Entendendo sensações e sentimentos

Olá, Dr. Celso Lugão.

Gostaria que concedesse uma entrevista ao nosso site, http://www.redealeluia.com.br/ (canal Família), sobre o tema Mágoa 

Atenciosamente, Camilla França

Agência Unipress Internacional

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Entrevista: 

O que é a mágoa?

Este termo tem sentidos variados, embora próximos. Uma rápida consulta ao dicionário informa que desgosto, amargura, paixão, mas também descontentamento, desagrado, dó e pena são sinônimos.

Na verdade os sentimentos são exatamente isto, uma complexa mistura de sensações, que por sua vez são a expressão psicológica de reações bioquímicas ao sofrimento.

 

O ser humano como todo animal é fruto da evolução. Neste sentido, podemos dizer que a mágoa é a expressão psicológica da dor, assim como a ansiedade. Um mecanismo evolutivo que nos faz reagir seja para nos proteger, seja para proteger os que nós amamos.

Quando se fala em evolução é preciso entender que existem dois princípios básicos em ação, a sobrevivência do indivíduo e a sobrevivência da espécie. Em certas circunstâncias haverá um conflito quando a aplicação destes princípios entrarem em choque.

Assim, nos sentimos magoados quando algo ou alguém não se comporta diante das nossas expectativas. Decepcionamos-nos e nos sentimos feridos. Literalmente ocorrem reações de ansiedade, que se persistirem levarão o organismo à fase de “distress”, que é um “stress” negativo.  O “stress” em si faz parte da vida, é uma tensão necessária a manutenção da vida, o desgaste natural de seres vivos.

 

Está ligada a raiva ou é ainda mais profunda?

Continuando a explicação acima, poderia dizer que a psicologia oriental, budista, por exemplo, já revelava o que agora as neurociências explicam: um sentimento é sempre um conjunto de sensações, e, portanto de reações bioquímicas. Se você tem raiva também tem medo, se você ama, se você está magoado, seja qual for o sentimento isto é só uma expressão lingüística daquilo que você está mais consciente naquele momento ou naquela fase, mas sempre que você sente algo existe aí um turbilhão de reações. Isto é o que explica a variação abrupta de sentimentos, por exemplo, em crimes passionais. Basta falhar algum mecanismo de autocontrole e as pessoas estranham as novas reações. No entanto, para os cientistas elas estavam ali misturadas todo o tempo. Quando se medita se pode ter uma consciência maior destas misturas.

 

Há uma causa específica ou é um traço da personalidade?

 

É uma marca evolutiva, um  traço da humanidade, herança da dor física, que serve para nos alertar e proteger. A dor psicológica também nos faz rever estratégias e nos prepara para o futuro se soubermos tirar proveito deste mecanismo fantástico de sobrevivência psicológica.

 

Como a amargura pode bloquear atitudes, gestos de amor ou/e direcionar ações impulsivas?

 

As energias do universo: luminosidade, vibração e reações químicas em contato com nosso organismo são transformadas pela nossa percepção. A nossa realidade é construída pelo cérebro humano e daí surgem as cores, os sons, os cheiros, etc. Nada disto existe na Natureza. Além disto, nosso funcionamento cerebral processa as informações num modo lógico e num modo mais rápido, em situações de tensão o cérebro privilegia a velocidade, uma espécie de atalho, que nem sempre obedece à lógica, que levaria mais tempo para processar as variáveis. Portanto, as emoções intensas, como a amargura, geram uma tensão emocional que dificulta o pensamento lógico e impele o organismo a comportamentos impulsivos na tentativa de sair rapidamente do impasse que gerou o sentimento complexo de amargura.

 

O ressentimento pode prejudicar também as relações sociais no trabalho e com amigos?

 

Estar ressentido, magoado, frustrado, amargurado, seja lá o sentimento mais consciente e adequado naquela cultura para se descrever o estado de humor de alguém, é sempre estar em sofrimento e, portanto numa posição de vítima. A posição de vítima é  mais passiva, pois a pessoa fica momentaneamente imobilizada.

 

Alguém já disse que o ressentimento é como um veneno que se toma tentando matar o outro. Este complexo sentimento, um conjunto de decepção, tristeza, raiva, apego e até amor (se não houvesse apego e amor não haveria ressentimento, pensem ou meditem sobre isto) é prejudicial para si próprio e também para os outros, seja no ambiente de trabalho, em casa ou com os amigos. Naturalmente quando se está ressentido há uma situação, assunto ou pessoas específicas que estão na mira da crença daquele que se sentiu ressentido. Obviamente sair da posição de vítima e agir é a melhor coisa a se fazer, deixar se ser passivo para assumir uma posição ativa diante das circunstâncias.

 

Mágoa. Como esse sentimento pode intervir no cotidiano familiar?

Se o sentimento foi gerado dentro da família isto já revela um quadro que implica em que haverá distorções nas mensagens dos membros desta família. Todo sentimento de dor costuma gerar distorções nas comunicações dos membros familiares. Que distorções? Bem, isto dependerá das diferentes personalidades em jogo, alguém pode se tornar mais submisso para compensar, outro membro pode ficar mais agressivo, ou rebelde. Alguns podem querer se “anestesiar”, seja através das drogas lícitas ou ilícitas.

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Para uma pessoa que se magoa com facilidade, qual o melhor caminho para reverter esse quadro? O perdão ou o pedido de desculpas são vias curtas?

Se alguém se magoa com facilidade possivelmente tem um histórico que merece ser tratado por profissional qualificado. Dependendo da situação, o pedido de perdão poderá ajudar, mas não é o suficiente para quem foi magoado ou traumatizado.

Quando existem traumas ou histórias tristes na infância associado a uma genética menos privilegiada, podemos ter casos bem difíceis pela frente. Hoje não há dúvida sobre a força dos fatores genéticos, mas felizmente já sabemos bastante sobre as aprendizagens e como reeducar psicologicamente as  pessoas.

A questão principal a ser lembrada é que o Universo é construído (interpretado) por nosso cérebro, e este é um mistura de lógica e emoções. Assim, através da psicoterapia, de práticas de meditação, acupuntura, uma boa dieta, exercícios físicos regulares poderemos usar nossos recursos para mudar a maneira como percebemos a vida para usufruir a harmonia e a paz que nos fazem relaxar e recuperar as energias para o dia seguinte. Nada como acordar refeito e com vontade de viver a vida intensamente. 

Professor: Celso Lugão da Veiga

Supervisor em Psicoterapia Estratégica

           (SPA-IP-UERJ)

 

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