (Adiante, no final deste artigo, faço uma análise de uma reportagem com o curioso título “Maconha é uma das substâncias mais seguras! Diz especialista”… Seria cômico, se não fosse trágico, para dizer o mínimo).

Supositório

Supositório radioativo

Retomando, sobre a radioatividade… Hoje ficamos pasmos com tal conduta, mas já sabemos muito sobre os terríveis efeitos da radioatividade no corpo humano. Naquela época não havia conhecimento bastante sobre o assunto, mas pela atitude científica sempre se deve preconizar cautela. A ciência aprendeu isto com sua história, muitas vezes de forma árdua, como no caso da radioatividade e da talidomida.

Porém a pressão de grupos interessados em faturar (a velha ganância humana) conseguiram produzir vários DSC00492produtos à base de radioatividade (creme para o rosto, chocolate e até supositório!), e só depois que um magnata da época morreu de forma horrível, como se pode imaginar, é que foram retirados do mercado e houve uma campanha no sentido de deixar a radioatividade ser tratada apenas pela ciência. Tais dados podem ser lidos na excelente obra de Oliver Sacks, Tio Tungstênio (editora CIA. das Letras, 2002, p.261-262), por exemplo… “Ninguém parecia ter ideia do perigo daquelas substâncias na época… Becquerel fora o primeiro a notar os danos que podiam resultar da radioatividade – descobriu uma queimadura em seu corpo depois de ter transportado um concentrado altamente radioativo no bolso de seu casaco… A própria Marie Curie mencionou em sua tese que se uma substância radioativa for colocada, no escuro, próxima ao olho fechado ou à têmpora, a sensação de luz invade o olho.” E, em outro trecho destas mesmas páginas O. Sacks fala sobre inaladores de tório, e se pergunta, o que seria isto? A pessoa se sentiria revigorada, fortalecida se inalasse aquele elemento radioativo?

Neste sentido, a epistemologia e a história da ciência, enquanto subdisciplinas de um campo maior,  a Metaciência* nos impõe o imperativo da “vigilância epistemológica”, ou seja, a atenção constante, a reflexão, para evitar a contaminação do processo de produção científica pelas noções auto-evidentes do senso comum, ou de interesses ideológicos e financeiros.

* (Taxionomia de Karl Madsen, onde meta = discurso crítico sobre a ciência; ver Teorias de la motivacion, ed. Paidos)

A palavra epistemologia (do grego ἐπιστήμη [episteme]: conhecimento científico, ciência; λόγος [logos]: discurso, estudo de) é o ramo da filosofia que trata da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, especialmente nas relações que se estabelecem entre o sujeito e o objeto do conhecimento. Nesse sentido, pode ser também chamada teoria do conhecimento ou gnosiologia. Em sentido mais restrito, refere-se às condições sob as quais se pode produzir o conhecimento científico e dos modos para alcançá-lo, avaliando a consistência lógica de teorias. Nesse caso, identifica-se com a filosofia da ciência. Há também a taxonomia proposta por Karl Madsen, a Metaciência com suas subdisciplinas: história, psicologia, sociologia e filosofia da ciência. T. Khun propôs também uma mitologia da ciência, para tratar temas como “a reprovação de Einstein em matemática” (Einstein nunca foi reprovado em matemática) ou o suposto experimento de Galileu da torre de Pizza (Galileu fazia experimentos imaginários, segundo A. Koyré- ver História do pensamento científico, ed. Forense, 1982, p. 197-207, Galileu e a experiência de Pisa: a propósito de uma lenda).

Por que então a epistemologia é importante e como isto implica na responsabilidade social dos cientistas?

Tomemos alguns exemplos sobre  a importância da vigilância epistemológica, inicialmente sobre títulos de livros que podem distorcer o que de fato se sabe.

A espetacular confirmação de uma hipótese, o bóson de Higgs, que gerou toda a polêmica em torno do título que seria dado ao livro de divulgação… A partícula amaldiçoada de Deus… Que para vender mais foi sugerido ficar apenas “A partícula de Deus”, uma vez que o termo “amaldiçoada” era uma metáfora à trabalheira que havia dado para descobrir tal partícula. Claro está que pessoas inescrupulosas, disfarçadas sob várias ideologias religiosas, estão sempre à espreita para arrebanhar crentes ingênuos e aumentar sua influência e seus lucros. Caso o leitor ainda não tenha entendido… Esta descoberta fantástica tem implicações na  continuidade das diretrizes para as pesquisas, porém não tem a menor relação com provar ou não a existência desta suposta entidade denominada “Deus”, que seria o responsável pela criação da vida, das estrelas, do universo, ufa, que trabalho daria isto! É impressionante como as pessoas não percebem que o rei está nu, quão absurdas são tais ideias religiosas que tiveram sua importância histórica, não resta dúvida, mas já está na hora de entrarmos numa fase de aceitação, para fazer uma alusão aos cinco estágios da morte e do morrer de E. Kübler-Ross, negação, raiva, negociação, depressão e aceitação.

Seguindo este mesmo caminho de publicações com títulos que confundem e distorcem (pois têm a intenção de atrair mais compradores, e não importa se estes irão ler as obras, o que importa é vender) apresento algumas traduções no mínimo curiosas, para não falar de ma fé em algumas.

Psychology is about people

 

Nas traduções de outras obras… Psychology is about people… Temos, Sexo, pornografia                                        e  personalidade de H. J. Eysenck, claramente a tradução em português tem o objetivo de atingir um público mais “animado”, digamos. sexo-pornografia-personalidade

 

 

 

E o que dizer das Razões da coincidência de A. Koestler, no original “The roots of coincidence”… As raízes da coincidência, as bases, raízes, dos conceitos que encantaram C. G. Jung e o físico W. E. Pauli diante do conceito de sincronicidade. Qual o problema desta tradução? Se alguém tivesse descoberto as razões das coincidências, ou fundamentado o conceito junguiano, certamente isto seria um estágio muito mais avançado do que especular conceitos sobre “seriação de atos” ou ainda, antes disto, validar o conceito de coincidência.The roots of coincidence

 

 

E a ideia de atingir os psicanalistas traduzindo “Teaching seminars with Milton Erickson” como… Seminários didáticos em Psicanálise com Milton Erickson… De onde se tirou esta “psicanálise” do título original? Pois é, no título em inglês não há a palavra psicanálise… A ideia era vender mais livros se os psicanalistas comprassem a obra da editora Imago. Não funcionou tão bem, salvo pela confusão e susto que os psicanalistas brasileiros levaram, creio, ao se deparar com a incrível genialidade de Milton Erickson… Bem, alguns perceberam a riqueza de recursos que poderiam anexar às suas práticas… Claro está que todos os psicanalistas que entendiam de hipnoterapia imediatamente perceberam a luz no fim do túnel, e não era nem radioatividade, nem o trem, era a poderosa iluminação da abordagem ericksoniana…

Foi o caso do prof. Malomar Edelweiss (no final de outro artigo, neste site… Temas que preocupam os leigos sobre a hipnose… Se pode ler uma singela biografia sobre ele)… Destaco um trecho a seguir… “A atividade clínica de Malomar desenvolveu-se assimilando os procedimentos psicoterapêuticos de Milton Erickson, enfatizando o uso da hipnose na psicanálise. Em 1982 começou a praticar a hipnoanálise e a hipnoterapia, constatando que o transe hipnótico é instrumento valioso tanto para agilizar o acesso ao inconsciente, quanto para o aumento da eficácia dos processos terapêuticos psicossomáticos usados”.

Prosseguindo com as traduções curiosas…

E quanto a  obra de Carlos Castañeda “The teachings of Don Juan”… Tradução?!… A erva do diabo. Bem, claramente o título procura insinuar a um público leigo algo bem diferente do que os ensinamentos do xamã pretendem revelar. O título em português dá ênfase à droga, à erva. Isto nos levará a outro tipo de exemplo em que a epistemologia pode servir de parâmetro crítico para nos vacinar contra as “tendências liberais de uma época” , o tema da liberação e da legalização da cannabis sativa. Selecionei para analisar uma entrevista feita por Marília Juste, jornalista do G1 em São Paulo. E começarei pelo título colocado… “Maconha é uma das substâncias mais seguras, diz especialista.”a_erva_do_diabo

 

 

 

Irei comentando o que se declara na reportagem com as iniciais de meu nome sinalizadas pela sigla em azul: CLV

Celso Lugão da Veiga = CLV

MACONHA É UMA DAS SUBSTÂNCIAS MAIS SEGURAS’, DIZ ESPECIALISTA.
Daniele Piomelli, neurocientista e farmacologista, defende o uso medicinal da planta e diz que pesquisas precisam ir fundo no assunto.

CLV comenta: Sim, toda pesquisa, por definição, deve ir fundo no assunto ou tema que pretende explorar senão seria mais uma simples opinião. Acrescente-se que a ciência pode ser entendida como um processo que abrange dois contextos, duas etapas. Tem um contexto de descoberta e um outro de validação. Esta transição do contexto de descoberta para o de validação é que dá consistência aos argumentos, e há várias etapas a serem ultrapassadas nesta jornada. Por exemplo, a teoria é sempre testada através de um conjunto de hipóteses, sobre isto recomendo o texto “A relatividade do errado” do genial Isaac Asimov, também publicado neste site. A teoria gera hipóteses que, estas sim, são testadas. A teoria será mais consistente quanto mais suas hipóteses sejam corroboradas. A teoria em si não é diretamente testada. No referido texto de I. Asimov ele responde a uma carta que lhe foi endereçada, segue um trecho: “John, quando as pessoas pensavam que a Terra era plana, elas estavam erradas. Quando pensaram que a Terra era esférica, elas estavam erradas. Mas se você acha que pensar que a Terra é esférica é tão errado quanto pensar que a Terra é plana, então sua visão é mais errada do que as duas juntas”. Fica claro, assim se espera, porque o texto de Asimov se chama “A relatividade do errado”.

Como explica ainda I. Asimov… ” O problema básico é que as pessoas pensam que “certo” e “errado” são absolutos; que tudo que não é perfeitamente e completamente certo é totalmente e igualmente errado… viver em um mundo mental de certos e errados absolutos pode significar imaginar que uma vez que todas as teorias são erradas, podemos pensar que a Terra seja esférica hoje, cúbica no século seguinte, um icosaedro oco no seguinte e com formato de rosquinha no seguinte”.

MARÍLIA JUSTE, DO G1, EM SÃO PAULO

Daniele Piomelli é considerado uma das maiores autoridades quando o assunto é maconha

CLV comenta: Bem, a ciência tem outro aspecto, o que vale é a autoridade dos argumentos e não os argumentos de autoridade, ou seja, mesmo que o argumento provenha da “boca” de um expertise em um campo, o que vale é a autoridade do argumento, isto é, o contexto de validade. Dizendo de outra forma, é evidente que se Cesar Lattes disser que Einstein é burro, ou está errado, irá se prestar mais atenção do que se a presidenta Vilma (da República das Bananas) que nunca estudou física, se é que ela estudou algo, declarar isto, mas mesmo assim isto não tem valor no contexto da validação. Em ciência é fundamental que se valide os argumentos, ou seja, as descobertas têm que passar pelo contexto da validação. Se as observações feitas pelos telescópios e observatórios não confirmam uma hipótese isto enfraquece a teoria que gerou aquela hipótese… E não importa quem é o autor da teoria, se é Sigmund Freud, Albert Einstein ou Charles Darwin.

Outrossim, vale acrescentar que existem inúmeros pesquisadores trabalhando nas mesmas áreas, com os mesmos temas, interesses, então, considerar alguém como uma das maiores autoridades, deve ter um sentido muito específico. No caso, pesquisando sobre este cientista se acha o seguinte –>  Dr. Piomelli tem um interesse de longa data na neurofarmacologia, uma área em que ele fez três contribuições. Primeiro, ele estabeleceu o papel do ácido araquidônico como um segundo mensageiro intracelular e revelou os mecanismos moleculares pelos quais este composto regula a atividade neural. Em segundo lugar, elucidou as vias envolvidas na formação e desactivação de canabinóides endógenos, e descobriu funções fisiológicas e farmacológicas potenciais utilizações destes compostos. Por fim, descobriu o papel dos lípidos naturais oleoletanolamina (OEA) e palmitoiletanolamida (PEA), no controle da saciedade e equilíbrio de energia, e identificou o receptor celular para estes compostos.  Também tem formação em áreas como neurofarmacologia, neurobiologia, e também está associado a laboratórios, portanto, se pode conjecturar que suas declarações podem ser ou não guiadas pelos interesses financeiros destes laboratórios. Seria bom saber o que estes laboratórios comercializam ou pretendem comercializar. Isto poderia revelar algum comprometimento da declaração radical do título do artigo, se é que ele realmente a fez. Veremos, ao longo desta análise, que é sempre preocupante o diálogo entre um cientista e um jornalista, principalmente se o jornalista é totalmente leigo em ciência. As declarações de um cientista estão sempre dentro de um contexto de vigilância epistemológica, ou seja, não são isoladas do contexto de descoberta e validação.
Piomelli: “Uma vez eu disse a um jornal norte-americano que a maconha era uma das substâncias mais seguras que existem. Essa frase gerou o maior barulho e eu perdi minha paz por algum tempo. Mas mantenho a afirmação: a maconha é uma das substâncias mais seguras que existem”.

G1: Foi com essa convicção que o neurocientista e farmacologista Daniele Piomelli, considerado um dos maiores especialistas do mundo no assunto, defendeu o uso medicinal da polêmica erva.

 CLV: Aqui temos um grave problema, seria útil saber o que de fato o cientista declarou. Será que existe algum problema de tradução?! Porque no artigo abaixo, comentado pelo pesquisador D. Piomelli, o que se percebe é que não se trata do uso da “polêmica erva”, mas sim de um componente extraído da cannabis sativa. Logo, ou ele deixou o lado comercial prevalecer; chamando a atenção para as suas pesquisas talvez consiga manter os financiamentos, ou então está declarando algo que só tem sentido no contexto da ciência, ou seja, o leigo irá deturpar sua declaração por não entender nada dos caminhos de testes experimentais da ciência.

 http://psychcentral.com/news/2012/06/07/marijuana-compound-may-beat-antipsychotics-at-treating-schizophrenia/39803.html

 

Os restantes 20 pacientes receberam CBD, uma substância encontrada na maconha que é considerada responsável pelo amadurecimento ou efeitos de redução de ansiedade. E complementa o pesquisador:

 

“Ao contrário do principal ingrediente da maconha, o THC, que pode desencadear surtos psicóticos e fazer a esquizofrenia piorar, a CBD possui efeitos antipsicóticos, de acordo com a pesquisa prévia em animais e humanos”

Extrair da planta esta substância que é considerada responsável pelo amadurecimento ou efeitos de redução de ansiedade também é muito caro, e sendo um composto natural talvez haja desinteresse dos laboratórios devido ao problema de patentear o mesmo, o que gera empecilhos comerciais e financeiros, daí a saída popular de se fumar a planta e correr os riscos contidos nela.

CLV: Prezado leitores ou leitoras, fica claro que a matéria jornalística presta um desserviço porque é tendenciosa, se aproveita de um momento do caminhar da humanidade para se promover e com isto reforça a pseudociência em torno do tema “cannabis”, distorce as declarações do pesquisador. Se ele compactua com isto, somente ele poderá responder. Afinal, dizem, a propaganda é a alma do negócio… Ou como diria Luganus, o Capeta dos Ateus… A propaganda gera o  negócio da alma. Portanto, resolvi grifar algumas das partes da resposta do pesquisador que contrariam o título da entrevista. 

CLV: Daqui para a frente creio que o texto mostrará o que costumo dizer… “Cicuta também permite fazer remédio”.
D. Piomelli, da Universidade da Califórnia em Irvine, não é nenhum defensor da legalização da maconha.

“Isso é uma decisão que cabe à sociedade tomar. Nós, cientistas, só fornecemos os fatos”, diz ele. Tampouco ignora os malefícios da droga. “Fumar maconha, como fumar qualquer cigarro, aumenta o risco de câncer de pulmão, de câncer de boca, entre vários outros. Isso não faz bem e uma pessoa sensata evitaria”, afirma. “Há outro problema: o vício. Alguém que fuma maconha por um certo tempo e em certas quantidades acaba desenvolvendo uma compulsão pela droga. Acaba tendo aquela vontade avassaladora de fumar de novo”, diz ele.

CLV: Agora, no parágrafo abaixo a entrevista gera outra confusão.
No entanto, o cientista acredita que a droga tem potencial para tratar pacientes de doenças graves, como câncer e Aids. “Seria imoral, antiético e desumano não fornecer esse alívio para pessoas que estão sofrendo, por motivos que vão além da medicina e que a ciência não fundamenta”, afirma. “Como você vai dizer para alguém com câncer terminal que ele não pode fumar maconha para aliviar sua dor?”

CLV: se o outro artigo já mencionado foi lido com atenção irá se compreender a posição do pesquisador, e no próximo parágrafo da entrevista se percebe isto…
G1: Piomelli espera que as pesquisas científicas na área avancem, sem serem atravancadas por questões políticas e sociais. “Chegou a hora de irmos além da maconha”, diz ele. “Quando tivermos um remédio melhor, eficiente, sem efeitos indesejados, que faça todo o bem que a maconha faz sem trazer todo o mal que ela causa, ninguém vai nem mais lembrar que maconha existe.”

CLV: ou seja, fica claro que o pesquisador se refere não a maconha como um todo mas a compostos específicos desta; e espera que a ciência supere esta etapa.
Leia abaixo a íntegra da entrevista que o cientista deu ao G1.

G1 – O que se sabe sobre os efeitos da maconha no cérebro?
Daniele Piomelli – Nós sabemos, e já sabemos há alguns anos, que existem uma série de compostos no nosso próprio cérebro que agem como uma “maconha natural”. Por isso, são chamados de endocanabinóides, a partir do nome científico da maconha, Cannabis sativa. Normalmente, eles regulam coisas como o sono e a alimentação – e praticamente todos os processos do corpo humano. Quando alguém fuma maconha, esses compostos são “superativados”, passam a funcionar acima do normal, bloqueiam as sensações de dor e dão prazer.

CLV: “Maconha natural”, observe-se que os leigos costumam se confundir aqui e os “torcedores”, digo usuários, através de processos psicológicos bem estudados, por exemplo por L. Festinger em sua Teoria da Dissonância Cognitiva, costumam vibrar, daí os ter chamado de torcedores porque alinham suas crenças reforçando suas perigosas ideologias para a saúde. A série de compostos que agem em nosso cérebro não é uma “maconha natural”, isto é uma péssima metáfora que pode influenciar os hábitos saudáveis em prol de uma vida livre de toxinas.
G1 – Existem possíveis usos terapêuticos para a maconha?
Piomelli – Bom, quanto às propriedades medicinais, nós sabemos que a maconha é usada como um poderoso alívio para a dor crônica — e não há nada muito eficiente contra isso até agora.

CLV: vários médicos e pesquisadores rebatem este ponto, há inúmeras substâncias eficazes, o problema é saber receitar… Posologia, dosagens, etc.
Piomelli -Pessoas com esclerose múltipla também têm benefícios ao fumar maconha, diversas pesquisas já mostraram isso. Ela também ajuda no combate a diversos outros problemas, como estresse, pressão alta, ansiedade, insônia, perda de apetite, cólicas menstruais e problemas intestinais.
Agora, a maconha deveria ser usada como remédio? Aí, depende. É preciso fumar maconha para obter seus efeitos e isso faz com que a pessoa consuma uma série de compostos químicos tóxicos e cancerígenos. E isso não faz bem.
Há outro problema: o vício. Há alguns anos, acreditávamos que a maconha não viciava. Hoje, sabemos que não é bem assim. A maconha é capaz, sim, de viciar — ou seja, alguém que fuma maconha por um certo tempo e em certas quantidades, acaba desenvolvendo uma compulsão pela droga. Acaba tendo aquela vontade avassaladora de fumar de novo. O vício existe. É muito mais fraco do que o gerado pela cocaína e pela heroína, e mais fraco que o gerado pela nicotina. Mas existe.

CLV: Notem as perguntas e as respostas, o pesquisador já declarou que é muito caro para se extrair a substância CBD da cannabis donde alguns a fumam mesmo correndo todos os riscos descritos pelo pesquisador.
G1 – Os efeitos negativos da maconha, portanto, não compensariam seus benefícios médicos?
Piomelli – Depende do caso. Se estamos falando de uma pessoa com câncer, por exemplo, ou Aids, ou algum outro problema grave de saúde, na hora de somar os prós e os contras, o alívio da dor que a maconha proporciona, compensa.
Mas se estamos falando de pessoas saudáveis, usando maconha para curar dores de cabeça, é uma irresponsabilidade muito grande. Há métodos mais eficazes, que não trazem os efeitos colaterais indesejados.
G1 – Então, na sua opinião, a maconha deveria, ou poderia, ser prescrita por médicos?
Piomelli – Sim. Eu acredito, e essa é minha opinião pessoal, que no caso de pacientes com câncer, por exemplo, seria imoral, antiético e desumano não fornecer esse alívio para pessoas que estão sofrendo, por motivos que vão além da medicina e que a ciência não fundamenta. Como você vai dizer para alguém com câncer terminal que ele não pode fumar maconha para aliviar sua dor?
Agora, se um paciente entrar no meu consultório pedindo para eu prescrever maconha para curar sua dor de cabeça, eu vou perguntar se ele está maluco e mandar ele tomar uma aspirina.
G1 – O senhor disse que é preciso fumar a maconha para obter seus efeitos. Não existe nenhuma forma além do fumo?
Piomelli – Na verdade, existe, mas não é tão eficiente quanto. Existe uma droga, feita a partir do princípio ativo da maconha, o THC, que tem sido usada para fins terapêuticos em diversos países. Existe a possibilidade de se consumir o THC oralmente, mas os resultados demoram mais para aparecer. E quando você está com dor, quer alívio o mais rápido possível.
O consumo oral do THC passa pelo estômago. Mas quando você fuma a maconha, o THC vai direto do pulmão para a corrente sanguínea, e daí para o cérebro. O efeito é muito mais rápido.
Alguns pacientes também declaram que preferem fumar, porque eles podem controlar exatamente o quanto vão consumir. Eles podem dar duas ou três tragadas, por exemplo, e parar quando se sentem melhor. Quando você toma um comprimido, ele vai ter lá seus 10g ou 20g e você não tem escolha. Se não for o suficiente, vai ter que agüentar. Se for demais, não tem como não absorver.
Ultimamente, tem sido testada uma nova forma de se consumir o THC que tem a velocidade do cigarro, mas não faz mal à saúde: o aerosol. Os médicos pegam o composto e o transformam para que ele possa ser aspirado. Dessa maneira, se tem os mesmos benefícios, mas sem os riscos.
G1 – Como o THC funciona?
Piomelli – O THC não é exatamente o melhor remédio do mundo. Ele atua naqueles componentes do cérebro que falamos antes, os endocanabinóides. Os endocanabinóides regulam praticamente todas as funções do corpo humano, do sono à fome. Por isso, eles são encontrados em locais muito diferentes do cérebro.
O que o THC faz? Ele fortalece todos os endocanabinóides. Todos, ao mesmo tempo. O que acontece? A dor passa, todos os efeitos benéficos aparecem, mas a pessoa fica “doidona”. Quando alguém fuma maconha para fins recreativos a intenção é, exatamente, essa: ficar “doidão”. É esse o objetivo. Que não é o objetivo de quem está com dor e toma THC. Essa pessoa não quer ficar alterada, ela só quer que a dor passe.
O que precisamos é de um remédio eficaz e seguro, que tire a dor, que melhore a náusea, que tenha todos os efeitos benéficos da maconha, e que não tenha os seus efeitos colaterais. Que não deixe ninguém drogado.
G1 – Estamos muito longe de um remédio como esse?
Piomelli – Essa é a grande meta de todas as pesquisas científicas que usam a maconha. No momento, o foco está, principalmente, em se encontrar um meio de aumentar o efeito dos endocanabinóides do cérebro naturalmente. Encontrar algo que faça o próprio corpo liberar os efeitos positivos desses compostos, sem que seja necessário fumar nada. É nisso que maioria das pesquisas está trabalhando no momento.
G1 – Voltando um pouco aos efeitos negativos da maconha. Há pesquisas que dizem que maconha mata neurônios. Outras dizem que não. Afinal de contas, mata ou não mata?
Piomelli – Esse é o grande problema, não é? Temos pesquisas de um lado falando uma coisa e daí vêm pesquisas do outro falando exatamente o oposto.
O que eu posso dizer é que conforme as pesquisas avançam está ficando cada vez mais claro para os cientistas que a maconha não tem nenhum efeito tóxico no cérebro, na quantidade em que é normalmente consumida.
Existem pesquisas que mostram que grandes quantidades de maconha em um curto período de tempo vão gerar uma série de estragos. E elas estão certas. Mas isso também é certo para qualquer coisa. Se você tomar uma grande quantidade de aspirina em um intervalo pequeno, também terá muitos problemas.
Uma vez eu disse a um jornal norte-americano que a maconha era uma das substâncias mais seguras que existem. Essa frase gerou o maior barulho e eu perdi minha paz por algum tempo. Mas, mantenho a afirmação: a maconha é uma das substâncias mais seguras que existem.
É impossível você matar alguém com maconha. O máximo que você vai fazer é botar a pessoa para dormir. Nós temos uma gigantesca lista de remédios usados normalmente muito mais perigosos que isso. A maioria desses analgésicos que são prescritos como água por aí são capazes de matar alguém — em doses não muito maiores do que as consumidas normalmente. E você não mata ninguém com maconha.
G1 – Maconha, então, não faz mal?
Piomelli – Para o cérebro? Não. Para o cérebro de um adulto. Vamos sair por aí permitindo que nossas crianças e adolescentes fumem? Não. O cérebro de um adolescente ainda está em formação. Você diz isso para eles e eles não entendem, mas o fato é que no cérebro de alguém nessa idade ainda falta um monte de coisas. O sistema que é acionado em comportamentos de vício, por exemplo, não está pronto antes da idade adulta. Fumar maconha nessa idade pode fazer um dano enorme. Qual a extensão desse dano? Não sei. As pesquisas ainda não conseguiram definir. Mas, pelo princípio da precaução, adolescentes deveriam passar bem longe disso.

 

CLV: Talvez este fosse um título melhor para a reportagem… Adolescentes devem ficar bem longe da maconha, talvez muitos nem leriam o artigo. Vejam abaixo mais argumentos expostos pelo pesquisador contra a utilização da cannabis o que contraria o título da entrevista.
Piomelli: Agora, para um adulto, é outra questão. Por enquanto, não temos evidência de nenhum estrago que seja feito pela maconha no cérebro. Mas fumar maconha, como fumar qualquer cigarro, aumenta o risco de câncer de pulmão, de câncer de boca, entre vários outros. Isso não faz bem e uma pessoa sensata evitaria.
A maconha deveria ser liberada? Isso é uma decisão que cabe à sociedade tomar. Nós, cientistas, só fornecemos os fatos.
G1- Na sua opinião, o que podemos esperar do futuro das pesquisas com maconha?
Piomelli – Eu acho, e defendo isso exaustivamente, que chegou a hora de irmos além da maconha. Se temos o composto e temos como ele age no cérebro, já está na hora de podermos dispensar a maconha. Quando isso acontecer, tudo ficará mais fácil. Quando tivermos um remédio melhor, eficiente, sem efeitos indesejados, que faça todo o bem que a maconha faz sem trazer todo o mal que ela causa, ninguém vai nem mais lembrar que maconha existe.
No passado, o ópio era consumido para curar e aliviar de tudo. Tínhamos milhares de pessoas por aí usando. Hoje, o consumo do ópio caiu bruscamente. Ninguém mais usa. Por quê? Porque avançamos. Porque fomos além do ópio. Desenvolvemos uma série de medicamentos muito melhores, e daí ninguém mais precisava disso. É o que precisa acontecer com a maconha.

CLV: Bem, tirem suas conclusões, assim como este existem inúmeros outros artigos e livros por aí tentando vender “a partícula de Deus”, ou outros temas exóticos, é a perigosa pseudociência que faz muitas pessoas se confundirem porque distorce a ciência.

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