Do que se trata fazer psicoterapia… Um show de atuação!
E a importância da Rede de Modo Padrão para se entender o cérebro.
No dia 09 de novembro de 2011, às 23:54h recebi por e-mail o relato de um caso clínico e a atuação da terapeuta, minha amiga, que estava exultante (com toda a razão como poderão ler) e compartilhando seus sentimentos.
A troca de alguns e-mails entre amigos e profissionais, creio, deve ser publicada pois ao ser compartilhada permite análises por prismas científicos de vários ângulos, por exemplo, aproveito para abordar a importância da DMN (Default Mode Network), da psicoterapia estratégica e para fazer reflexões sobre ciência e religião e hipnose.
Segue o caso narrado pela competente e querida amiga Nelsinéa, Néia, a quem chamo, já faz tempo, carinhosa e respeitosamente, e com uma boa dose de humor… Condessa. (A permissão para a publicação é mais um gesto generoso. Obrigado.)
Desde ontem estou realizada pelos resultados de uma intervenção psicoterápica… Um menino de 3 anos teve uma desidratação braba e foi internado, com infecção intestinal. Fizeram todos os procedimentos e 3 dias depois de internado,
já não precisava mais de soro, estava sem febre, sem diarréia e vômitos, tudo normalizado. Porém não podiam tirar o soro, porque ele recusava alimentação oral, nem um golinho de suco. No quarto dia, verificaram perda de massa muscular. Foi uma confusão no hospital, o pediatra arrancando os cabelos. Aí houve uma interferência cósmica, quando uma amiga minha que é alergista e pediatra, entrou no caso por ser amiga do médico. Ela então sugeriu que me chamassem, porque havia uma história de anorexia da mãe. Consegui ir ao hospital, no final da tarde. Ele estava letárgico, reflexos fracos, e não respondia a nenhum contato. Tinha uns oito familiares… Todos falando, um horror… Mandei todo mundo sair do quarto.
Ficaram o médico do menino, a Ana Paula minha amiga e uma enfermeira, que depois mandei sair também.
Aí fiz um discursinho básico no ouvido dele: ”São 7 horas, já está de noite, quando fizer 8 horas você vai acordar e pedir a mamãe meio copo de leite morno. Depois, vai pedir um pedaço de pão. Depois um pratinho de mingau. Depois um prato de sopa. E aí você vai ficar bem”.
A Condessa e suas lindas netas ( na foto)
Às 20 horas cravadas ele abriu os olhos de repente, sentou-se e gritou: Meu copo de leite – quentinho, e repetia gritando. Felizmente já tinham preparado a prataria toda, trouxeram e tomou tudo, deitou e dormiu, tudo meio automático. Quinze minutos depois, outra gritaria: “Meu pãozinho, cadê meu pãozinho?”. E assim foi até mais ou menos 9 e meia. Aí ele já estava plenamente acordado, e pediu comida: quero um monte de comida, um monte. Foi embora para casa as 3 da manhã, enquanto eu já estava na minha caminha, num sono repousante. Pela manhã, fui a casa dele e ao me ver, falou comigo como se eu fosse velha amiga – olha só que coisa: “Olha aí mamãe, ela disse que eu posso comer de tudo e continuar bonito – eu não quero ficar feio que nem você que não come coisa gostosa”. Houve um silêncio e ele ficou olhando prá mãe e perguntou: “Entendeu?” Três anos, Celso, e com um processamento que fluiu para a base do problema. Vamos ver como tudo isso evolui. Não houve uma interferência cósmica, uma vibração lá de fora, um sopradinho na minha mente que me inspirou, ou qualquer coisa “fenomenástica”?
Bj e um sono repousante (risos)
Segue a resposta/reflexão de Celso Lugão
Do que se trata fazer psicoterapia… um show de atuação!
Olá poderosa Condessa.
Que alegria enorme receber tal informação. Muito obrigado mesmo por compartilhar. Fico mais uma vez grato pela consideração.
Este é o poder que nós apreciamos, a capacidade de ajudar ao próximo… Você fez com que eu lembrasse de vários casos clínicos. Mas o principal deles contado por ti e endossado pelo Barão (esclarecendo ao leitor, o Barão é o meu amigo Luis Sérgio, marido de Nelsinéa), é do prof. Hans Ludwig Lippmann, de quem herdei duas pastas com informações acadêmicas, que me foram passadas pela família após a morte deste.
Embora tenhamos tido pouco convívio, talvez três anos ou mais… O pouco que tivemos foi significativo a ponto dele, segundo me disseram, desejar que eu ficasse com seus escritos pessoais… Ainda suspeito que isto foi articulado por vocês, velhos amigos, o que ainda assim me honra igualmente.
O caso que vocês contaram era de um jovem que sofrera um acidente e estava no leito hospitalar sem consciência há vários dias. O prof. Lippmann interveio com conversas hipnoidais ao pé do ouvido do jovem, dia após dia, marcando uma data para abrir os olhos e se alimentar. Enquanto isto fazia uma espécie de terapia de família aos ouvidos do jovem remexendo em pontos de sua estrutura e dinâmica familiar. As pessoas ao redor ficaram incrédulas quando na data prevista o jovem abriu os olhos e se alimentou.
Rodrigo’s Dragon
O fato é que este poder, que nos permite ajudar e desbloquear o que está estagnado é fruto de múltiplas interferências. Certamente, sem ter que recorrer a explicações místicas, houve um sopradinho em sua mente, uma mente preparada para agir em tais situações… ( Imagino jocosamente um filme do Monty Python em que Deuses assopram com fúria crescente sobre cérebros despreparados… O máximo que conseguiriam seria despentear as cabeças). (risos)
No fundo, para quem se beneficia o que importa é o efeito saudável, o pulsar da vida novamente.
Sem dúvida que poderosas energias se movimentam a todo tempo. Atualmente, a ciência busca o entendimento e avança a passos largos estudando tais energias cósmicas. Este é um assunto para os físicos e tanto no sentido macro quanto microscópico a interação das forças que regem o universo é fundamental.
Claro está que não se pode tentar ultrapassar certas barreiras, pois isto poria fim ao espírito investigativo, voltaríamos aos dogmas tão bem postos por Umberto Eco em “O nome da Rosa”… Até o riso seria perigoso. Por exemplo, pensar em um deus interferindo, ou vários (conforme as crenças de cada um), seria um retorno ao criacionismo ou, no mínimo, levantaria problemas de imensa complexidade num campo puramente antropomórfico e sem qualquer contribuição significativa ao conhecimento ao longo da história.
Questões do tipo, por que esta criança, ou várias, mereceram a atenção divina enquanto muitas outras não, nos levaria a inventar uma série de explicações sobre os motivos, desejos e planos celestiais. Admitindo a existência de deuses, ou de um deus, ou de um princípio regente (organizador/desorganizador), estaríamos tentando advinhar ou supor, pois não temos instrumentos para sondar as mentes de deuses ou desta psico (?) físico-lógica universal.
Aprende-se em psicoterapia que uma coisa é descrever o comportamento da outra pessoa, outra coisa é interpretar tal comportamento. Dizer que a pessoa ficou vermelha seria descrever; dizer que está com raiva ou vergonha seria interpretar a vermelhidão da pele. Portanto, tentar interpretar os deuses seria impossível pois nem mesmo temos o que descrever.
Embora seja fácil perceber isto em algumas situações em outras a armadilha auto-referencial interfere sutilmente e quase não se percebe, ou se leva tempo para perceber que estamos interpretando ao invés de descrever. Foi assim no caso da chamada energia íntrinseca do cérebro. (Falerei disto mais adiante). Portanto, se tenho instrumentos para sondar o que se passa no cérebro de alguém, como o EEG, a tomografia ou a ressonância magnética, estou um passo adiante do processo de advinhar.
Sondar exige instrumentos, supor exige um conhecimento de lógica, um entendimento de que existem padrões ocorrendo; por exemplo, se um astro é observado e se comporta de forma específica e regular, posso supor que haverá um eclipse quando tais condições voltarem a se configurar.
Se um cliente recebe um diagnóstico diferencial, isto significa que eu tinha instrumentos para sondar e chegar até àquele diagnóstico, mas o prognóstico eu só posso supor, pois se trata de inferir sobre padrões, ou seja, ocorrências observadas no passado de pessoas com aquele diagnóstico e sua evolução. O futuro, se todas as condições se mantiverem, deverá repetir o padrão que vem sendo observado nos casos já examinados no passado.
O próprio processo de advinhar é complexo, pois envolve aspectos como a intuição e um processamento em níveis cerebrais fora da consciência.
Ouçam um experimento interessante… Foi pedido a um grupo de pessoas que advinhasse aonde uma série de números apareceria numa tela dividida em quatro quadrantes. Após um tempo observando as pessoas conseguiram “advinhar”. Foram usados como sujeitos do experimento um grupo de pessoas leigas e um grupo de matemáticos.
O que nenhum dos sujeitos sabia é que os números apareciam na tela devido a um programa que continha um padrão lógico de projeção, isto é, havia um padrão de regularidade disparando os números. Então, na segunda parte do experimento, o programa disparador de números com regularidade foi substituído por um programa de disparo aleatório… Ninguém mais conseguiu “advinhar”… Na verdade, eles não estavam adivinhando… Processos a nível subconsciente estavam conseguindo fazer “pacing” (entrar no ritmo) com o programa.
Na segunda parte do experimento, uma vez que não havia mais lógica para ser captada, nem os leigos nem os matemáticos conseguiram fazer suas previsões. (No momento esqueci a fonte bibliográfica disto, mas se algum aluno de Psicologia Geral e Experimental I (PGE I) ler isto e achar em suas anotações… Agradeço se me mandar por e-mail).
Como o cérebro tem sido um simulador eficaz da realidade, devido a nossa sobrevivência até agora no planeta, ele opera com processos infinitamente complexos e desconhecidos. Mas, o que já se sabe nos traz uma certeza… Há muito por descobrir e aprender e precisamos usar o nosso conhecimento dos erros que cometemos no passado para mudar nossa atitude perante o conhecimento científico e a natureza.
Os próprios cientistas têm sido vítimas de seus preconceitos, visões distorcidas, seja por ciúmes, seja pela competição em prol da glória de algum prêmio ou descoberta bombástica. A espionagem industrial, as altas verbas das agências financiadoaras. Enfim, tudo que poderia facilitar as pesquisas também pode ser um empecilho quando as emoções e brios estão em jogo. Daí a importância de se pensar na sociologia e na psicologia dos cientistas.
Logo, os valores pessoais de cada época, cultura ou pessoa interferem na observação da realidade e aprendemos que precisamos estar alertas em relação a isto. Vigilância epistemológica, a diferença entre juízos de valor e juízos de fato, a escrita impessoal da redação científica, os experimentos com metodologia duplo-cega… Tudo isto são tentativas de se neutralizar a interferência dos nossos desejos, crenças e tendências devido as nossas limitações sensoriais e espaço-temporais.
Mendeleiev em sua mesa de trabalho (na foto)
Galileu Galilei fazia experimentos imaginários como no caso da célebre passagem da Torre de Pizza… Proponho caro leitor que façamos um “experimento psicológico”agora…
Simulemos o seguinte… Imagine que você tivesse nascido entre os vickings ou os gregos politeístas de outrora, mas a ciência fosse tão avançada como é agora. Os princípios morais e éticos, como por exemplo respeitar os credos pessoais de todas as pessoas seriam os mesmos de agora… Pelo menos em boa parte do mundo se procura dar liberdade à prática religiosa. O tema do poder, do pagamento ou sonegação de impostos e da exploração do próximo sempre acompanhou as egrégoras (termo lembrado por meu bom e inteligente amigo Marcelo Osnoff).
Então, a questão é a seguinte as ocorrências do dia a dia e do universo seriam regidas pelos deuses, Wotan e Zeus, com todo o panteão de deuses e subdeuses. Estes seriam os responsáveis em última análise por todos os fenômenos e eventos, das doenças e curas até os eclipses e as supernovas… Lembre-se, caro leitor, houve um tempo em que não havia o monoteísmo, logo as explicações religiosas repousavam em outras ideologias ou “forças cósmicas”.
Sempre se pode usar o argumento… “Bem, mas agora, no monoteísmo, há um deus verdadeiro!; este é o deus verdadeiro” ou ainda… “Deus sempre existiu mas foi preciso que o homem atingisse certos estágios na sua “evolução espiritual” para percebe-lo e sair dos cultos selvagens e pagãos”. Bem, isto confere as crenças atuais um argumento (sem provas!) de que estas são mais exatas do que as dos povos do passado ou de culturas que ainda hoje são politeístas ou admitem a existência de um panteão de seres que têm poder para influenciar na realidade do dia a dia das pessoas.
Bom, se isto é verdade ou não, está fora da possibilidade da ciência sondar , mas as suposições mostram algumas certezas incômodas … Um grupo de pessoas se recupera de moléstias e outro grupo não. Ambos os grupos têm familiares religiosos orando e pedindo a interferência divina, mono ou politeísta, ao longo das épocas. Por que alguns se recuperam e outros morrem? Os “especialistas”, religiosos que têm cargos hierarquicamente elevados nas egrégoras costumam dar todo tipo de explicação. Estas envolvem uma complexidade tal e são bastante conhecidas que acho que não vale a pena insistir neste argumento. São coisas do tipo… “Não rezaram direito, não tinham fé ou tinham dívidas a acertar de outras vidas” (a tese da palingênese ou reencarnação). E por aí seguem as “explicações”, mas se você não tem como sondar a mente dos deuses, pois isto seria uma tremenda incongruência hierárquica, ou produziria um efeito de aura, isto é, um erro de interpretação causado pela contaminação das idéias de um mortal, então, ou se admite que alguns humanos têm contato direto com os deuses e são diferentes e possuem um lugar hierárquico mais elevado nesta Torre de Babel, ou se começa a pensar que isto é muita ingenuidade e… Da mesma forma que o politeísmo de outrora é visto por pessoas esclarecidas de hoje como simples mitos, poderíamos supor que as crenças de agora serão percebidas como mitos, pelas pessoas esclarecidas do futuro.
Nesta hora, sempre alguém lembra dois argumentos… E se você ou seu filho, ou alguém que você ama adoecer de algo ruim, além do alcance da ciência?
O outro argumento vem de pessoas que superaram o antropomorfismo em relação aos deuses ou a deus, algo do tipo … “Acredito num princípio universal… Não em um sujeito com barba (se pode notar que em geral há uma definição implícita de gênero masculino)…
Sobre o primeiro argumento lembro sempre que quando era garoto havia tal tipo de ameaça, não encontro outra palavra melhor… “Quando você precisar irá chamar por deus”.
Bem, certa vez passei mal, realmente mal, e lembrei do que haviam dito e do meu argumento (Dane-se deus ou os deuses, uma conversão mediante o sofrimento é como confessar diante de tortura, não tem o menor valor). Na verdade, a maneira de R. Feynman fui criado entre várias perspectivas, mas o peso dos argumentos lógicos de meu pai, sempre foram muito fortes.
Meu pai era um leitor voraz. Formado em odontologia tinha um conhecimento muito amplo sobre muitas coisas e muitos, muitos livros. Ele havia estudado para ser religioso também, foi coroinha, mas ao questionar o padre sobre vários “problemas em aberto” do catolicismo foi repreendido e resolveu partir para o espiritismo kardecista; achou mais coerência neste credo e quando faleceu, com 79 anos de idade, ainda era muito ativo em relação ao dia a dia e as suas leituras mas estava tranquilo em relação ao credo espírita. Não sei se ele seguiria para o ateísmo se tivesse tido mais tempo, mas isto de fato não importa.
Na verdade, se eu tivesse me convertido ao catolicismo quando tive (ou tiver) algum problema, isto também não teria a menor importância para o que se diz aqui. O fato de uma pessoa crente de algo se converter a outra crença não prova coisa alguma sobre nada, apenas mostra que as pessoas migram conforme interesse próprio, digno ou não, para credos diferentes. Ser ateu também pode ser considerado uma crença, um modelo ou “modus operandi existencial”… E talvez fique claro que muitas contribuições para a ciência vieram de religiosos e de ateus, donde, se você tiver uma metodologia, técnicas e perspicácia e conseguir não ficar paralisado por dogmas ou idéias preconceituosas você produzirá conhecimento. Charles Darwin certamente foi um dos marcos neste assunto de limites posto que sua teorização colidia frontalmente com os dogmas do catolicismo.
Deus ou deuses, ou deusas, é um assunto totalmente para as crenças das pessoas, e o ateu sempre é ameaçado com avisos de que irá pagar um preço por esta blafêmia, ou irá se converter diante de alguma “tortura”.
Cá entre nós, deuses vingativos, ameçadores, lembram os velhos mitos, que naqueles tempos não eram mitos mas as verdades de cada pessoa.
Passei a admirar ainda mais o meu nobre amigo Magno Matheus, após o mesmo ter tido um câncer no estômago e ter passado por todo o penoso processo sem deixar seu ateísmo de lado. Extremamente lúcido quanto as implicações de tal tipo de câncer e suas consequências, que poderiam ter sido fatais, mateve-se confiante nos procedimentos da medicina. E saiu desta experiência sem ter recorrido a uma conversão religiosa. Adora um bom vinho para acompanhar um peixe e é assim que celebramos as nossas vidas quando nos encontramos… Já o peixe não tem o que comemorar, salvo os que ainda estão no mar… Mas, assim é a vida neste planeta, sejam vegetais, sejam animais, alguém morre para servir de pasto ao próximo…
Penso que o segundo argumento, sobre um princípio regente (inteligente?) do universo é uma fase ainda pré-científica de se pensar sobre o universo, e é algo um tanto indefinido, ou seja, os que postulam tal idéia não sabem dizer ao certo do que se trata, e alegam… “É algo além de nossa compreensão…”. Portanto não há muito o que se dizer aqui também, o argumento se parece com algo sobre os limites da ciência, só que postula uma certa inteligência e desígneo operando por programas, metodologias e técnicas hipercomplexas. Algo do tipo, Jornada nas Estrêlas. O seriado levantava hipóteses fantásticas em alguns capítulos.
O fato é que se tivéssemos ficado rezando e esperando que as vacinas aparecessem tenho certeza que muitas pessoas ainda seriam vítimas das mais variadas mazelas. Entretanto, quando alguns homens conseguiram ultrapassar a barreira do dualismo e perceber que os bons dotes da religiosidade (ser bom e justo, evitar o preconceito para com o próximo e seu credo) não se antagonizam com os bons motivos da ciência, então a humanidade caminhou para formas de medicina e outras terapias mais eficazes e deixou claro que formas de autoritarismo ideológico, sempre trazem poderosas e nefastas conseqüências.
Você, minha amiga de longa data, com toda a bagagem veteraníssima em teu inconsciente, com formação e informação dignas do mais alto grau de respeito e sabedoria é capaz destas “bruxarias”, (risos). Note, que se tivesses feito isto com o menino por volta de 1600 terias sido acusada e convidada a acompanhar Giordano Bruno.
O problema, minha cara Duquesa, Baronesa e Condessa e, agora e sempre, Guia Espiritual (risos), como eu, ateu, guia de muitas vidas, e no teu caso, de muitas crianças (Vários casos espetaculares que já me contastes)… Reitero, o problema é que somos mensageiros de uma longa tradição de cuidadores, cada um com seu estilo particular, mas todos nós dando o seu melhor em prol do próximo.
E o detalhe é este… o próximo é desconhecido mas, como por magia, (sabemos que o nome correto não é magia mas sim à pacing/raport), se torna íntimo em segundos.
Somos feito do mesmo material, das mesmas vibrações, e quando alguns não vibram, ficam travados, somos chamados, pela falta de vibração. Percebemos isto a distância e se temos oportunidade, imediatamente agimos.
Já sabemos o que fazer e cada um de nós tem suas explicações, que, repito, quando se ultrapassa o dualismo para uma perspectiva processual fica claro e simples de vivenciar/entender… Uso os dois termos por referência aos dois cérebros (hemisférios).
O hemisfério esquerdo entende, o hemisfério direito vivencia.
Enfim, como diziam os alquimistas… Totum hominem requiret opus… A obra requer o homem por inteiro.
Adorei saber mais esta, também vibro de alegria e aproveito p/ compartilhar este texto, sem prévia autorização vossa, (risos) com os neófitos, amigos e aprendizes de bruxaria hipnoidais… E por que não espirituais, se assim questionas e defines?
Certa vez falei com o prof. Eliezer Schneider que a religiosidade é inerente ao homem posto sua condição existencial neste universo, que agora além de enorme, tem perspectivas paralelas e de múltiplas dimensões… Branas, buracos de minhoca, etc.
Religiosidade como um sinônimo para um estado baseado na etimologia da palavra religião, ou seja, o religare, a perspectiva de dar algum sentido a esta experiência temporária entre o nascimento e a morte, religar este espaço non-sense chamado vida consciente.
Mas, voltando a análise do teu caso…
O teu caso me lembrou não só o do Lippmann, mas também um caso clínico descrito em Cloé Madanes – A família além do espelho- editorial Psy (1997).
Li esta obra em 2004, é excelente mas a tradução é péssima, chegando a dificultar a compreensão em alguns trechos… Chega a dar raiva!
A ação das metáforas numa família é impressionante… Quando um problema comportamental é a metáfora de um outro problema comportamental… ou quando uma criança “planeja” ser útil aos seus pais por vias indiretas, há uma incongruência na organização hierárquica da família…. Ou seja, a criança assume a posição de liderança na família (op. Cit., p.21)
O caso exposto na obra de C. Madanes
O pediatra encaminhou mãe e filha (10 aninhos) p/ a terapia familiar… Faziam 5 anos que a menina entrava e saía do hospital por causa de extrema fraqueza e coma diabético…. A mãe também era diabética e cuidava pouco de si própria… Resultado, quando a menina era internada a mãe se cuidava. O pai era ausente, divorciado, etc.
O problema da criança é uma metáfora da incapacidade da mãe…
Neste caso foi feita uma prescrição terapêutica… Ambas fingiriam ser enfermeiras e cuidariam uma da outra… Elas gostaram da idéia pelos motivos narrados na obra. ( O leitor interessado deve consultar a obra citada. Além deste caso há vários outros que ilustram a maneira estratégica sistêmica de resolver problemas psicológicos).
E foi assim que o caso se resolveu…
No teu caso vc usou comandos hipnoidais e conseguiu, de forma brilhante e eficaz romper o padrão metafórico da criança sobre si mesma…
A metáfora pessoal induz um estado de auto-hipnose que é paralisante, tenho estudado tal mecanismo e percebido que isto é muito mais comum do que se supõe.
Um outro dado que gostaria de acrescentar é a hipótese do funcionamento dos cérebros, tanto do cliente quanto do terapeuta, ou seja, de todos os cérebros (risos).
As pesquisas das neurociências apontam para um sistema chamado DMN (sigla em inglês de Default Mode Network), ou seja, “Rede do Modo Padrão”, explicando…
Eu abri o armário para pegar um pote de mel e me virei para abrir o mesmo com as duas mãos.
Neste momento eu estava de frente para a pia da cozinha e o armário, ainda aberto estava à minha direita… Então, ouvi um ruído e minha mão direita voou e pegou no ar um pote que despencara do armário aberto. Certamente estava desequilibrado e despencou no momento em que me virei… Mas, como foi possível tal ação do meu cérebro? Ele estava ocupado em abrir o mel e, no momento seguinte, como se movido por um outro programa, meu braço e minha mão, (e todo meu corpo!) estavam envolvidos em tentar evitar a queda de algo do armário. (Poderia se dizer que meu anjo da guarda me ajudou – risos- ou que os anjos da guarda funcionam através do sistema DMN! Talvez eles sejam o sistema DMN!).
Notem, o objeto que caiu (um pote de alho amassado), até poderia ter se espatifado sobre a pia, espalhando seu precioso conteúdo, além de excelente para a saúde o alho combate até vampiros!), mas o ponto crucial é o incrível funcionamento do cérebro.
Este tipo de fato e outros têm chamado a atenção dos pesquisadores… O que ocorre com o cérebro quando ele está focalizado num aspecto da realidade mas reage a mudanças como a descrita? E o que ocorre quando você está quase dormindo e um mosquito pousa em seu braço e você o tenta acertar num gesto que flui como um relâmpago?
O que estava acontecendo no cérebro das pessoas no experimento de tentar “advinhar” aonde os números apareciariam? Eles estavam tentando intuir, prever, advinhar , e sem saber como, seus cérebros, num nível fora da consciência coseguiram captar padrões, talvez o cérebro do Prof. Lippmann, assim como o teu, minha nobre Condessa, estivessem processando dados numa outra “frequência”, num outro modo de funcionamento que na verdade ocorre o tempo todo! Mas em determinadas situações nos chamam a atenção, ou seja, geram resultados a nível da consciência, embora esta não tenha como explicar as infinitas manobras que ocorrem no pano de fundo de nossas atividades focalizadas e mais ou menos conscientes.
Desta forma sempre haverá espaço para explicações mágicas pois levará muito tempo ainda para se chegar a uma “teoria do tudo” (se conseguirmos chegar até lá)… E como nós somos seres temporalmente finitos e preocupados com a morte, portanto emocionalmente comprometidos com tal angústia que gera um reino de incertezas, estamos fadados a um “pensamento de fundo mágico”. Foi o que eu tentei explicar ao professor Eliezer Schneider, quando eu disse que a religiosidade é intrínseca ao ser humano.
Porém podemos nos vacinar, por assim dizer, contra esta interferência em nosso raciocínio sobre a estrutura e a dinâmica da realidade. Se observarmos bem este foi um exercício que Charles Darwin teve que praticar diariamente… Colocar em suspenso as crenças religiosas sobre o criacionismo e, através de evidências e pesquisas conseguiu provar e comprovar uma série de fatos encadeados e lógicos sobre a formação da vida em nosso planeta.
“Os criacionistas rejeitam a teoria da evolução… Como podem essas pessoas refutar tais dados tão bem estabelecidos e ainda, num mesmo momento ligar seus ventiladores quando estão com calor ou tomar antibióticos quando estão doentes”. Matthew Alper (filósofo)
Pois bem, e o cérebro?
Os neurocientistas perceberam que o cérebro não para, isto é, mesmo num estado de repouso ele está pronto a agir, exatamente como naqueles filmes de artes marciais em que o mestre está meditando e segura uma flecha no momento seguinte, que lhe fora endereçada por um inimigo. A esta atividade do cérebro num modo tipo “stand by”, se deu o nome de “Rede do Modo Padrão”… Um sistema cerebral até então não reconhecido!
Frase de Ken Wilber que escrevi em uma camisa (na foto)
Conforme se sabe esta idéia do cérebro em constante atividade foi colocada pelo Dr. Hans Berger, criador do EEG, na década de vinte, mas suas idéias foram ignoradas até que começaram a ser retomadas e começou a se falar em atividade intrínseca do cérebro, ou seja, a atividade constante que fica ao fundo (background activity).
Com as invenções da tomografia (década de 70) e da ressonância magnética funcional (década de 90) se começou a perceber que muitas pesquisas precisariam ser repensadas diante desta idéia, pois inicialmente parecia que as áreas cerebrais permaneciam tranquilas até que fossem requisitadas a desempenhar alguma tarefa específica.
Inicialmente, houve com relação a estas pesquisas aquilo que se pode chamar de contaminação de crenças ou idéias pré-concebidas, era como se alguém estivesse observando algumas pessoas em movimento e outras paradas e dissesse que as pessoas paradas não exibiam nenhum comportamento… Sem perceber que o fato de estarem paradas já era um comportamento. Ou seja, havia um problema de contaminação conceitual incidindo na observação.
No caso das observações sobre o funcionamento do cérebro houve algo parecido. As observações feitas pelo uso de tomografia e ressonância mostravam as áreas do cérebro pesquisadas em atividade, e se deduzia (erroneamente) que as demais não requisitadas para aquela tarefa estavam em repouso e inativas. Isto foi análogo ao pensamento sobre os neurônios e as células glias. Se pensou até 1994 que as células glias serviam apenas de base estrutural para a arquitetura das estruturas neuronais. Nesta mesma linha de raciocínios errados, induzidos por crenças e pressupostos simplistas, sem evidências e portanto precipitados, já se pensou que além do mar haveria um precipício sem fim, ou que o fundo do mar era formado por uma crosta de gelo, ou que a Terra era o centro do universo.
Por isto aprecio os aforismas abaixo…
“Não sou louco pela realidade, mas ainda é o único lugar para se conseguir uma refeição decente.” Groucho Marx (Humorista)
“Mente humana é como pára-quedas… funciona melhor aberta” Charlie Chan (personagem de Conan Doyle).
Na foto, a excelente obra de Paul Strathern… O sonho de Mendeleiev (Ed. Zahar, 2002). No campo das descobertas científicas, sabe-se que muitos pesquisadores trabalharam arduamente sobre um problema sem conseguir ultrapassá-lo até que algo inusitado ocorre… Possivelmente é a DMN que continuando a trabalhar durante um sonho ou devaneio, fornece uma idéia que permite ao pesquisador o insight para resolver o problema. O sonho de Dmitri Mendeleiev, assim como o sonho de Kekulé(Friedrich August Kekulé von Stradonitz), acrescentaram novos conhecimentos que transformariam o campo cietífico drasticamente.
Felizmente, como sempre acontece na tradição da história da ciência alguns pesquisadores reacenderam a antiga idéia do inventor do EEG. Eles (vários grupos de pesquisa, na verdade) resolveram pesquisar o que acontecia quando o cérebro estava em repouso ou com a mente divagando…
As imagens do cérebro mostraram que áreas em muitas regiões do cérebro se mantinham ativas e bem ocupadas.
Então foi gerada mais uma metáfora oriunda das neurociências para tentar explicar o que estava acontecendo… No artigo da Scientifican American Brasil (Abril, 2010, p.22-27), intitulado… A energia escura do cérebro, se lê o seguinte (op. Cit.,p.25):
Com a devida licença dos colegas astrônomos, nosso grupo deu a essa atividade intrínseca o nome de energia escura do cérebro – referência à energia não visível, mas que representa a maior parte da massa do Universo. (O grupo em questão é o do autor do artigo – Marcus E. Raichle, da Washington University).
Bem,…
Só espero que após a hipnose quântica eu não veja surgir após este artigo a incrível hipnose da energia escura do cérebro, o que na verdade seria mais sensato no atual momento de pesquisa. Sim, porque podemos inferir de forma bastante óbvia que todos os processos cerebrais subjacentes à atividade consciente estão envolvidos nos mecanismos pelos quais a hipnose atua, bem como a intuição e quiçá possíveis fenômenos paranormais, se levarmos em conta os estudos do Grupo PEAR… The Princeton Engineering Anomalies Research (PEAR) program.
Vide link… http://www.princeton.edu/~pear/
Vejamos, no mesmo artigo da Scientific American, outras curiosidades…
De toda a informação ilimitada visual chega à retina 10 bilhões de bits por segundo. O nervo ótico ligado a retina tem “apenas” (as aspas são minhas – risos) um milhão de conexões de saída, donde somente 6 milhões de bits por segundo saem da retina,e apenas 10 mil bits por segundo chegam ao córtex visual. (Nem me pergunte, minha cara Condessa, como se sabe disto, mas certamente é por inferência estatística de amostras. Assim como se sabe o número aproximado de neurônios, pois segundo Suzana Herculano-Houzel se levaria 3200 anos contando um por segundo!, caso isto fosse possível)
O fato é que uma corrente tão tênue de dados não produziria percepção se essa corrente fosse tudo que o cérebro levasse em conta, prossegue o artigo (p.25)… A descoberta sugeriu que o cérebro faz constantes predições sobre o ambiente externo, em antecipação a insignificantes impulsos sensoriais que chegam a ele do mundo exterior.
O artigo cita outra metáfora, como se o cérebro fosse uma orquestra sinfônica em que o sistema DMN e os potenciais corticais lentos fossem os regentes organizadores da sinfonia executada, garantindo que a cacofonia de sinais em competição de um sistema não interfira com os sinais de outros sistemas. Um dos grandes desafios das neurociências é entender como os sinais de diferentes frequências interagem.
As altas e baixas frequências, as oscilações dos sistemas DMN, já propiciou aos cientistas entender melhor a natureza da atenção, componente essencial da atividade consciente. Em 2008, uma equipe multinacional, relatou que pela observação da DMN, conseguiu antecipar em 30 segundos num scanner um erro que um paciente ía cometer em um teste computadorizado… Logo, temos evidência que o sistema nervoso central está sempre num estado de considerável atividade, não apenas no estado de vigília… Essa atividade aparece mesmo sob anestesia geral…
Para finalizar, o artigo fala das conexões entre a DMN e as doenças, como Alzheimer, depressão e esquizofrenia… Nossas interações conscientes são apenas uma pequena parte da atividade do cérebro. (Op. Cit. p. 27).
Logo, o que houve entre a DMN do prof. Lippmann e a do cliente, o que houve entre aquela criança e aquela mãe? E qual foi a natureza de vossa intervenção Condessa?
Bem, eu penso o seguinte, os deuses devem ter mais o que fazer do que ficar olhando para os meus problemas pessoais e pensando se dão uma forcinha ou não, mas, sendo sincero… Mesmo se eles existissem (todos eles, de Rá até Odim ou Júpiter, Alá ou o Deus Único) eu não iria ficar ocupando-os com meus problemas pessoais, fossem de saúde ou não. Eu respeitaria a privacidade destes seres tão ocupados em manter o universo pulsando. Creio que não seria apropriado ficar perturbando-os diante de tantas mazelas que existem por aí.
Condessa… Adorei a tua performance, mil vezes Viva!!! Viva la vida! E a música que me vem é do Sul, de Kleiton e Kledir…
Hoje o Universo irá tremer mais ainda de felicidade
Parabéns por mais este show e por compartilhar!
No final segue texto sobre o grande professor H.L. Lippmann… note o tema de sua preocupação… menores abandonados… o espírito deste ser, ou se preferir chamar lembrança ou influência sempre irá pairar em nossos espíritos ou inconscientes ou campos morfogenéticos, ou na energia escura do cérebro….
Relembro alguns de meus aforismos preferidos, que serão publicados em meu site, e que nos remetem a reflexões que nos ajudam a entender o modus operandi processual ao invés do dualista.
“Se você construiu castelos no ar, seu trabalho não precisa ser desperdiçado; é lá mesmo que eles deveriam estar. Agora ponha os alicerces embaixo deles.”
Henry David Thoreau
“O riso é como o pára-brisa, serve p/ você ir rodando enquanto a chuva cai”. Tom Sttopard
“Mais valem dois pássaros voando do que um na mão.”
Luganus Ecologicus (Apreciador de seres livres)
“Aquilo que observamos não é a natureza em si mesma, mas a natureza exposta ao nosso método de questionamento”.
Werner Heisenberg (Físico)
Abaixo trecho de trabalho da colega, prof.ª Deise Mancebo
Extraído de http://www.cliopsyche.uerj.br/livros/clio1/formacaoempsicologia.htm
Por fim, mas não menos importante, cabe citar que o idealizador do curso de Psicologia da PUC-RJ, professor Hanns Ludwig Lippmann, chega para dar aulas na PUC/RJ no ano de 1949, nos dois cursos de Serviço Social. Era um homem religioso, mas profundamente influenciado pela ciência. Na época em que ainda vivia em São Paulo, Lippmann completara o curso de Serviço Social da PUC/SP. Defendera uma tese de final de curso, em 1948, sobre o tema “Menores Abandonados”, onde dissertara acerca do comportamento dos mesmos, sua principal área de interesse. A esta formação devem-se acrescer os estudos de Teologia, desenvolvidos em um mosteiro beneditino.
No entanto, Hanns Ludwig Lippmann separava claramente essas duas realidades e achava que cada uma tinha uma função social bem determinada.
(Grifo de Luganus Ramadan Svrerola, e digo mais, se este ser estivesse entre nós, assim como meu querido mestre E. Cannabrava, poderíamos ter longas horas agradabilíssimas de conversas, principalmente se vocês, Louis Sérgius e Néias Dunleys estivessem presentes.
Ainda não terminei de ler, mas Budismo sem crenças é algo que acrescenta pontos ótimos para toda esta reflexão, acrescento, em meu estilo mosaico e quiçá, autístico (gritos efusivos de alegria) uma sinopse do mesmo
Trata-se de um livro surpreendente e polêmico por apresentar uma visão muito original dos ensinamentos de Buda (Sidarta Gautama, c. 563-483 a.C), despindo-os de caráter religioso. Para Batchelor, o chamado despertar ou iluminação do Buda não se tratou de uma experiência mística, de um momento de revelação transcendental da Verdade. Ao contrário, ao encontrar o ?caminho do meio? que conduz à supressão do desejo e do sofrimento humanos, o Buda propôs de fato uma prática, um método de ação (ação que, segundo o autor, é tão importante quanto a contemplação meditativa).
É o Budismo como método e não como religião que Batchelor descreve e propõe em seu livro inovador, numa linguagem simples, sem palavras em sânscrito ou nenhum jargão orientalista. O leitor que tem em mente é o homem contemporâneo, dominado pelo ceticismo ou pela fragilidade da fé. Por isso, além de enfatizar o caráter prático do método budista, o autor resgata a noção de agnosticismo, tal qual foi proposta pelo filósofo Thomas Huxley, em 1869. É precisamente nesse sentido agnóstico que esta obra se configura como um guia contemporâneo para o despertar.
Budismo sem crenças – a Consciência do Despertar – Stephen Batchelor
Retornando ao texto da colega Deise…
No entanto, Hanns Ludwig Lippmann separava claramente essas duas realidades e achava que cada uma tinha uma função social bem determinada.
A ciência cuidaria do progresso da humanidade e a religião católica cuidaria da moral humana.
Sua vinda para o Rio de Janeiro, em 1949, deu-se através de um convite do Padre Paulo Bannwarth, então reitor da PUC/RJ, para que compusesse o corpo docente do Serviço Social. Lippmann demonstrava um grande interesse pela Psicologia e já chegara à PUC/RJ com o intuito de montar um curso nesta área, de modo que, desde a sua entrada na instituição, selecionava, para si, as disciplinas deste campo.
Tornou-se Chefe da Divisão de Serviço Social da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, anexa à Santa Casa da Misericórdia, em 1951, local onde primeiramente o curso de Psicologia da PUC/RJ alojou-se. No mesmo ano, foi contratado como psicólogo pela Casa de Repouso Alto da Boa Vista, para atuar no Centro de Estudos Psicossomáticos. A partir do ano de 1952, passa a trabalhar como professor do IPUB (Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil). Também era psicologista do Ministério da Educação e Saúde, membro do Conselho Consultivo das Pesquisas Sociais da Comissão Nacional de Bem-Estar Social e membro da Subcomissão de Terras e Colonização da Comissão Nacional de Política Agrária, em 1954. Por esta listagem de cargos e funções desempenhadas, é possível perceber a ativa participação que tinha na sociedade de sua época[xvi][16].Lippmann ministrara intensamente as disciplinas psicológicas enquanto professor dos dois cursos de Serviço Social existentes na universidade. Organizara, ainda, atividades de extensão universitária em Psicologia, que se constituíram em prévias do que viria a ser desenvolvido, posteriormente, no curso de Psicologia da PUC-RJ. Por fim, iniciou gestões para a efetivação do seu antigo desejo.
É preciso destacar, no entanto, que ao longo da experiência de Lippmann no Serviço Social, a Pontifícia Universidade Católica havia mudado. Apesar de todas as articulações ideológicas que marcaram sua criação em torno dos ideais católicos, a PUC/RJ distanciou-se dos objetivos que lhe deram origem a partir de finais dos anos 40. O crescimento econômico desenvolvimentista projetado para o país, ao final da ditadura Vargas (1945), exigia um certo pragmatismo na educação. A nação necessitava de técnicos especializados, a fim de suprir o ritmo industrializante nacional, bancado pelo Estado e pelas recém-chegadas multinacionais, que demandavam mão-de-obra. A PUC/RJ também foi atravessada por este “espírito de época”. A demanda para cursos na área tecnológica aumentava na sociedade carioca e pressões são feitas para a criação de um curso de Engenharia na PUC/RJ. Atendendo aos apelos e diante da perspectiva de financiamentos futuros – o que, de fato, veio a acontecer -, os dirigentes da universidade criam a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1948. A criação desta escola é um marco na mudança dos rumos institucionais da Universidade Católica e uma das conseqüências dessas transformações foi a laicização de seus cursos, erigindo-se um fosso entre o perfil científico-acadêmico da instituição e o religioso. No nosso caso, a “Psicologia Catequizada” perde seu papel hegemônico e vai deixando de existir, de modo que o curso de Psicologia propriamente dito nasce sob a égide da ciência psicológica “neutra” e praticamente livre das ingerências religiosas. Este aspecto é tão marcante que os professores da “Psicologia Catequizada”, da Faculdade de Filosofia, sequer aparecem na lista do corpo docente do curso de Psicologia. Além disto, o movimento da Psicologia no Rio de Janeiro do final dos anos 40 e início dos anos 50 não guardava qualquer semelhança com uma Psicologia religiosamente orientada, praticada nas primeiras disciplinas da PUC-RJ. Nesta época, os então chamados psicotécnicos eram os atores dessa Psicologia, de cunho pragmático e reprodutora da Psicologia cientificista hegemônica nos Estados Unidos e Europa. Tratava-se de uma Psicologia calcada em testes objetivos, que penetrava principalmente nas indústrias e nas escolas. Os psicotécnicos eram chamados para o trabalho de seleção profissional entre os candidatos a um determinado posto profissional e requisitados a dar orientação profissional aos estudantes, prática que se constituía numa seleção prévia do jovem ao mercado de trabalho. Conforme apresentado em parte anterior deste trabalho, o Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP), sob a direção de Emílio Mira y López, era a instituição que até então, por excelência, preparava os psicotécnicos no Rio de Janeiro, através de cursos breves, com o objetivo básico de contribuir para o ajustamento entre o trabalhador e o trabalho, mediante o estudo científico de suas aptidões e vocações, através da criação e/ou aplicação de testes psicológicos.
Para levar seu projeto adiante, Lippmann deveria contemplar esta demanda; precisava canalizar para a PUC-RJ o que o ISOP já fazia de forma esparsa e descontínua, com seus cursos breves. No entanto, Lippmann pretendia ir mais longe e, visando ao alcance de seus objetivos, pede o apoio de uma pessoa de grande envergadura no meio acadêmico daquela época: Nilton Campos, professor catedrático da Universidade do Brasil e diretor do Instituto de Psicologia da mesma universidade. Conforme já exposto, o professor Campos era defensor de uma Psicologia teórica fortemente embasada nos conhecimentos filosóficos e um ferrenho crítico dos cursos tecnicistas promovidos por Mira y López, no ISOP. Nilton Campos desejava conter o vertiginoso avanço desta última instituição e, com este intuito, resolve dar todo o seu apoio ao projeto de Lippmann, quanto à criação de um curso verdadeiramente universitário de Psicologia na PUC-RJ. O Instituto de Psicologia Aplicada da PUC (IPA) surge, portanto, dentre outros motivos, como uma alternativa ao ISOP, para de certo modo “esvaziar” o poder crescente da formação espaçada e tecnicista oferecida por esta última instituição (LANGENBACH, 1982b). O professor Hanns Ludwig Lippmann, com o apoio acadêmico da Pontifícia Universidade Católica e com a cessão do espaço físico da Santa Casa da Misericórdia, localizada à Rua Santa Luzia, monta, no mês de março de 1953, o primeiro curso universitário de Psicologia do Brasil[xvii][17].O IPA tem início com uma preocupação central: apresentar densidade teórica, suprindo as deficiências existentes no ISOP. Organizado originalmente em três anos e meio, deveria apresentar uma formação mais sólida e orgânica do que uma série de pequenos cursos de curta duração.
No entanto, seu organizador também precisava ir ao encontro das aspirações dos psicotécnicos, qual seja, deveria proporcionar-lhes uma profissionalização e, deste modo, a Psicologia Aplicada não podia ser desprezada. Para o atendimento deste último aspecto, boa parte das práticas desenvolvidas no ISOP também são assimiladas no novo curso. Os objetivos explícitos da nova escola bem demonstram a duplicidade de interesses, de modo que o IPA deveria ser “(…) uma instituição de ensino, de nível universitário de formação de especialistas em Psicologia Aplicada” e ser também um “centro de pesquisas, de documentação e de colaboração internacional no plano científico”( PUC-RJ, 1953, p. 153).Por fim, sem esquecer a vinculação a uma instituição católica, o IPA também objetivava, curiosamente, atender “à necessidade premente de uma orientação católica para o movimento científico experimental no campo da Psicologia” (PUC-RJ, 1953, p. 16). Deste modo, o professor Lippmann consegue, a um só tempo, satisfazer as preocupações teórico-filosóficas do professor Nilton Campos[xviii][18] e dos teóricos da academia, atender às demandas pragmáticas dos psicotécnicos e driblar as resistências que a PUC-RJ ainda fazia ao trato científico e laico dos homens, em especial em relação à Psicanálise.Conjugando tantos fatores e atendendo a preocupações diversas, o sucesso alcançado pelo curso foi uma decorrência quase que automática. De fato, o curso de Psicologia da PUC-RJ, o primeiro a ser criado no país, constituiu-se numa grande referência de formação “psi” no Rio de Janeiro, interferindo, de modo expressivo, nos rumos que a Psicologia tomou nesta cidade.
(Entrevista concedida à Pierre D’Arnot – novembro / 2011)
Prezado professor, dando continuidade a sua entrevista para nossa colega Marcelle, que está em suas merecidas férias, eu, Pierre D’Arnot, gostaria de propor uma segunda parte em que o senhor pudesse explanar alguns itens que merecem um tratamento mais extenso… O que o senhor acha?
Estou de acordo…
Farei então três perguntas: Do que se trata, afinal, esta perspectiva da Física Quântica em nossas vidas? E por que a Dra. Teresa Robles tem sido uma porta-voz da Física Quântica? E, uma vez que o senhor faz parte da história da hipnose devido a sua participação nos trabalhos do Conselho Regional e Federal, como o senhor percebe estas questões e o ensino da hipnose?
Certo Pierre, você me fez três perguntas lineares, mas que envolvem muitos assuntos, então me permita responder de uma forma analógica… Tentarei esclarecer tudo, mais ou menos como este filme do Almodóvar (A pele que habito), risos… Dizem que ele tentou fazer um filme no estilo de minhas aulas e supervisões… Se ganhar algo, talvez o Oscar, estaremos consagrados (+ risos)
Vá em frente, professor, pelo que me dizem tanto Pedro Almodóvar quanto o senhor são exímios contadores de histórias (risos)…
Bem… Eu estava num hotel, na localidade conhecida como Peró, em Cabo Frio, quando recebi um telefonema do Instituto Ericksoniano de Petrópolis… Era um pedido para auxiliar na divulgação de uma palestra da Dra. Teresa Robles… Como sou professor na UERJ , a idéia era providenciar um auditório, etc. E aí me falaram o título provisório da palestra que tinha algo a ver com Hipnose Quântica, não me recordo ao certo, mas lembro que fui sutilmente, porém radicalmente contra. Sugeri outro título, explicando as razões… Expostas abaixo.
Na foto… Luganus da UERJ e Adir (Professor de Física da UFRJ)
Por acaso eu havia marcado um encontro neste Hotel com um grande amigo e sua esposa, que estavam indo para Rio das Ostras. Comentei com ele, durante o almoço, sobre o tal título inicial e ele concordou que não era um bom título. Isto poderia parecer apenas boas maneiras, mesmo cada um sendo responsável por pagar seu almoço (risos)… Entretanto, quem estava conversando comigo era o professor de física Dr. Adir Moysés Luiz, da UFRJ.
O que ele me disse foi mais ou menos o seguinte (como iremos publicar isto no site e avisá-lo, ele poderá negar e me processar, risos):
“Se um físico sério (atentem p/ o detalhe “sério”) olhar o título desta palestra, irá querer saber quem é este autor e que contribuições ele deu para o campo da física nuclear, etc. Possivelmente ao perceber a situação não irá entrar para a palestra e sairá com uma má impressão deste evento”.
Quando vemos pessoas de outras áreas, um engenheiro, por exemplo, fazendo psicoterapia em alguém, nós psicólogos, pensamos o que?
Bem, eu penso logo: este senhor deveria estar trabalhando com engenharia… Por que não está? Porque resolveu fazer um curso de PNL e se meter em minha área? Será que estudou psicopatologia? Ou fez um curso de final de semana de PNL e resolveu tratar das pessoas…
Percebem?! Há um grande perigo nestas situações, um perigo social e sanitário inclusive… E se o engenheiro resolvesse fazer cirurgias? E se o médico resolvesse construir pontes?
Sabemos que os médicos podem fazer pontes de safena, mas daí a dar este passo quântico para fazer uma ponte entre o Rio de Janeiro e Niterói, ou mesmo uma menor…
Eu não me arriscaria nas pontes do médico e nem nas terapias do engenheiro! Seria o mesmo que você virar para as pessoas atrás e falar: “Olá, apertem bem os cintos, pois este é meu primeiro vôo e, aliás, eu nunca aprendi a ser piloto”. Creio que todos desceriam correndo do avião.
Têm acontecido, aliás, muitos “acidentes” por conta da falta de preparo das pessoas…
Se eu for a um passeio de barco espero que os condutores tenham providenciado bóias, combustível; enfim, que todo o equipamento e a tripulação estejam preparados. Sabemos que muitos acidentes não são acidentes; são tragédias anunciadas, seja por falta de manutenção, seja por falta de treinamento ou uso inadequado de funções e materiais.
J. M.Charcot ( à esquerda, rss). Na foto, à direita a moça diz “Eu consigo te hipnotizar” ( Hoje sabemos que isto só servirá sob medida. Os ericksonianos entenderão a brincadeira)
Aqui no Rio de Janeiro fui uma das pessoas que trabalhou para que a hipnose fosse aceita cientificamente e pudesse ser usada pelos psicólogos. Ainda é difícil tirar a aura de magia e mistério que envolve a hipnose e muito disto se deve a incompreensão e a confusão, que caminham juntas. Então, penso que fazer esta mistura de conceitos de áreas totalmente diferenciadas (Psicologia e Física Nuclear) só pode trazer mais confusão a área. Seria um retrocesso, uma volta à magia da hipnose, um retrocesso aos estudos sérios sobre a cientificidade e aos usos da hipnoterapia.
”Hipnose funciona sim, vide o gato em transe diante do filé de salmão”
Bem…
Sei também que iremos morrer um dia, e que novas contribuições virão no futuro.
Isto é ótimo… Digo, as novas contribuições (risos). Não podemos ter um controle absoluto sobre tudo, mesmo criando códigos de ética e conduta, mas podemos ajudar um pouco a manter a argumentação científica clara.
Se não atrapalharmos, isto já ajuda. ( + Risos)
Se diminuirmos a confusão e aumentarmos a informação isto é melhor ainda para que a compreensão aumente.
Todos nós tentamos viver em paz, com saúde e, além disto, preservar o bom caminho da ciência. Por quê?
Se nós olharmos a marca da vacina em nossos braços, ou lembrarmos em como a medicina e outras ciências nos ajudam hoje, teremos a resposta.
Quando pensamos em quantos dramas ainda existem… Pessoas morrendo disto ou daquilo, poderemos imaginar que no passado era muito pior… Imaginemos uma pessoa, uma criança, com um cálculo enorme no passado… Dores atrozes, os pais chorando, muito sofrimento e no final … Óbito… Hoje em dia, uma “simples” cirurgia resolveria o problema ou talvez se implodisse o cálculo com ondas/vibrações…
Se fosse possível um médico com os aparelhagens e medicamentos de hoje ir ao passado… Seria considerado, este ser do futuro, um bruxo ou um deus.
Se não leram O Físico de Noah Gordon e Xamã, deste mesmo autor, sugiro que o façam. A primeira obra tem o subtítulo de A epopéia de um médico medieval e na outra a saga continua… Tais obras fornecem um panorama da história da medicina, dos costumes, dos sofrimentos e das descobertas… E muito mais… São excelentes.
E sobre a Dra. Teresa Robles e suas palestras envolvendo a Física Quântica?
A Dra. Teresa Robles, já disse isto em público várias vezes (e agora o faço por escrito), é uma psicoterapeuta espetacular, eficaz e elegante. Eu a vi atuando com toda a sua “poderosa simplicidade”.
Prof.ª Regina, Dra. Teresa Robles e Celso Lugão
Uso o termo simplicidade como sinônimo de espontaneidade… Ela é capaz de um relacionamento de igual para igual, como deve ser, entre terapeuta e cliente.
Ambos são seres humanos que se encontram em um momento da vida; um que pede auxílio e o outro que se prontifica a ajudar. E se houver interação, se o dualismo for desfeito, então haverá um diálogo.
No dualismo só pode haver dois monólogos. Cada pessoa tenta convencer o outro de sua verdade. Ninguém escuta e ninguém cresce, pois só há crescimento se há interação interpessoal.
E poderosa porque bem posso deduzir o quanto existe de treinamento e experiência na bagagem da Dra. Teresa Robles… A elegância com que faz suas intervenções revela uma enorme sensibilidade e conhecimento técnico.
Note Pierre, no fundo, é claro, cada um faz o que bem entender e lida depois com as conseqüências, mas como profissionais tentamos preservar um caminho que vem dando certo ao longo do tempo e tem beneficiado muitas pessoas. Este caminho chama-se conhecimento científico… Este está espalhado em todas as casas, a geladeira, a eletricidade, as roupas, os carros e seus motores, os aviões, e os produtos para a saúde.
Eu gostaria que meus netos tivessem bem mais da ciência do que eu tive. Penso sempre naqueles pais que viram seu filho morrer, se contorcendo com dores atrozes, enquanto os “médicos” da época medieval tentavam usar sangrias, cataplasmas, vapores e benzeduras…
O que aqueles pais não teriam feito se soubessem que a solução estava no desenvolvimento da ciência?!
Neste ponto alguém poderia argumentar… Mas justamente é isto que se procura fazer com a divulgação da Física Quântica –> mostrar outros aspectos da realidade…
Bem, neste caso, as coisas se esclareceriam…
Poderíamos inventar um título mais adequado… A Dra. Teresa Robles, antropóloga e psicoterapeuta, ministrará um workshop sobre o Papel da Física Quântica na Evolução atual do pensamento humano (Estou inventando um título inspirado num capítulo escrito por Werner Heisenberg em 1958).
Isto é bem diferente, embora exija muito fôlego também, do que ministrar um workshop sobre mecânica quântica ou ser porta-voz não sendo treinado na área, eu creio. Isto exigiria uma formação em física avançada.
Já o título: O Papel da Física Moderna na Evolução atual do pensamento humano (este é o título no qual me inspirei), foi escrito por um físico, Werner Heisenberg… Aí, tudo bem, trata-se de um físico pensando sobre filosofia… Inclusive, o impacto das idéias da física naquele tempo se relacionava com artefatos de guerra poderosos, as bombas atômicas, e as possibilidades nucleares.
Claro está que filósofos, psicólogos e antropólogos podem e devem analisar e colocar suas contribuições, mas têm seus limites.
O professor de filosofia F. S. Northrop em seu capítulo – Introdução aos problemas da filosofia natural – na mesma obra escrita por Werner Heisenberg – Física e filosofia, (UnB, 1981, p.130) faz uma análise do livro e argumenta…
Como observa Heisenberg, os novos caminhos irão, queiramos ou não, alterar e parcialmente destruir costumes e valores tradicionais…
Quando compreendidos, esses pressupostos filosóficos geram mentalidade e comportamento, individual e social, bem diversos e, em alguns casos, incompatíveis com as tradições de família e casta, com a mentalidade tribal vigente. Em resumo, é impossível se introduzir os instrumentos da física moderna sem, cedo ou tarde, introduzir a atitude filosófica correspondente e, à medida que essa atitude cative os jovens que receberam treinamento científico, ele virá afetar a tessitura moral da família e tribo. A fim de se evitar conflitos emocionais desnecessários e desmoralização social, é importante que os jovens entendam o que esteja acontecendo. Isso significa que eles vejam a transição por que passam como a convergência de duas mentalidades filosóficas diversas: a de sua cultura tradicional e aquela da física. Daí a importância de se entender a filosofia da física moderna
(Pierre) Permita-me interromper, professor…
Então qual é o problema prof. Celso Lugão? Ou quais são?
Meu caro Pierre, minha resposta é muito simples, amadurecer reflexões, fazer perceber que se você tem um gato e o pinta de verde, isto não significa que agora existem gatos verdes, transformados pela sua “perícia em genética”.
Significa simplesmente que você pintou seu gato de verde, isto é bem diferente de dar contribuições à genética fazendo com que gatos passem a nascer verdes.
No campo das idéias criativas, no contexto da descoberta na ciência e em relação a conseqüências sociais e psicológicas, pode ser até interessante mostrar gatos verdes e aventar esta possibilidade… Haverá repercussão, mas não se pode perder de vista que para se dar uma contribuição significativa ao campo da Genética é preciso muito estudo e dedicação.
E a Dra. Teresa Robles sempre me passou isto, seja pessoalmente, seja em seus livros: seriedade, dedicação e humanidade, e um respeito enorme pelo próximo. Tive a mesma percepção, sensação, de sua filha Cecília. São pessoas que deram duro, trabalharam, para se tornar especiais. São excelentes pessoas e psicoterapeutas.
(Lugão e as professoras Cecília Fabre e Tamine, sua esposa).
Bom, fiz esta entrevista com carinho porque ouço algumas pessoas que acham que acendendo incensos, ou rezando para algum Deus Quântico, ou simplesmente entregando tudo para a parte sábia elas poderão se tornar terapeutas eficazes. Esquecem todo o resto das mensagens sobre trabalhar e praticar.
Prof.ª Regina Nora e Cecília Fabre na UERJ.
É preciso entender toda a mensagem do professor Northrop, e não apenas alguns pontos isolados.
O senhor poderia dar um exemplo?
Sim, note a argumentação do professor Northrop; transcrevo-a para facilitar a análise do que é dito de fato, colocando em vermelho o que penso ser crucial para não haver distorção, diz Northrop:
Como observa Heisenberg, os novos caminhos irão, queiramos ou não, alterar e parcialmente destruir costumes e valores tradicionais…
Quando compreendidos, esses pressupostos filosóficos geram mentalidade e comportamento, individual e social, bem diversos e, em alguns casos, incompatíveis com as tradições de família e casta, com a mentalidade tribal vigente. Em resumo, é impossível se introduzir os instrumentos da física moderna sem, cedo ou tarde, introduzir a atitude filosófica correspondente e, à medida que essa atitude cative os jovens que receberam treinamento científico, ele virá afetar a tessitura moral da família e tribo. A fim de se evitar conflitos emocionais desnecessários e desmoralização social, é importante que os jovens entendam o que esteja acontecendo. Isso significa que eles vejam a transição por que passam como a convergência de duas mentalidades filosóficas diversas: a de sua cultura tradicional e aquela da física. Daí a importância de se entender a filosofia da física moderna.
Muitas pessoas podem interpretar o texto do professor Northrop como um convite ao caos, ou ao pós-modernismo, (risos)… Note meu caro Pierre, que ele diz claramente… Jovens que receberam treinamento científico, ou seja, a metodologia científica e o conseqüente preparo para interpretar os fatos estão lá implantados, isto irá ser a base para que os jovens entendam o que está acontecendo, racionalmente.
Não se trata de um vandalismo, de um oba-oba, de uma posição ingênua do tipo, tudo é relativo, tudo é incerto, tudo é quântico, e a morte é certa, então, como “dedução” ou posição existencial de protesto… “Vamos nos embebedar, fumar um baseado ou nos atirarmos numa depressão”, à custa de alguém… Sim, em geral quando o indivíduo entra por este modelo sempre tem alguém para pagar as suas crises existenciais e rebeldias contra o Status Quo da Ciência e a busca de um treinamento eficaz em alguma área da ciência ou profissão.
Sinceramente, acho lamentável, quando as pessoas distorcem e confundem, mas é humano, demasiado humano, como diria F. Nietzsche.
A evolução do conhecimento, através de trabalho árduo de muitas gerações de pessoas nos remeteu a atual compreensão do mundo.
Foi semelhante quando Darwin publicou seus estudos e conclusões, penso que se na época houvesse alguém sem preparo em Biologia e anunciasse A hipnose evolucionista de Darwin, poderíamos ter o mesmo tipo de problema para o qual chamo a atenção hoje.
Talvez uma pessoa com preparo pudesse realmente entender as conexões que poderiam existir (e existem!) entre Hipnose e Evolucionismo, mas para cada pessoa com tal preparo haveria muitas dizendo asneiras como: “o ser humano evoluído é mais propenso a hipnose”… “A vida das pessoas irá mudar agora radicalmente porque eu pratico a hipnose evolucionista”… Ou, “a hipnose quântica”.
Então, respondendo a alguns dos assuntos da tua última pergunta… É o desfecho do filme de Almodóvar (risos).
Relembro-a aqui.
E, uma vez que o senhor faz parte da história da hipnose devido a sua participação nos trabalhos do Conselho Regional e Federal, como o senhor percebe estas questões e o ensino da hipnose?
Eu voltaria a citar a excelente obra de Richard Dawkins, Desvendando o arco-íris.
Lutamos para conseguir que a hipnose fosse cientificamente aceita, lutamos para que além do médico o psicólogo pudesse utilizar tal técnica.
Portanto, quero pedir aos colegas muito cuidado com as colocações para não criarmos todo um misticismo quântico, ou confusão conceitual na mente das pessoas.
Em encontros com colegas e alunos ouço questões confusas… As pessoas estão perdidas em clichês… Há muita falta de informação sobre a ciência.
Algumas das perguntas que em geral me dirigem são: “Mas professor, este modelo de ciência que o senhor defende não é aquele do positivismo, de uma ciência cartesiana?” ou “ Não seria ótimo se a física quântica pudesse embasar a hipnose?”, ou ainda, “e como fica a questão da subjetividade dentro da ciência?”.
Richard Feynman (falecido em 05 de fevereiro de 1988), que entendia muito de física quântica, certa vez respondeu a um amigo, que havia dito que o cientista deixa de perceber a beleza de uma flor ao estudá-la… (Esta história está narrada na página 67, da obra de Dawkins – Desvendando o arco-íris. CIA das Letras. 2000)
Disse Feynman: A beleza que ali existe para você também está a minha disposição. Mas vejo uma beleza mais profunda que não está tão facilmente à disposição dos outros. Posso ver as complicadas interações da flor. A cor da flor é vermelha. O fato de a planta ter cor significa que ela evoluiu para atrair os insetos? Isso leva a outra pergunta. Os insetos podem ver a cor? Eles têm um senso estético? E assim por diante. Não vejo como o estudo de uma flor pode diminuir a sua beleza. Ele apenas acrescenta.
Bem Pierre, esta foi a resposta de um físico quântico, que não tem nada de cartesiano.E realmente será ótimo o dia em que a física quântica embasar a hipnose, pelo menos é no que acredito, mas isto agora não faz o menor sentido, e não tem importância alguma.
Seria como dizer que as teorias das cordas um dia embasarão a hipnose. E daí? O que você faz com isto agora? Nada, absolutamente nada. Ou melhor, você pode sair escrevendo livros sobre pseudociência. Já têm muitos por aí.
E quanto a subjetividade… Permita-me deixar esta história para um outro texto, meu caro Pierre.
Deixe-me explicar… Eu estou trabalhando em dois textos que estão ligados a estes assuntos… Na verdade eu irei copiar os títulos das obras sobre Richard Feynman, fazendo uma reverência a este grande e genial físico, com todo o humor que ele sempre soube demonstrar na vida, apesar das duras experiências pelas quais passou.
Está bem professor, paramos por aqui. Quero agradecer ao senhor por conceder mais esta entrevista e antes de terminar perguntar uma última coisa… O senhor poderia dizer algo sobre estes títulos das obras sobre Richard Feynman?
Claro que sim, eu irei copiar os títulos das obras… “Está a brincar, Sr. Feynman!” e da outra, “Nem sempre a brincar, Sr. Feynman!”… Portanto os meus artigos se chamarão…
“Está a brincar, Sr. Luganus?” e “Nem sempre a brincar, Sr. Luganus!”
Note que além da originalidade de trocar o sobrenome, (risos) há uma criatividade em meu primeiro título quando coloco o sinal de interrogação ao invés do sinal de exclamação!
Nestes textos falarei mais de ciência, subjetividade e objetividade e alguns outros assuntos pertinentes.
Agradeço a mais esta oportunidade também.
E deixo esta curiosidade p/ vocês que pensam que estou sempre a brincar… Nem sempre a brincar, Sr. Luganus!
Gatos verdes criados em laboratório são imunes à AIDS felina (26/10/2011)
Cientistas americanos criaram 3 gatos geneticamente modificados que nasceram e se desenvolveram saudáveis.
A pesquisa vem da Mayo Clinic College of Medicine, de Rochester localizada em Minnesota.
Os gatos, já com um ano de idade, foram chamados de TgCat1, TgCat2 e TgCat3. Sob uma luz ultravioleta, os bichanos ficam verdes por terem recebido uma proteína fluorescente dessa cor chamada: “GFP”, que originalmente vem de uma água-viva.
Estudos anteriores sugerem que outra proteína, “TRIMcyp”, é o que mantêm humanos e macacos sadios, fazendo com que não sejam infectados pelo FIV. E essa é uma das proteínas que faltam no organismo dos gatos.
O FIV é uma espécie de aids que afeta apenas os felinos, incluindo os animais de maior porte, como os leões, por exemplo. Seus sintomas são semelhantes aos criados pelo virus HIV, que provoca a aids nos humanos.
Para isso, o virólogo Eric Poeschla, da Mayo Clinic, e sua equipe adotaram uma técnica: um vírus carregou tanto a TRIMcyp quanto a GFP em um óvulo que foi posteriormente injetado em uma fêmea para reproduzir. Por fim, quando os pesquisadores tentaram injetar sangue infectado com a FIV nestes gatos gerados em laboratório, o vírus não se reproduziu.
Na foto ( Adir e a Prof.ª Elaine – Biologia, Lugão e filhos Rodrigo e Diogo)
Extraído da Plataforma Lattes
Sobre o professor Adir Moyses Luiz
possui graduação em Física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1963), mestrado em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1966) e doutorado em Engenharia Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1982). Atualmente é professor Associado do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Publicou inúmeros trabalhos teóricos e experimentais em diversas áreas da Física, com ênfase em pesquisas sobre aplicações da supercondutividade e sintetização de materiais supercondutores. Possui vasta experiência didática e científica sobre os seguintes temas: física do estado sólido, supercondutividade, junções josephson sns, física básica, eletromagnetismo, termodinâmica e hidrodinâmica. É autor de mais de 22 livros didáticos de Física. Além desses livros didáticos, publicou também dois livros de divulgação científica com os seguintes títulos: 1) Como Aproveitar a Energia Solar e 2) Aplicações da Supercondutividade. Editoriou 3 livros de pesquisas sobre Supercondutividade. Atualmente desenvolve pesquisas teóricas e experimentais objetivando a sintetização de um material que exiba supercondutividade na temperatura ambiente. Desenvolve também pesquisas para otimizar o rendimento de células solares fotovoltaicas.
PERGUNTA DEMOLIDORA
Um homem estava sentado no avião, ao lado de uma menininha. O cara olhou a criança e lhe disse:
- Vamos conversar? Tenho certeza que a viagem parecerá mais rápida. O que você acha?
A menina, que acabava de abrir um livro para ler, o fechou lentamente
e respondeu com voz suave:
- Sobre o que gostaria de conversar?
- Bom, não sei… – disse o homem. – Que tal física nuclear? – e mostrou um grande sorriso.
- Bem,- disse a pequena – Esse parece ser um tema interessante. Mas
antes, gostaria de lhe fazer uma pergunta: o cavalo, a vaca e a ovelha
comem a mesma coisa: capim, não é mesmo? Porém, o excremento da ovelha é um monte de pequenas bolinhas, o da vaca é uma pasta e o do cavalo é um monte de pelotas secas. Por que o senhor acha que isto acontece?
O cara, visivelmente surpreso com a inteligência da menina, pensou
durante uns momentos e respondeu:
- Hmmm, não faço a menor idéia…
E então, a menininha disse:
- Sinceramente, como o senhor se sente qualificado para discutir
física nuclear, se não entende de bosta nenhuma?
E o salário, oh!
Abs quânticos a todos, rs
A Sociedade Brasileira de Física, fundada na década de 1960, tem por finalidade promover a pesquisa e o ensino da física no país, bem como defender os interesses profissionais dos físicos. Pouco depois de fundada, congregava mais de mil associados.
Num resumo sobre a física do Brasil impõe-se ressaltar o trabalho do grupo teórico inicial que, no país ou no exterior, elevou a física brasileira ao nível internacional: Mário Schemberg, José Leite Lopes e Jaime Tiomno. Muitos profissionais atuantes no campo teórico são discípulos desses físicos. No campo da física experimental merecem citação especial: Lattes, pelos estudos de partículas elementares e raios cósmicos; Marcelo Damy de Sousa Santos, que construiu e operou o bétatron da USP; Oscar Sala, responsável pela construção e operação do gerador Van der Graaf da USP; Hervásio de Carvalho, pelos estudos de partículas e radiações com o emprego de emulsões nucleares; José Goldenberg, por seus estudos sobre reações fotonucleares; Jacques Danon pelos trabalhos sobre o estado sólido e efeito Mossbauer. Além deles, destacam-se as pesquisas de Moisés Nussenzveig, em ótica quântica; Leopoldo Nachbin, em matemática aplicada à física; Adir Moysés Luís e Roberto Nicolsky, em supercondutividade; Ronaldo Cintra Shellard, em física de altas energias; Francisco de Oliveira Castro, sobre raios cósmicos; Hélio Teixeira Coelho, sobre forças nucleares; Carlos Bertulani sobre núcleos exóticos
Considerações pós-modernas sobre a ciência, ou… Tudo que tem casca voa!
(I Parte)
(Entrevista concedida à Marcelle Jiroux D’ Ataign – junho / 2011)
Prof. Celso Lugão, o que o senhor tem a dizer sobre estas críticas que têm sido feitas à ciência, pelo discurso pós-moderno?
Se você se refere à chamada “crítica pós-moderna” da ciência, concordo inteiramente com R. Dawkins, quando este diz que esta é uma forma de retórica anticientífica, ou seja, uma forma de expressão elegante (um falar bem) e que no fundo tenta persuadir as pessoas colocando-as contra a metodologia e a prática científica.
A ciência enfrentou e enfrentará em seu caminho muitas distorções e confusões. Desde o criacionismo até o uso inadequado de conceitos da física, como por exemplo, o princípio da incerteza de Werner Heisenberg e a teoria da relatividade de Albert Einstein até os conceitos de holografia e física quântica.
Quer dizer então que o senhor não aderiu a estes conceitos?
Note… Não se trata de “aderir” a conceitos… Quando você me convidou, pela Internet, para realizar esta entrevista… E enquanto estava pensando no título para a mesma, resolvi comer uma tangerina. Como estava num lugar alto e ventava muito e estava muito frio, não joguei as cascas e as sementes lá do alto – faço isto porque é ecológico! (risos); simplesmente imaginei que poderia ter feito isto porque eu não queria me expor ao frio lá de cima; algo como as experiências imaginárias de Galileu Galilei. (Segundo Alexandre Koyré a tal experiência na Torre de Pisa é uma lenda – ver referência bibliográfica).
Assim, tal qual Galileu, imaginei-me arremessando cascas de tangerina, maçã, pêra e até abacaxi e melancia lá de cima!… E todas sairiam “voando” com aquele vento.
Coloco “voar” e “aderir” entre aspas porque este é justamente um dos problemas que a ciência enfrenta: a tremenda confusão conceitual que se faz… Sabemos que a ciência, cada vez mais, tem campos de especialização e exige uma metodologia rigorosa em busca da verdade (lá vamos nós)… Que verdade é esta? Busca-se uma objetividade, um entendimento de como a natureza age.
Independente de um partidarismo ideológico, político ou religioso, se você ligar o seu chuveiro e estiver em dia com a conta da luz (risos), a água sairá quente… O ventilador também irá funcionar… E a marca da vacina em seu braço lembrará a você dos bons usos da ciência… Assim como as bombas lançadas em Hiroshima e Nagasaki mostraram o mau uso da ciência. O fato é que ambas as situações, a vacina e as bombas, mostram que a ciência é capaz de ter um entendimento da dinâmica da natureza e reproduzir esta, assim como interferir, evitando doenças ou gerando destruição.
Sendo psicólogo e não físico não posso “aderir”, ou me apropriar, dos termos da física, seria um absurdo e uma ingenuidade, Richard Feynman que era uma autoridade no assunto costumava dizer que “se você acha que entende a física quântica, é porque não entende a física quântica”.
Richard Feynman
Portanto, como psicólogo, leio sobre alguns conceitos de outras disciplinas e aprecio estar atualizado no que tange aos avanços da ciência, mas não posso “aderir” ingenuamente; assim como sei que as cascas estavam “voando” porque eu as remessei, em minha imaginação, lá para baixo e resolvi rotular a queda delas de vôo e deduzir uma “lei” –> tudo que tem casca voa… De fato elas não estavam voando. Eu forcei, inventei, uma idéia.
Pensemos, qual é a utilidade disto para a ciência? Que avanços isto traz? Não se trata de retirar o lado contemplativo da ciência, o chamado “elogio ao ócio” como Bertrand Russel alertou e recomendava. O uso da imaginação é importantíssimo, afinal o cérebro é um simulador de primeira.
Então o senhor é contra o uso da apropriação inadequada destes conceitos, ou seja, quando alguém fala da incerteza ou da relatividade, ou ainda de fenômenos quânticos na psicologia, o senhor discorda?
Se possível saio de perto porque posso quanticamente me contaminar (risos).
Na verdade penso que tal pessoa deve ser uma autoridade no assunto e aí pergunto o que ela sabe sobre matemática, a relatividade, ou o Princípio da Incerteza de Werner Heisemberg…
Se ela diz “não gosto de matemática” e pergunta, princípio de quem? Eu trato de correr para não me contaminar (risos).
Já ouvi coisas do tipo… “Depois de Einstein tudo é relativo, logo toda verdade é relativa”.
Tudo é incerto após o “tal” princípio da incerteza, e agora, tudo é quântico!
Como diria o menino prodígio: “Santa besteira, Batman!” Ou já que estamos na era quântica… “Quanta besteira, Batman!”.
Simplesmente não se acrescenta nada a pesquisa se apropriando de uma terminologia sem propor ou mostrar qual será a vantagem desta mudança.
B. F. Skinner chama isto de ficções explanatórias, ou seja, parece que você está explicando algo, mas não está. O que vem a ser a tal hipnose quântica?
Não sei, sinceramente, não sei.
Bem, esta seria uma das perguntas que eu tinhaaqui…
Ganhamos tempo (risos). Mas posso acrescentar que muito do que estamos conversando aqui, sobre confusões, distorções e pós-modernismos (repito, realmente ainda não entendi o que este “movimento” traz de novo), está na obra de R. Dawkins… Desvendando o arco-íris. Há também um pensador que aprecio muito e, se me permite, colarei um trecho extraído da Wikepedia sobre este assunto. Trata-se de Avram Noam Chomsky, lingüista, filósofo e ativista político. Segue o texto na cor azul…
Chomsky tem refutado fortemente o desconstrucionismo e as críticas do pós-modernismo à Ciência:
“Tenho passado muito tempo da minha vida a trabalhar em questões como estas, a utilizar os únicos métodos que conheço e que são condenados aqui(pelo pós-modernismo, acrescenta o prof. Lugão)como “ciência”, “racionalidade”, “lógica” e assim por diante.
Portanto, leio esses artigos com certa esperança de que eles me ajudassem a “transcender” estas limitações, ou talvez me sugerissem um caminho inteiramente diferente.
Temo ter me desapontado.
Reconheço que isso pode se dever às minhas próprias limitações.
Muito frequentemente meus olhos se esgazeam quando leio discursos polissilábicos de autores do pós-estruturalismo e do pós-modernismo. Penso que tais textos são, em grande parte, feitos de truísmos ou de erros, mas isso é apenas um pequeno pedaço dessa coisa toda.
É verdade que há muitas outras coisas que eu não entendo: artigos nas edições atuais dos periódicos de Matemática e de Física, por exemplo. Mas existe uma diferença, neste último caso, eu sei como entendê-los, e tenho feito isto em casos de particular interesse para mim; e eu também sei que outras pessoas que trabalham nestes campos podem me explicar seu conteúdo em meu nível, de modo que possa obter uma compreensão (embora às vezes parcial) que me satisfaça.
Em contraste, ninguém parece ser capaz de me explicar que o último artigo “pós-isto-e-pós-aquilo” não seja (em sua maior parte) outra coisa que não truísmos, erros ou balbúcios, de maneira que eu não sei o que fazer para prosseguir com eles.”
Chomsky nota que as críticas à “ciência masculina branca” são muito semelhantes aos ataques antissemitas e politicamente motivados contra a “Física judaica” usada pelos nazistas para minimizar a pesquisa feita pelos cientistas judeus durante o movimento Deustche Physik:
“De fato, por si só a ideia de uma ‘ciência masculina branca’ me lembra, eu temo, a ideia de uma “Física judaica”.
“Talvez seja outra inaptidão minha, mas quando leio um artigo científico, eu não consigo dizer se o autor é branco ou se é homem”.
O mesmo é verdade para o problema do trabalho ser feito em sala de aula, no escritório, ou em qualquer outro lugar. Eu duvido que os estudantes não-masculinos, não-brancos, amigos e colegas com quem eu trabalho não ficassem deveras impressionados com a doutrina de que seu pensamento e sua compreensão das coisas seria diferente da “ciência masculina branca” por causa de sua “cultura ou gênero ou raça”. Suspeito que “surpresa” não seria bem a palavra adequada para a reação deles.
Bem, professor Lugão, então não devemos ousar e ser criativos em ciência? É perigoso?
Pelo contrário… Ousadia e criatividade fazem a ciência avançar. Há uma diferença também aqui entre o entendimento de certos conceitos… Há uma diferença brutal entre ser ousado e ser imprudente, assim como a criatividade necessita de uma base sólida para dar frutos.
Sempre menciono a obra de Salvador Dali para exemplificar que antes dele criar as suas expressões surrealistas, com suas fantásticas formas distorcidas ele havia dominado as formas clássicas com tal maestria que seus quadros do corpo humano parecem fotografias de anatomia.
Você não irá ver um especialista em química ganhar um prêmio de psicologia, e nem verá uma grande atriz de teatro ganhando o prêmio Nobel de Medicina ou Biologia.
Ou seja, não haverá uma contribuição notável se você estiver fora daquele campo.
Você não ouvirá que o último Teorema de Fermat foi resolvido por uma pessoa que não conhecia matemática profundamente. Aliás, é preciso esclarecer que existem contribuições de pessoas que conhecem um assunto porque são autodidatas, mas mesmo assim aí está o que se argumenta… É preciso conhecer, estudar, o assunto. Talvez você não precise ter um conhecimento formal, digo, há tempos atrás não havia a formalização de um diploma, de uma carreira universitária, donde você poderia pesquisar independente de ter um diploma, uma profissão.
Ainda se pode agir de tal forma, mas isto agora é bem mais difícil porque as informações se multiplicaram e a ciência cada vez mais se torna um empreendimento conjunto. A Internet mostrou ser uma ferramenta poderosa porque pode integrar e levar informação a uma distância incrível e de forma praticamente simultânea. Basta você clicar a tecla “enter” ou “send”.
Ouvi falar que Pierre de Fermat não era matemático…
Bem, pelo que recordo ele é justamente o meu bom exemplo de uma pessoa não formada num campo, mas que se dedicou ao estudo a tal ponto de ser capaz de dar contribuições.
Creio portanto, se minha memória não me trai, que ele não era formado em matemática, mas tinha um domínio enorme desta disciplina e seus problemas para ter formulado teoremas. Foi isto que eu quis dizer acima. Ninguém que odeie matemática, ou saiba apenas matemática elementar poderá dar alguma contribuição ao campo da matemática. Isto é lógica e é psico-lógica também. Portanto, não faz sentido uma pessoa que desconhece um assunto dar alguma sugestão válida.
(No detalhe: o título do capítulo… Estatística para estudantes que detestam estatística, no manual de Psicologia de James Whittaker da editora Interamericana).
Li em seu site uma referência ao Dr. Judah Folkman ( no artigo: Memória e Psicoterapia: Milton Erickson & Eric Kandel)… Os cientistas não deram importância ao que ele argumentava sobre a angiogênese… O Sr. pode explicar isto?
O Dr. Folkman era médico e cirurgião e devido a sua prática clínica observou certos padrões em relação aos tumores cancerígenos… Eles precisavam de uma rede de vasos sanguíneos de abastecimento para se desenvolver… Como ele não era um “pesquisador de carteirinha”, isto é, embora fosse médico não era reconhecido pelo seleto grupo de pesquisadores da época…
Perdoe-me interromper… Neste caso, prof. Celso Lugão, a ciência se mostrou preconceituosa?
Bem, a ciência é feita por cientistas, e cientistas são pessoas. E esta é outra questão que confunde os leigos… Justamente por ter uma metodologia que visa a imparcialidade ideológica o argumento científico poderá ser censurado por um grupo, mas acabará vingando e prevalecendo. Foi o que houve com a hipótese da angiogênese e o Dr. Folkman deu um depoimento fantástico sobre isto.
Cada vez fica mais claro que se você recebe uma crítica de um colega e mais tarde a tua hipótese prevalece ele ficará numa posição difícil se a crítica dele não tiver sido baseada em argumentos científicos, mas sim em preconceitos.
Porque se a crítica não se apóia na argumentação científica ela é tão leiga quanto qualquer opinião leiga, só que isto mostraria aspectos da personalidade daquela pessoa. Em psicologia social se estuda o fenômeno da polarização de atitudes, isto é, depois de investir durante uma vida numa hipótese é bem humano você se apegar emocionalmente àquela. Talvez você perca a criatividade por que estará sempre repetindo um caminho. A teoria por um lado organiza o conhecimento, por outro (o lado humano) ela pode cegar o pesquisador.
Einstein no quadro
Parece que só após vinte anos ele teve sua hipótese reconhecida… Isto não atrasou o desenvolvimento científico?
Certamente, por isto os órgãos de financiamento têm um papel fundamental ao escolher as pessoas para os cargos de decisão e distribuição de verbas. O criacionismo foi péssimo para a ciência e quando os soviéticos começaram a ganhar a corrida espacial o governo norte-americano teve que repensar o lugar do evolucionismo nas escolas. Refletindo sobre isto e o caso do Dr. Judah Folkman fica patente a enorme importância de se pensar sobre a psicologia dos cientistas e dos administradores… E o papel da ciência no desenvolvimento da espécie humana.
Suas últimas palavras prof. Celso…
Bem, espero que não sejam as últimas, rss. Desculpe a brincadeira, mas você me lembrou de Grouxo Marx e de seu epitáfio: “Perdoem-me por não levantar”.
Eu diria que o os problemas levantados pelo pós-modernismo e suas reflexões, os que consegui entender após árdua peregrinação, são antigos e colocados com uma clareza maior por autores como os sociólogos da ciência Karl Mannheim, Robert King Merton. Ou filósofos da ciência como Karl R. Popper, Mario Bunge… Enfim, faço coro com R. Dawkins e N. Chomsky, não entendo o que é esta nova visão porque me parece que ela não é nova… Mas se está dando lucro aos autores é melhor eu ficar quieto e encerrar esta entrevista.
Muito obrigado, prof. Celso.
Foi agradável rever alguns temas, agradeço também.
O Dr. David Servan-Schreiber é aquele sobre o qual se poderia dizer: “Foi um grande sujeito”.
Em 1992, quando o participante de uma pesquisa não apareceu para um exame agendado de ressonância magnética no seu laboratório da Universidade de Pittsburgh (EUA), o doutor, considerando-se menos preparado que seus dois outros colegas para lidar com a máquina de ressonância magnética, tomou o lugar no aparelho e o exame mostrou um tumor cerebral (agressivo) do tamanho de uma noz. Foi uma notícia terrível e prá lá de inesperada. Em seu livro há a narrativa de todo o calvário pelo qual ele passou, e isto é uma reação universal, ou seja, tais notícias sempre geram um impacto enorme na pessoa e em seu círculo próximo. Portanto, é preciso coragem para admitir e para suportar e pedir ajuda.
Evidentemente, o neurocientista somente retornou à sua rotina usual após ser tratado e se recuperar.
Entretanto, cinco anos depois o tumor reapareceu e ele percebeu que tinha de procurar, por si mesmo, o que poderia fazer para reforçar a capacidade do corpo para combater a doença. Porém, é bom que se declare, jamais postulou contra os tratamentos convencionais, apenas alertou sobre os fatores envolvidos na saúde, tanto para evitar problemas quanto para ajudar quando os problemas já existem ou se manifestaram.
O resultado destas pesquisas foi a obra “Anticâncer”, publicado pela primeira vez em 2007, que detalha as principais alterações no estilo de vida do pesquisador para ajudar o organismo a combater o tumor.
Pois bem, todos nesta situação se desesperam e congelam, porém alguns usam todaa sua capacidade de resiliênciapara tentar se harmonizar e esticar a vida com qualidade.
Um grupo menor ainda é capaz de produzir conhecimento para auxiliar a humanidade, principalmente aqueles que sofrem.
O doutor David Servan-Schreiber foi além; não só apontou meios para auxiliar o tratamento convencional como alertou para a importância da profilaxia fazendo coro com muitas vozes que têm denunciado o abuso de agrotóxicos, de fatores de contaminação e de outros fatores perigosos para a saúde ( por exemplo, o mercúrio jogado nos mares e que é absorvido pelos peixes que comeremos); a produção insana de alimentos, seja o gado, sejam as aves, empobrecendo suas rações (o ômega 3 que faz muita falta) e enchendo-os de hormônio para o crescimento e o abate rápido. Fica evidente porque um sujeito que se alimenta de produtos saudáveis, mesmo de carne de animas criados no pasto, livres de rações, tem menos problemas, inclusive com o colesterol, do que pessoas que se alimentam dos produtos industrializados, com seus acidulantes, corantes e conservantes; e ainda por cima empobrecidos de elementos fundamentais, como é o caso do já citado Ômega 3.
Lester Brown, presidente do WWI-Worldwatch Institute em entrevista à TV Cultura, autor de várias obras, dentre elas, o Plano B 4.0, cujo título é Mobilização para salvar a humanidade, disse:
“A questão não é lucrar menos, mas como construir uma economia em que o progresso econômico possa continuar”
Obs. A expressão ”progresso econômico” implica na existência da espécie que criou tal conceito, nós, os seres humanos somos justamente a espécie em questão…
E prossegue L. Brown : “ Fazemos um check-up anual da Terra, o mesmo check-up que você faz quando vai ao médico. O que vemos nos 17 anos em que editamos o relatório é que, a cada ano, a saúde do paciente se deteriora”.
Sobre Lester Brown declarou Edward O. Wilson,
“Se o Prêmio Nobel da Paz de 2007 tivesse sido estendido a um terceiro ganhador, o candidato lógico teria sido Lester Brown.”E sobre o Dr. David Servan-Schreiber se pode declarar que através de sua obra e de seu exemplo auxiliou muitos clientes e pessoas, não só deste que redige este tributo mas de muitas outras pessoas. E desta forma trabalhou para a preservação da qualidade de vida da espécie humana.
Lendo suas obras, principalmente o livro Anticâncer, se percebe muitas conexões com temas que preocupam cientistas e pensadores como Lester Brown, James Lovelock e Noam Chomsky. O leitor interessado poderá ler vasto material na Internet ou em obras publicadas (aconselha-se) sobre estas três personalidades mencionadas.
E reafirme-se que quem lê suas obras percebe claramente que em nenhum momento ele aconselha a quem quer que seja abandonar os tratamentos convencionais e necessários, pois ele próprio manteve-se nesta linha de conduta. Fez a cirurgia e usou os medicamentos prescritos.
Talvez fosse bom reiterar também aqui:
” Jamais deixes de seguir os especialistas, consulte mais de um para entenderes bem sobre o teu problema e fazer as escolhas certas, isto é, um profissional que combine competência e confiança. Em geral estes conversam abertamente com seus clientes e não se colocam em pedestais… Ouvem seus clientes, e ouvir ao próximo e dialogar é fundamental para a espécie sobreviver. Se pode perceber isto tanto nas obras de Bertrand Russel, quanto na de Karl R. Popper e nas de Jürgen Habermas, para citar alguns.
Karl R. Popper –>
Quando você tenta falar e o outro não te escuta, existem dois monólogos, mas não um diálogo.
Portanto, como diz a garotada, “Valeu doutor, mandastes muito bem!”
Bertrand Russell (acima)
“Eu tenho muito orgulho, como cientista, de ver colegas assim, trilhando com dignidade, coração e altivez o seu caminho”. Lugão
Reconstruindo o passado emocional dos clientes Eric Kandel–> Acima (à esquerda – Milton Erickson) O jovem Erickson (in College) – acima
“Não tenho amigos, vivo sozinha e sou muito sem graça para me casar. Decidi procurar um psiquiatra antes de cometer suicídio. Vou tentar por três meses, e então, se as coisas não se endireitarem será o fim “. Estas foram as palavras de uma jovem de 20 anos para Milton Erickson…
Por outro lado o prêmio Nobel em fisiologia ou medicina no ano 2000, Eric Kandel, nos fornece dados consistentes sobre a memória para embasar a psicoterapia e a hipnoterapia.
A estratégia usada por Milton Erickson neste caso clássico é uma combinação de habilidades técnicas e uma sensibilidade em relação aos dilemas e sofrimento humanos que nos remete a uma série de questões epistemológicas.
A primeira está na relação entre o conhecimento teórico e a prática. Milton Erickson, além de ter um domínio enorme das técnicas psicoterápicas e hipnoterápicas, possuía uma percepção aguçada em relação aos dilemas humanos, fruto de seus estudos e de sua prática diária consigo mesmo, em virtude de sua luta com a poliomielite.
Algumas pessoas que o conheceram o descreveram como alguém possuidor de uma intuição incrivelmente poderosa, por exemplo, o Dr. J. Fink conta uma passagem em que outro médico disse que Erickson era abominavelmente intuitivo porque em apenas 30 segundos observando uma paciente havia acertado o diagnóstico que custara três meses a este médico. Esta entrevista na íntegra consta na obra “O HOMEM DE FEVEREIRO” de Milton Erickson e Ernest Rossi. Aliás, esta obra fantástica é a tentativa de explicitar a metodologia e as técnicas empregadas por Milton Erickson em um único caso clínico que foi batizado pelo nome que deu título ao livro. O subtítulo, traduzido: expandindo (evolving, o sentido de evoluindo também é necessário) a consciência e a identidade em hipnoterapia, (in hypnotherapy, portanto, usando a hipnoterapia).
O tema da resiliência era aguçado e lapidado dia após dia em Erickson. Logo, ele percebeu que a memória teria mais do que a função de armazenar dados, pois o sentido do tempo usado pela mente consciente (passado->presente->futuro) se processa emocionalmente no inconsciente, ou seja, a linguagem do cérebro é analógica e na mente inconsciente as conexões emocionais têm um enorme peso podendo ligar eventos distantes no tempo instantaneamente. Um símbolo ou um aprendizado sempre têm uma carga emocional vinculada. Donde Erickson percebeu a importância de se regredir no tempo emocional para se proceder a reconstrução das memórias que simbolizam os problemas.
Logo, quando Milton Erickson fazia uma regressão com seus clientes ele sempre procurava dar um jeito de colocar algo mais ali, ou seja, não apenas regressar ao passado mas colocar nestas lembranças novos recursos, ângulos novos de observação. Em certo sentido, isto é exatamente o que as pesquisas sobre a neuroplasticidade apontam hoje. Você pode com treinamento mudar o cérebro. A cada nova pesquisa fica mais evidente que não só o cérebro afeta a mente, mas a mente pode afetar o cérebro. Se você pode ver o passado através de novas lentes, com mais recursos, você certamente irá modificar os sentimentos em relação aos eventos. Um pai ou uma mãe percebidos como analfabetos e cercados pela vergonha dos filhos de apresentá-los perante a sociedade letrada, podem ser vistos com orgulho pelo sacrifício que fizeram para que seus filhos pudessem aprender a ler e escrever. O ódio sobre uma mãe que abandonou seu filho, pode ser percebido como a consciência de alguém que não tinha meios de criar um filho e preferiu entregá-lo a um orfanato. Decisões difíceis que só quem está naquele momento, vivenciando o presente com os recursos disponíveis pode experimentar.
Estudar Erickson é aprender a não julgar os outros, é aprender que todo e qualquer comportamento, por mais estranho que pareça pertence a gama de possibilidades humanas. Milton Erickson ensina muito sobre a aceitação incondicional que Carl Rogers também indicava como princípio básico de conduta para os psicoterapeutas. Aceitar o cliente como ele é, e depois tentar ampliar e/ou modificar uma conduta.
Pacing e leading são os nomes que R. Bandler e J. Grinder deram a isto, entrar no ritmo do cliente e depois guiá-lo.
O campo da psicoterapia sempre teve seus ícones , como S. Freud, C. G. Jung, A. Adler e H. S. Sullivan, F. Perls, A. Ellis, A. Beck … Cada um deles, a sua maneira, deu contribuições notáveis ao campo, porém agora a psicoterapia conta com os avanços das neurociências. O estudo do cérebro e da mente, as pesquisas sobre a neuroplasticidade, tudo isto nos remete a só uma conclusão… É preciso sistematizar o conhecimento para uma análise das contribuições e dos caminhos (rumos) que a psicoterapia deverá tomar.
Vilayanur Ramachandran, em sua fascinante obra Fantasmas no cérebro: uma investigação dos mistérios da mente humana(ed. Record, originalmente publicada em 1998, traduzida em 2004, prefaciada por Oliver Sacks, e escrita em conjunto com a jornalista especializada em neurociências Sandra Blakeslee), nos diz que quando se estuda os casos de paralisia os clínicos acabam se deparando com o fenômeno da anosognosia (desconhecimento da doença). Este fenômeno foi observado por J. F. Babinski em 1908. (op. cit., p. 170). Foi assim que Ramachandran acabou se deparando com as idéias de S. Freud sobre a negação, as racionalizações e pela possibilidade de testar algumas destas idéias. Remeto o leitor a sua obra, garanto que não irá se arrepender. O intuito deste excerto é por um lado instigar a curiosidade (pacing) e por outro levar (leading) o leitor a ampliar seu conhecimento lendo as obras aqui citadas. Pode-se dizer também que há um terceiro propósito, introduzir as contribuições dos pesquisadores da memória, em particular a obra de Eric Kandel.
Este notável pesquisador
Uma das descobertas sobre o câncer, advém de um clínico que … O Dr. Judah Folkman, oficial médico da marinha nos anos 1960,
Um primeiro ponto está na relação entre o conhecimento e a prática. Uma das descobertas sobre o câncer, advém de um clínico… Em suas próprias palavras..
Carl Sagan, neste filme da clássica série Cosmos, nos fala sobre a memória.
Celso Lugão
Como a ansiedade afeta o corpo
A dor está no cérebro
BIOTECNOLOGIA Em vez da cura, o controleApós 35 anos, a teoria do médico Judah Folkman
virou revolução. Seguindo suas idéias, a ciência
quer transformar o câncer numa doença crônica, como o diabetes. Ruth Helena Bellinghini
Janet Knott/NYT
Judah Folkman, professor da Escola de Medicina de Harvard e diretor do Programa de Biologia Vascular do Children’s Hospital de Boston, é uma das maiores estrelas da pesquisa mundial sobre câncer. Calmo, ponderado e avesso a holofotes, é apenas cautelosamente otimista. Por isso, quando diz que vem por aí uma revolução no tratamento e na abordagem da doença, é bom prestar muita atenção. “Há 35 anos, era uma idéia, uma teoria, mas hoje está se tornando realidade: temos tudo para transformar o câncer numa doença crônica, administrável com alguns comprimidos, como fazemos com a hipertensão e o diabetes”, diz. Tal possibilidade começa a se consolidar com o nascimento de uma nova classe de medicamentos. Eles impedem que o câncer crie novos vasos sanguíneos para se alimentar, crescer e se espalhar. Essas drogas, chamadas antiangiogênicos, evitam o avanço do câncer, mantendo-o pequenino e restrito ao órgão em que surgiu. Detalhe: Folkman também foi pioneiro nas pesquisas nesse campo. Eis suas respostas para algumas das grandes questões em torno do assunto.
VEJA: Quantas drogas capazes de barrar o avanço do câncer já estão disponíveis?
JUDAH FOLKMAN: Nos Estados Unidos, são doze os medicamentos aprovados pelos órgãos de controle e mais 23 em diferentes fases de testes clínicos. Dois deles, Tarceva e Avastin, estão prestes a ser liberados no Brasil. Inicialmente, são indicados para pacientes com câncer em estágio avançado, mas, aos poucos, isso vai mudar. Existem várias substâncias que promovem o crescimento de vasos sanguíneos e, por isso, precisamos ter um grande arsenal de antiangiogênicos para combatê-las. São drogas com pouquíssimos efeitos colaterais e podemos usá-las alternadamente: se uma não funciona para o paciente, poderemos recorrer a várias combinações.
VEJA: Como essas drogas vão mudar o tratamento do câncer?
FOLKMAN: Hoje o paciente que tem um câncer de intestino, por exemplo, faz uma cirurgia para removê-lo, quimioterapia para evitar que se espalhe e, depois de oito ou nove anos, pode descobrir um nódulo no fígado. A recidiva, que é o reaparecimento da doença, e a metástase – sua disseminação pelo corpo – são os maiores problemas dos chamados três grandes tipos de câncer: pulmão, cólon e mama. Eles respondem por 50% das mortes provocadas pela doença. Se houver meios para acompanhar esses pacientes e logo após a cirurgia iniciar uma quimioterapia com as drogas antiangiogênicas, pode-se impedir que esses tumores secundários cresçam. Eles até podem estar em outros órgãos, em dimensões microscópicas, nas chamadas micrometástases, mas serão incapazes de recrutar nutrientes para crescer e causar problemas.
VEJA: Quando um tumor aciona esse mecanismo para formar vasos?
FOLKMAN: Tumores são ocorrências comuns no nosso organismo. Cerca de 30% das mulheres entre 40 e 50 anos têm carcinomas (tumores malignos) de mama restritos e minúsculos, que elas nunca vão descobrir. E nem precisam, pois eles jamais lhes causarão o que se conhece como câncer. Praticamente todas as pessoas entre 50 e 70 anos têm carcinomas de tireóide e jamais saberão disso. Autópsias mostram que quase 80% dos homens de 80 anos, mesmo os que morrem por outras causas, têm cânceres de próstata e poderiam ter vivido até os 100 sem que isso lhes causasse problema. Isso porque, além de pequenos, eles têm um desenvolvimento lento. O câncer avança e se torna mortal num número reduzido de pessoas, quando, além das alterações genéticas que produzem o tumor, as células malignas conseguem criar novos vasos sanguíneos para crescer rapidamente e se tornar agressivas.
VEJA: Bloquear o processo de formação de vasos sanguíneos não cria problemas para o organismo?
FOLKMAN: Existem pouquíssimas situações em que o organismo naturalmente cria vasos. Isso ocorre com embriões, nas mulheres, durante o período menstrual e na gravidez, e em casos de ferimentos. Por isso essas drogas têm poucos efeitos colaterais. Além disso, à medida que chegarem ao mercado, serão descobertos novos usos para essas drogas. Já se sabe que elas podem ser utilizadas contra a degeneração macular, uma doença que causa cegueira em idosos.
VEJA:Que pacientes poderão usar as novas drogas e a partir de que momento do tratamento?
FOLKMAN: Sabe-se que existem biomarcadores no organismo que indicam, por exemplo, que o câncer vai voltar. Quem carrega essa informação são as plaquetas, as estruturas do sangue responsáveis pela coagulação. Plaquetas vivem por apenas oito dias, mas, quando passam por uma célula cancerosa, exibem um marcador. Em princípio, no futuro, um simples exame de sangue deve bastar para saber se é hora ou não de iniciar o tratamento com antiangiogênicos.
VEJA: Mas não será preciso saber onde o tumor vai reaparecer?
FOLKMAN: Não. Antigamente, antes dos antibióticos, quando alguém tinha uma infecção, esperava-se que ela supurasse, criasse aquela bolha de pus, para o médico lancetar. Hoje, pouco importa onde está o foco infeccioso. Você toma um antibiótico e fica bom. Com o câncer vai ser a mesma coisa. Essas novas drogas vão mudar a vida de 500 milhões de pessoas nos próximos dez anos.
From Wikepedia…
Nikolai Andreyevich Rimsky-Korsakov, (em russo: Никола́й Андре́евич Ри́мский-Ко́рсаков) membro de uma família aristocrática, manifestou talento musical desde muito cedo: aos 6 anos de idade começou a ter aulas de piano, e aos 9 anos já compunha. Aos 12 anos, ingressou no Colégio Naval Imperial Russo[6] de São Petersburgo e, posteriormente, na Marinha Russa.
Em 1861 conhece Mily Balakirev e, com ele os outros membros do Grupo dos Cinco, retoma os estudos musicais[10]. Ainda na Marinha, parcialmente durante uma viagem de circum-navegação, escreveu sua Sinfonia No. 1 (1861-65), que foi muito bem recebida. Antes de deixar seu posto em 1873, compôs a primeira versão da peça orquestral Sadko (1867) e a óperaA donzela de Pskov (1872).
É nomeado professor de bandas da armada. Entre 1874 e 1881 é diretor de concertos do Conservatório Livre e regente de concertos fundados por Mitrofan Belyayev. Entre 1883 e 1894 trabalha com Balakirev na Capela da Corte, onde estuda a música da Igreja Ortodoxa Russa. Nesse tempo também se dedica a natação que apreciava treinar no verão dos mares sibeianos.
Apresentou-se como maestro por toda a Europa, inclusive em Paris, durante a Exposição Universal de 1899. Em 1905 é demitido de suas funções pedagógicas após publicar uma carta de protesto em que critica as autoridades que administravam o Conservatório. Este ato gera uma série de demissões imediatas, como as de Liadov e Glazunov. Com o escândalo, a instituição é completamente reorganizada sob o comando de Glazunov, que foi readmitido para comandar o novo Conservatório de São Petersburgo. Nos anos seguintes Rimsky-Korsakov causa nova polêmica com a publicação da ópera O galo de ouro (1906-07), em que critica a monarquia russa de tal forma que só pôde ser apresentada em 1909, após sua morte. Relacionado a isso, Korsakov também era famoso por seus habitos excentricos como jogar futebol no auge do inverno russo nos lagos congelados de São Petersburgo. ——–> Ocara era bom- disse Luganus, um possível Asperger – Outsider !
O vício repousa em uma dissociação, ou seja, conscientemente você sabe que fumar faz muito mal, dá câncer, etc., entretanto a pessoa fuma. Isto acontece além do controle do córtex. A pessoa diz ser capaz de parar a hora que quiser, mas não para. Garante que tem liberdade, mas não tem escolha para dizer não, logo não tem liberdade.
A pessoa nega seu problema. E a negação é a primeira e árdua etapa a ser ultrapassada no tratamento.
Neste artigo existem dados sobre as drogas, há uma entrevista com o Dr. Eduardo Kalina (psiquiatra), com a Dra. Nora Volkow e trecho de outra com o Dr. Gustavo Leal Meirelles (neurologista), sobre a maconha. A absurda e leviana proposta da legalização, as evidências sobre a maconha, que causa até esquizofrenia.
Abaixo seguem reflexões, trechos de aulas e entrevistas concedidas pelo Prof.Celso Lugão da Veiga, do SPA-IP da UERJ com 30 anos de experiência na área clínica, via telefonemas de repórteres.
“É tentador poder voar como o Dumbo, além do que ele é bonitinho e aparentemente inofensivo. Entretanto, sabemos que elefantes de verdade não voam e que eles são inofensivos apenas se não mexermos com eles. O mesmo vale para certas plantas”. (Trecho de aula proferida no IP – UERJ)
A cicuta não irá te envenenar se você a deixar quieta lá, o mesmo ocorre com a maconha, ela é inofensiva se ficar lá, mas se você interagir com ela, será como o ataque do elefante, no vídeo abaixo, em seu cérebro e em sua vida. Tudo neste planeta tem uma ligação inexorável, podemos perceber o equilíbrio entre as plantas, animais e minerais. Portanto, enquanto as formas de vida respeitam seus habitats não há dano considerável, mas quando se interage com certas formas o risco é previsível e certo.
O vídeo abaixo mostra do que elefantes são capazes quando provocados, o mesmo ocorre com as drogas, inclusive esta que tem sido intencionalmente colocada pelos grupos armamentistas como inofensiva, a perigosíssima cannabis sativa, a maconha.
No vídeo se diz que não se sabe a razão pela qual o animal ficou enfurecido, há outros vídeos que mostram o quanto estes animais sofrem nos bastidores, longe de sua casa. Você pode ver isto no You Tube, se tiver estômago forte.
O mesmo ocorre com a cicuta, se você a deixar lá na Natureza não haverá problema algum. Cientistas extraem substâncias destas plantas venenosas, mas é tolice liberar substâncias perigosas em mãos despreparadas, e quando falo em mãos isto é uma metáfora, logicamente, para os muitos atributos de um pesquisador qualificado. Você não pode permitir que as pessoas tenham o direito de sair por aí com uma substância radioativa em nome da liberdade do cidadão, ou resolvam nãose tratar de tuberculose e sair espalhando doenças por aí.
O próprio cigarro, que já é um absurdo ser fabricado e vendido, livremente, encontrou o protesto veemente de não-fumantes que não querem ser fumantes passivos. Eu tenho o direito de não querer respirar sua fumaça tóxica. “É, mas na Holanda…” começa sempre um cliente a tentar uma defesa do seu vício. Eu respondo: Se alguém resolveu compartilhar o paladar com as hienas deve ser porque tem um gosto muito exótico e um estômago de abutre” ( No final acrescento uma colagem de matérias sobre a Holanda).
O psicoterapeuta Eduardo Kalina descreveu o uso das drogas como a síndrome de Popeye, a onipotência enlatada, usando a metáfora do marinheiro Popeye e seu espinafre… Basta, diante de encrencas, sacar o espinafre da lata e tudo se resolve…
(Vide Kalina, E. Clínica e terapêutica de adicções. Porto Alegre. Artmed editora. p. 77 – 79). Eduardo Kalina é um dos clínicos que tem lutado para salvar as vidas de quem se mete com as drogas.
Na obra citada acima, do Dr. Eduardo Kalina, também se pode ler sobre o vínculo entre os grupos de poder ligados aos armamentos e a campanha orquestrada por eles para manter uma existência tóxica e assim controlar e prosperar seus negócios (p.109, ibid.) São tais grupos que disseminam a mais de quinze anos idéias como a da legalização da maconha.
Prosseguindo com as reflexões, poderíamos pensar nas seguintes questões, como forma de exercício intelectual…
Se o estupro e o assassinato forem legalizados isto resolve o problema de quem?
Os cigarros e o ácool são legalizados, e daí?, isto evitou as mortes por cirrose, as pessoas não estão com câncer? Não se viciaram do mesmo jeito? E a grana recolhida dos impostos? Mesmo que tivesse sido usada para tratar destas pessoas, isto teria sido inteligente? Você fumou e agora tem um belo câncer, que bom que temos verba dos impostos para te tratar!
“E você que fumou e cheirou a vontade após a legalização acontecer, poderemos agora estudar seu cérebro e tratar do que restou!”
Só mesmo alguém desinformado (epistemologicamente) ou interessado (e há um cordel de políticos e até profissionais de saúde financiados pelo narco-tráfico) pode alegar que a solução para um crime ou patologia deve ser legalizar o processo…
Doença não se legaliza, se trata.
A cannabis e a cicuta, assim como cascavéis e cogumelos fazem parte da Natureza. Simplesmente aconteram graças à dinâmica algorítimica evolutiva. Não precisam ser legalizadas, o que quer se legalizar é um vício crônico, por puro interesse… Não há cabimento em se legalizar o Mycobacterium tuberculosis ou bacilo de Koch, assim como não tem cabimento em se legalizar a tuberculose.
Qual é o sentido em se legalizar uma doença? Elas já são legalizadas, o que se proíbe é a disseminação e contaminação, se você for conscientemente transar com alguém que tem AIDS, isto é uma forma de liberdade ou de suicídio? E mais, se você transar sem usar camisinha (as luvas do médico!) estará se expondo… E se você não sabia e a pessoa que o contaminou sabia que era soro positivo, então isto é crime, e ela será penalizada por isto. Tráfico de doença!!! A drogadicção é uma doença.
Portanto…
Legalizar uma doença não é um argumento cientificamente válido, porque as doenças não passam por este crivo. Se alguém foi contaminado por radioatividade deve ser tratado… Mas não se pode permitir que as pessoas saiam por aí com material radioativo. Não se pode permitir que a sociedade seja ameaçada porque alguém quer ser “livre” para andar por aí espalhando o vírus da tuberculose. O conceito de liberdade está inexoravelmente ligado ao conceito de responsabilidade e controle… Somos livres na exata medida em que nos controlamos… Lição da filosofia oriental e ocidental… A meta do budismo e do humanismo.
Quando a ciência da biologia (na medicina) avançou e descobriu a assepsia ficou claro que o médico não tinha mais o direito de não lavar as mãos e deixar de por as luvas. O médico não tem o direito de espernear que quer ser livre para operar sem luvas e esterilização, até porque isto o protege também das infecções.
Uma curiosidade, Oliver Wolf Sacks (in Tio Tungstênio – memórias de uma infância química. São Paulo, Cia das Letras. 2002), além de contar o que mais gosta neste mundo… salmão defumado e Bach (p. 185) também traz importante informação histórica sobre os
Oliver Wolf Sacks
erros da ciência (p. 261-262), ao liberar drogas no passado sem extensa pesquisa, como aliás foi o caso da Talidomida…
Veja dados sobre isto no site da Associação Brasileira dos Portadores da Síndrome da Talidomida http://www.talidomida.org.br/oque.asp
Na obra supracitada conta-nos Oliver Sacks que nos EUA, por volta de 1932, médicos receitavam uma ingestão de soluções radioativas como a Radithor para rejuvenescimento, cura de câncer de estômago e doença mental (Sic!!!)… Somente com a morte de um magnata norte-americano chegou ao fim a mania da radioatividade… Seus ossos foram se desintegrando e ele morreu de forma grotesca.
Bem… Assim, como Dumbo pode voar, Popeye pode resolver seus problemas magicamente… Entretanto, me incomoda pensar em tais ícones infantis como exemplo de coisas trágicas, então proponho, se o leitor também se incomoda, a seguinte percepção de tais metáforas (Dumbo e Popeye)… Eles são inofensivos como as plantas, a própria cannabis e a cicuta não me farão mal se eu souber o lugar delas e o meu… Se respeitarmos nossas naturezas. Se entendermos que a magia encantadora de Dumbo ao voar é uma metáfora para crianças, assim como o espinafre de Popeye é mágico, entenderemos que o drogadicto é alguém que se recusa a crescer, por isto fica bravo quando apontam comportamentos pueris, por isto reafirma que já é adulto, diz isto com a boca, a linguagem verbal, mas comporta-se com rebeldia em relação as responsabilidades do mundo adulto. Quer magicamente arrumar sua vida lá fora, sair voando, mas não consegue arrumar seu quarto, lavar suas calcinhas, cuecas e meias. Seu psiquismo preso nos princípios do prazer da infância odeia críticas, abomina que lhe chamem a atenção; tal e qual na infância e nos primórdios da adolescência, o drogadicto ficará congelado nestas fases… O mundo lá fora se transforma, seus amigos(as) arranjam empregos e progridem, constituem famílias ou atingem a autonomia. A doença o imobiliza; drogadicto é uma palavra de origem latina…
“ADICÇÃO” em português designa a inclinação, apego de alguém por alguma coisa e “ADICTO“, define o indivíduo propenso à prática de alguma coisa de forma compulsiva. A origem do termo vem do latim, “addictum” – o oferecido. Nos tempos da Roma antiga, o termo designava o indivíduo que, para pagar uma dívida, se convertia em escravo por não dispor de outros recursos para cumprir o compromisso contraído.O adicto se assumia como marginal; alguém que, fatal ou voluntariamente, fora jogado numa condição inferior a que tivera até então. O adicto parece, assim, como aquele que perdeu a sua identidade e, simultaneamente, adotou uma identidade imprópria como única maneira possível de saldar sua dívida consigo mesmo.
Sigmund Freud teorizou sobre a formação do ego, do id e do superego. A criança inicia sua vida com base nos impulsos do Id, tudo que for prazeroso quer, o brinquedinho do amiguinho quer levar para sua casa… Aí entra a educação, a combinacão do superego e dos ego dos pais, dos adultos… A criança começa a formar o princípio da realidade, que será fundamental para seu EGO, que permitirá faze-la chegar ao mundo adulto tolerando as coisas ruins, as frustrações. Afinal, nem tudo são rosas… Há espinhos na roseira!
O drogadicto está preso no dilema do crescimento, talvez apavorado com a percepção precoce da morte, por isto não quer crescer, ir para o futuro. Preferem se trancar em seus casulos… Adolescentes se trancam em seus quartos e um dia, se crescem, saem de lá, tal e qual borboletas passam pela metamorfose para uma nova etapa da vida. Já o drogadicto se refugia com os seus pares, vivem o lado negro da força quando estão juntos em sua tribo… E como somos animais tribais acabam reforçando-se mutuamente, tal e qual zumbis ficam lá curtindo o “bom da vida”… Mas desperdiçam seu tempo de vida… Talvez seu maior temor se acelere, o medo da morte que está no futuro, pois, com o uso das drogas danifica seu cérebro só para ter um estado alterado de consciência, que poderia ser conseguido de uma forma mais saudável, por exemplo através da meditação.
Mais uma pergunta de uma repórter p/ o Prof. Celso Lugão, (entrevista concedida por telefonema).
O senhor já foi questionado por seus clientes a respeito de como pode falar de algo que não experimentou?
Resp.: Constantemente… É lugar comum no discurso do cliente que usa drogas, na fase de negação, desafiar o terapeuta com esta colocação.
E o que o senhor faz então?
Resp.: Do ponto de vista intelectual a questão é bem simples, eu trabalho com Tanatologia, ou seja, estudos sobre a morte… Se eu precisar morrer p/ estudar a morte, rsss… E, por outro lado, se eu fosse usar a maconha ou cocaína, toda vez que sou desafiado / provocado por um cliente nesta fase de negação do problema, eu creio que já teria tido uma overdose, rsss. Se pensarmos em um cliente com sífilis, ou aids, ou seja lá a mazela que for… Eu não preciso estar doente para saber tratar daquilo. Ouça…
Certa vez um supervisando me trouxe um relatório de uma sessão que ele havia tido com um jovem de seus 13 anos de idade… A questão não eram drogas, mas sim problemas na escola… E o jovem era desafiador; ele havia provocado o aprendiz de psicoterapia jogando uma bola de meia no ventilador da sala e então duvidou que o supervisando (um jovem psicólogo) fizesse o mesmo… Algo do tipo: “Você não tem coragem!”
No relatório estava escrito que meu jovem supervisando então jogara a bola no ventilador. Ele contou-me isto meio que rindo de nervoso, meio que com um ars de ter feito uma arte.
Eu perguntei a ele, o que aconteceria se aquela pá tivesse quebrado, como já vi acontecer por falha do produto, e machucado seriamente um deles?
Então perguntei por que ele fizera aquilo?
Meu supervisando me disse que estava fazendo pacing com o cliente, pacing é algo como raport, vem do verbo inglês, entrar no ritmo. Estar junto do cliente.
Eu disse ao supervisando que ele provavelmente teria que repensar tal noção, talvez tivesse faltado a supervisão em que ensinei sobre isto…
Não se faz pacing com condutas destrutivas, imagine um suicida provocando na beira de um abismo.. “Você nunca saltou daqui, então como sabe que isto é ruim?”, rsss
Não se faz pacto com condutas doentias, o pacto de um psicólogo é sempre em prol da saúde, não se pode aceitar fumar um baseado para ser solidário com o cliente, assim com não se deve pegar aids p/ tratar de um cliente que contraiu a doença. (Final da entrevista)
—————– x ———— x ————–
Abaixo continuo falando sobre o assunto, em primeiro lugar coloco uma sinopse de dois filmes e depois prossigo no tema relativo as drogas e as condutas dos clientes… O tema das drogas nos remete ao tema dos estados alterados de consciência e, portanto, a questão das supostas capacidades especias geradas por tais estados.
No caso dos filmes, Coccon I e II, temos a questão da qualidade de vida de um grupo de idosos melhorada além das expectativas da atual medicina ortomolecular.
O dilema de envelhecer e perder a qualidade de vida da juventude é abordado nestes dois filmes de ficção. De certa forma, há um paralelo entre a lata de espinafre de Popeye e os casulos extraterrestres…
O filme Cocoon traz este dilema em forma de ficção… No filme extra-terrestres vêm a Terra com a missão de recuperar casulos com seres de outro planeta, sendo que enquanto os casulos vão sendo recuperados eles são colocados em uma piscina, energizada pelos alienígenas. Mas os extraterrenos ignoram o fato desta piscina ser utilizada por três idosos moradores de um asilo, que logo passam a ter uma disposição fantástica. Porém, quando descobrem a origem da sua juventude um dilema surge na vida deles. Justamente o segundo aprofunda o dilema… Os internos do asilo que foram para o outro planeta aproveitam uma oportunidade e pegam uma “carona”, para poderem rever seus familiares e amigos. Mas quando chegam na Terra começam a questionar se devem continuar no planeta ou retornar a Antares, enquanto seus amigos alienígenas se preocupam em resgatar alguns de seus antepassados. Abaixo comento este processo mitopoético, na lenda do encontro da feiticeira Circe e de Ulisses… O arquétipo dos objetos e poções mágicos, para usar um conceito de C. G. Jung, é antigo, lembro-me de que na infância lia muitos mitos… O cavalo de Tróia
A Odisséia, o retorno de Odisseu (grego), Ulisses em latim, sempre me mostrou os desafios e as escolhas… Já Sansão acabava mal, destruía tudo e todos no final, mas morria. Ulisses entretanto era inteligente. Isto é fundamental… (Quando alguém tem autismo de alto nível funcional, a tolerância da tribo aumenta muito, afinal somos o tal “homo sapiens” ! Seremos? Sempre achei suspeita uma espécie que assim se autodenomina!).
Mas a propósito, voltando a falar da inteligência… Transcrevo abaixo uma das passagens da atribulada volta para casa de Ulisses após a Guerra de Tróia; ele é tido como um homem sábio na epopéias gregas atribuídas ao poeta Homero…
Depois de enfrentarem vários perigos, como o Cíclope e os Ventos no mar… Na sua seguinte chegada à terra, Lestrigônia, todos os navios, com exceção o de Ulisses, foram perdidos num calamitoso encontro com os monstruosos habitantes; assim foi num estado considerável de pesar e depressão que Ulisses e seus camaradas sobreviventes viram-se na ilha de Aca. Desembarcando, permaneceram deitados dois dias e duas noites na praia, completamente exaustos pelos seus esforços e desmoralizados pelos horrores que tinham passado. No terceiro dia, Ulisses levantou-se para explorar a ilha, e a partir de um outeiro percebeu fumaça saindo de uma habitação na floresta. Decidindo prudentemente a não fazer um reconhecimento imediato, retornou ao barco para contar a novidade aos companheiros. Previsivelmente ficaram amedrontados, lembrando dos Lestrigões e do Ciclope, mas, como Ulisses estava determinado a explorar, dividiu sua companhia em dois grupos, um comandado por ele próprio e o outro por um homem chamado Euríloco. Os dois grupos tinham a sorte e a tarefa da exploração recaiu em Euríloco, enquanto Ulisses permaneceu no navio. O grupo de Euríloco acabou chegando à casa na floresta. Do lado de fora existiam lobos e leões, que cabriolavam e faziam festas aos homens; eram de fato seres humanos que tinham sido transformados em animais pela feiticeira Circe, cujo lindo canto podia ser escutado no interior da casa. Quando os marinheiros gritaram para chamar sua atenção, saiu e os convidados a entrar; apenas Euríloco, suspeitando de algum truque, permaneceu do lado de fora.Circe ofereceu comida aos homens, no qual continha uma droga que os faria esquecer de sua terra natal.
*O drogadicto também sofre deste processo de despersonalização, se esquece de sua terra natal, de seus valores… Aos poucos vai se tornando um porco…” Certa vez fui numa casa dominada por um jovem drogadicto, até fezes tinha espalhada pela sala, sua mãe, acuada e viúva, apanhava dele também. Tudo era quebrado e desarrumado, o lado negro da força imperava ali”.
Enquanto seu cérebro ainda não foi destruído pelas drogas, se recorda de quem era ou podia ter sido, e aí fica deprimido, irado e revoltado, como não pode suportar se ver no espelho, transformado em porco, usa mais droga, até que atinge a “nova identidade e liberdade de ser um porco.
Quando terminaram de comer, os tocou com sua varinha e os conduziu ao chiqueiro, pois agora possuíam a forma externa de porcos, apesar de infelizmente lembrarem quem realmente eram.
Em pânico, Euríloco voltou correndo ao navio para relatar o desaparecimento de seus companheiros. Ulisses ordenou que o levasse de volta à casa de Circe, e quando se recusou, partiu só para o resgate. No seu caminho através da ilha, encontrou Hermes, disfarçado como um jovem; o deus deu-lhe uma planta mágica, a qual, misturada com a comida de Circe, seria um antídoto para sua droga; também o instruiu como lidar com a feiticeira: quando Circe o tocasse com sua varinha, deveria avançar sobre ela como se para matá-la.
Ela então recuaria com medo e o convidaria a compartilhar de sua cama. Deveria concordar com isso, mas deveria fazê-la jurar solenemente a não tentar truques enquanto estivesse vulnerável.
Os fatos se passaram como Hermes tinha previsto.
As botas são uma metáfora alusiva, pois a cena da cama foi censurada. Ulisses era vaqueiro logo tinha experiência com feiticeiras. Bem…
Após terem ido para a cama, Circe banhou Ulisses e o vestiu com roupas finas e lhe preparou um suntuoso banquete, mas Ulisses sentou-se numa abstração silenciosa, recusando toda a atenção. Circe acabou lhe perguntando o que estava errado, e disse-lhe que ela não poderia esperar que estivesse de corpo e alma na festa enquanto metade de sua tripulação estava chafurdando no chiqueiro. Então Circe libertou os novos porcos de seu confinamento e os untou com ungüento mágico.
Ulisses e seus homens choraram com alívio e alegria e pararam apenas quando Circe sugeriu que deveriam chamar o restante de sua companhia para que se juntassem à celebração.
Portanto…
É preciso uma retribalização, como Laing propunha, o adicto teme o futuro pois como diz a letra…
Como é que dá para entender, a gente mal nasce e já começa a morrer, diz o verso de Vinicius de Moraes. E Toquinho, em Aquarela emenda…
Um menino caminha E caminhando chega no muro E ali logo em frente A esperar pela gente O futuro está…
E o futuro é uma astronave Que tentamos pilotar Não tem tempo, nem piedade Nem tem hora de chegar Sem pedir licença Muda a nossa vida E depois convida A rir ou chorar…
Nessa estrada não nos cabe Conhecer ou ver o que virá O fim dela ninguém sabe Bem ao certo onde vai dar Vamos todos Numa linda passarela De uma aquarela Que um dia enfim Descolorirá…
Numa folha qualquer Eu desenho um sol amarelo (Que descolorirá!) E com cinco ou seis retas É fácil fazer um castelo (Que descolorirá!) Giro um simples compasso Num círculo eu faço O mundo (Que descolorirá!)
E mais Vinícius… Testamento…
Por cima uma laje Embaixo a escuridão É fogo, irmão! É fogo, irmã!
Bem, a questão é esta, elefantes não voam, devemos tomar cuidado com eles, são enormes e têm muita força.
Se pensarmos no espinafre como uma motivação, um recurso fantasioso, certamente não iremos come-lo e tentar dar um soco num Brutus a nossa frente. Muitas crianças já se decepcionaram tentando fazer isto com o coleguinha mais forte. Parece que com as drogas o resultado é o mesmo. As pessoas que as usam, infantilmente julgando seus supostos efeitos benéficos acabam por se decepcionar com os rumos de suas vidas.
Nossas culturas sempre, tiveram, como C. G. Jung mostrou, tais arquétipos de poder. No mito dos heróis de cada civilização reside algo mágico, como nos cabelos de Sansão ou no martelo de Thor.
A sabedoria está em saber separar neste encontro da realidade com a fantasia, aquilo que é importante em cada uma destas…
Da fantasia pegamos a motivação, algo subjetivo, a força não está no talismã, mas na crença. Na realidade, construímos nosso caminho com os dados da realidade… Se minha motivação me diz para seguir em frente preciso olhar se não há um precipício ali. Em minha mente pode haver uma ponte mas eu não daria mais um passo naquela direção… Afinal, elefantes não voam e Papai Noel não existe; é um belo conceito mas suas renas também não voariam.
Trecho da entrevista do Dr. Gustavo Leal Meirelles.Veja na íntegra em…
http://www.fasprj.org.br/site/?p=134
E as drogas como a maconha, o LSD, cocaína e outros?
Os Neurônios são as células nervosas, que não se comunicam entre si diretamente, e possuem uma região de espaço entre cada dois Neurônios, que são as Sinapses. Daí, a mensagem eletroquímica, que é o comando cerebral, passa através de receptores de membrana, de hormônios, que passam a mensagem, como se fosse da margem de um rio para a outra margem. A Cannabis, que é a maconha, quando usada, ela se concentra nas margens desses rios, ou seja, ela se impregna nas sinapses, o que significa que ela vai lentificar a passagem da mensagem eletroquímica de um neurônio para o outro. Ou seja, isso tende a lentificar o raciocínio, a prejudicar a escolaridade e a prejudicar o acesso e a permanência no mercado de trabalho. Então, esse é o resultado que teremos, inevitavelmente, com essa escalada de consumo de Cannabis nessa geração que estamos criando e que terá que governar esse país daqui a alguns anos. E isto é muito preocupante.
Thor (dog’s name) não acredita que elefantes voam! E você?
Entrevista: Nora Volkow ( Diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, USA).
A psiquiatra mexicana Nora Volkow, 54 anos, é uma das mais importantes pesquisadoras sobre drogas no mundo. Quando, porém, o assunto são os danos neurobiológicos que essas substâncias causam, Nora Volkow se destaca. Foi a psiquiatra quem primeiro usou a tomografia para comprovar as consequências do uso de drogas no cérebro e foi também ela quem, nos anos 80, mostrou que, ao contrário do que se pensava até então, a cocaína é, sim, capaz de viciar.
Desde 2003 na direção do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, nos Estados Unidos, Volkow esteve noBrasil na semana passada para uma palestra na Universidade Federal de São Paulo. Dias antes de chegar concedeu, por telefone, esta entrevista.
Há quinze dias, um cartunista brasileiro e seu filho foram mortos por um jovem com sintomas de esquizofrenia e que usava constantemente maconha e dimetiltriptamina (DMT), na forma de um chá conhecido como Santo Daime. Que efeitos essas drogas têm sobre um cérebro esquizofrênico?
Portadores de esquizofrenia têm propensão à paranoia, e tanto a maconha quanto a DMT (presente no chá do Santo Daime) agravam esse sintoma, além de aumentar a profundidade e a frequência das alucinações. Drogas que produzem psicoses por si próprias, como metanfetamina, maconha e LSD, podem piorar a doença mental de uma forma abrupta e veloz.
Que efeitos essas drogas produzem em um cérebro saudável?
Em alguém que não tenha esquizofrenia, os efeitos relacionados com a ansiedade e com a paranoia serão, provavelmente, mais moderados. Não é incomum, porém, que pessoas saudáveis, mas com suscetibilidade maior a tais substâncias, possam vir a desenvolver psicoses. Estudos conduzidos pela senhora nos anos 80 provaram que a cocaína tinha, sim, a capacidade de viciar o usuário e de causar danos permanentes ao cérebro. Até então, ela era considerada uma droga relativamente “segura”.
Existe alguma droga que seja segura no que diz respeito à capacidade de viciar e de causar danos à saúde?
Não existe droga segura, a não ser a cafeína. Como ela é estimulante e produz efeitos farmacológicos nos receptores de adenosina, é, sim, uma droga. Mas não há evidências de que vicie nem de que seja tóxica – a não ser que você tenha problemas cardiovasculares. Ainda não sabemos se é prejudicial a crianças e adolescentes, mas para adultos não há nenhum problema.
E a maconha?
Há quem veja a maconha como uma droga inofensiva. Trata-se de um erro. Comprovadamente, a maconha tem efeitos bastante danosos. Ela pode bloquear receptores neurais muito importantes. Estudos feitos em animais mostraram que, expostos ao componente ativo da maconha, o tetraidrocanabinol (THC), eles deixam de produzir seus próprios canabinoides naturais (associados ao controle do apetite, memória e humor). Isso causa desde aumento da ansiedade até perda de memória e depressão. Claro que há pessoas que fumam maconha diariamente por toda a vida sem que sofram consequências negativas, assim como há quem fume cigarros até os 100 anos de idade e não desenvolva câncer de pulmão. Mas até agora não temos como saber quem é tolerante à droga e quem não é. Então, a maconha é, sim, perigosa.
A senhora concorda que ela seja a porta de entrada para outras drogas?
Se você olhar os dados, verá que a maior parte dos usuários de coc aína começou com a maconha. Mas, ao olharmos os dados de quem fuma maconha, veremos que essas pessoas geralmente começaram com cigarros ou álcool.
Qual seria a verdadeira droga de entrada, então?
Uma das leituras sobre essa questão é que, durante a adolescência, as pessoas bebem e fumam cigarros porque esses produtos estão disponíveis e são legais e, quando crescem, elas se tornam propensas a usar drogas mais pesadas. Uma leitura alternativa é que a exposição à nicotina e ao álcool na juventude faz com que as pessoas fiquem mais vulneráveis aos efeitos de outras drogas. Para mim, essa é a hipótese correta. A exposição precoce às drogas muda a sensibilidade do sistema de recompensa do cérebro. Como esse sistema se torna menos sensível, os dependentes químicos buscam uma compensação nas drogas.
Por que em geral as pessoas começam a usar drogas na adolescência?
O cérebro do adolescente é muito menos conectado do que o de um adulto. Como resultado, os adolescentes não conseguem controlar e regular a intensidade de suas emoções e desejos da mesma forma que os mais velhos. Isso faz com que vivam de maneira mais vigorosa, mas, ao mesmo tempo, assumam riscos maiores, como experimentar drogas.
O uso de drogas na adolescência é mais perigoso do que na vida adulta?
Certamente, porque o cérebro de um adolescente é mais plástico e mais sensível aos estímulos externos que vão moldá-lo. A forma que seu cérebro vai tomar na idade adulta depende muito dos estímulos que você recebeu quando criança e adolescente. O risco de desenvolver o vício também é maior para o adolescente. O motivo é o mesmo: a plasticidade cerebral nessa fase, que faz com que o jovem apreenda informações muito mais facilmente do que o adulto.
Por que é tão difícil quebrar o ciclo de desejo, compulsão e perda de controle que o vício traz?
É difícil porque o cérebro, em consequência do uso de drogas, é modificado de maneira física. A dependência química é uma doença cerebral que muda a bioquímica, a função e a anatomia do cérebro. Ocorre da seguinte maneira: todas as drogas aumentam a concentração de dopamina no cérebro. Quando o sistema dopaminérgico é ativado vez após outra pelo consumo repetido dessas substâncias, ele sofre modificações, de forma que passa a não funcionar mais quando a pessoa não está sob efeito da droga. Com isso, o usuário procura usar mais drogas – para tentar compensar esse déficit.
O que faz alguém se viciar em uma droga?
Isso pode variar de pessoa para pessoa e de acordo com o tipo de droga. Mas, de modo geral, é preciso que a pessoa seja exposta à substância repetidamente. Mesmo nessas condições, nem todos os usuários se viciam. Porém cerca de 10% deles desenvolvem o vício depois de pouco tempo de uso. Nos casos em que isso ocorre, o usuário tem uma vulnerabilidade que pode ser de ordem biológica ou social. Isso significa que ele pode ter uma predisposição genética para o vício ou estar sob algum tipo de stress que ajudou a disparar o gatilho da adição. Os traumas mais potentes ocorrem na infância: abandono, repetidas negligências, abusos físicos, sexuais, convivência com pais presos ou portadores de doenças mentais. Mas é claro que nada disso resulta em vício se a pessoa não tiver acesso às drogas.
É possível curar o vício?
Nós não podemos curá-lo atualmente, apenas tratá-lo. Quando você tem uma infecção bacteriana, toma um antibiótico e está curado. Agora, se você tem asma ou diabetes, tem de tomar algum tipo de medicamento ao longo de sua vida. É um tratamento para sua condição, não uma cura. Hoje, existem apenas tratamentos para o vício, que combinam medicamentos e terapias comportamentais. Estamos desenvolvendo uma vacina contra o vício de cocaína e nicotina, mas são apenas pesquisas ainda.
É possível, depois de se reabilitar, voltar a usar drogas sem se viciar?
Há casos já identificados. Por muito tempo se disse, principalmente sobre o alcoolismo, que, se você é alcoólatra, nunca, mas nunca mesmo, poderá chegar perto de novo da droga. Em pesquisas, há evidências de que alguns alcoólatras conseguem voltar a beber um ou dois copos de vez em quando sem se viciar, mas eles são a minoria. O problema é que não sabemos quem será capaz de se ater a apenas alguns drinques e quem vai se viciar de novo, por isso recomendamos clinicamente que todos fiquem afastados da droga.
Está em curso no Brasil uma campanha para descriminalizar a maconha. A senhora concorda com isso?
Não concordo porque, ao descriminalizar a maconha, você estará contribuindo para que mais gente a consuma. Há quem não fume por medo da repercussão negativa que a atitude pode provocar – e descriminalizá-la significa dizer: “Se você fumar, está tudo bem”.
Um grupo de pesquisadores brasileiros está discutindo a possibilidade de permitir o uso medicinal da maconha.
Quais são os benefícios já comprovados da droga?
As pesquisas mostram que os canabinoides, inclusive o THC, têm algumas ações terapêuticas úteis. Por exemplo, diminuem a resposta à náusea, o que é muito útil para pacientes com câncer que estão enfrentando uma quimioterapia. Outra vantagem comprovada é que eles aumentam o apetite e podem ajudar a combater a anorexia que acomete pacientes com doenças como a aids, por exemplo. Além disso, podem ter benefícios analgésicos e diminuir a pressão interna do olho, o que pode evitar um glaucoma. O que nosso instituto apregoa é que você pode ter o benefício dos canabinoides sem os efeitos colaterais que resultam do fumo da maconha, como a perda de memória, por exemplo. Por isso, estamos encorajando o desenvolvimento de medicamentos que maximizem as propriedades terapêuticas da droga sem seus efeitos danosos. No mercado americano, já existem algumas pílulas, como a Marinol, que permitem isso.
Em suas pesquisas a senhora descobriu que o córtex orbitofrontal, a principal área do cérebro afetada por quem tem transtorno obsessivo-compulsivo, também está ligado ao vício. É essa a chave da compulsão pelas drogas?
Eu concluí que a pessoa viciada em drogas desenvolve uma obsessão e uma compulsão pela droga similares às daquela que tem transtorno obsessivo-compulsivo. O que o vício e o TOC têm em comum é que ambas as doenças afetam as mesmas áreas do cérebro, aquelas relacionadas aos hábitos e aos controles. Mas, embora o local afetado seja o mesmo e a apresentação dos sintomas se dê de forma parecida, os mecanismos que levam a essas anormalidades não são.
A senhora também estudou a função da dopamina em quem come compulsivamente. Que relações se podem fazer entre a obesidade e o vício em drogas?
Ambos resultam em uma busca compulsiva por uma recompensa: no caso da obesidade é a comida e no caso da adição é a droga. Nos dois, há a perda de controle. Quem é patologicamente obeso come mesmo quando não quer. Podemos dizer que algumas pessoas parecem ser viciadas em comida, embora até o momento isso não tenha sido aceito nas comunidades clínica e científica. A secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, disse recentemente que o povo americano tem uma demanda insaciável por drogas.
A senhora acredita que essa demanda é mesmo mais intensa nos EUA do que em outros países?
O prazer oriundo das drogas é uma comodidade que você compra, como um luxo. Então há, sem dúvida, um elemento econômico nessa discussão. Também existem elementos relacionados à estrutura social e às normas. Os americanos são mais tolerantes em relação a comportamentos diferentes do que muitos outros povos. Isso resulta também em maior aceitação do uso de drogas.
A senhora nunca sentiu vontade de experimentar alguma droga?
Bebo de vez em quando um copo de vinho e experimentei cigarros quando era adolescente. Nunca usei cocaína, maconha nem outro tipo de
droga ilícita. Amo meu cérebro e nunca pensei em estragá-lo.
EFEITOS DA MACONHA Maconha vicia, causando dependência física e psicológica. Contém THC (tetrahidrocanabinol), substância que causa alterações na memória, atenção, concentração e na noção de tempo e espaço. Maconha é dez vezes mais cancerígena que o tabaco.O THC é lipossolúvel, ou seja, solúvel em gordura, podendo ficar até 25 dias no cérebro do usuário. Atualmente, um único baseado pode conter até 40% de THC, a substância da maconha que vicia. . Maconha é apontada como a segunda causa de acidentes de carro com vítimas fatais.
MACONHA CAUSA ESQUIZOFRENIA Maconha causa esquizofrenia, afirmam o psicoterapeuta Paulo Campos Dias, da Clínica Reviva, e a psiquiatra Lucinda do Rosário Trigo, diretora da Clínica Conviver, voluntárioe de Jovem Pan Pela Vida, Contra as Drogas. Esquizofrenia é uma doença mental grave, sem cura, e caracterizada por idéias delirantes, impressão de estar sob a influência de forças estranhas, por introversão e perda de contato com a realidade. Não tem cura. O psicoterapeuta Paulo Campos Dias, autor de pesquisas sobre maconha publicadas no Brasil e na Holanda, alerta:
-A maconha está induzindo pessoas a quadros psiquiátricos graves como a esquizofrenia e a psicoses agudas. Causa também síndrome amotivacional , perda da capacidade de fazer coisa simples. A maconha causa perfusões no cérebro. Lesiona o cérebro, causando perda de neurônios , tornando o cérebro esburacado. Por isso, faz perder a memória recente e provoca apagamentos.
A psiquiatra Lucinda do Rosário Trigo afirma:
-Está comprovado: maconha causa esquizofrenia e outras doenças psiquiátricas graves. Até algum tempo atrás, acreditava-se que a maconha desencadearia quadros psicóticos em pessoas que tivessem predisposição. Hoje, já está se revendo esse conceito e já se acredita que a maconha possa ser causadora de transtornos mentais, particularmente, a esquizofrenia.
A maconha ao longo dos anos foi sendo progressivamente modificada geneticamente e o teor de THC, o princípio ativo da maconha foi sendo aumentado. Então, a maconha dos anos 60 que, em geral tinha 0,5% de THC hoje está aumentada em até 20% da taxas de THC, o que equivale que um baseado fumado significaria o mesmo teor de intoxicação de 40 baseados.
Isso quer dizer que mesmo que a maconha seja consumida por um curto período de tempo o potencial de causar problemas à personalidade é muito grande.
Esquizofrenia , uma das doenças causadas pela maconha, significa perda da realidade, paranóia, delírios, impressão de estar sob influência de forças estranhas, profundas perturbações afetivas, introversão, e risco de violência para quem convive com o doente.
São doenças que mudam totalmente vidas, relata a psiquiatra Lucinda do Rosário Trigo: -Esses jovens nunca mais vão conseguir estudar, trabalhar, constituir famílias. Passaram a ser um ônus para suas famílias e para a sociedade. Vão precisar de várias internações. E quando estiverem em suas casas irão precisar de acompanhamento por enfermeiros ou parentes o tempo todo e de remédio para o resto de suas vidas. É um grande sofrimento para eles e para suas famílias.
NARGUILÉ ESTÁ SENDO USADO PARA FUMAR MACONHA em SP Adolescentes estão usando Narguilé para fumar maconha, alerta o psicoterapeuta Paulo Campos Dias. Narguilé é um cachimbo usado por turcos, hindus e persas , composto de forninho, tubo e vaso de água perfumada que o fumo atravessa antes de chegar à boca. Lojas de São Paulo informam ter aumentando a venda pelo interesse de adolescentes e jovens por esses cachimbos. O especialista Paulo Campos Dias explica: “Esse aparelho está sendo usado para disfarçar o cheiro da maconha . A fumaça passa pela água. Quando a mãe ou o pai entram no quarto, o que está próximo ao Narguilé é um maço de cigarro de cravo, por exemplo. ”
O psicoterapeuta chama a atenção para um fato que pode ser constatado pelos pais: “ O incrível é que apesar do uso ser diário,um único maço do cigarro de cravo, que está bem à vista no quarto, chega a durar dois meses. Se os pais observarem com cuidado, verão que o que está sendo fumado não é esse cigarro e sim a maconha.”
O autor de pesquisas sobre a maconha descreve o aumento do THC nos baseados a partir da década de 80.
THC é a substância que causa dependência química e física e pode provocar doenças psiquiátricas graves e até irreversíveis:
-em 1983, havia 13,5% de THC em cada baseado -em 1990, aumentou para 35% em cada baseado -em 2000, aumentou para 40% de THC em cada baseado -em 2004, já se constatou 70% de THC em cada baseado
“O óleo de haxixe, que contém até 73% de THC , vem sendo pingado sobre cigarro normal”, alerta Paulo Campos Dias.
“Motivos”, afirma o especialista, “ de maconha já ser considerada droga pesada.”
MACONHA É PROIBIDA NO BRASIL MAS SEU USO ESTÁ BANALIZADO
Maconha é proibida no Brasil. Mas na prática, a realidade é outra. A erva, definida por especialistas, como droga perigosa, que pode causar doenças psiquiátricas graves, está banalizada.
Em 29 cidades de São Paulo, constatamos que a maioria dos estudantes têm colegas que fumam baseado. Alunos, professores e policiais destas cidades confirmaram o fato durante apresentações da campanha Jovem Pan Pela Vida, Contra as Drogas, que tem apoio da Lincx-Serviços de Saúde. Nestas cidades, meninas e meninos de 12, 13, 14 anos já fumam maconha nas praças, nas ruas, nas festas ou até mesmo nos banheiros ou nas quadras de escolas. Fato que se repete na capital, em Atibaia, Alphaville, Barueri, Cotia, Diadema, Embu, Guarulhos, Indaiatuba, Itatiba, Itapevi, Itu, Jundiaí, Mairiporã, Mauá, Mogi das Cruzes, Morungaba, Osasco,Ribeirão Pires, Rio Claro, Salto, Santo André, São Bernardo do Campo, São Lourenço da Serra, São Roque, São Sebastião e em Taboão da Serra.
MACONHA PODE CAUSAR DERRAME Maconha aumenta o risco de derrame, revela estudo feito nos Estados Unidos pelo Instituto Nacional Sobre Abuso de Drogas e pelo Instituto Nacional de Saúde. Os resultados indicam que a maconha atrofia vasos sangüíneos. Os pesquisadores alertam no estudo que já há vários casos de derrame entre jovens usuários de maconha. O estudo confirmou também que maconha potencializa o risco de perda de memória. Os pesquisadores mediram com uma avançada tecnologia de ultra-som a corrente sangüínea no cérebro dos voluntários no início do estudo e após um mês de abstinência. Os valores encontrados revelaram que usuários de maconha apresentam vasos sangüíneos mais estreitos que doentes com pressão alta ou diabetes. A pesquisa constatou que os efeitos nos vasos sanguíneos continuam mesmo após um mês sem fumar maconha.
MACONHA VENDIDA PELA INTERNET Maconha é livremente vendida pela Internet. Sites em português e em inglês, acessíveis a qualquer internauta no Brasil, vendem vários tipos de sementes, inclusive , a transgênica. Um site da Holanda, por exemplo, diz, em bom português, que o cliente deve usar seu nome e endereço verdadeiros, “evitando a Caixa Postal”. Os traficantes afirmam que se o interessado der seu nome e endereço corretos, a entrega está garantida por via postal. As sementes da super maconha, por exemplo, são enviadas ao Brasil , em caixa branca, plana e com aviso de prioridade de entrega para o correio brasileiro. Os sites indicam duas formas de pagamento para a erva e sementes importadas : ou em dinheiro (dólar ou euro) enviado pelo correio no endereço indicado no site ou por ordem de pagamento . O inciso terceiro do artigo 13 da Lei 6538, de 1978, diz que os Correios não podem aceitar , nem entregar substâncias de uso proibido no País. Mas os Correios alegam que crime é atribuição da Polícia Federal. É necessário ter subsídios da PF para poderem impedir a entrega desse tipo de mercadoria. “Os Correios entregam mercadorias boas ou ruins”, alega a assessoria da estatal.
PAIS ATENTOS À CORRESPONDÊNCIA DOS FILHOS
—Mais uma vez, a sociedade tem que se defender sozinha. Cabe aos pais ficarem atentos às correspondências internacionais recebidas por seus filhos , porque podem conter drogas. As atenções devem se voltar especialmente para remessas vindas da Europa e da América do Norte, destacando-se Canadá e Holanda. Nesses países, há sites especializados na venda de sementes de maconha e da própria erva pelo correio. Sites que são acessíveis a qualquer internauta brasileiro e podem levar mais jovens ao mundo das drogas, de onde poucos escapam.
Reparem as datas das notícias abaixo e seu conteúdo, notem que o “estrago” foi feito em um espaço de um ano!!!
Apenas “quem” pode ver que o rei está nú? Na verdade creio que há muitas pessoas sensatas que precisam se manifestar contra esta mídia pró-drogas. Se você assistir filmes, peças de teatro e programas de televisão, com um olhar atento para este tema, se assustará com a propaganda envolvendo drogas. Quando o filme não aborda o assunto diretamente, o espectador irá ver o tema banalizado em comédias e tratado como se fosse normal todo mundo usar drogas. Careta é quem não usa!
Holanda isenta cigarro de maconha de lei antifumo
28 de março, 2008 – 09h34 GMT (06h34 Brasília)
O uso de cigarros puros de maconha será isento das restrições antifumo que passarão a vigorar na Holanda em três meses.
Segundo as regras, o fumo – hoje proibido em prédios e escritórios públicos – será proibido também em lugares como bares, cafés, restaurantes, clubes e teatros a partir de 1º de julho.
Entretanto, cigarros de maconha pura, hoje consumidos abertamente em locais públicos, ficarão de fora das regras.
Uma porta-voz do Ministério da Saúde holandês explicou à BBC Brasil que a regra tem como alvo o consumo de tabaco. “Se o cigarro não contiver tabaco misturado com cannabis, automaticamente as regras passam a não se aplicar”, ela disse.
A permissão de fumar maconha na Holanda vem de políticas liberais introduzidas nos anos 1970. Desde então, o uso e o comércio de cannabis movimenta mais de US$ 5 bilhões por ano, de acordo com uma estimativa publicada no jornal The Daily Telegraph.
O ministro holandês da Saúde, Ab Klink, disse que o objetivo da lei antitabaco não é combater a maconha.
“Se quisermos modificar nossa política de tolerância em relação ao uso de drogas leves, agiremos diretamente, e não através da proibição ao fumo”, ele declarou ao Parlamento durante a discussão da legislação, no ano passado.
Tendência
A ofensiva antitabaco na Holanda vai ao encontro da orientação da União Européia, cujo comissário da Saúde, Markos Kyprianou, já expressou desejo de ver uma proibição total ao fumo em locais públicos em toda a Europa em questão de poucos anos.
Como em outros países na Europa, a lei antitabaco holandesa permitirá que os bares tenham áreas de fumante – mas os funcionários do estabelecimento não serão obrigados a servir clientes no recinto, afirmou o governo holandês.
“O principal objetivo da lei é proteger os trabalhadores destes estabelecimentos”, disse a porta-voz do Ministério da Saúde.
Segundo números da organização Stivoro, 26% dos adultos holandeses fumavam em 2006.
Mais adolescentes viciados em maconha na Holanda
Data de publicação : 5 Outubro 2009 – 2:40pm
A quantidade de jovens holandeses menores de 18 anos viciados em maconha está aumentando. Muitos deles começam a fumar aos treze anos de idade.
O problema é tão sério que muitos vão parar em clínicas de reabilitação. Os jovens fumantes têm conflitos com os pais, abandonam os estudos e muitos são conhecidos pela polícia por roubarem para sustentar o vício.
Uma pesquisa realizada pela produtora de televisão pública holandesa NOS revelou que, no ano passado, três clínicas especializadas em desintoxicação acolheram 370 adolescentes viciados em maconha. Desde 2002, a quantidade de jovens viciados quadruplicou e estão sendo construídos outros três centros de tratamento na Holanda para atender ao aumento da demanda.
Variante forte
Uma das razões para o aumento do vício é a quantidade de THC na droga, o ingrediente ativo do cânhamo. Os produtores criam variedades resistentes da planta, o que faz aumentar o THC da maconha. O Instituto Jellinek Clinic para dependentes de droga mostra que, em 2000, a variante ‘netherweed’ (canabis holandesa) continha 8,6% de THC, enquanto em 2002 o índice era de 15,2 %. Resumindo, a toxidade praticamente duplicou e seu efeito alucinógeno era muito mais forte do que a “droga branda” que os pais dos jovens viciados de hoje recordam do tempo da juventude deles.
O consumo de maconha ocorre em toda a Holanda. Em agosto, a agência governamental de estatísticas publicou uma pesquisa mostrando que metade dos homens adultos entre 20 e 25 anos, e um terço das mulheres da mesma idade, haviam fumado pelo menos uma vez na vida. Dessa população, uma de cada dez mulheres fumava regularmente desde a adolescência. De cada dez homens, dois eram fumantes de maconha.
Desde os nove anos
“Ocasionalmente, algum dos jovens viciados havia fumado seu primeiro cigarro aos nove anos, no pátio do colégio”, explica o jovem assistente social Eric de Vos à produtora de televisão NOS. “A maioria dos fumantes de maconha se droga por uma razão: como automedicação para conciliar facilmente o sono ou para fugir de problemas ou conflitos na família ou na escola.”
Reabilitação
Na clínica Bauhuus, na região de Groningen, no norte do país, os adolescentes internos, entre 13 e 18 anos, recebem tratamento que demora de seis a nove meses. A terapia inclui o corte da dependência da droga.
“Eu fumava sete ou oito cigarros por dia; era muito para minha idade”, confessa Lisa, de 16 anos, internada no centro. “Também bebia muito, mas o vício principal era a maconha. Meus pais se divorciaram quando eu tinha treze anos e não superei a separação. Reprimia a tristeza fumando. Não fui capaz de abandonar o cigarro porque a droga é mais viciante do que se imagina. A gente fica indolente, deixa de ir à escola, de praticar esportes, gera conflitos em casa e leva à perda da educação e respeito. Muda a personalidade”. Lisa assegura que sua permanência na clínica Bauhuus realmente está ajudando a recuperar de novo o controle da própria vida.
Aprender, ou voltar a aprender, atitudes sociais é essencial para se manter na clínica. Os adolescentes aprenden a se comportar em grupo e como evitar a recaída no vício. Eles ensinam ainda a controlar as emoções reprimidas durante a dependência da droga e oferecem terapia familiar. Esportes e estudos regulares são parte do programa para se livrar da dependência.
Holanda arrependida com a liberação da maconha e da prostituição
03 de julho / 2010
A Holanda, um dos países mais liberais do mundo, está em crise com seus próprios conceitos. O país que legalizou a eutanásia, o aborto, as drogas, o “casamento” entre homossexuais e a prostituição reconhece que essa posição não melhorou o país. Ao contrário: aumentou seus problemas.
Em matéria publicada na revista Veja de 5 de março, sob o título Mudanças na vitrine, o jornalista Thomaz Favaro ressalta que, desde que a prostituição e as drogas foram legalizadas, tudo mudou em De Wallen, famoso bairro de Amsterdã, capital holandesa, onde a tolerância era aceita. “A região do De Wallen afundou num tal processo de degradação e criminalidade que o governo municipal tomou a decisão de colocar um basta. Desde o início deste ano, as licenças de alguns dos bordéis mais famosos da cidade foram revogadas. Os cafés já não podem vender bebidas alcoólicas nem cogumelos alucinógenos, e uma lei que tramita no Parlamento pretende proibi-los de funcionar a menos de 200 metros das escolas. Ao custo de 25 milhões de euros, o governo municipal comprou os imóveis que abrigavam dezoito prostíbulos. Os prédios foram reformados e as vitrines agora acolhem galerias de arte, ateliês de design e lojas de artigos de luxo”. A matéria destaca ainda que a legalização da prostituição na Holanda resultou “na explosão do número de bordéis e no aumento da demanda por prostitutas”. Nos primeiros três anos de legalização da prostituição, aumentou em 260% o tráfico de mulheres no país.
E a legalização da maconha? Fez bem? Também não. “O objetivo da descriminalização da maconha era diminuir o consumo de drogas pesadas. Supunham os holandeses que a compra aberta tornaria desnecessário recorrer ao traficante, que em geral acaba por oferecer outras drogas. (…) O problema é que Amsterdã, com seus cafés, atrai ‘turistas da droga’ dispostos a consumir de tudo, não apenas maconha. Isso fez proliferar o narcotráfico nas ruas do bairro boêmio. O preço da cocaína, da heroína e do ecstasy na capital holandesa está entre os mais baixos da Europa”, afirma a matéria de Veja.
O criminologista holandês Dirk Korf, da Universidade de Amsterdã, afirma: “Hoje, a população está descontente com essas medidas liberais, pois elas criaram uma expectativa ingênua de que a legalização manteria os grupos criminosos longe dessas atividades”. Pesquisas revelam que 67% da população holandesa é, agora, a favor de medidas mais rígidas. E ainda tem gente que defende que o Brasil deve legalizar a maconha, o aborto, a prostituição etc, citando a Holanda e outros países como exemplo de “modernidade”.
Veja o caso da Suíça. Conta Favaro: “A experiência holandesa não é a única na Europa. Zurique, na Suíça, também precisou dar marcha a ré na tolerância com as drogas e a prostituição. O bairro de Langstrasse, onde as autoridades toleravam bordéis e o uso aberto de drogas, tornara-se território sob controle do crime organizado. A prefeitura coibiu o uso público de drogas, impôs regras mais rígidas à prostituição e comprou os prédios dos prostíbulos, transformando-os em imóveis residenciais para estudantes. A reforma atraiu cinemas e bares da moda para o bairro”.
E a Dinamarca? “Em Copenhague, as autoridades fecharam o cerco ao Christiania, o bairro ocupado por uma comunidade alternativa desde 1971. A venda de maconha era feita em feiras ao ar livre e tolerada pelos moradores e autoridades, até que, em 2003, a polícia passou a reprimir o tráfico de drogas no bairro. Em todas essas cidades, a tolerância em relação às drogas e ao crime organizado perdeu a aura de modernidade”.
Efeitos da maconha na unidade corpo/cérebro/mente
A maconha é uma mistura variável de centenas de substâncias em diferentes proporções. Seus efeitos atingem a pessoa e a personalidade como um todo: cognitivo-afetivo-conativamente (este último diz respeito à vontade + a ação). Sua neurobiologia nos remete aos neurotransmissores acetilcolina, dopamina e ao GABA.
Em 1990 descobriu-se os receptores canabinóides específicos no cérebro. O THC se parece muito com a anandamida, produzida pelo próprio cérebro e que parece ter relações com a memória e com uma doença mental, a esquizofrenia. O THC ocuparia os receptores da anandamida nos neurônios. Esses receptores encontram-se no sistema límbico, no hipocampo, no cerebelo e nos lobos frontais. Existem indícios de que o THC pode interferir na neurotransmissão no nível da membrana do neurônio e dos segundos mensageiros (adenilciclase). Cientistas da Universidade de Brown, Rhode Island nos USA publicaram recentemente que a anandamida é um canabinóide natural que provoca perda da sensibilidade à dor.
O cérebro usaria a anandamida para modificar a sensibilidade à dor. O desenvolvimento de um remédio que bloqueasse a degradação da anandamida poderia levar a novos medicamentos analgésicos, especialmente contra dores que não respondem aos derivados do ópio, como a morfina.
Um dos efeitos da maconha mostra um forte componente anticolinérgico: ocorre uma diminuição difusa das funções cognitivas, especial comprometimento da memória, da atenção, da crítica e do julgamento devido a alterações no hipocampo, sintomas que são ainda mais evidentes pela ação gabaérgica da maconha. Ambas as ações fazem diminuir a atividade impulsiva e seus componentes da agressividade e ansiedade, com freqüentes relatos do aumento das sensações de déjà-vu e jamais-vu.
Nos consumidores abusivos encontram-se zonas de hipoperfusão em diferentes regiões do cérebro, levando a um sofrimento neuronal que pode ser irreversível (necrose). No eletroencefalograma (EEG) digital pode-se observar lentificação, diminuição de amplitude e hipersincronização das ondas registradas pelo traçado do exame. Na tomografia de fótons (SPECT) observam-se déficits metabólicos.
A inibição do córtex e sistema límbico, associada à ação dopaminérgica explicaria os surtos psicóticos em usuários de Cannabis mesmo sem ter antecedentes pessoais ou familiares de doença mental.
Volkow demonstrou mediante tomografia por emissão de pósitrons (PET-scan), que o THC produz alterações imediatas e mais prolongadas no metabolismo do cerebelo e que, nos consumidores crônicos, provoca diminuição da atividade cerebelar, com alteração da coordenação motora, da sensibilidade proprioceptiva e da capacidade de aprendizagem.
O uso contínuo gera perda da noção do tempo, velocidade, distância, retardo de reações e outros déficits que têm o potencial de levar a danos e morte acidental.
De fato, o uso da maconha é tido como grande causador de boa parte dos acidentes fatais com moto e automóvel entre os adolescentes. Experimentos com pilotos de aviação mostraram que a maconha é mais perigosa que o álcool e, claro, maior ainda com a mistura de ambos.
Pesquisas mostram que o THC é 4000 vezes mais potente que o álcool, nas doses equivalentes, em diminuir o desempenho de um motorista em condições adequadamente controladas. Chega-se a dizer que o THC agiria como um falso hormônio, inibindo por feedback (retro-alimentação) a secreção de ACTH pela hipófise, simulando perfeitamente uma síndrome de esgotamento (estresse).
Na questão de gerar câncer, a maconha em comparação com o tabaco, foi encontrada uma quantidade maior dos mesmos agentes carcinogênicos no cigarro comum. Entretanto, não vamos subestimar este poder da maconha, pois grandes quantidades de substâncias irritantes para o sistema traqueobronquial nela são encontradas. Especialmente a presença do benzopireno encontrado em uma proporção 50% superior na maconha do que no cigarro de tabaco. A proporção de malefícios é de três baseados por dia eqüivalendo a 20 cigarros comuns por dia. E tanto quanto o tabaco aumenta a freqüência de bronquite crônica e câncer de pulmão.
Relata-se em animais de laboratório a redução da fertilidade, a diminuição da motilidade dos espermatozóides e a diminuição dos níveis circulantes de testosterona.
Também, a leucemia não-linfoblástica é 10 vezes mais freqüente em crianças nascidas de mães que fumam maconha. Destaca-se ainda alterações com relação aos atrasos no desenvolvimento intelectual, baixo peso corpóreo, pequeno tamanho do concepto, e tendência ao aborto espontâneo ou partos prematuros na mãe.
Ficou demonstrado que o THC suprime a produção de interferon in vivo e in vitro. Interferon são macromoléculas proteínicas que participam do sistema de defesa de um organismo infectado por vírus. A maconha pode também diminuir a função dos linfócitos e dos macrófagos tanto in vivo quanto in vitro, baixando a resistência imune do indivíduo.
No homem são conhecidos os efeitos de oligospermia (pouco espermatozóide) e até azoospermia (nenhum espermatozóide) e na mulher alterações do ciclo menstrual.
Não há mais dúvidas de que o THC provoca quebras cromossômicas no cariótipo humano.
Quanto à dependência, insistimos em não separar a psíquica da física. A dependência da maconha caracteriza-se por irritabilidade, nervosismo geral, angustia, hiper ou hipofagia, alteração do sono e tendência a fumar mais cigarros de tabaco e tomar café em demasia, estes dois últimos pelo fato da nicotina e da cafeína serem também dopaminérgicas, atuando especialmente nos receptores DA2 do núcleo accumbens.
O THC é altamente lipofílico, isto é, dissolve-se em gordura, demorando muitos dias para ser eliminado. Assim, os sintomas de abstinência podem aparecer de 20 a 30 dias após a interrupção da droga.
Talvez o efeito mais nefasto no jovem seja a síndrome amotivacional, que provoca a queda do rendimento em todas as áreas da atividade humana e, freqüentemente, a parada dos estudos, com perda dos ideais tão salutarmente desenvolvidos nesta fase.
Neste artigo existem, além de ilações de cunho pessoal, fruto de leituras e da atividade clínica sistemática ao longo dos anos, textos ilustrativos, clips e comentários sobre obras ligadas ao tema. Há também informação sobre a genética do autismo. A descoberta de elos entre o autismo e o DNA promete melhorar o diagnóstico e levar o tratamento para novos patamares.
O artigo foi escrito em Itaúna (Saquarema – RJ), em 27/03/2009.
“Lindo dia, sol, praia, temperatura da água perfeita… O mundo de Darwin”.
Quando observo a Síndrome de Asperger, notadamente casos como o de Henry Cavendish, Daniel Tammet e Temple Grandin, sob a perspectiva da Teoria da Evolução de Charles Darwin, passando pela idéia de Stephen Jay Gould e chegando à Psicologia Evolutiva ( a partir dos estudos de Edward Wilson)… Observo então, nesta incrível escalada do tempo, a possibilidade de estarmos diante de mutações embrionárias que irão representar mais um salto de qualidade na espécie humana; talvez, proporcionalmente, bem maior do que o salto do Homem de Neandhertal para o Cromagnon. Conforme, inclusive, o desenvolvimento do conceito de memética de Richard Dawkins, e pesquisas como a do prof. A. Snyder, usando a EMT ( Estimulação Magnética Trancraniana)… Poderá haver uma aceleração exponencial neste diálogo da herança genética com a aprendizagem.
Talvez esta seja a esperança derradeira no futuro remoto em que o Universo (segundo pesquisas atuais) irá se tornar inóspito à vida, tal qual a conhecemos também. Mesmo agora, sob o vaticínio da Hipótese (agora Teoria! ) de Gaia por James Lovelock, cérebros privilegiados poderão fazer a diferença para a sobrevivência do planeta Terra.
Tais cérebros privilegiados, diga-se, seriam a fusão de capacidades cognitivas e emocionais, num nível (qualidade) e grau (quantidade) que deixariam Antonio Damásio e sua mulher Hanna deliciados.
A sensibilidade e afetividade dos terráqueos com a lógica dos vulcanos, para usar uma metáfora que tenta se reificar no personagem vivido por Leonard Nimoy, o Sr. Spock de Jornada nas Estrelas (que Temple Grandin aprecia, segundo ela revela na obra de Oliver Sacks ).
Temple Grandin (foto)
Abaixo foto do ator Leonard Nimoy, o Sr. Spock de Jornada nas Estrelas.
Justamente, o caso de Temple Grandin, descrito por Oliver Sacks na obra Um Antropólogo em Marte, chama a atenção neste sentido, já que se trata também do espectro autístico porém evidenciando a enorme capacidade empática (emocional) para com os animais…
Ainda no que tange à “metáfora Spock” há uma técnica aplicada pelos vulcanianos que permite penetrar na mente e na emoção do outro. Assim, existe aí, nesta interpretação / idealização, uma perspectiva teleológica, um “outcome”, que seria também o aprimoramento do domínio de si próprio atavés do “exercício de conhecer também os outros”, mas sem a interferência dos pré-conceitos, ou seja uma verdadeira e poderosa fusão da lógica e do emocional, uma psico-lógica-afetiva.
Abaixo
Homenagem ao amigo e irmão, grande mestre na dupla arte da sensibilidade e da lógica, Marcelus Osnoff Spock
Vide link http://www.soundclick.com/bands/default.cfm?bandID=4213
A GENÉTICA DO AUTISMO
By Steve Connor
Descoberta de elo entre doença e DNA promete melhorar diagnóstico e levar a um melhor tratamento
Cientistas descobriram o primeiro elo significativo entre o autismo e DNA, num estudo que pode revolucionar a compreensão desta desordem comportamental que afeta milhões de pessoas em todo mundo. Os pesquisadores acreditam que as mudanças que acharam na estrutura genética de crianças autistas têm um importante papel no desenvolvimento da condição. Suas descobertas podem eventualmente levar a testes de diagnóstico precoce e a novas formas de tratamento baseadas em ataques aos erros fundamentais do código genético dos pacientes. Mas os pesquisadores também alertam que os achados, provenientes do maior estudo internacional sobre autismo, ainda são preliminares e levará alguns anos de investigação até que se consiga entender e tratar as alterações genéticas que aumentam a susceptibilidade de uma pessoa à desordem. Os resultados foram obtidos a partir da análise de quase 1 mil autistas e da comparação do seu DNA com o de mais de 1,2 mil pessoas não afetadas. Os cientistas encontraram uma série de importantes diferenças no DNA dos dois grupos que acreditam poder explicar o porquê de o autismo ter um fator genético que pode levar ao desenvolvimento da condição sob algumas circunstâncias. — Nossos resultados apontam a importância dos genes entre os fatores de susceptibilidade ao autismo. Eles levarão a uma mudança de paradigma ao se procurar entender as raízes do autismo — diz Stephen Scherer, do Hospital Infantil de Toronto e um dos principais autores do estudo, publicado pela revista “Nature”. — Descobrimos que as variações genéticas que encontramos são raras em sua frequência, o que significa que a maioria dos indivíduos com autismo provavelmente é bem única, cada uma tendo sua própria forma genética de autismo — acrescentou. O autismo é uma complexa desordem neurológica que normalmente é diagnosticada nos primeiros anos da infância, mas também pode não ser reconhecida durante anos. Ele inibe a habilidade da criança em se comunicar e desenvolver relações sociais normais. O autismo, que pode ir de moderado a severo, afeta perto de 1% das crianças e sua incidência aumentou dramaticamente nos últimos anos, parte em razão de um espectro de diagnóstico mais amplo e melhor reconhecimento do problema. O autismo tende a ser hereditário e é sabido que tem fortes componentes genéticos e ambientais. O Projeto Genoma do Autismo, que envolve mais de 1,5 mil famílias em EUA, Canadá, Reino Unido e resto da Europa, tem como objetivo identificar o lado genético da desordem por meio do levantamento do DNA dos pacientes. Os pesquisadores se concentraram em um tipo de diferença genética que distingue uma pessoa da outra, chamado “variações no número de cópias” (CNVs, na sigla em inglês), em que o mesmo trecho do DNA contendo até 20 genes é replicado diversas vezes. Eles descobriram que as crianças autistas normalmente têm 20% mais CNVs do que crianças comuns. Eles também descobriram que muitos das CNVs de crianças autistas não são provenientes de seus pais, mas recém-formadas, provavelmente antes da concepção, durante a formação dos óvulos ou espermatozóides, como as mudanças cromossômicas que levam à síndrome de Down. Algumas CNVs também envolvem genes conhecidos por afetar a desenvolvimento do cérebro. Três dos genes alterados, por exemplo, são relacionados à comunicação entre neurônios, e um deles já havia sido associado ao autismo e outros distúrbios mentais. Hans Asperger (foto)
A Síndrome de Asperger (SA) pode ser definida como perturbação do desenvolvimento que se manifesta por alterações, sobretudo, na interacção social e na comunicação e no comportamento. O termo utilizado pela primeira vez por Lorna Wing, num artigo publicado em 1981, no qual descreveu um grupo de crianças e adultos cujas capacidades e comportamentos se assemelhavam aos descritos pelo pediatra vienense Hans Asperger. Pediatra Vienense Hans Asperger avaliou crianças cuja interaccção social era pobre, que apresentavam falhas de comunicação e desenvolviam interesses especiais. Lorna Wing constatou que algumas crianças apresentavam, numa fase inicial, as características clássicas do autismo, desenvolvendo mais tarde algumas competências ao nível da linguagem e da socialização, que as colocavam fora do âmbito do diagnóstico do autismo clássico( ou Síndrome de Kanner). Actualmente a SA é considerada um subgrupo do espectro do autismo, com critérios de diagnóstico específicos.
Síndrome de Savant
Trecho de artigo (de out/nov de 2003) extraído no endereço abaixo
Síndrome de Savant: relato de caso e revisão da literatura
Renata Silva Jorge (1)
Djalma Aranha Braga (2)
(1) Acadêmica do 5º Ano de Medicina da UNIMES
(2) Neuropsiquiatra e Preceptor do Estágio de Psiquiatria e Saúde Mental do Hospital Ana Costa, Santos.
A Síndrome de Savant é uma condição rara, em que a pessoa portadora das mais variadas desordens mentais, incluindo o autismo, apresenta brilhante talento ou habilidade contrastando fortemente com suas limitações. Esta condição pode ser congênita ou adquirida. Aproximadamente uma a cada dez (10%) pessoas autistas tem Síndrome de Savant. Em outras formas de transtorno mental, retardamento ou lesão cerebral, Savant está presente em menos de 1% dos casos.8 Porém, como estas outras formas de doenças mentais são muito mais comuns do que o autismo, podemos dizer que 50% das pessoas com Síndrome de Savant são autistas e os outros 50% sofrem de algum outro tipo de transtorno, como falhas no desenvolvimento, retardamento mental ou seqüelas de um dano cerebral.
RELATO DE CASO
ELPFP, 5 anos, masculino, natural do Guarujá, com amaurose bilateral por um defeito na formação do nervo óptico (enxerga apenas luzes). Desde o nascimento apresenta retardo no DNPM. Preenche os critérios para Autismo segundo o DSM-IV (comprometimento qualitativo da interação social e da comunicação; uso estereotipado e repetitivo da linguagem; padrões restritos e repetitivos de comportamento; preocupação insistente com um ou mais padrões estereotipados e restritos de interesse; maneirismos motores estereotipados e repetitivos – p. ex., agitar ou torcer mãos ou dedos, ou movimentos complexos de todo o corpo)1. É capaz de cantar várias músicas, repetindo-as completamente a partir da primeira vez que as ouve. Durante este ato, cessam-se os movimentos estereotipados.
Após terminar de cantar, os movimentos estereotipados e automatismos retornam e o menino demonstra-se bastante agitado. Atualmente apresenta problemas comportamentais que estão sendo inibidos, e os familiares estão sendo orientados quanto ao manejo da criança. Os principais objetivos em relação à condução deste caso são: aumentar a comunicação verbal; diminuir ecolalia e estereotipia; estimular percepção tátil, noção espacial e temporal; desenvolvimento de autonomia e independência. Segundo relatos de sua mãe, o menino está começando a interagir com outras crianças na APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) que freqüenta. A deficiência visual dificulta a aprendizagem do aluno em alguns aspectos, porém o mesmo tem uma boa compreensão, conseguindo memorizar facilmente seqüências e rotinas. Quanto às atividades pedagógicas, o professor é facilitador e orientador, inibindo os comportamentos inadequados de forma que o mesmo utilize suas potencialidades de forma positiva.
DISCUSSÃO
Sem dúvida, savants estiveram presentes durante toda a história. No final do século XVIII, B. Rush já havia relatado casos semelhantes. Entretanto, o termo “Savant” não foi aplicado a estas pessoas especiais até 1887, quando o Dr. J. Langdon Down, descreveu cerca de 10 casos com grande riqueza de detalhes onde havia um grande contraste entre superioridade e incapacidade na mesma pessoa. As habilidades especiais incluiam talentos extraordinários para música, artes, matemática e mecânica, sempre acompanhados de uma memória fenomenal, presente em cada um dos casos. Dr. Down é mais conhecido por ter nomeado a Síndrome de Down, mas os casos dessas pessoas com habilidades especiais em contraste com suas deficiências, chamou muito a sua atenção. Sendo assim, foi ele quem cunhou o termo “idiot savant” para designar estes indivíduos extraordinários. Dr. Down resolveu juntar estas duas palavras porque na época, “idiot” (idiota) era um termo científico utilizado para designar pessoas com um certo grau de retardamento mental (Q.I. abaixo de 25) e “savant” ou “pessoa inteligente” é derivado da palavra francesa savoir que significa saber. Porém o termo “idiot savant” (idiota inteligente) não é mais utilizado para designar estas pessoas especiais, pois notou-se que quase todos os casos descritos a partir daquela época, ocorriam em pessoas com Q.I. acima de 40. Desta maneira, este termo foi substituído por outro mais adequado e melhor aceito, “Síndrome de Savant”. Além disso, não é o baixo Q.I. ou o retardamento mental, seja ele apresentado como um sintoma ou uma doença isolada que determina se uma pessoa é ou não um savant. O termo Síndrome de Savant engloba uma série de diferentes transtornos mentais, onde o retardamento mental está incluído, porém não se restringe a ele. O termo deficiência mental, quando aplicado à Síndrome de Savant pode incluir transtornos como Autismo, Asperger, Hiperlexia ou Sd. de Williams, por exemplo. Em algumas destas pessoas, o Q.I. pode ser normal ou até mesmo acima do normal.
A Síndrome de Savant ocorre de 4 a 6 vezes mais freqüentemente em homens do que em mulheres. Parte disto se deve ao fato de que ela ocorre em aproximadamente 10% das pessoas autistas, que se apresentam com esta mesma desproporção homem/mulher. Além disso, Geschwid e Galaburda demonstraram com detalhes em uma recente pesquisa que no desenvolvimento do feto humano, o hemisfério esquerdo do cérebro sempre completa sua formação mais tarde que o hemisfério direito7. Sendo assim, o hemisfério esquerdo do cérebro é exposto por um período maior de tempo à injúria cerebral de qualquer natureza. Um certo tipo de dano neuronal pode ser produzido pela circulação de testosterona, que no feto masculino alcança níveis muito altos e pode ser, em alguns casos, neurotóxica. Esta mesma injúria de desenvolvimento mediada pela testosterona, causando dano ao hemisfério cerebral esquerdo antes do nascimento pode explicar a mesma desproporcionalidade homem/mulher observada em algumas outras formas de disfunção do sistema nervoso central, como gagueira, dislexia, hiperatividade, dificuldades de aprendizagem e transtorno autista propriamente dito.
Durante todo o século passado, foi observado que na maioria dos casos, as habilidades presentes na Síndrome de Savant estão curiosamente restritas à apenas cinco áreas do conhecimento geral – música, arte, cálculo ou outras habilidades matemáticas, cálculos de calendário e habilidades mecânicas/espaciais.
A habilidade musical geralmente é a mais comum. Algumas pessoas com Síndrome de Savant podem tocar piano com perfeição, sem nunca ter estudado para isso. Elas são capazes de reproduzir músicas que ouviram por uma única vez, ou mais raramente, criar suas próprias composições. A tríade incapacidade mental, cegueira e geniosidade musical foi relatada com certa freqüência no século passado. Este é um fato curioso, particularmente se considerarmos a relativa raridade de cada uma dessas circunstâncias individualmente. O talento para as artes, como pintura ou desenho, é o segundo mais freqüente. Outras formas de talento artístico, como habilidade para fazer esculturas também podem estar presentes. Cálculos de calendário (datas) é particularmente comum entre os “savants”, especialmente se considerarmos o quanto esta habilidade é rara na população em geral. Estes indivíduos são capazes de dizer o dia da semana em que qualquer data irá ocorrer em um ano particular. Esta habilidade também inclui o fato de nomear todos os anos do próximo século em que a Páscoa irá cair no dia 23 de Março, por exemplo. Além disso, eles também conseguem dizer todos os anos nos próximos vinte, em que o dia 4 de Julho será uma Terça-feira.
Outras habilidades são ocasionalmente vistas, incluindo aquisições multilinguais ou idiomas incomuns. Tipicamente uma habilidade destas em particular ocorre predominantemente em cada pessoa com a Síndrome de Savant. Entretanto, em alguns casos múltiplas habilidades podem ocorrer na mesma pessoa. Qualquer que seja o tipo de habilidade, esta estará sempre relacionada a uma memória prodigiosa, e é este tipo de memória – extraordinariamente profunda, mas ao mesmo tempo muito limitada – que está presente em todas as várias habilidades especiais e une as condições que caracterizam a Síndrome de Savant.
Há alguns exemplos interessantes de pacientes portadores da Sd. de Savant na literatura atual. Kim Peek, sabe mais de 7600 livros de cor tão bem quanto qualquer código de área, rodovia, cep e estação de televisão dos Estados Unidos. Dele veio a inspiração para o personagem de Dustin Hoffman, Raymond Babbit, no filme Rain Man de 1988. Kim é também portador de retardamento mental e necessita da ajuda de seu pai para realizar muitas das tarefas básicas do dia-a-dia. Outro exemplo interessante é o de Leslie Lemke que é cego e sofre de paralisia cerebral. Apesar de nunca ter estudado piano, compõe músicas e é capaz de reproduzir diversas sinfonias, mesmo tendo-as ouvido por uma única vez. Richard Wawro é um pintor escocês renomado e conhecido internacionalmente. Desde os 17 anos de idade expõe seus trabalhos, que têm colecionadores famosos como Margaret Thatcher e Papa João Paulo II, entre outros. Ele é autista.
Existe um grande número de teorias que tenta explicar o que causa a Sd. de Savant, porém nenhuma delas consegue explicá-la totalmente. Dentre essas teorias, há uma que se destaca por conseguir dar uma explicação consistente e plausível à maioria das habilidades savant. Esta teoria se baseia na injúria do hemisfério esquerdo do cérebro com a subseqüente compensação do hemisfério direito cerebral. É conhecido que os dois hemisférios cerebrais tendem a ter funções especializadas.
As habilidades mais freqüentemente observadas nos savants são aquelas associadas com o hemisfério direito, enquanto que suas deficiências se relacionam àquelas associadas ao hemisfério esquerdo. Estudos de imagem (tomografia computadorizada e ressonância magnética) demonstraram que realmente em alguns casos da Sd. de Savant há lesão do hemisfério esquerdo e essas lesões documentadas corresponderam às deficiências de funções do hemisfério esquerdo em detalhados testes neuropsicológicos. Recentes estudos de PET scan em pessoas idosas, que eram aparentemente normais e passaram a desenvolver habilidades semelhantes àquelas presentes na Síndrome de Savant demonstraram além de uma demência fronto-temporal, defeitos no lobo temporal esquerdo, reforçando a veracidade desta teoria.
WILLIAMS, C. & WRIGHT, B. Convivendo (How to live) com Autismo e Síndrome de Asperger – Estratégias práticas para pais e profissionais / Ilustrações de Oliver Young / São Paulo. Ed. MBooks. 2008.
“Uma obra excelente para clarificar e ajudar. A obra é dividida em três partes: descreve os comportamentos que podem alertar os pais sobre a possibilidade do filho ter autismo / tenta explicar a percepção do mundo pelo autista / oferece estratégias e planejamento em busca de soluções para integrar e desenvolver”.
Prof. Celso Lugão da Veiga (IP-SPA-UERJ)
Na verdade, a Síndrome de Savant não é um transtorno ou uma doença por ela mesma. É, ao invés disso, uma condição em que extraordinárias habilidades e memória prodigiosa são superimpostas à uma disfunção cerebral de base que surge de um defeito do desenvolvimento ou à algum transtorno mental. Portanto, não há tratamento para a Síndrome de Savant, além daquele direcionado à disfunção de base do sistema nervoso central, como autismo ou transtorno de Asperger, por exemplo. Em casos de pessoas com alguma outra forma de lesão do sistema nervoso central, como demência fronto-temporal, por exemplo, o tratamento e reabilitação, seriam àqueles direcionados aos sintomas residuais de tal injúria.
Os talentos e habilidades especiais que os savants demonstram são úteis no tratamento e reabilitação de seu transtorno ou doença de base. Em muitos casos essas habilidades extraordinárias podem ser usadas como uma forma de engajamento social. A pessoa deficiente pode incrementar sua capacidade de comunicação e interação social, promovendo o desenvolvimento de hábitos da vida cotidiana e independência. Desta maneira as habilidades especiais podem até servir como “condutores de normalização” para o savant.
A SA é mais comum nos rapazes (5/1), e afecta cerca de 20 a 40 pessoas em cada 10mil. Em Portugal estima-se que o número de crianças com esta síndrome ronde os 40 mil. Tem-se discutido muito sobre as causas da SA. Os estudos efectuados têm avançado várias causas possíveis, desde biológicas( estando implicados diversos aspectos da estrutura do cérebro) a genéticas. Esta informação foi retirada de uma brochura da Apsa de Março de 2007 O dia internacional de Asperger é dia 18 de fevereiro (homenagem a Hans Asperger, nascido em Viena a 18 de Fevereiro de 1906). Daniel Tammet: Savant sinestetaEnviado por raulespert. – College experience videos. Em ‘Nascido em um dia azul’, Daniel Tammet relembra sua infância, quando se sentia isolado e limitado pela incapacidade social que marca pessoas como ele – um portador da síndrome de Savant e da síndrome de Asperger. Crianças com esses distúrbios têm dificuldades de relacionamento, de compreender frases ou piadas de duplo sentido, de captar nuances emocionais do comportamento humano ou de dirigir automóveis. Apesar dessas limitações, ele se tornou professor de línguas estrangeiras, é atração de programas de televisão e de universidades com suas habilidades singulares para fazer cálculos com velocidade, graças à forma especial como consegue lidar com números.
O inglês Oliver Sacks é um neurologista com muitos pacientes para estudar e histórias para contar. O olhar de Sacks sobre seus pacientes, nos nove livros que já publicou, torna-os extremamente interessantes revelando mistérios da mente humana. Algumas das obras, pelo potencial em dramaturgia, foram adaptadas para o cinema. O filme mais conhecido éTempo de despertar, baseado no livro de mesmo nome,produçãode 1991, tendo Robin Williams e Robert De Niro nos papéis principais. O livro conta a história de um grupo de pacientes com letargia encefálica, que retornam subitamente ao mundo após décadas de “sono”. Presenciar o “renascimento” dessas pessoas permitiu a Sacks repartir a experiência daquelas vidas incomuns – que maravilharam e intrigaram o autor – com muitas outras pessoas, via literatura e cinema.
Além de um humanizado neurologista, Sacks também se revela um exímio contador de histórias. Em sua obra, a complexidade de seus casos clínicos aparece em narrativas envolventes e muito próximas do cotidiano das pessoas. Muitas vezes, os pacientes parecem ser apenas um pretexto para Sacks compartilhar com os leitores a dura fragilidade humana e os esforços empregados para a sobrevivência em meio a grandes adversidades que transformam a vida em uma realidade, muitas vezes, quase insuportável.
O caso do pintor que ficou daltônico, contado no livro Um antropólogo em Marte, é um exemplo da incrível capacidade de adaptação humana a condições adversas. Esse pintor torna-se completamente daltônico devido a um acidente de carro, deixa de viver no mundo colorido conhecido para olhar a vida nas tonalidades cinza, preta e branca. Sacks consegue transmitir as emoções causadas por essa transformação na vida de um artista que tinha na cor sua inspiração, e relata o lento processo de adaptação, nada fácil, à nova realidade.
Em A ilha dos daltônicos, o neurologista depara-se com uma situação peculiar numa ilha do Atol de Pingelap, no Pacífico. Isolados, os habitantes da ilha nasciam daltônicos e desenvolviam um tipo de vida completamente adaptado a essa condição. E, se lembrarmos de Darwin e Wallace, podemos entender ainda melhor o fascínio de Sacks pelo caso, porque a ilha foi um dos objetos do estudo que deu origem à teoria da evolução, e não dá para pensar em evolução sem pensar em adaptação, aliás, em muitas adaptações – como as dos pacientes de Sacks.
Garimpando reações e emoções na vida de seus pacientes, Sacks encontra um repertório rico para desenvolver seu viés literário. O escritor tira o avental e segue em busca de respostas mais abrangentes sobre a vida humana, incorporando à sua formação de neurologista a visão de antropólogo. Mostra que não é preciso ir longe, fazer uma grande viagem, cruzar oceanos, para descobrir um mundo sempre surpreendente, que existe dentro do “pequeno” espaço da cabeça das pessoas.
Juliana Schober
As obras abaixo forma traduzidas pela excelente Editora CIA das Letras.
NEUROPSICOLOGIANEUROPSICOLOGIAANTÔNIO DAMASIO: O CÉREBRO À PROCURA DA ALMA
Ëdition Spéciale Science & Vie, 1996 Por René Bernex Tradução de Paulo F. de M. Nicolau
Para o neurocientista português, atualmente radicado nos E.U.A. Prof. Dr. Antônio Damasio, a razão pura não existe: nós pensamos com o nosso corpo e nossas emoções. O retrato de um pesquisador que deu à alma uma base neurobiológica.
“Os fenômenos mentais se integram verdadeiramente ao corpo tais como eu os visualizo, são capazes de dar lugar às mais altas operações, como aquelas que revelam a alma e o nível espiritual. Sob meu ponto de vista, não obstante, todo o respeito que devemos concordar em noção da alma, podemos dizer que por último esta reflete somente um estado particular e complexo do organismo”.
A Cartografia do Pensamento
Graças às novas tecnologias imaginárias médicas que Damasio pôde montar a cartografia do pensamento.
Kris Snibble/Haward News Office
“Religiosos e cientistas deveriam deixar de lado as diferenças. Para ambos, a natureza é sagrada, pois dela depende a criação humana”
Autor de um celebrado estudo sobre a fartura de seres vivos no planeta, chamado Diversidade da Vida, o biólogo americano Edward Wilson foi um dos pioneiros a alertar sobre a extinção em massa de espécies causada pela atividade humana no século XX. Em sua mais recente empreitada – cujo resultado está no livro A Criação, a ser publicado em setembro nos Estados Unidos –, ele analisou as relações entre religião e ciência e propôs uma solução para o confronto ideológico nesse campo. “Religiosos e cientistas deveriam ter um objetivo comum: defender a natureza, porque dela depende a criação humana”, diz Wilson. Fundador da sociobiologia, ciência que estuda as bases genéticas do comportamento social dos animais, inclusive o ser humano, ele ganhou duas vezes o Prêmio Pulitzer – por Formigas, inseto do qual é o maior especialista mundial, e Sobre a Natureza Humana, em que estuda o modo como a evolução se reflete na agressividade, na sexualidade e na ética humana. Aos 76 anos, aposentado mas em plena atividade como professor e escritor, Wilson concedeu a seguinte entrevista de seu escritório na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.
Veja –Mais de 80% da população dos Estados Unidos não acredita na teoria da evolução. Trata-se de um fenômeno tipicamente americano? Wilson – Para 51% dos americanos, a espécie humana foi criada por uma força superior alguns milhares de anos atrás. Outros 34% acreditam que houve uma evolução guiada por Deus. Os 15% restantes dizem que os cientistas estão corretos. Esses números são extraordinários porque representam exatamente o oposto do que pensam os europeus. Na Europa, 40% da população dá razão à tese de que as espécies evoluíram pela seleção natural. Apenas uma minoria concorda com os criacionistas, que descartam a teoria da evolução.
Veja –O que explica o vigor do criacionismo, a ponto de estar em cogitação ensiná-lo nas escolas americanas, em oposição à teoria da evolução das espécies? Wilson – Algumas organizações religiosas estão conseguindo introduzir no governo americano a tese do design inteligente. Isto é, que foi Deus quem guiou a evolução. Ajuda o fato de termos um presidente, George W. Bush, que acredita que Deus fala com ele quando toma certas decisões ou vai à guerra. Isso fortalece as crenças fundamentalistas mais radicais da população. Para completar, após os atentados de 11 de setembro, a população americana, sentindo-se vulnerável, agarrou-se à idéia de que o país precisa se voltar mais para a religião. Em meu próximo livro, A Criação, faço um apelo às pessoas religiosas. Peço que deixem de lado suas diferenças com as pessoas seculares e os cientistas materialistas, como eu, e se juntem a nós para salvar o planeta. A ciência e a religião são as duas forças mais poderosas do mundo. Para ambas, a natureza é sagrada.
Veja – O senhor sustenta existir uma relação direta entre a seleção natural e o sentimento religioso. Qual é? Wilson – A religião está sempre dizendo às pessoas que sobrevivam, e esse é um princípio básico da seleção natural. A religião estimula a mente humana a transpor as dificuldades, a juntar-se a outros indivíduos e a se comportar de maneira altruísta em favor do grupo. O objetivo é a sobrevivência do grupo. Isso explica por que as religiões são tão tribalistas.
Veja – Qual é o erro da teoria do design inteligente, a idéia de que a complexidade dos organismos vivos é a melhor prova da existência de um projetista divino? Wilson – O único argumento dos defensores do design inteligente é que a ciência não consegue explicar todos os detalhes da evolução e dos fenômenos naturais. Para eles, isso é o suficiente para justificar a crença numa força sobrenatural por trás do inexplicável. Obviamente, não se trata de um argumento científico. A motivação dos cientistas é justamente a de descobrir a verdade sobre o que ainda não se consegue explicar. Ao adotar a crença de que a evolução é uma invenção de Deus, a religião coloca em risco sua credibilidade e prestígio. Se os defensores do design inteligente tivessem evidências da existência de forças sobrenaturais nos processos físicos e biológicos, os cientistas seriam os primeiros a estudar esses fenômenos.
Veja –É possível aceitar a teoria da evolução e, ao mesmo tempo, ser religioso? Wilson – Sim, claro. Eu próprio me considero um espiritualista. Acredito na grande força do espírito humano. Mas não creio em vida após a morte ou em uma alma separada do corpo e da mente. A criatividade, a estética, o sentimento de totalidade e o amor são essencialmente parte do funcionamento da mente. Sabemos que o cérebro se comporta de maneira diferente quando ocorrem mudanças químicas no organismo ou quando nos machucamos. Isso sugere que a essência humana depende de um sistema celular complexo. Não há incoerência alguma em acreditar que os sentimentos têm uma base física e, ao mesmo tempo, ter uma visão espiritual da mente humana.
Veja –O senhor não se sentiria reconfortado se soubesse que existe vida após a morte? Wilson – Pense no que significaria passar o resto da eternidade no céu. Não fomos feitos para isso. A mente humana foi construída para durar por um tempo limitado. Ultrapassar esse limite seria obrigar o indivíduo a uma existência infernal. Uma pesquisa com a elite científica dos Estados Unidos mostrou que 85% dos pesquisadores não se importam se existe ou não vida após a morte. Eu não me importo.
Veja –O senhor afirmou certa vez que se considera um deísta provisório. O que quer dizer com isso? Wilson – Primeiro é preciso definir teísmo e deísmo. O teísmo é a crença de que Deus intervém nos assuntos humanos. Deus seria capaz de fazer milagres e está diretamente ligado ao discurso humano. Já o deísta é aquele que aceita a possibilidade de existir uma força superior que estabeleceu as leis responsáveis pela criação do universo. O deísta, no entanto, não acredita que Deus esteja envolvido nos assuntos diários dos seres humanos. Enquanto não soubermos dar uma melhor explicação para o início do universo, considero-me um deísta provisório. A ciência está avançando rapidamente. Quem sabe em breve os físicos já possam explicar de onde viemos.
Veja –Muitos críticos dizem que a ciência é uma espécie de religião e que a teoria da evolução exige devoção. O senhor concorda? Wilson – Não. Existe uma grande diferença. A religião exige fé, uma fé sem questionamentos. A ciência não tem nada parecido com isso. Baseia-se em um conjunto de conhecimentos acumulados e tem uma trajetória de agregar mais e mais informações que explicam o mundo. É um processo de busca, de exploração e descoberta. Totalmente diferente de religião.
Veja –O senhor vê progresso na evolução? Wilson – Sim, porque em bilhões de anos a evolução tem produzido espécies cada vez mais complexas, um maior número de organismos e ecossistemas mais sofisticados. Se tomarmos exemplos isolados, no entanto, veremos que nem sempre a evolução significa progresso. Afinal, ela é fruto de mutações e mudanças genéticas aleatórias. Há casos de parasitas que perderam os olhos e de animais que perderam os pés. Se complexidade é progresso, então essas espécies regrediram.
Veja –O fato de o ser humano ter evoluído a ponto de controlar a natureza como nenhum outro animal nos dá o direito de fazer o que quisermos com as outras espécies? Wilson – A espécie humana sem dúvida é a mais sagrada do planeta. Afinal, é a mais inteligente e a única civilizada. Nos estágios iniciais da nossa evolução, quando os seres humanos viviam da caça e em bandos, o objetivo era derrotar a natureza, porque isso era uma questão de sobrevivência. Hoje, derrotar a natureza significa destruir parte do que resta de vida na Terra. Temos de saber quando parar. Estamos arruinando a natureza só para abrir um pouco de espaço para mais seres humanos. Isso não é progresso, nem sob o aspecto moral, nem como opção para garantir o futuro da humanidade. Nós precisamos da natureza para garantir a produtividade na biosfera. A espécie humana foi bem-sucedida demais.
Veja –Um estudo da ONU estimou que em 2050 a população da Terra atingirá o pico de 9 bilhões de pessoas, para então estabilizar. Como podemos melhorar a situação econômica de tanta gente e, ao mesmo tempo, impedir a destruição da natureza? Wilson – A maioria dos especialistas acredita que os recursos existentes na Terra suportariam essa superpopulação sem destruir a natureza. É preciso aumentar a produtividade da terra, e, para isso, temos de utilizar sementes geneticamente modificadas. A espécie humana depende de apenas vinte tipos de planta para se alimentar. Arroz, milho e trigo são as principais. Existem, no entanto, mais de 50.000 plantas cultiváveis. Muitas delas podem se tornar viáveis economicamente com a modificação genética. Se soubermos preservar o que restou da natureza e torná-la mais produtiva, conseguiremos alimentar os 9 bilhões de pessoas previstos para 2050.
Veja –Por que existe resistência tão grande aos alimentos geneticamente modificados? Wilson – O primeiro medo é o de que existam riscos ambientais no uso de transgênicos. Há quem tema, por exemplo, que possam dar origem a superbactérias, resistentes a qualquer tipo de remédio. Essa é uma visão hollywoodiana. Não existem evidências de que isso possa ocorrer. Já há as superbactérias, mas elas são naturais. Em geral são espécies de outros países ou continentes trazidas sem querer em navios ou aviões. Em ambientes sem a competição de outras espécies, essas bactérias se espalham e acabam se tornando pestes sérias. O segundo temor é o de que os alimentos transgênicos possam ser prejudiciais à saúde humana. Até agora também não há evidências disso, apesar dos inúmeros estudos. Nos Estados Unidos, 40% dos alimentos consumidos pela população são geneticamente modificados. Há quem diga que isso não é natural. Bobagem. Na prática, temos feito isso há 10.000 anos. Desde que a agricultura foi inventada, criamos plantas e animais modificando sua genética e escolhendo as melhores espécies. Isso não é diferente de introduzir novos genes diretamente em uma espécie. Não é o gene que interessa, e sim se o produto criado com ele é bom.
Veja –Por que é tão urgente preservar a biodiversidade do planeta? Wilson – Um cálculo feito em 1997 por biólogos e economistas mostrou que as espécies de todos os ecossistemas contribuíram com 30 trilhões de dólares em “serviços”, como limpeza e retenção de água, regeneração de solo e limpeza da atmosfera. Esse valor era, naquele momento, próximo ao de toda a produção humana. Dependemos da biodiversidade mais do que imaginamos. Outro aspecto é que estamos começando a compreender como as espécies que surgiram 1 milhão de anos atrás foram extintas e substituídas por outras. Isso é importante para entendermos a origem da vida. Precisamos desse conhecimento. Os cientistas identificaram apenas 10% das espécies e organismos existentes no planeta. Conhecer os 90% restantes tem um valor inestimável.
Veja –Alguns cientistas dizem que a espécie humana está vivendo uma evolução acelerada. A tese é a de que a humanidade está começando a decidir sobre sua própria evolução. O senhor concorda? Wilson – Sim, em meu livro dei a esse fenômeno o nome de evolução voluntária. Estamos próximos de atingir um estágio de desenvolvimento em que poderemos escolher o caminho da nossa evolução. Em breve poderemos eliminar totalmente doenças genéticas, como fibroses, simplesmente substituindo os genes defeituosos. Essa é uma forma de conduzir a evolução. A questão é se deveria ser permitido usar a engenharia genética para melhorar indivíduos humanos. Em alguns anos, os pais poderão escolher se o filho será um bom atleta ou um bom músico. Devemos permitir isso? Trata-se de uma questão ética que ainda não foi analisada em profundidade. Simplesmente porque ainda não estamos enfrentando os problemas relacionados a essas possibilidades tecnológicas. Em algum momento, a humanidade deverá decidir sobre isso, e aí teremos a evolução voluntária. Precisaremos ser muito cuidadosos ao mudar a natureza, pois é ela que nos faz humanos.
Veja –Qual o limite? Wilson – Não sei, está fora do meu alcance. Precisamos de mais conhecimentos sobre genética, saber melhor o que somos, qual é a natureza humana e quais as conseqüências dessas mudanças na organização da nossa sociedade atual. É uma grande pergunta. Nós mal conseguimos entender a nós mesmos nas condições atuais. Tentar entender como seríamos se nos alterássemos geneticamente é um passo gigantesco.
Veja –Em sua opinião, é eticamente aceitável tentar encontrar uma explicação genética para o comportamento homossexual? Wilson – Sim. Quanto mais soubermos, quanto mais verdades tivermos, mais teremos capacidade de resolver questões que mobilizam a sociedade. Já existem algumas evidências de que a homossexualidade acontece por um componente genético hereditário. Parte da variação da preferência sexual deve-se aos genes. Se soubermos o que está envolvido nisso, poderemos tomar decisões racionais e morais sobre o assunto. Se a ciência provar que a homossexualidade tem uma base genética e que o gene está bem distribuído pela população, os gays vão poder dizer: “A evolução natural nos fez assim, e, por isso, não há nada de errado no que fazemos e no tipo de vida que levamos”. Esse é um ótimo argumento. Por outro lado, se descobrirmos que a homossexualidade não tem nenhuma origem genética, ganhará força a tese de que esse comportamento sexual tem como causa um trauma ocorrido na infância. Os defensores dessa tese terão argumentos para querer curar ou corrigir os homossexuais. Até descobrirmos a verdade sobre isso, essa discussão vai continuar indefinidamente. Por isso, quanto mais soubermos, mais livres seremos.
De acordo com o jornal Salt Lake City Tribune, no último sábado, 19, faleceu na cidade de Salt Lake City, no estado de Utah, nos Estados Unidos, o homem que inspirou a criação do personagem Raymond Babbit no filme “Rain Man“. Kim Peek morreu de parada cardíaca aos 58 anos. Peek sofria de infecção das vias respiratórias, segundo informou seu pai, Fran Peek, ao jornal.
Kim Peek, dotado de capacidade de memorização fora do comum, serviu de inspiração ao roteirista Barry Morrow para criar o personagem vivido por Dustin Hoffman em 1988. O filme conquistou quatro prêmios Oscar, incluindo de melhor ator.
“Ele era especial“, comentou o neuropsiquiatra Daniel Christensen, da Universidade de Utah. “Sua memória e sabedoria eram simplesmente incríveis“. Portador da “Síndrome de Savant”, Peek tinha a capacidade de decorar tudo o que lia.
“Com 16 anos, leu toda a obra de Shakespeare, o Antigo e o Novo Testamento“, contou Fran Peek. Depois de nascer, os médicos haviam diagnosticado que Kim sofreria de um retardamento mental e aconselharam a seus pais que o confiassem a uma instituição especializada.
Segundo pessoas próximas, Kim Peek mantinha uma vida reclusa, devorando obras inteiras. Sua capacidade de absorção e observação eram impressionantes, embora não conseguisse realizar tarefas mais simples, como se vestir. Mas tudo mudou quando em 1984 conheceu Barry Morrow. O roteirista, fascinado por sua história, resolveu adaptar sua vida para o cinema.
O filme “Rain Man”, dirigido por Barry Levinson, foi um grande sucesso mundial. Kim Peek passou a dar palestras e foi considerado um gênio em diversos temas, como história, literatura e matemática.
A Síndrome de Savant é considerada um distúrbio psíquico com o qual a pessoa possui uma grande habilidade intelectual aliada a um déficit de inteligência. As habilidades savants são sempre ligadas a uma memória extraordinária, porém com pouca compreensão do que está sendo descrito.
Encontrada em mais ou menos uma em cada 10 pessoas com autismo e em, aproximadamente, uma em cada 2 mil com danos cerebrais ou retardamento mental, a síndrome de savant é citada na literatura científica desde 1789, quando Benjamim Rush, o pai da psiquiatria americana, descreveu a incrível habilidade de calcular de Thomas Fuller, que de matemática sabia pouco mais do que contar. Em 1887, no entanto, John Langdon Down, mais conhecido por ter identificado a síndrome de Down, descreveu 10 pessoas com a síndrome de savant, com as quais manteve contato ao longo de 30 anos – como superintendente do Earlswood Asylum (Londres). Langdon usou o termo idiot savant (sábio idiota), para identificar a síndrome, aceito na época em que um idiota era alguém com QI inferior a 25.
Conheçam abaixo uma lista com os 10 mais espetaculares Savants do Mundo.
1 – KIM PEEK:
Quando foi diagnosticado com retardo mental, um médico disse ao seu pai que ele nunca conseguiria aprender nada, que deveria ser institucionalizado e esquecido. Mas Kim começou a ler enciclopédias aos quatro anos de idade. E terminou o currículo do High School (2º grau), aos 14 anos.
- Kim começou a ler enciclopédias aos quatro anos de idade. E terminou o currículo do High School (2º grau), aos 14 anos.
- Ele costuma memorizar listas telefônicas inteiras.
- Sabe, de cada cidade dos EUA, quais são todas as suas estradas, estações de TV, códigos de área, códigos postais, etc.
- Sabe também da história de todos os países.
- Conhece toda a árvore genealógica e todos os detalhes da vida de todos os presidentes dos EUA.
- Lembra-se de todas as realizações da NASA.
- Finalmente, parece que ele mantém em sua mente tudo o que ele lê.
Páginas de livros que podemos ler em 3 minutos ele lê em 8 ou 10 segundos. Ele utiliza um olho para ler cada página simultaneamente.
Kim sabe qual foi o dia da semana de qualquer data passada. Por exemplo, se perguntarmos que dia da semana foi 27 de março de 1977, ele responderá que foi um domingo.
Peek serviu de inspiração para o personagem Raymond Babbit, que Dustin Hoffman representou em 1988 no filme Rain Man.
2 – LESLIE LEMKE:
Leslie Lemke, nascido prematuro em Milwaukee, 1952, foi rejeitado pela mãe por ser portador de deficiência cerebral. Com complicações na retina, ficou totalmente cego devido ao glaucoma.
Aos 14 anos tocou, com perfeição, o Concerto nº 1 para piano de Tchaikovsky, depois de ouvi-lo pela primeira vez enquanto escutava um filme de televisão. Lemke jamais tinha tido aula de piano, é cego, mentalmente incapacitado e tem paralisia cerebral.
Em 1983, Leslie ganhou fama mundial, sendo convidado pelos reis da Noruega. Fez também uma turnê no Japão, mantendo sempre a política de shows beneficentes em escolas, hospitais, prisões, igrejas.
Alonzo Clemons pode criar réplicas de cera perfeitas de qualquer animal, não importa quão brevemente o veja. Suas estátuas de bronze são vendidas por uma galeria em Aspen, Colorado, e lhe deram reputação nacional. Clemons é mentalmente incapacitado.
4 – GOTTFRIED MIND:
O autista suíço Gottfried Mind (1768-1814), um dos primeiros casos de autismo registrado na literatura médica, alcunhado de “Rafael dos gatos”, em homenagem ao grande pintor renascentsita Raphael, produziu diversos quadros relativos ao gato, animal que idolatrava. Chegou a esculpi-lo em castanhas. Não há na história da humanidade, nenhum outro pintor que tenha pintado o bichano de forma tão real quanto Gottfried.
5 – GILLES TRÉHIN:
Gilles Tréhin sofre de autismo. Desenhista prodígio e fascinado por grandes cidades, resolveu criar a sua própria. Batizou-a de Urville. Aos 12, começou a fazer os primeiros esboços da cidade. Hoje, existe até um livro publicado sobre a sua criação. Os detalhes são impressionantes. Mapas do metrô, descrições minuciosas sobre a economia, geografia e história da cidade e sua vida cultural. Descrições detalhadas sobre seus edifícios e sua arquitetura.
Jedediah Buxton (1705-74) era analfabeto, porém possuía uma capacidade fora do comum para cálculos e notável aptidão para solucionar os mais difíceis problemas. Em uma visita a Londres, foi levado a ver Garrick na peça Ricardo III e passou o tempo a contar as palavras pronunciadas pelos atores. Calculou o produto de um farthing (moeda inglesa) elevado à potência 139. O resultado, expresso em libras, alcança 39 dígitos. À parte seu talento para os números, sua inteligência era abaixo de medíocre.
7 – ORLANDO SERREL:
Orlando Serrell, que adquiriu a Síndrome de Savant após uma forte pancada na cabeça, sabe o dia da semana e o clima desde o dia do acidente sem precisar pensar.
Stephen Wiltshire tem uma história assaz interessante. Detentor de uma incrível capacidade de memorização, Stephen é capaz de memorizar os traços de uma cidade inteira, bastando observá-la por algum tempo.
Como de praxe a história começou lá no começo… Ainda com três anos, Stephen Wiltshire foi diagnosticado como sendo autista. E como característica de sua doença, Stephen vivia sozinho em seu próprio mundo. E não apenas isso, Stephen Wiltshire também era mudo. Na verdade, não era bem um mudo, mas ele não falava, tinha dificuldades.
Seus desenhos são apenas detalhes, pois incrível mesmo é a sua capacidade de memorização. Sua memória fotográfica é capaz de memorizar uma cidade inteira, bastando apenas um vôo pela cidade em questão. E foi assim que Stephen pintou Tokyo, Hong Kong, Roma entre outras cidades.
9 – ELLEN BRODREAUX:
Caso raro entre o sexo feminino, Ellen é uma Savant cega, com um memória e um sentido musical extraordinários. Capaz de executar qualquer música apenas ouvindo-a pela primeira vez, a guarda em sua memória que funciona como uma enorme biblioteca musical.
10 – DANIEL TAMMET:
Daniel Paul Tammet é um inglês que sofre da Síndrome de Savant.
Ele tem capacidades especiais na memorização de números e grande facilidade na aprendizagem de línguas.
Foi capaz de dizer 22.514 dígitos de Pi e de aprender a falar islandês numa semana. Atualmente fala onze línguas diferentes.
Tammet diz que cada número inteiro até 10.000 possui uma forma, textura e cor únicos e utiliza essa capacidade para realizar cálculos matemáticos.
Escreveu o livro “Born on a Blue Day” (Nascido num dia azul, cor que representa, para ele, as quartas-feiras, dia em que ele nasceu).
A Tribute to Kim Peek (1951-2009)
by Daniel Tammet
I would like to say a few words to pay tribute to Kim Peek, who passed away December 19th, at age 58. I was informed yesterday morning, but wanted to await Kim’s father Fran’s permission before making the news public.
For those who don’t know, Kim was the inspiration for Dustin Hoffman’s character in the Oscar-winning movie ‘Rain Man’.
I met Kim and his father Fran in July 2004, in Salt Lake City, Utah. Our time together was filmed for the documentary film “Brainman” (pun intended) and many viewers subsequently told me that this sequence was the highlight of the film. I also dedicated a chapter of my 2006 memoir “Born On A Blue Day” to our encounter.
Kim was a remarkable human being, blessed with astonishing mental gifts; he also battled numerous handicaps throughout his life. At the same time, he was funny, provocative, and down-to-earth. I remember fondly how he regaled me (and the documentary’s film crew) with all manner of facts and jokes, tunes and anecdotes. When I interviewed his father Fran, he was unsurprisingly extremely proud of his son, and vividly described Kim’s history and current life, which included much travel across the States with the important message that difference needn’t be a disability, because everyone’s different.
The memory I most treasure of Kim is of our mutual feelings of joy and excitement at finding someone who understood, in some small way, what it was like to think and feel and perceive the world very differently. We spent a long time swapping facts and figures with the kind of affection normally reserved for the gossip and reminiscences of old friends. And it really did feel as if we had known each other for years. There was a warm and wonderful ease and intimacy between us. I was and remain profoundly moved and inspired by the experience.
Meeting Kim and Fran helped me to learn much about what it means to be a savant, and a man. Kim faced his condition, its blessings and its burdens, with great courage, humour, and dignity. I must also pay homage to the tremendous and untiring dedication of Fran, on whom Kim depended and of whom he famously said: “We share the same shadow.”
Rest in Peace.
he Academy-award winning film Rain Man brought national—indeed international—attention to the Savant Syndrome Condition. But since it was first described a more than a century ago, the phenomenon of the savant—islands of genius and a-bility in stark juxtaposition to handicap and dis-ability—has remained unexplained. This site explores this fascinating condition in depth, and provides profiles of specific savants, some of whom have prodigious skills and abilities.
Darold A. Treffert, MD, past-president of the Wisconsin Medical Society and a psychiatrist at St. Agnes Hospital in Fond du Lac, Wisconsin has studied savant syndrome for years. He was a consultant to the movie Rain Man. On this web site he describes the condition, reviews and summarizes the world literature on the topic since the early reports, describes more recent cases and catalogs and categorizes savant abilities. He also provides a bibliography for references and text & video profiles of persons with savant syndrome.
His first book—Extraordinary People: Understanding Savant Syndrome—was updated most recently in 2006 and is available in ten languages. It is available through the www.iuniverse.com web site, Barnes and Noble at www.bn.com and www.amazon.com.
His most recent book—Islands of Genius: The Bountiful Mind of the Autistic, Acquired and Sudden Savant—was published by Jessica Kingsley, Inc., London. It was released in April, 2010 in the United States and will be available in May, 2010 in the U.K. and Europe. This book provides an update on well-known savants Dr. Treffert has been following for years and explores new cases, particularly the ‘acquired savant’ in which neurotypical persons demonstrate previously dormant savant skills, sometimes at a prodigious level following head injury or CNS disease. It also explores genetic memory—how savants ‘know things they never learned’. Both the acquired savant and genetic memory have vast implications for accessing dormant potential—a little Rain Man perhaps—within us all. There is a color illustration section of savant art, and special section outlines techniques for ‘training the talent’ (art, music, math) in these special people. The book is available at www.jkp.com or through Amazon or Barnes and Noble.
(Entrevista transcrita concedida à John Marshal da United Express Daily News – Texas – USA – 2009)
J.M. – Prof. Lugão, mais uma vez obrigado por conceder esta entrevista… Gostaria que o senhor explicasse o fato de muitas pessoas apresentarem duas faces ou formas de comportamento, por exemplo, em público são de um jeito e em casa de outro.
Resp. – Bem, é sempre um prazer conversar com você, John. Quanto a tua indagação… É natural que uma pessoa mude seu comportamento conforme o contexto e a situação… Em casa tenho o hábito de ficar nu de vez em quando; na verdade quase todas as pessoas têm este comportamento. Não me refiro a ficar andando nu, como num campo de nudismo, mas a tirar a roupa, seja para tomar um banho, seja para se trocar.
Embora banho seja uma coisa, no mínimo sensorial, sanitária e socialmente séria (experimente ficar alguns dias sem banho!) - sei que você e os leitores devem estar pensando que eu poderia ser mais específico… Então, deixe-me dizer que tudo começa a partir da definição de personalidade.
A personalidade é a combinação da herança genética (nosso temperamento) com as aprendizagens (caráter) que fazemos ao longo da vida. Logo, se você tem uma boa herança genética e um legado cultural rico (aprendizagem) provavelmente irás sentir mais facilidade diante dos desafios da vida. Ao contrário, se a tua herança genética contiver problemas, como em certas síndromes, e o teu mundo cultural for empobrecido você sofrerá e terá dificuldades para se desenvolver.
Estou explicando a base da personalidade humana, isto é, esta mistura de temperamento e caráter, agora devo acrescentar, para chegar na tua pergunta, que o psiquismo é formado por vários componentes, a parte física que chamamos de cérebro e as funções, como a memória, a consciência, a atenção, a percepção… O fato é que estas funções agem como programas, e exatamente como um computador, geram estratégias em relação a objetivos específicos. Se você tem sede ou fome teu organismo buscará uma estratégia para solucionar o problema… Entretanto, apesar de sermos animais fruto da evolução, como todos os animais, tivemos em função desta mesma evolução, estruturas cerebrais e aprendizagens muito específicas e diferenciadas. Podemos ter um impulso para saciar alguma necessidade biológica ou algum desejo psíquico ou cultural (o desejo é um componente motivacional que evoluiu das necessidades biológicas, possivelmente)… Então, de um lado você sente o impulso para pegar a comida mas o outro lado diz que você não pode pegar, tem que pagar por ela… O fato é que todos nós temos estratégias diferentes para situações diferentes, agimos de forma a nos adaptarmos aos diferentes contextos, mas de modo geral mantemos certos padrões estáveis; quando a diferença de comportamento entre um contexto e outro é muito grande, resta saber se o indivíduo tem consciência disto e age de forma intencional e integrada.
JM. – O senhor quer dizer que há uma diferença se a pessoa tem consciência de estar agindo de duas maneiras distintas?
Resp. Sim, mas devo acrescentar que ter consciência não é um critério que defina uma linha entre o saudável e o patológico. O que se percebe é que é normal haver uma diferença de comportamento em resposta aos diferentes ambientes. O que se pergunta é: a identidade da pessoa está lá integrada, convivendo harmoniosamente com as suas várias partes, e por conseqüência com as estratégias geradas por estas partes?
Peguemos algumas personalidades para ilustrar o argumento: Pelé, Dunga, Muhammad Ali-Haj … Paula Poundstone e Michael Jackson!
Paula Poundstone
JM. Embora a maioria dos citados seja conhecida do público, permita-me acrescentar uma breve apresentação… Pelé… O rei do futebol, Edson Arantes do Nascimento; Dunga, deve ser o treinador da atual seleção brasileira, e não um dos sete anões (risos)…
Resp. Correto (risos), o Sr. Carlos Caetano Bledorn Verri, é o Dunga, técnico da seleção; este apelido, pelo que li, dado por um tio – Cláudio, se não me engano- que o percebia como propenso a não ter uma estatura muito elevada.
JM. – Tenho umas perguntas sobre ele para depois… Cassius Clay, o exímio boxer, é Mohamed Ali; após a perda do cinturão de campeão, nos anos 60, por se recusar a ir para o combate no Vietnã converteu-se ao Islamismo. Sobram Michael Joseph Jackson, o Joseph é o desconhecido da mídia (risos) e Paula Poundstone! E mais uma vez o senhor me surpreende ao citar uma comediante que nos EUA é conhecida mas não no Brasil…
Resp. De fato não a conheço da mídia mas sim de uma obra sobre teorias da personalidade… Assim como Michael Jackson teve que se explicar diante das acusações sobre a sua atividade sexual com menores de idade, Paula Poundstone, mãe adotiva de algumas crianças , também foi acusada de abuso sexual… Bem, estas duas pessoas apresentam comportamentos distintos; talvez tivessem consciência das intenções de suas diferentes partes , embora não tivessem controle e quando as estratégias específicas eram acionadas elas embarcavam naquele rumo.
JM. Pode-se dizer que Pelé e Muhammad Alisão criações estratégicas do inconsciente de Edson Arantes e de Cassius Clay?
Resp. Criações estratégicas do inconsciente? (risos)… Apreciei John, você está pegando o jeito, soou bonito. Lembrou-me uma frase… A verdadeira amizade existe quando o silêncio entre duas pessoas se torna eloqüente… ( longa pausa – silêncio – seguida de risos de ambos)
JM. Well, muito boa esta! Tem outra?
Resp. Gosto muito de uma que causa um efeito visual-cinestésico… “Os limites das irradiações da atividade intelectual de Martin Heidegger” que li nos Seminários de Zollikon de Medard Boss.
JM. Impressiona bastante, mas o que me diz de Pelé?
Resp. John, se você ouve o Edson Arantes falando sobre o Pelé e não conhece a história deles (risos), pensará que são duas pessoas, mas parece que foi uma estratégia dissociativa consciente que ele arrumou para se proteger na aposentadoria e/ou conservar a sua identidade longe do atleta-personagem, porque deve ser muito difícil para o Clark Kent acordar um dia e perceber que o Super-homem já era… Edson sabia que chegaria a hora em que o Pelé deixaria de existir antes dele e foi sábio neste sentido mantendo uma distância crítica entre o personagem e a pessoa.
JM. Deve ser realmente duro acordar para um pesadelo como foi o de Christopher Reeves, ao cair do cavalo…
Resp. Na verdade o super-homem e o Clark Kent são máscaras para sobreviver na Terra que o Kal-El adotou… Assim como o Batman seria fruto de um trauma, o super-homem tem uma catástrofe em sua história de vida, catástrofe do tipo deste filme que vocês estão fazendo, 2012. Quanto à Christopher Reeves, muitos disseram, tentando resignificar, que ali ele demonstrou ser realmente o super-homem ao tentar superar sua condição.
Embora estes sejam personagens o Distúrbio Dissociativo de Identidade (DDI), que antigamente chamava-se Personalidade Múltipla, nasce de traumas ocorridos na infância.
JM. Isto quer dizer que uma pessoa pode realmente criar personagens, heróis, devido a traumas de infância?
Resp. Todos, de nossa idade (risos) conhecemos o juramento da caveira contra a pirataria… A lenda do Fantasma. Na verdade, muitos profissionais nasceram de traumas… Lembro-me de ter lido sobre uma médica que fez a escolha da carreira ao ver um parente tendo um infarto. No caso do DDI os estados de ego criados também servem para tentar organizar a sobrevivência ao trauma porém não são tão sublimados e sublimes e por isto causam uma desorganização na personalidade da pessoa.
JM. Li que Carl Jung conversava com uma pedra quando era criança…
Resp. C. G. Jung, como várias crianças, construía personagens e diálogos e disto advinha sua criatividade e, acredito, sua capacidade de empatia, assim como a de todos nós. Ou seja, creio que a empatia vem, deste exercício de associar-se / dissociar-se. Os pseudônimos e heterônimos vêm deste processo de associação / dissociação. Muitos escritores usam este recurso, por exemplo, Fernando Pessoa era mestre neste tipo de processo, e não podemos esquecer da história Meu pé de Laranja Lima.
Na literatura há o clássico “O médico e o monstro”…
JM. Ah! Mr. Jekyll & Mr. Hide !
Resp. Sim, Jerry Lewis e, mais recentemente, Ed Murphy, fizeram refilmagens desta obra clássica.
JM. Bem, para finalizar, o senhor vive em um país considerado mágico quando o assunto é futebol… Como sei, você próprio foi jogador de futebol indoor e ainda gosta de jogar…
Resp. Sim, ainda pratico para me exercitar e divertir, mas, e é difícil aceitar, as dores de artroses e artrites limitam muito…
JM. Bem, o que acha disto que a Imprensa tem comentado sobre o caráter do atual técnico … Um homem metódico e que tem um gênio difícil…
Resp. Bem, não conheço pessoalmente o homem, porém sei de muitas distorções e pressões que os homens públicos sofrem… Talvez ele esteja apenas reagindo… Como é gaúcho deve ter ascendência alemã ou italiana, donde este é um tipo de perfil que em geral trabalha sério e se diverte somente depois que a casa de tijolos está firme e o perigo já passou.
Foi traduzido para 32 línguas e publicado em 19 países. Foi adotado em escolas e, posteriormente, adaptado para o cinema, televisão e teatro.
Em 2003, Meu pé de laranja lima foi publicado na Coréia, em forma de quadrinhos, numa bem cuidada edição com 224 páginas ilustradas.
Em 2009, no seu 27º encontro, a Reinações (confraria da leitura de textos infanto-juvenis) debateu o livro Meu pé de laranja lima, destacando a ternura presente no livro e o espaço mágico em que a árvore acaba se revelando não apenas um amigo de Zezé, mas uma espécie de refúgio para o tanto de sofrimento que a vida lhe impôs. Os encontros ocorreram em Caxias do Sul.
Meu pé de laranja lima – Enredo
Este livro retrata a história de um menino de cinco anos chamado Zezé, que pertencia a uma família muito pobre e muito numerosa. Zezé tinha muitos irmãos, a sua mãe trabalhava numa fábrica, o pai estava desempregado, e como tal passavam por muitas dificuldades, pelo que eram as irmãs mais velhas que tomavam conta dos mais novos; por sua vez, Zezé tomava conta do seu irmãozinho mais novo, Luís.
Zezé era um rapazinho muito interessado pela vida, adorava saber e aprender coisas novas, novas palavras, palavras difíceis que o seu tio lhe ensinava. Contudo, passava a vida a fazer traquinices pela rua, a pregar peças aos outros e muitas vezes acabava por ser castigado e repreendido pelos pais ou pelos irmãos, que passavam a vida a dizer que era um mau menino, sempre a fazer maldades. Todos estes fatores e o fato de não passar muito tempo com a mãe, visto que esta trabalhava muito, faziam com que Zezé, muitas vezes, não encontrasse na família o carinho e a ternura que qualquer criança precisa.
Ao mudarem de casa, Zezé encontra no quintal da sua nova moradia um pequeno pé de laranja lima, inicialmente a idéia de ter uma árvore tão pequena não lhe agrada muito, mas à medida que este vai convivendo com a pequena árvore e ao desabafar com esta, repara que ela fala e que é capaz de conversar consigo, tornando-se assim o seu grande amigo e confidente, aquele que lhe dava todo o carinho que Zezé não recebia em casa da sua família.
Sobre Fernando Pessoa
O crítico George Steiner situa Fernando Pessoa entre os mestres da modernidade em artigo que inicia o leitor de língua inglesa na obra do poeta e seus três heterônimos
É raro um país e uma língua adquirirem quatro grandes poetas em um dia. Foi precisamente o que ocorreu em Lisboa a 8 de março de 1914.
Fernando Antônio Nogueira Pessoa nasceu naquela capital provinciana e algo lúgubre a 13 de junho de 1888. O Exército, o serviço público e a música figuravam no passado da família. Já em janeiro de 1894, após a morte do pai e do irmão caçula, Pessoa começou a inventar “heterônimos” — “personas” imaginárias para povoar um “teatro íntimo do eu”. O garoto de seis anos trocava cartas com um correspondente fictício. Sua mãe casou-se novamente, e a família mudou-se para Durban, África do Sul. No Natal veio à luz um certo Alexander Search, invenção para quem Pessoa criou uma biografia, traçou o horóscopo e em cujo nome calmamente translúcido escreveu poesia e prosa em língua inglesa. Seguir-se-iam outros 72 personagens em busca de um autor. De início, eles tendiam a escrever na esteira de Shelley e Keats, de Carlyle, Tennyson e Browning.
Em 1905, o jovem empresário de “eus” retornou a Lisboa.
Logo abandonou a universidade e tornou-se autodidata. No restante de sua vida, Pessoa escolheu uma renda módica, em empregos de meio período. Serviu como correspondente de comércio estrangeiro, traduzindo e compondo cartas em inglês e francês. De vez e quando, traduzia uma antologia literária. Essa existência marginal e autônoma vincula Pessoa a outros mestres da modernidade urbana, como James Joyce, Ítalo Svevo (Trieste e Lisboa partilham uma vívida fantasmagoria) e, de certo modo, Franz Kafka.
Até 1909, a poesia imputada a Alexander Search permanece em inglês, à exceção de seis sonetos portugueses. O ano de 1912 marcou uma reviravolta. Pessoa envolveu-se nos incontáveis círculos, conventículos e publicações efêmeras de cunho lítero-estético-político-moral que surgiram da crescente crise social portuguesa. (77 mil habitantes emigraram só naquele ano). A vida íntima de Pessoa — a alternância entre o mundo dos cafés lisboetas e o isolamento radical — encontrou expressão num secreto “Livro do Desassossego” e no primeiro rascunho de um longo poema inglês. A fissão em incandescência quadri-partida teve lugar naquele dia de março de 1914. Até hoje ele permanece um dos fenômenos mais notáveis da história da literatura. Ao rememorar o fato (numa carta de 1935), Pessoa fala de um “êxtase cuja natureza não conseguirei definir (…) aparecera em mim o meu mestre”.
Alberto Caeiro escreveu 30 e tantos poemas a toque de caixa. A estes se seguiram,“imediatamente e totalmente”, seis poemas de Fernando Pessoa ele só. Mas Caeiro não saltara à existência sozinho. Viera acompanhado de dois discípulos principais. Um era Ricardo Reis; o outro: “De repente, em derivação oposta à de Ricardo Reis, surgiu-me impetuosamente um novo indivíduo. Num jato, e à máquina de escrever, sem interrupção nem emenda, surgiu a “Ode Triunfal” de Álvaro de Campos — a Ode com esse nome e o homem com o nome que tem. Criei, então, uma “coterie” inexistente. Fixei aquilo tudo em moldes de realidade. Graduei as influências, conheci as amizades, ouvi, dentro de mim, as discussões e as divergências de critérios, e em tudo isto me parece que fui eu, criador de tudo, o menos que ali houve. Parece que tudo se passou independentemente de mim. E parece que assim ainda se passa”.
Pseudônimos, “noms de plume”, anonimato e toda forma de máscara retórica sãotão velhos quanto a literatura. Os motivos são muitos. Eles se estendem desde a escrita política clandestina à pornografia, desde o ofuscamento brincalhão a sérios distúrbios de personalidade. O “companheiro secreto” (íntimo de Conrad), o “duplo” prestativo ou ameaçador, é um motivo recorrente — veja-se Dostoiévski, Robert Louis Stevenson e Borges. Assim também é o tema — antigo como a rapsódia homérica — da poesia “tomada sob ditado”, sob o assalto literal e imediato das Musas, ou seja, das vozes divinas ou dos finados.
Nesse sentido de “inspiração”, de “ser escrito em vez de escrever”, as técnicas deescrita automática antecedem em muito o surrealismo. Muitos dos grandes escritoresvoltaram-se abertamente contra si próprios, contra sua obra ou seu estilo anteriores, aponto de buscar sua destruição. A multiplicidade, o ego convertido em legião, pode serfestiva, como em Whitinan, ou sombriamente auto-irônica, como em Kierkegaard.
Há disfarces e paródias que a erudição mais minuciosa jamais penetrou. Simenon era incapaz de recordar quantos romances criara ou sob quais antigos e múltiplospseudônimos. Em idade avançada, o pintor De Chirico prorrompia em museus e galerias de arte declarando falsos os prestigiosos quadros que havia muito lhe eram atribuídos. Agiu assim porque passou a antipatizá-los ou porque não podia mais identificar sua própria mão? Como proclamou Rimbaud, em sua renovação da modernidade, “Eu é um outro”.
Entretanto o caso de Pessoa permanece sui generis. Ele não tem nenhum paralelopróximo, não apenas por causa de sua estrutura quadri-partida, mas também pordiferenças mercantes entre suas quatro vozes. Cada uma tem sua própria biografia e físico detalhados. Caeiro é loiro, pálido e de olhos azuis; Reis é de um vago moreno mate; e “Campos, entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo, porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo”, como nos diz Pessoa. Caeiro quase não dispôs de educação e vive de pequenos rendimentos. Reis, educado num colégio de jesuítas, é um médico auto-exilado no Brasil desde 1919, por convicções monárquicas. Campos é engenheiro naval e latinista.
O inter-relacionamento dos três, seja na atitude ou no estilo literário, é de umadensidade e sutileza jamesianas, a exemplo de seus vários laços de parentesco com opróprio Pessoa. O Caeiro em Pessoa faz poesia por pura e inesperada inspiração. A obra de Ricardo Reis é fruto de uma deliberação abstrata, quase analítica. As afinidades com Campos são as mais nebulosas e intricadas. “É um semi-heterônimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu, menos o raciocínio e a afetividade”.
A língua de Campos é bastante parecida à de Pessoa; Caeiro escreve um portuguêsdescuidado, por vezes com lapsos; Reis é um purista cujo linguajar Pessoa consideraexagerado.
O labirinto é explorado na introdução de Octavio Paz a “A Centenary Pessoa” (”Um Pessoa Centenário”), uma antologia com bela produção editada por Eugênio Lisboa e L. C. Taylor. Paz vê Caeiro, Reis e Campos como “os protagonistas de um romance que Pessoa jamais escreveu”. Pessoa não é entretanto “um inventor de poetas-personagens, mas um criador de obras de poetas”, argumenta Paz. “A diferença é crucial”. As biografias imaginárias, as anedotas, o “realismo mágico” do contexto histórico-político-social em que cada máscara se desenvolve são um acompanhamento, uma elucidação para os textos. O enigma da autonomia de Reis e Campos é tal que, vez por outra, eles chegam a tratar Pessoa com ironia ou condescendência. Caeiro, por sua vez, é, como vimos, o mestre cuja brusca autoridade e salto para a vida generativa desencadeiam todo o projeto dramático. Paz distingue com acurácia estes fantasmas animados.
Caeiro é um agnóstico que deseja anular a morte por negar a consciência. Sua postura é de um paganismo existencial. Há em seus textos e sua “persona” retoques de quietude e sagacidade orientais. Sua fraqueza, sugere Paz, é a qualidade esfumada da experiência que alega encarnar. Ele morre jovem. Como Caeiro, Campos pratica versos livres e lida de modo irreverente com o português clássico ou castiço. Ambos são pessimistas, apaixonados pela realidade concreta. Mas Caeiro é um ingênuo que cultiva a abstinência e o retraimento filosóficos, ao passo que Campos é um dândi peregrino.
De novo,é Paz quem formula de modo incisivo:”Caeiro pergunta-se : o que sou? Campos: quem sou?”. Para Campos, essa questão é quase abafada pelo clamor damáquina, pelo bramido da nova tecnologia na fábrica e nas ruas da metrópole moderna. Partindo da premissa de que a única realidade é a sensação, Campos acabará por se perguntar se ele próprio é real (uma modulação irônica, em vista de seu primeiro e mais celebrado poema, a “Ode Triunfal”).
Ricardo Reis é o mais complexo destes disfarces. Anacoreta, ele privilegia os gêneros neoclássicos altamente elaborados, como o epigrama, a elegia e a ode. Raríssima mescla de esteta estóico (um eco talvez de Walter Pater?), a perfeição técnica de seus poemas curtos busca a tranqüila resignação ao destino. Pessoa chama atenção para as obras não publicadas de Reis; elas incluem “Um Debate Estético entre Ricardo Reis e Álvaro de Campos” e notas críticas sobre Caeiro e Campos, qualificadas por Pessoa como “modelos de precisão verbal e equívoco estético”. (Tão encantadoramente tortuosos são o dédalo e o quarto de espelhos de Pessoa que mesmo um Borges ou um Paz, ambos mestres em labirintos, parecem simples em comparação). E a respeito do titereiro ele próprio (apesar dessa comparação grosseira)?
Paz o imagina como essencialmente ausente: “Ele nunca aparecerá: não há um outro. O que aparece insinua a si próprio sua alteridade, que não tem nome, que não é dito e nossas pobres palavras invocam. Isto é poesia? Não: poesia é o que resta e nos consola, a consciência das ausências. E, mais uma vez, quase imperceptivelmente, um rumor de algo. Pessoa ou a iminência do desconhecido”.
A silhueta que Paz traça de Pessoa, sendo palavras de despedida tão sutis, correm o risco de obscurecer um fato básico. Do jogo espectral dos heterônimos emerge uma poesia com força de primeira grandeza. Pessoa é com justiça arrolado entre as 26 figuras centrais do sugestivo, embora um tanto pueril, “Cânone Ocidental” (de Harold Bloom).
O português é uma língua resistente. Suas guturais o fazem como que o membro eslavo da família das línguas românicas. Na ausência, ademais, de uma tradução adequada para, o inglês dos “Lusíadas”, de Camões, essa grande epopéia de um império trágico e conquistador, para a maioria de nós a literatura portuguesa (que inclui, naturalmente, a do Brasil) permanece estranha.
Somos por isso gratos às traduções e seleções de nosso quarteto a cargo de KeithBosley. Primeiro, a voz de Pessoa: “Não sei quem me sonho…”; “Ditosos a quem acena/ Um lenço de despedida!” ; “Dá a surpresa de ser”. Ou o característico “O mais do que isto/ É Jesus Cristo,/ Que não sabia nada de finanças/ Nem consta que tivesse biblioteca…” Há este registro irônico e incerto, com seu constante apelo ao mar, a um Portugal quase liberto de suas amarras européias:
“Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu”.
Ouvimos a seguir a sensualidade filosófica de Caeiro:
“Não me importo com às rimas. Raras vezes Há duas árvores iguais, uma ao lado da outra. Penso e escrevo como as flores têm cor Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me Porque me falta a simplicidade divina De ser todo só o meu exterior”.
Há laconismos inesquecíveis (uma distante melodia de Emily Dickinson): “Li hojequase duas páginas/ Do livro dum poeta místico,/ E ri como quem tem chorado muito”. Caeiro saúda o transitório. Para ele a “recordação é uma traição à Natureza”, já que ela muda constantemente. Ele ordena aos, pássaros em vôo que lhe ensinem a arte de passar sem deixar rastro. A busca da individualidade, de verdades absolutas — o modelo platônico tão peremptório na poesia ocidental — é meramente “uma doença das nossas idéias”. Suas reflexões sobre a morte e a posteridade são dotadas de um orgulho agridoce pois ele foi “gentil como o sol e a água” e, por fim, veio-lhe o “sono como a qualquer criança”.
Absolutamente diverso é Ricardo Reis: rato de biblioteca, entendido em mitologiaantiga, perito em formas métricas elaboradas e estilo mandarim. De certo modo, umaversão mais austera de Swinburne e Gautier, de ouvidos atentos e imitando “O ritmoantigo que há em pés descalços,/ Esse ritmo das ninfas repetido”. Um esteta “fin desiècle” que prefere “rosas à pátria” e vê em Cristo não “mais que um deus a mais noeterno”. Todavia um poeta lírico capaz desta rara mordacidade epigramática queconhecemos também de Walter Savage Landor (talvez o verdadeiro modelo de Reis):
“Quando, Lídia, vier o nosso outono Com o inverno que há nele, Preservemos Um pensamento, não para a futura Primavera, que é de outrem, Nem para o estio, de quem somos mortos, Senão para o que fica do que passa — O amarelo atual que as folhas vivem E as torna diferentes”.
Campos é o retórico loquaz, o bardo à maneira clássica. É capaz porém deridicularizar-se com ousada satisfação. Sua “Ode Triunfal” pode ser equiparada a “APonte”, de Hart Crane, como um dos textos-chave das paisagens industriais damodernidade. “Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hó la foule!” Como o ranzinza efantasmagórico Pessoa deve ter refugido da robusta democracia de Campos! Como Reis, o alusivo helenista vitoriano, deve ter-se esquivado!
“Ah, e agente ordinária e suja, que parece sempre a mesma, Que emprega palavrões como palavras usuais, Cujos filhos roubam às portas das mercearias E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! Masturbam homens de aspecto decente nos vãos da escada.”
“Tabacaria” consta entre os mais prestigiados poemas da língua. Não é cinismo,mas antes uma espécie de revigorante desalento que ordena à pequena garota “comerchocolates”, pois “que não há mais metafísica no mundo senão chocolates”, após o que o poeta deita o papel laminado “para o chão, como tenho deitado a vida”. E já que “toda gente sabe como as grandes constipações/ Alteram todo o sistema do universo/ Zangam-nos contra a vida,/ E fazem espirrar até à metafísica”, o poeta receita um único remédio: “Preciso de verdade e da aspirina”. Hazlitt fala com reverência de umasensibilidade capaz de imaginar e dar articulação a um lago e a uma Cordélia. A simples amplitude de vozes e temperamentos alternados de Pessoa dificilmente é menos admirável.
Essa homenagem centenária elegantemente ilustrada oferece passagensrepresentativas da prosa de Pessoa acrescidas de críticas, perfis e documentos. Omitido porém foi o leviatânico drama filosófico “Fausto”. Pessoa começou a trabalhar nesta suma em 1908 e — em analogia a Goethe — continuou a elaborá-lo até 1933. Há críticos, notadamente na França, que o tomam por uma obra-chave, um arquipélago ainda a ser descoberto.
Os editores incluíram duas imaginárias entrevistas póstumas, mas o supra-sumonessa veia parece que lhes passou despercebido: “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, de José Saramago, traduzido para o inglês em 1991 por Giovanni Pontiero, está entre os melhores romances da recente literatura européia. o livro fala do regresso de Ricardo Reis de seu exílio no Brasil, de Eros e fascismo em Lisboa e do encontro entre Reis e seu genitor morto. Nada mais perceptivo foi escrito sobre Pessoa e suas sombras contrastantes. Nas palavras de Fernando Pessoa:
“Se as coisas são estilhaços Do saber do universo, Seja eu os meus pedaços, Impreciso e diverso. Eles foram e não foram”.
O que é ceticismo? Não é nada muito esotérico. Nós o encontramos todos os dias. Quando compramos um carro usado, se formos minimamente inteligentes, nós exercitaremos pelo menos um mínimo de atitudes céticas – se nossa formação escolar tiver deixado alguma coisa. Você pode dizer “este sujeito parece honesto. Eu vou acreditar em tudo que ele disser”. Ou você pode dizer “bem, eu ouvi dizer que às vezes acontecem pequenas fraudes na venda de um carro usado, talvez sem o conhecimento do vendedor”, e aí você faz alguma coisa. Você chuta os pneus, abre as portas, olha sob o capô (você pode fazer tudo isso mesmo se não souber o que deveria estar sob o capô, ou pode trazer um amigo com queda para mecânica). Você sabe que algum ceticismo é necessário, e você entende por quê. É desagradável que você talvez tenha que discordar do vendedor ou lhe fazer perguntas que ele não queira responder. Há ao menos um pequeno grau de confronto interpessoal envolvido na compra de um carro usado e ninguém diz que isso seja especialmente agradável. Mas há uma razão boa para ela – porque quem não usar um mínimo de ceticismo, quem tem uma credulidade absolutamente irrestrita, provavelmente pagará algum preço por isso. Então se arrependerá por não ter feito um pequeno investimento em ceticismo.
(Há no final deste artigo comentários sobre o filme What the bleep do we know)
Mas você não precisa passar quatro anos em um curso superior para entender isso. Todo mundo sabe disso. O problema é que carros usados são uma coisa, e comerciais de televisão ou pronunciamentos de presidentes e líderes de partidos são outra bem diferente. Nós somos céticos em algumas áreas, mas infelizmente não em outras.
Por exemplo, existem alguns comerciais de aspirina que revelam que o produto da concorrência tem somente certo tanto do componente analgésico que os médicos mais recomendam – eles não dizem que componente misterioso seria esse –, enquanto que o produto deles tem uma quantidade bem maior (1,2 a 2 vezes mais por comprimido). Portanto, você deve comprar o produto deles. Mas por que não tomar dois comprimidos do produto concorrente? Não se deve perguntar. Não aplique ceticismo a esta questão. Não pense. Compre.
Essas afirmações em comerciais constituem pequenos enganos. Eles nos tomam um pouco de dinheiro, ou nos induzem a comprar um produto ligeiramente inferior. Não é tão terrível. Mas considerem o seguinte: tenho aqui o programa da Feira da Vida Integral (Whole Life Expo) deste ano em São Francisco. Vinte mil pessoas compareceram no ano passado.
Eis os títulos de algumas palestras…
“Tratamentos alternativos para pacientes de AIDS: reconstruindo as próprias defesas naturais e impedindo colapsos do sistema imunológico – conheça as últimas descobertas que a mídia ignorou até agora”. Parece-me que essa palestra poderia fazer um mal bastante real… se as pessoas abandonassem seus tratamentos. (Complementação feita pelo prof. Celso Lugão da Veiga, que acrescenta a observação abaixo em negrito)
Também é evidente que qualquer resultado estupendo da ciência em qualquer setor tem uma repercussão na mídia. Embora devamos reconhecer que também existem cartéis que monopolizam e manipulam as informações em prol de seus produtos; o próprio Carl Sagan dá um exemplo ao falar da aspirina, vide acima. Mas o fato é que se o produto e/ou saber for oriundo de rigorosa pesquisa científica acabará por prosperar devido a sua consistência e poder preditivo. Justamente por causa do fator temporal em relação ao avanço das pesquisas, ao tempo de vida humana e ao estado de sofrimento, é que pessoas mal informadas ou oportunistas apregoam remédios e curas milagrosas. O sofrimento exige uma resposta imediata, o alívio da dor tem que ser rápido; assim, se a ciência não tem a resposta imediata alguém se aproveita da situação e oferece uma alternativa. O problema se agravará se houver falta de senso crítico, ignorância e má fé.
Continuação do artigo de Carl Sagan…
Outro título de palestra: “Como proteínas do sangue presas causam dor e sofrimento”. Sagan não fez comentários.
Outro título: “Cristais, seriam eles talismãs ou pedras?” (Sagan diz ironizando): “eu tenho minha própria opinião”. Na chamada para esta palestra está escrito : “assim como um cristal enfoca ondas de som e luz para rádio e televisão eles podem amplificar vibrações espirituais para o ser humano sintonizado”. Aposto que muito poucos de nós estão sintonizados.
Outra palestra: “Retorno da deusa, um ritual de apresentação”.
E outra: “Sincronicidade, a experiência do reconhecimento”. Essa é apresentada pelo “irmão Charles”. Ou, na página seguinte, “Você, Saint-Germain, e a cura pela chama violeta”. E continua, com um monte de propagandas sobre “oportunidades” – indo do dúbio ao espúrio – que estão disponíveis na Feira Vida Integral.
Se você aparecesse na Terra em qualquer época durante a presença dos seres humanos, encontraria um conjunto de sistemas de crença populares mais ou mais menos similares. Elas mudam, frequentemente com muita rapidez, frequentemente ao longo de alguns anos; mas, às vezes, crenças desse tipo duram muitos milhares dos anos. Pelo menos algumas estão sempre disponíveis. E penso que é razoável perguntar por quê. Nós somos Homo sapiens. Essa é a característica que nos distingue, essa parte do sapiens. Nós deveríamos ser inteligentes. Então por que essas coisas sempre nos acompanham? Bem, para começar, muitos desses sistemas de crenças abordam necessidades humanas reais que não estão sendo providas por nossa sociedade. Existem necessidades médicas, espirituais e de comunhão com o resto da comunidade humana que não são satisfeitas. Pode haver mais falhas desse gênero em nossa sociedade que em muitas outras na história humana. Portanto, é razoável que as pessoas fucem e experimentem – para ver se o tamanho serve – diversos sistemas de crenças, e vejam se eles ajudam.
Por exemplo, pegue uma moda como a canalização de espíritos. Sua premissa fundamental, como o espiritualismo, é que quando morremos nós não desaparecemos exatamente, que alguma parte de nós continua. Essa parte, dizem, pode reentrar nos corpos de humanos e outros seres no futuro, e assim a morte perde muito da sua força para nós. E mais, nós temos uma oportunidade, se as afirmações da canalização forem verdadeiras, de fazer contato com entes queridos que morreram.
Pessoalmente, adoraria que a reencarnação existisse. Perdi meus pais, os dois, nos últimos anos, e adoraria ter uma pequena conversa com eles, para contar o que as crianças estão fazendo, saber que tudo vai bem onde quer que eles estejam. Isso toca algo muito profundo. Mas, ao mesmo tempo, sei que há pessoas que precisamente por essa razão tentarão tirar vantagem da vulnerabilidade de quem está de luto. É bom que os espiritualistas e os canalizadores tenham uma argumentação muito convincente.
Ou tome a ideia de que se concentrando bem em formações geológicas pode-se descobrir onde estão os depósitos de minerais ou petróleo. Uri Geller afirma isso. Agora, se você for um executivo de uma companhia de exploração mineral ou de petróleo, seu arroz e feijão dependem de encontrar os minerais ou o óleo: por isso, gastar uma quantidade desprezível de dinheiro para encontrar depósitos psiquicamente, comparada com o que você geralmente gasta na exploração geológica, não soa tão mal. Você pode ficar tentado.
Ou pense nos ÓVNIs, na afirmação de que seres em naves espaciais de outros mundos estão nos visitando o tempo todo. Acho essa uma ideia fascinante. É no mínimo uma ruptura do ordinário. Gastei uma boa quantidade de tempo em minha vida científica trabalhando na busca de inteligência extraterrestre. Pense em quanto esforço poderia economizar se esses camaradas estiverem vindo pra cá. Mas quando reconhecemos alguma vulnerabilidade emocional a respeito de uma alegação, é bem aí que temos de nos esforçar ao máximo no escrutínio cético. É aí que nós podemos ser enganados.
Agora, reconsideremos a canalização. Existe uma mulher no estado de Washington que afirma fazer contato com alguém de 35.000 anos atrás, “Ramtha” – que, por sinal, fala inglês muito bem, com o que me parece ser um sotaque indiano. Suponha que Ramtha estivesse aqui e suponha que Ramtha cooperasse conosco. Poderíamos fazer algumas perguntas: como sabemos que Ramtha viveu há 35.000 anos? Quem está contando esses milênios? São exatamente 35.000 anos? Esse é um número bastante redondo. Trinta e cinco mil mais ou menos quanto? Como eram as coisas há 35.000 anos? Como era o clima? Em que parte da Terra Ramtha viveu? (eu sei que ele fala inglês com um sotaque indiano, mas onde foi isso?) O que Ramtha come? (Os arqueólogos sabem algo sobre o que as pessoas comiam naquela época.) Nós teríamos uma oportunidade real de descobrir se suas afirmações são verdadeiras. Se fosse realmente alguém de 35.000 anos atrás, poderíamos aprender sobre essa época. Assim, de um jeito ou de outro, ou Ramtha tem mesmo 35.000 anos, e nesse caso nós descobrimos alguma coisa sobre esse período – que é antes da Idade do Gelo de Wisconsin, uma época interessante –, ou é um impostor e uma hora vai escorregar. Quais são as línguas indígenas, qual é a estrutura social, com quem Ramtha vive – filhos, netos –, como é o ciclo de vida, a mortalidade infantil, que roupa ele usa, qual sua expectativa de vida, suas armas, plantas e animais? Conte para nós. Mas não, o que ouvimos são as homilias mais banais, indistinguíveis das que os supostos ocupantes de ÓVNIs contam aos pobres seres humanos que afirmam terem sido sequestrados por eles.
Comentário do prof. Celso Lugão
A mulher a que Carl Sagan se refere é a loura que aparece, e na verdade financia, o filme What the bleep do we know, traduzido no Brasil como Quem somos nós… Participei de um debate sobre este filme e para tanto fui pesquisar sobre o mesmo. Esta senhora, sem dúvida não está sozinha, criou um culto, que naturalmente cobra dos participantes uma verba e recomenda que as crianças sejam doutrinadas cedo, vide no final deste artigo mais comentários extraídos do preparo de minha palestra.
Continua Sagan…
Ocasionalmente, por sinal, recebo uma carta de alguém que está “em contato” com um extraterrestre que me convida a “perguntar qualquer coisa”. E tenho uma lista de perguntas. Os extraterrestres são muito avançados, lembrem-se. Portanto, peço coisas como “por favor, forneça uma prova curta do último teorema de Fermat [1]”. Ou da conjetura de Goldbach. E tenho que explicar o que são essas coisas, porque os extraterrestres não as chamarão de último teorema de Fermat, então escrevo uma pequena equação com expoentes. E nunca me respondem. Por outro lado, se perguntar algo como “humanos devem ser bons?”, eles sempre me respondem. Acho que alguma coisa pode ser deduzida dessa habilidade diferencial de responder a perguntas. Qualquer pergunta vaga é respondida com muito prazer, mas qualquer coisa específica, em que haja a possibilidade de se descobrir se eles realmente sabem alguma coisa, só encontra o silêncio.
O cientista francês Henri Poincaré afirmou o seguinte sobre por que a credulidade é avassaladora: “Também sabemos quão cruel a verdade frequentemente é, e nos perguntamos se a ilusão não é mais consoladora”. Foi isso que tentei dizer com meus exemplos. Mas não penso que essa seja a única razão de a credulidade ser avassaladora. O ceticismo desafia instituições estabelecidas. Se ensinarmos a todos, digamos, os estudantes do ensino médio o hábito de ser cético, talvez essas pessoas não restrinjam seu ceticismo a comerciais de aspirina e canalizadores de 35.000 anos (ou canalizados). Talvez eles comecem a fazer perguntas difíceis sobre instituições econômicas, sociais, políticas ou religiosas. E onde iremos parar?
O ceticismo é perigoso. Essa é exatamente sua função, no meu ponto de vista. É função do ceticismo ser perigoso. E é por isso que há uma grande relutância para ensiná-lo nas escolas. É por isso que você não encontra uma fluência geral em ceticismo na mídia. Por outro lado, como dominaremos um futuro muito perigoso se não tivermos as ferramentas intelectuais mais elementares para fazer perguntas investigativas àqueles nominalmente no comando, especialmente em uma democracia?
Penso que este é um momento útil para refletir sobre o tipo de problema nacional que poderia ter sido evitado se o ceticismo fosse mais disponível na sociedade norte-americana. O fiasco Irã/Nicarágua é um exemplo tão óbvio que não vou tirar vantagem do nosso pobre e cercado presidente [Reagan] ao comentar o assunto. A resistência do governo a um tratado detalhado de proibição completa de testes e a sua paixão contínua por detonar armas nucleares – um dos principais motores da corrida armamentista nuclear – sob o pretexto de nos “proteger” é uma dessas questões. O programa Guerra nas Estrelas também. Os hábitos de pensamento cético que o CSICOP incentiva têm relevância para matérias da maior importância à nação. Há absurdos suficientemente promulgados por ambos os partidos políticos para que o hábito do ceticismo imparcial deva ser declarado um objetivo nacional, essencial para nossa sobrevivência.
Quero falar um pouco mais sobre o ônus do ceticismo. Você pode começar um hábito de pensamento que lhe dê prazer em zombar de todas as pessoas que não veem as coisas com tanto cuidado como você. Potencialmente, este é um verdadeiro perigo social em uma organização como o CSICOP. Temos que nos proteger contra ele.
Parece-me que é necessário um equilíbrio muito cuidadoso entre duas necessidades conflitantes: o escrutínio mais cético de todas as hipóteses que nos são apresentadas e ao mesmo tempo uma grande abertura a novas ideias. Obviamente, essas duas modalidades do pensamento contém tensão. Mas se você ficar somente u com uma delas, qualquer que seja, você tem um problema sério.
Se você for somente cético, então nenhuma ideia nova chega até você. Você nunca aprende nada de novo. Você se transforma em um velho excêntrico convencido de que besteiras governam o mundo (evidentemente que há muitos dados para lhe dar apoio.). Mas, de quando em quando, talvez uma vez em cem casos, uma nova ideia acaba acertando, válida e maravilhosa. Se você estiver no hábito demasiado forte de ser cético com tudo, você não a perceberá ou se sentirá agredido, e de qualquer maneira estará barrando o caminho da compreensão e do progresso.
Por outro lado, se você estiver aberto ao ponto de ser crédulo e não tiver um grama de ceticismo, então você não conseguirá distinguir as ideias úteis das sem valor. Se todas as ideias tiverem validade igual então você está perdido, porque então, me parece, nenhuma ideia tem validade alguma.
Algumas ideias são melhores que outras. O aparato para distingui-las é uma ferramenta essencial para lidar com o mundo e especialmente com o futuro. E é precisamente a mistura dessas duas modalidades de pensamento que é central ao sucesso da Ciência.
Os cientistas realmente bons fazem ambas as coisas. Sozinhos, falando consigo mesmos, eles criam um monte de ideias novas e as criticam sem piedade. A maior parte das ideias nunca chega ao mundo exterior. Somente as ideias que passam por rigorosos filtros pessoais conseguem sair e são criticadas pelo restante da comunidade científica. Acontece às vezes que as ideias que são aceitas por todos acabam por se mostrar erradas, ou ao menos parcialmente erradas, ou ao menos substituíveis por ideias mais amplas. E, se por um lado, naturalmente existem algumas perdas pessoais – vínculos emocionais a ideias que você mesmo ajudou a criar –, não obstante a ética coletiva é que toda vez que uma ideia assim cai e é substituída por algo melhor, a Ciência beneficiou-se. Em Ciência é comum que os cientistas digam “sabe, esse é um argumento bom mesmo; minha posição está errada”, e então mudem mesmo de ideia e você nunca mais ouve aquela visão antiga. Isso acontece mesmo. Não tão frequentemente como deveria, porque os cientistas são humanos e a mudança às vezes é dolorosa. Mas acontece todos os dias. Mas ninguém consegue lembrar qual foi a última vez em que algo assim aconteceu na política ou na religião. É muito raro que um senador, por exemplo, diga “esse é um bom argumento. Vou mudar minha afiliação política”.
Gostaria de dizer algumas coisas sobre as entusiasmadas reuniões na busca por inteligência extraterrestre (SETI) e sobre linguagem de animais em nosso encontro do CSICOP. Na história da Ciência há uma instrutiva sequência de grandes batalhas intelectuais que, no fim, todas elas, acabam sendo sobre quão centrais são os seres humanos. Podemos chamá-las de batalhas sobre a arrogância anticopernicana.
Eis algumas das questões:
- Nós somos o centro do Universo. Todos os planetas, estrelas e o sol e a lua giram em torno de nós (puxa, isso que é querer ser realmente especial). Essa era a opinião que prevalecia – Aristarco à parte – até a época de Copérnico. Muitas pessoas gostavam dela porque ela lhes dava uma injustificada posição central no Universo. O mero fato de estar na Terra os fazia privilegiados. E a sensação era ótima. Depois surgiu a evidência que a Terra era somente um planeta e que aqueles outros pontos brilhantes de luz que se mexiam também eram planetas. Decepcionante. Até deprimente. Era melhor quando éramos centrais e únicos.
- Mas ao menos nosso sol está no centro do Universo. Não, aquelas outras estrelas são sóis também e, além disso, nós estamos nos cafundós galácticos. Estamos bem longe do centro da galáxia. Deprimente mesmo.
- Bem, pelo menos a Via Láctea está no centro do Universo. Então, um pouco mais de progresso na Ciência. E descobrimos que o centro do Universo não existe. E mais: há cem outros bilhões de galáxias. Nada especial sobre esta. Profunda melancolia.
- Bem, ao menos somos humanos, somos o centro da criação. Nós somos à parte. Todas aquelas outras criaturas, plantas e animais, são inferiores. Nós somos mais elevados. Nós não temos nenhuma conexão com eles. Cada ser vivo foi criado separadamente. Aí aparece Darwin. Descobrimos um continuum evolucionário. Nós estamos proximamente conectados aos outros animais e vegetais. E, além disso, os parentes biológicos mais próximos a nós são os chimpanzés. Aqueles são nossos parentes próximos ¬ aqueles? É uma vergonha. Você já foi ao jardim zoológico e prestou atenção neles? Você sabe o que eles fazem? Imagine na Inglaterra vitoriana, quando Darwin teve esse insight, que verdade incômoda era essa.
Há outros exemplos importantes – sistemas de referência privilegiados na física e a mente inconsciente na psicologia – que nem abordarei.
Afirmo que na tradição deste longo conjunto de debates – e cada um deles foi ganho pelos copernicanos, aqueles que dizem que não há nada muito especial sobre nós – havia uma profunda corrente emocional subliminar nos debates em ambas as sessões do CSICOP que mencionei. A busca por inteligência extraterrestre e a análise de possíveis “línguas” animais ataca um dos últimos sistemas restantes de crenças de pré-copernicanas:
- Pelo menos somos as criaturas mais inteligentes do Universo. Se não houver mais ninguém inteligente em lugar algum, mesmo se nós estivermos ligados aos chimpanzés, mesmo se nós estivermos nos cafundós de um universo vasto e incrível, ao menos ainda existe alguma coisa especial sobre nós. Mas no instante em que encontrarmos inteligência extraterrestre essa última fração de arrogância acaba. Creio que um pouco da resistência à ideia de inteligência extraterrestre é devida à arrogância anticopernicana. Do mesmo modo, sem favorecer qualquer lado no debate sobre se outros animais – primatas antropoides, especialmente os grandes macacos – são inteligentes ou se têm linguagem, claramente essa é, em um nível emocional, a mesma questão. Se definirmos seres humanos como criaturas que têm linguagem e ninguém mais tem a linguagem, pelo menos somos originais em relação a isso. Mas se no fim todos aqueles chimpanzés sujos, repugnantes, risíveis, também conseguem, com Ameslan [2] ou de outra maneira, comunicar ideias, o que sobra de especial sobre nós? As predisposições emocionais nestas questões estão presentes, frequentemente de maneira inconsciente, em debates científicos. É importante perceber que os debates científicos, assim como os pseudocientíficos, podem ser encharcados de emoção, por estas razões e muitas outras.
Agora, vamos examinar melhor a busca em sinais rádio por inteligência extraterrestre. Em que isso é diferente de pseudociência? Vejamos alguns casos reais. No começo dos anos 1960, os soviéticos deram uma entrevista coletiva em Moscou anunciando que uma distante fonte de rádio, chamada CTA-102, estava variando senoidalmente (como uma onda de seno), com um período de aproximadamente 100 dias. Por que convocaram uma coletiva para anunciar que uma fonte de rádio distante estava variando? Porque pensaram que fosse uma civilização extraterrestre de enorme poder. Vale a pena chamar uma coletiva por isso. Isso foi antes mesmo que a palavra “quasar” fosse criada. Hoje nós sabemos que a CTA-102 é um quasar. Ainda não sabemos muito bem o que os são quasares, e há mais de uma explicação mutuamente exclusiva para eles na literatura científica. Não obstante, poucos consideram seriamente que um quasar, como CTA-102, seja alguma civilização extraterrestre circundando a galáxia, porque existem diversas explicações alternativas de suas propriedades que são mais ou mais menos consistentes com as leis físicas que conhecemos, sem invocar vida extraterrestre. A hipótese extraterrestre é uma hipótese de último recurso. Somente se tudo mais falha você a tenta.
Segundo exemplo: cientistas britânicos encontraram em 1967 uma intensa fonte de rádio próxima que flutuava em um tempo mais curto, com um período constante em dez algarismos significativos. O que era? Sua primeira ideia foi a de algo como uma mensagem sendo emitida para nós, ou uma baliza de navegação interestelar para naves espaciais que andam entre estrelas. Chegaram a lhe dar, entre eles na universidade de Cambridge, o irônico nome de LGM-1, Little Green Men (Homenzinhos Verdes). Porém (eles eram mais sábios que os soviéticos), não convocaram uma coletiva, e logo ficou claro que o que tínhamos era o que se chama agora um “pulsar”. Na verdade, era o primeiro pulsar, o pulsar da nebulosa de Caranguejo. Bem, e o que é um pulsar? Um pulsar é uma estrela encolhida ao tamanho de uma cidade, que se mantém coesa de maneira diferente de qualquer outra estrela, não pela pressão de gás, não pela degeneração de elétrons, mas por forças nucleares. É de certa maneira um núcleo atômico do tamanho de Pasadena [3]. E acho que essa é uma ideia pelo menos tão bizarra quanto uma baliza de navegação interestelar. A resposta ao que é um pulsar deve ser algo bem estranho. Não é uma civilização extraterrestre, é outra coisa: mas uma outra coisa que abre nossos olhos e nossas mentes e indica possibilidades na Natureza que ainda não tínhamos imaginado.
E existe a questão dos falsos positivos. Frank Drake em sua original experiência de Ozma; Paul Horowitz no programa do META, Análise do Megacanal Extraterrestre (MEgachannel ExTraterrestrial Assay), patrocinado pela sociedade planetária; o grupo da universidade de Ohio e muitos outros grupos detectaram sinais anômalos que faziam o coração palpitar. Eles pensaram por um momento que tinham detectado um sinal genuíno. Em alguns casos não temos a menor ideia do que era, os sinais não se repetiram. Na noite seguinte você gira o mesmo telescópio para o mesmo ponto no céu com a mesma modulação e a mesma frequência, tudo da mesma maneira, e não ouve nada. Você não publica os dados. Pode ser um mau funcionamento no sistema da detecção. Pode ser um avião militar AWACS voando por ali e transmitindo em canais de frequência que deveriam ser reservados para a radioastronomia. Pode ser uma máquina diatérmica [4] na sua rua. Há muitas possibilidades. Você não declara imediatamente que encontrou inteligência extraterrestre quando encontra um sinal anômalo.
E, caso se repetisse, então você anunciaria? Não. Talvez seja uma armação. Talvez seja algo que esteja acontecendo com o seu sistema que você não foi suficientemente inteligente para descobrir. Em vez disso, você chamaria cientistas em um monte de outros radiotelescópios e diria que neste ponto específico do céu, nesta frequência e filtro e em modulação e em todo o resto, parece que você detecta uma coisa estranha. Poderiam dar uma olhada e ver se acham alguma coisa parecida? E somente se diversos observadores independentes conseguem o mesmo tipo da informação do mesmo ponto no céu você pensa que tem alguma coisa. Ainda assim, você não sabe se aquela coisa é uma inteligência extraterrestre, mas pelo menos você determinou que não é algo na Terra. (E que também não está na órbita da Terra; está mais longe que isso.) Essa é a primeira sequência de eventos que seriam necessários para estar certo de que você realmente teve um sinal de uma civilização extraterrestre.
Note que há alguma disciplina envolvida. O ceticismo impõe um ônus. Você não pode sair gritando “homenzinhos verdes” porque vai parecer bem tolo, como aconteceu com os soviéticos e o CTA-102, quando no fim das contas for uma coisa bem diferente. É necessário um cuidado especial quando há tanta coisa em jogo, como nesse caso. Nós não temos a obrigação de nos decidirmos antes de achar as evidências. Não tem problema não ter certeza.
Frequentemente me perguntam se acho que existe inteligência extraterrestre. Dou os argumentos padrão – há muitos lugares lá fora, e uso a palavra bilhões, e assim por diante. E aí digo que seria incrível para mim se não houver uma inteligência extraterrestre, mas naturalmente não há até agora nenhuma evidência forte a favor dela. E aí me perguntam, então, “é, mas o que acha de verdade?” E eu digo “acabei de dizer o que realmente penso”. “Ok, mas o que a sua intuição diz?” Mas tento não pensar com minha intuição. Não há problema em adiar o julgamento até que a evidências cheguem.
Depois que meu artigo “A refinada arte de detectar mentiras” saiu na revista Parade (1 de fevereiro de 1987), ele recebeu, como você pode imaginar, muitas cartas. Sessenta e cinco milhões de pessoas leem Parade. No artigo, dei uma longa lista das coisas que afirmei serem “falácias demonstráveis ou presumíveis” – trinta ou quarenta itens. Pessoas que apoiavam todas aquelas ideias estavam igualmente ofendidas, portanto recebi montanhas de cartas. Também dei um conjunto de instruções bem simples sobre como pensar sobre falácias – argumentos de autoridade não são válidos, cada etapa na cadeia de evidências tem que ser válida, e assim por diante. Muitas pessoas escreveram dizendo “você está absolutamente certo nas generalidades; infelizmente, isso não se aplica à minha doutrina particular”. Por exemplo, uma pessoa escreveu que a ideia de que a vida inteligente existe fora da terra é um exemplo excelente de falácia. Ele concluiu: “estou tão certo disso como de qualquer outra coisa em minha experiência. Não há nenhuma vida consciente em qualquer outra parte do Universo. A humanidade retorna assim à sua justa posição como o centro do Universo”.
Outra pessoa também concordou com todas as minhas generalidades, mas disse que, como um cético inveterado, fechei minha mente à verdade. Mais notável é que tenha ignorado a evidência para uma Terra cuja idade seja de seis mil anos. Bem, não a ignorei; considerei a evidência apresentada e então a rejeitei. Há uma diferença, e esta é uma diferença, pode-se dizer, entre preconceito e o “pós-conceito”. O preconceito faz um julgamento antes de olhar os fatos. Pós-conceito faz o julgamento depois. O preconceito é terrível, no sentido de que você comete injustiças e erros sérios. Pós-conceito não é terrível. É claro que você não pode ser perfeito; você também comete erros. Mas é permissível fazer um julgamento depois de ter examinado as evidências. Em alguns círculos é até incentivado.
Acredito que parte do que propele a Ciência é a sede de maravilhamento. É uma emoção muito poderosa. Todas as crianças a sentem. Em uma sala de aula de primeira série todos a sentem; em uma sala de aula do último ano do ensino médio quase ninguém a sente, ou sequer a reconhece. Algo acontece entre essa primeira e última séries, e não é só a puberdade. Não somente as escolas e a mídia não ensinam muito ceticismo, mas também há pouco incentivo a esse sentimento arrebatador de maravilhamento. Ciência e pseudociência, ambos despertam esse sentimento. Popularizações pobres da Ciência estabelecem um nicho ecológico para a pseudociência.
Se a Ciência fosse explicada ao indivíduo médio de uma maneira acessível e emocionante, não haveria espaço para a pseudociência. Mas há um tipo da Lei de Gresham [5] que estabelece que na cultura popular a ciência ruim tira o espaço da boa. E penso que a culpa disso é, em primeiro lugar, de nós na comunidade científica por não fazer um trabalho melhor na popularização da Ciência, e em segundo, a mídia, que é nesse sentido quase uniformemente terrível. Todo jornal na América tem uma coluna diária de astrologia. Quantos têm uma coluna ao menos semanal de astronomia? E acredito que também é culpa do sistema educacional. Nós não ensinamos como pensar. Esta é uma falha muito séria que pode até, em um mundo equipado com 60.000 armas nucleares, comprometer o futuro da humanidade.
Afirmo que existe muito mais maravilha na Ciência que na pseudociência. E, além disso, independentemente do grau em que esse termo tem qualquer sentido, a Ciência tem a virtude adicional, que não é pequena, de ser verdadeira.
NOTAS:
[1] O último teorema de Fermat já foi resolvido. E foi por humanos.
[2] American Sign Language (Linguagem de Sinais Americana).
[3] Cidade do interior da Califórnia.
[4] Diatermia é a geração terapêutica de calor dentro do corpo através de correntes geradas por campos eletromagnéticos.
[5] Lei de Gresham, princípio econômico de que moedas que têm valor pleno em termos de metal precioso tendem a desaparecer quando circulam em um sistema monetário depreciado. De acordo com essa lei, as boas moedas são exportadas ou derretidas para se capitalizar o seu valor de mercado mais alto no câmbio estrangeiro.
Há apenas um regime de sabedoria humana, de alegação humana de conhecimento, que realmente cumpre a tarefa, e é a Ciência. As religiões dariam seus dentes caninos para serem capazes de predizer qualquer coisa com tal precisão. Pensem em quanta milhagem fariam se alguma vez pudessem fazer predições comparavelmente precisas e sem ambiguidades.
Carl Sagan
Fui criança numa época de esperança. Cresci quando as expectativas em relação à Ciência eram muito altas: nos anos 1930 e 1940. Entrei na faculdade no início dos anos 1950, obtive meu Ph.D. em 1960. Havia um senso de otimismo sobre a Ciência e o futuro. Eu sonhava em ser capaz de fazer Ciência. Cresci no Brooklyn, Nova Iorque, e era um garoto de rua. Vinha de um amável núcleo familiar, mas passei muito tempo nas ruas, como as crianças faziam então. Conhecia cada arbusto e cerca, poste de luz, varanda e parede de anfiteatro, por jogar handball chinês. Mas havia um aspecto daquele ambiente que, por alguma razão, me deixava perplexo por sua diferença, eram as estrelas.
Mesmo com uma hora de dormir mais cedo no inverno, você conseguia ver as estrelas. O que elas eram? Não eram como cercas ou mesmo postes de luz; eram diferentes. Então perguntei a meus amigos o que eram elas. Disseram “São luzes no céu, garoto”. Eu podia reconhecer que eram luzes no céu, mas isso não era uma explicação. Quero dizer, o que eram elas? Pequenas lâmpadas elétricas em longos fios pretos, de forma que não se podia ver no que estavam presas? O que eram elas?
Não apenas ninguém conseguia me dizer, como ninguém ao menos sentia que era uma pergunta interessante. Olhavam-me de forma engraçada. Perguntei a meus pais; perguntei aos amigos dos meus pais; perguntei a outros adultos. Nenhum deles sabia.
Minha mãe me disse, “Veja, acabamos de lhe conseguir um cartão de biblioteca. Pegue-o, entre no bonde, vá à Biblioteca Pública, retire um livro e ache as respostas”.
Pareceu-me uma ideia fantasticamente inteligente. Fiz a jornada. Pedi à bibliotecária um livro sobre as estrelas. (Eu era bem pequeno; ainda consigo me lembrar de ter de olhar pra cima para enxergá-la, e ela estava sentada.) Ela saiu durante alguns minutos, trouxe um livro e entregou-me. Sentei-me ansiosamente e abri as páginas. Mas o livro era sobre Jean Harlow e Clark Gable, acho, uma terrível decepção. Então voltei a ela, expliquei (o que pra mim não era fácil) que aquilo não era o que eu tinha em mente e tudo mais, que eu queria era um livro sobre as estrelas reais. Ela achou aquilo engraçado, o que me embaraçou mais ainda. De qualquer forma, ela saiu e trouxe outro livro, o tipo certo de livro. Peguei o livro e o abri, folheei as páginas lentamente, até chegar à resposta.
Estava lá. Era formidável. A resposta era que o Sol era uma estrela, mas muito distante. As estrelas eram sóis; se você estivesse perto delas, pareceriam como o nosso sol. Tentei imaginar o quão longe do Sol você precisaria estar para que ele parecesse tão opaco como uma estrela. É claro que eu não conhecia a lei do inverso do quadrado da propagação da luz; não tinha a mínima chance de desvendar tal coisa. Mas me parecia claro que você teria de estar muito longe. Bem mais longe, provavelmente, do que New Jersey. A ideia deslumbrante de um universo vasto além da imaginação passou por mim. E ficou comigo desde então.
Fiquei amedrontado. E mais tarde (demorei vários anos para descobrir isso), me dei conta de que estávamos num planeta – um pequeno mundo, sem luz própria andando em torno da nossa estrela. E então todas aquelas outras estrelas devem ter planetas andando em volta delas. Se planetas, então vida, inteligência, outros “Brooklyns” – quem sabe? A diversidade desses mundos possíveis me comoveu. Eles não teriam de ser exatamente como o nosso, tinha certeza.
Parecia a coisa mais excitante a estudar. Não me dei conta de que você poderia ser um cientista profissional; tinha a ideia de que eu precisava ser, não sei, um vendedor (meu pai disse que era melhor do que manufatura de coisas), e fazer Ciência nos fins de semana e à noite. Foi somente no segundo ano do secundário que meu professor de Biologia revelou-me que existia tal coisa como um cientista profissional, que era pago por isso; de forma que você poderia gastar todo seu tempo aprendendo sobre o universo. Foi um dia glorioso.
Foi uma grande sorte minha – nasci exatamente na época certa – para ter tido, até certa medida, aquelas ambições de infância satisfeitas. Envolvi-me com a exploração do sistema solar, no mais fascinante paralelo à ficção científica da minha infância. Nós realmente mandamos espaçonaves a outros mundos. Voamos por eles; os orbitamos; pousamos neles. Projetamos e controlamos os robôs. Mande-o cavar e ele cava. Mande-o determinar a química de uma amostra de solo, e ele determina a química. Para mim o contínuo da admiração infantil e ficção científica precoce à realidade profissional foi quase imperceptível. Nunca foi, “Oh, puxa, não é nada do que eu tinha imaginado”. Justamente o oposto: é exatamente como eu imaginava. Então me sinto enormemente afortunado.
Ciência ainda é uma das minhas maiores alegrias. A popularização da Ciência que Isaac Asimov realizou tão bem – a comunicação não apenas de descobertas, mas dos métodos da Ciência – me parece tão natural quanto respirar. Afinal, quando se está apaixonado, você quer contar para o mundo todo. A ideia de que cientistas não deveriam falar sobre sua ciência ao público me parece bizarra.
Há outra razão por que acho a popularização da Ciência importante, porque tento fazê-la. É um presságio que tenho – talvez calamitoso – de uma América na geração dos meus filhos, ou na geração dos meus netos, quando todas as indústrias de manufatura terão escapulido para outros países; quando seremos uma economia de serviço e processamento de informação; quando aterradores poderes tecnológicos estarão nas mãos de poucos, e ninguém representando o interesse público ao menos entende o problema; quando as pessoas (por “as pessoas” quero dizer a maior parte da população numa democracia) terão perdido a habilidade de definir suas próprias agendas, ou mesmo questionar inteligentemente aqueles que definem as agendas; quando não haverá a prática de questionar aqueles que têm autoridade; quando, apertando nossos cristais e religiosamente consultando nossos horóscopos, nossas faculdades críticas num íngreme declínio, incapazes de distinguir o que é verdade e o que nos faz sentir bem, escorregamos, quase sem notar, na superstição e escuridão. O CSICOP desempenha um papel solitário, mas ainda – e nesse caso a palavra deve estar correta – heroico na tentativa de agir contra algumas dessas tendências.
Temos uma civilização baseada na Ciência e tecnologia, e engenhosamente arranjamos as coisas de modo que quase ninguém entende Ciência e tecnologia. Isto é mais claramente uma receita para o desastre do que você pode imaginar. Embora possamos lidar com essa mistura combustível de ignorância e poder por algum tempo, mais cedo ou mais tarde, explodirá nas nossas caras. O poder da tecnologia moderna é tão formidável que é insuficiente apenas dizer: “Bem, aqueles no comando, tenho certeza, estão fazendo um bom trabalho”. Isto é uma democracia, e para que tenhamos certeza de que o poder da Ciência e tecnologia sejam usados própria e prudentemente, nós mesmos devemos entender Ciência e tecnologia. Devemos nos envolver no processo de tomada de decisões.
Os poderes de predição de algumas áreas, pelo menos da Ciência, é fenomenal. Eles são o mais claro argumento que consigo imaginar àqueles que dizem “Oh, a Ciência é circunstancial; Ciência é apenas a moda do momento; Ciência é a promoção do interesse próprio daqueles no poder”. É claro que há um pouco disso. É claro que se existe uma ferramenta poderosa, aqueles no poder tentarão usá-la, ou mesmo monopolizá-la. É claro que cientistas, sendo pessoas, crescem numa sociedade e refletem os preconceitos de tal sociedade. Como poderia ser diferente? Alguns cientistas foram nacionalistas; alguns foram racistas; alguns foram sexistas. Mas isso não mina a validade da Ciência. É apenas uma consequência de ser humano.
Então, imagine – há tantas áreas que podemos cogitar –, imagine que você queira saber o sexo do seu filho que está para nascer. Há várias abordagens. Você poderia, por exemplo, fazer o que a estrela do filme recente, que eu e Annie admiramos muito – Cary Grant – fazia antes de ser ator: num carnaval ou feira ou sala de consulta, você suspende um relógio de pulso ou um peso de fio de prumo acima do abdômen da mãe grávida; se ele balançar para esquerda e para direita, é um menino, se balança para frente e para trás, é uma menina. O método funciona uma vez em duas. É claro que ele já não estava mais lá antes de o bebê nascer, portanto nunca ouviu reclamações de clientes dizendo que ele errou. Acertando uma vez a cada duas – não é tão mau. É melhor do que, digamos, kremlinologistas costumavam ser. Mas se você realmente quer saber, então você faz uma amniocêntese, ou sonograma; e aí suas chances de acertar são de 99 em 100. Não é perfeito, mas é muito melhor do que uma em duas. Se você realmente quer saber, recorra à Ciência.
Ou suponha que você queira saber quando é o próximo eclipse solar. A Ciência faz algo realmente espantoso: ela pode lhe dizer com um século de antecedência onde o eclipse ocorrerá na Terra e quando, digamos, chegará à totalidade, com precisão de segundos. Pense no poder de predição que isso significa. Imagine o quanto você deve entender para ser capaz de dizer quando e onde ocorrerá um eclipse num futuro tão distante.
Ou (exatamente a mesma física) imagine lançar uma espaçonave da Terra, como a espaçonave Voyager em 1977; 12 anos mais tarde a Voyager I chega a Netuno a 100 quilômetros ou quase de onde ela deveria estar sem ter de usar alguma das correções no meio do curso que estavam disponíveis; 12 anos, 5 bilhões de quilômetros, no alvo!
Então, se você quer ser realmente capaz de prever o futuro – não em tudo, mas em algumas áreas –, há apenas um regime de sabedoria humana, de alegação humana de conhecimento, que realmente cumpre a tarefa, e é a Ciência. As religiões dariam seus dentes caninos para serem capazes de predizer qualquer coisa com tal precisão. Pensem em quanta milhagem fariam se alguma vez pudessem fazer predições comparavelmente precisas e sem ambiguidades.
Agora como ela funciona? Por que é tão bem-sucedida?
A Ciência possui mecanismos de correção de erros embutidos – porque a Ciência reconhece que cientistas, como todo mundo, são falíveis, que cometemos erros, que somos movidos pelos mesmos preconceitos que todos os outros. Não existem questões proibidas. Argumentos de autoridade são indignos. Alegações devem ser demonstradas. Argumentos ad hommem – argumentos sobre a personalidade de alguém que discorda de você – são irrelevantes; eles podem ser uns “miolo-mole” e estarem certos, e você pode ser um pilar da comunidade e estar errado.
Se você der uma olhada na Ciência em sua prática diária, certamente descobrirá que os cientistas têm toda a gama de emoções humanas e personalidades e caracteres e tal. Mas há uma coisa que realmente chama a atenção de quem olha de fora, o corredor polonês de criticismo que é considerado aceitável ou mesmo desejável. O(a) pobre estudante de graduação no seu exame oral de Ph.D. é sujeito a um fogo cruzado destruidor de questões que às vezes parecem hostis ou desdenhosas – por parte dos professores que têm o futuro do candidato ao seu alcance. Naturalmente, os estudantes ficam nervosos; quem não ficaria? É verdade, eles prepararam-se para isso durante anos. Mas eles entendem que, naquele momento crítico, realmente precisam ser capazes de responder questões. Estão se preparando para defender suas teses, devem antecipar questões; devem pensar: “Onde há uma fraqueza na minha tese que outra pessoa possa achar – porque é melhor que eu ache antes deles, pois se acharem e eu não estiver preparado, ficarei em sérios apuros”.
Você dá uma olhada em reuniões científicas contenciosas. Você encontra colóquios universitários em que o(a) palestrante mal apresentou durante 30 segundos o assunto sobre o qual falará, e repentinamente há interrupções, talvez questões desmoralizadoras, da audiência. Você dá uma olhada nas conferências de publicações para as quais você submete um artigo científico para um jornal, e ele vai para críticos anônimos cujo trabalho é pensar “Você fez alguma coisa estúpida? Se você não fez nada estúpido, há algo aqui que seja suficientemente interessante para ser publicado? Quais são as deficiências desse artigo? Isso já foi feito por outra pessoa? O argumento é adequado, ou você deveria enviar o artigo depois de ter realmente demonstrado o que está especulando?”. E assim por diante. E é anônimo: você não sabe quem são seus críticos. Você deve confiar no editor para que ele mande o artigo para verdadeiros experts que não sejam excessivamente maliciosos. Esta é a expectativa diária na comunidade científica. E aqueles que não esperam isso – mesmo bons cientistas que simplesmente não conseguem se sustentar sob o criticismo – têm carreiras difíceis.
Por que toleramos isso? Gostamos de ser criticados? Não, nenhum cientista gosta de ser criticado. Cada cientista sente uma afeição por suas ideias e resultados científicos. Você sente-se o protetor deles. Mas você não responde aos críticos: “Espere um pouco, espere um pouco; esta é realmente uma ideia muito boa. Estou muito afeiçoado a ela. Não lhe fez mal algum. Por favor, não a ataque”. Não é assim. A dura mas única regra é que se as ideias não funcionam, você deve jogá-las fora. Não gaste neurônios naquilo que não funciona. Devote esses neurônios a novas ideias que melhor expliquem os dados. Críticas válidas estão lhe fazendo um favor.
Há uma estrutura de recompensa na Ciência que é muito interessante: nossas maiores honras vão para aqueles que refutam as descobertas dos mais reverenciados entre nós. Portanto, Einstein é reverenciado não somente porque ele deu tantas contribuições fundamentais à Ciência, mas porque achou uma imperfeição na contribuição fundamental de Isaac Newton (Isaac Newton foi certamente o maior físico antes de Einstein).
Agora pense quais outras áreas da sociedade humana têm tal estrutura de recompensa, na qual reverenciamos aqueles que provam que doutrinas fundamentais que adotamos estão erradas. Pense nisso na Política, ou na Economia, ou na Religião; pense nisso na forma como organizamos nossa sociedade. Com frequência, é exatamente o oposto: recompensamos aqueles que nos reasseguram de que aquilo que nos foi dito está certo, que não devemos preocupar-nos com isso. Essa diferença, acredito, é ao menos uma razão básica pela qual fizemos tanto progresso na Ciência, e tão pouco em outras áreas.
Somos falíveis. Não podemos esperar impingir nossos desejos ao Universo. Assim, outro aspecto chave da Ciência é a experimentação. Cientistas não confiam no que é intuitivamente óbvio, porque o intuitivamente óbvio não os leva a lugar algum. Que a Terra era plana já foi óbvio uma vez. Digo, realmente óbvio; óbvio! Saia para um campo plano e dê uma olhada: é redondo ou plano? Não me dê atenção; vá e prove a você mesmo. Que corpos mais pesados caem com mais velocidade que corpos mais leves já foi óbvio uma vez. Que sanguessugas curam doenças uma vez já foi óbvio. Que algumas pessoas são escravas por natureza e direito divino já foi óbvio uma vez. Que a Terra está no centro do Universo já foi óbvio uma vez. Você está cético? Vá lá fora, dê uma olhada: as estrelas nascem no leste, põem-se no oeste; aqui estamos nós, estacionários (você sente a Terra girando?); vemos as estrelas movendo-se por nossa volta. Nós somos o centro; elas andam à nossa volta.
A verdade pode ser enigmática. Pode dar algum trabalho agarrá-la. Ela pode ser contraintuitiva. Ela pode contradizer preconceitos profundamente arraigados. Ela pode não ser consoante com aquilo que desesperadamente queremos que seja verdade. Mas nossas preferências não determinam o que é verdade. Temos um método, e esse método nos ajuda a alcançar não a verdade absoluta, apenas abordagens assintóticas da verdade – nunca lá, apenas mais e mais perto, sempre achando novos e vastos oceanos de possibilidades não descobertas. Experimentos projetados inteligentemente são a chave.
Na década de 1920, houve um jantar em que o físico Robert. W. Wood foi requisitado para responder a um brinde. Era um tempo em que as pessoas se levantavam, faziam um brinde, e então selecionavam alguém para responder ao brinde. Ninguém sabia a que brinde pediriam que respondesse, portanto era um desafio para os perspicazes. Nesse caso o brinde era: “À Física e à Metafísica”. Por Metafísica queria-se dizer algo como Filosofia – verdades às quais se podia chegar apenas pensando sobre elas. Wood levou um segundo, deu uma olhadela ao redor, e respondeu neste teor: O físico tem uma ideia, ele disse. Quanto mais ele pensa sobre ela, mais sentido ela faz para ele. Ele busca a literatura científica, e quanto mais lê, mais promissora a ideia parece. Assim preparado, ele planeja um experimento para testar a ideia. O experimento é apurado. Muitas possibilidades são eliminadas ou levadas em conta; a precisão das medições é refinada. Ao final de todo esse trabalho, o experimento é completado e… a ideia mostra-se inútil. O físico então descarta a ideia, limpa a mente (como eu dizia a um momento atrás) da confusão do equívoco, e muda para outra coisa.
A diferença entre física e metafísica, Wood concluiu, é que a metafísica não tem laboratório.
Por que é tão importante ter a compreensão sobre Ciência e tecnologia amplamente distribuída? Primeiro, é a estrada dourada para nações em desenvolvimento saírem da pobreza. E nações em desenvolvimento entendem isso, pois você precisa apenas olhar as escolas de graduação estadunidenses modernas – em Matemática, Engenharia, Física – para descobrir, caso após caso, que mais de metade dos estudantes são de outros países. Isso é algo que os EUA estão fazendo pelo mundo. Mas isso transmite um claro senso de que as nações em desenvolvimento entendem o que é essencial para seu futuro. O que me preocupa é que os estadunidenses podem não estar igualmente esclarecidos sobre o assunto.
Deixe-me falar dos perigos da tecnologia. Quase todo astronauta que visitou a órbita da Terra apontou isto: eu estava lá, eles dizem, e olhei para o horizonte, e havia essa fina tira azul que é a atmosfera terrestre. Foi-me dito que vivemos num oceano de ar. Mas lá estava ele, tão frágil, um azul tão delicado: estava preocupado por ele.
De fato, a espessura da atmosfera terrestre, comparada ao tamanho da Terra, tem mais ou menos a mesma proporção da espessura de uma camada de verniz num modelo de globo terrestre usado em sala de aula, em relação ao seu diâmetro. Esse é o ar que nutre a nós e quase todas as outras formas de vida na Terra, que nos protege dos mortais raios ultravioleta solares, que através do efeito estufa eleva a temperatura da superfície acima do ponto de congelamento. (Sem o efeito estufa, toda a Terra ficaria abaixo do ponto de congelamento da água e estaríamos todos mortos.) Agora, essa atmosfera, tão fina e frágil, está sendo assaltada por nossa tecnologia. Estamos jogando todo tipo de coisa nela. Você sabe sobre a preocupação com os clorofluorcarbonos, que estão arrasando a camada de ozônio; e que dióxido de carbono e metano e outros gases estufa estão produzindo um aquecimento global, uma corrente constante entre flutuações produzidas por erupções vulcânicas e outras fontes. Quem sabe que outros desafios estamos impondo a essa camada vulnerável de ar que não fomos sábios o suficiente para prever?
Os efeitos colaterais inadvertidos da tecnologia podem desafiar o ambiente do qual nossas próprias vidas dependem. Isso significa que devemos entender Ciência e tecnologia; precisamos antecipar consequências de longo prazo de maneira inteligente – não apenas a linha de baixo na coluna de lucros e perdas da corporação neste ano, mas as consequências para a nação e a espécie em 10, 20, 50, 100 anos no futuro. Se pararmos totalmente a produção de clorofluorcarbono e produtos químicos afins, agora mesmo (como o estamos fazendo de fato), a camada de ozônio se recuperará dentro de cem anos. Assim nossos filhos, netos ou bisnetos são obrigados a sofrer pelos erros que cometemos. Essa é uma segunda razão para a educação científica: os perigos da tecnologia. Devemos entendê-la melhor.
Uma terceira razão: origens. Toda cultura humana tem devotado parte de seu intelecto, moral e recursos materiais tentando entender de onde vem tudo – nossa nação, nossa espécie, nosso planeta, nossa estrela, nossa galáxia, nosso universo. Pare alguém na rua e pergunte sobre isso. Você não encontrará muitas pessoas que nunca pensaram sobre isso, que não têm curiosidade sobre suas origens elementares.
Sustento que há um tipo de Lei de Gresham que se aplica na confrontação entre Ciência e pseudociência: na imaginação popular, ao menos, a má ciência expulsa a boa. O que quero dizer é isto: se você é levado por continentes perdidos, canalizações e ÓVNIs e toda a ladainha de alegações tão bem-expostas no Skeptical Inquirer, você pode não ter espaço intelectual para as descobertas da Ciência. Você está farto de admiração. Nossa cultura por um lado produz as fantásticas descobertas da Ciência, e por outro lado corta-as antes que cheguem às pessoas comuns. Assim, pessoas que são curiosas, inteligentes, dedicadas a entender o mundo, podem ser, todavia (em nosso ponto de vista), enlameadas em superstição e pseudociência. Você poderia dizer: bem, elas deveriam saber melhor, deveriam ser mais críticas, e assim por diante; mas isso é muito severo. Não é tanto culpa delas, eu digo. É culpa de uma sociedade que preferencialmente propaga as bobagens e retêm a ambrosia.
A maneira menos efetiva para céticos conseguirem a atenção dessas pessoas brilhantes, curiosas e interessadas é depreciar, ou condescender, ou mostrar arrogância ante suas crenças. Elas podem ser crédulas, mas não são estúpidas. Se considerarmos a fragilidade e falibilidade humanas, entenderemos sua condição.
Por exemplo: andei pensando ultimamente sobre abduções por alienígenas, e falsas alegações de abusos sexuais infantis, e histórias de abusos de rituais satânicos no contexto de memórias recuperadas. Há semelhanças interessantes entre essas classes de casos. Acho que se quisermos entender quaisquer deles, devemos entendê-los todos. Mas há uma tendência insana dos céticos, quando tratam de histórias inventadas de abuso sexual infantil, a esquecer que abusos reais e assustadores acontecem. Não é verdade que todas essas alegações de abusos sexuais infantis são tolas e bombeadas por terapeutas sem ética. O jornal de ontem noticiou que uma pesquisa entre 13 estados descobriu que um sexto de todas as vítimas de estupro reportadas à polícia têm menos de 12 anos. E esta é uma categoria de estupro que é menos reportada à polícia, por motivos óbvios. Dessas meninas, um quinto foi estuprado por seus pais. É um monte de gente, e um monte de revelações. Devemos manter isso em mente quando consideramos pacientes que, digamos, por terem um distúrbio alimentar, suprimiram um abuso sexual infantil diagnosticado por seus psiquiatras.
As pessoas não são estúpidas. Acreditam em coisas por razões. Que não rejeitemos pseudociência ou mesmo superstição com desprezo.
No século XIX eram médiuns: você iria à sessão espírita, e seria posto em contato com parentes mortos. Hoje em dia é um pouco diferente; chama-se canalização. Ambas os casos são basicamente sobre o medo humano de morrer. Não sei quanto a você; acho a ideia de morrer desagradável. Se tivesse uma escolha, ao menos por algum tempo, eu prontamente não morreria. Duas vezes durante minha vida estive perto de morrer. (Não tive uma experiência de quase-morte, lamento dizer.) Posso entender a ansiedade sobre o ato de morrer.
Há uns 14 anos meus pais morreram. Tivemos um bom relacionamento. Eu era muito ligado a eles. Ainda sinto sua falta terrivelmente. Não pediria muito: ficaria contente com cinco minutos por ano com eles; para contar-lhes como seus filhos e netos estão passando, e como eu e Annie estamos. Sei que soa estúpido, mas gostaria de perguntar-lhes, “está tudo bem com vocês?”. Apenas um pequeno contato. Por isso não rio das mulheres que vão aos túmulos de seus maridos e conversam com eles de vez em quando. Não é difícil entender. E se temos dificuldades quanto ao estado ontológico daqueles com quem elas falam, tudo bem. O caso não é sobre isso. É sobre humanos sendo humanos.
No contexto de abduções alienígenas, tenho tentado entender o fato de que os humanos alucinam, o que é um lugar-comum, sim, sob condições de privação sensorial ou drogas ou privação do sono REM, mas também no curso corriqueiro da existência. Ouvi, talvez umas doze vezes desde a morte dos meus pais, um deles dizer meu nome: somente a palavra “Carl”. Sinto falta deles, me chamaram muito pelo primeiro nome enquanto estavam vivos; eu tinha o hábito de responder instantaneamente quando era chamado; isso tem raízes psíquicas profundas. Assim, meu cérebro repete isso de vez em quando. Isso não me surpreende de forma alguma; até gosto um pouco. Mas é uma alucinação. Se fosse um pouco menos cético, entretanto, vejo como seria fácil dizer, “eles estão por aí em algum lugar. Posso ouvi-los”.
Raymond Moody, que é um M.D. [doutor médico], acho, um autor que escreve inumeráveis livros sobre vida após a morte, realmente citou-me no primeiro capítulo do seu último livro, dizendo que ouvi meus pais me chamarem por Carl, e então, vejam, até ele acredita em vida após a morte. Isto omite minha opinião severamente. Se esse é um dos argumentos do capítulo 1 do último livro de um dos principais expoentes da vida após a morte, suspeito que a despeito de nossos anseios mais ferventes, o caso é fraco.
Mesmo assim, suponha que não me aprofundasse nas virtudes do ceticismo científico e me sentisse como sinto em relação aos meus pais, e então vem alguém que diz: “posso colocá-lo em contato com eles”. Suponha que ele seja esperto, e descobriu algo sobre meus pais no passado, e é bom em imitar vozes, e assim por diante – uma sala escurecida, com incenso e tudo mais. Posso ver-me sendo arrebatado emocionalmente.
Você me desprezaria se eu caísse nessa? Imagine que eu nunca tivesse sido educado sobre ceticismo, não tivesse ideia de que é uma virtude, mas em vez disso acreditasse que é algo grosseiro e negativo e que rejeita tudo o que é humano. Você não entenderia se eu me deixasse manipular por um médium ou canalizador?
A principal deficiência que vejo no movimento cético é sua polarização: nós versus eles – o senso de que temos um monopólio da verdade; que aquelas outras pessoas que acreditam em todas essas doutrinas estúpidas são retardadas; de que se você for sensato, irá nos escutar; e se não, pro inferno com você. Isto não é construtivo. Não transmite nossa mensagem. Condena-nos a um status permanente de minoria. Por outro lado, uma abordagem que, desde o início, admite as raízes humanas da pseudociência e superstição, que reconhece que a sociedade arranjou as coisas de forma que o ceticismo não seja bem ensinado, pode ser muito mais amplamente aceita [*].
Se entendermos isso, então é claro que teremos compaixão pelos abduzidos e aqueles que se surpreendem com os círculos nas plantações e acreditam que são sobrenaturais, ou pelo menos de manufatura extraterrestre. Esta é a chave para tornar a Ciência e o método científico mais atraentes, especialmente aos jovens, porque é uma batalha pelo futuro.
A Ciência envolve um misto de atitudes aparentemente contraditórias: por um lado ela requer uma abertura quase total a todas as ideias, não importa o quão bizarras e estranhas pareçam, uma propensão à admiração. Enquanto caminho, meu tempo desacelera; encolho na direção do movimento, e adquiro mais massa. Isso é loucura! Na escala do minúsculo, a molécula pode estar nesta posição, naquela posição, mas lhe é proibido estar em qualquer posição intermediária. Isso é bárbaro! Mas a primeira é uma afirmação da relatividade especial, e a segunda é uma consequência da mecânica quântica. Goste ou não, o mundo é assim. Se você insiste que isso é ridículo, estará para sempre privado das maiores descobertas da Ciência. Mas, ao mesmo tempo, a Ciência requer o mais vigoroso e inflexível ceticismo, porque a grande maioria das ideias são simplesmente erradas, e a única maneira de distinguir o certo do errado, o joio do trigo, é pelo experimento crítico e análise.
Muita abertura e você aceita toda noção, ideia e hipótese – o que é equivalente a não saber nada. Muito ceticismo – especialmente a rejeição de novas ideias antes de serem adequadamente testadas – e você não é apenas desagradavelmente ranzinza, mas também fechado para o avanço da Ciência. Uma mistura criteriosa é o que precisamos.
Não é divertido, como disse no início, ser alvo dos questionamentos céticos. Mas é o preço que podemos pagar para ter os benefícios de uma ferramenta poderosa como a Ciência.
[*] Se hábitos de pensamento cético são amplamente distribuídos e recompensados, então a quem o ceticismo será principalmente aplicado? Àqueles no poder. Aqueles no poder, consequentemente, não têm um interesse em todo mundo ser capaz de fazer perguntas.
Em 1960, obteve o título de doutor pela Universidade de Chicago. Dedicou-se à pesquisa e à divulgação da astronomia, como também ao estudo da chamada exobiologia. Foi um excelente divulgador da ciência (considerado por muitos o maior divulgador da ciência que o mundo já conheceu).
Com sua formação multidisciplinar e talento para a expressão escrita, Carl Sagan legou-nos um formidável acervo de obras, dentre as quais figuram clássicos como Cosmos (que foi transformado em uma premiada série de televisão, acompanhada por mais de meio bilhão de pessoas em todo o mundo), Os Dragões do Éden (pelo qual Carl Sagan recebeu o prêmio Pulitzer de Literatura), O Romance da Ciência,Pálido Ponto Azul e O Mundo Assombrado pelos Demônios: a Ciência como uma vela no escuro .
Sem medir esforços para divulgar a ciência, Carl Sagan escreveu ainda o romance de ficção científicaContato (visando atingir o grande público interessado pelo gênero), obra que foi inclusive levada para as telas de cinema, posterior a sua morte. A última obra do autor (Bilhões e Bilhões) foi publicada postumamente por sua esposa e colaboradora Ann Druyan e consiste, fundamentalmente, numa compilação de artigos inéditos escritos por Sagan, tendo um capítulo sido escrito por Sagan enquanto se encontrava no hospital. Recentemente foi publicado no Brasil mais um livro sobre Sagan Variedades da experiência Científica – Uma visão pessoal da busca por Deus, que é uma coletânea de suas palestras sobre teologia natural.
Isaac Asimov descreveu Sagan como uma das duas pessoas que ele já encontrou cujo intelecto ultrapassa a dele próprio. O outro, disse ele, foi o cientista de computadores e perito em inteligência artificial Marvin Minsky.
Fosse pela literatura científica formal ou de divulgação, pela televisão ou cinema, Carl Sagan buscou sempre oferecer ao público – leigo ou especializado – a mais completa e acessível visão científica dos fatos que se fez possível. Foi professor de astronomia e ciências espaciais na Cornell University e professor visitante no Laboratório de Propulsão a Jato do Instituto de Tecnologia da Califórnia. Criou a Sociedade Planetária e promoveu o SETI.
Carl Sagan teve um papel significativo no programa espacial americano desde o seu início. Foi consultor e conselheiro da NASA desde os anos 50, trabalhou com os astronautas do Projeto Apolloantes de suas idas à Lua, e chefiou os projetos da Mariner e Viking, pioneiras na exploração do sistema solar que permitiram obter importantes informações sobre Vênus e Marte. Participou também das missões Voyager e da sonda Galileu. Foi decisivo na explicação do efeito estufa emVênus e o descobrimento das altas temperaturas do planeta, na explicação das mudanças sazonais da atmosfera de Marte e na descoberta das moléculas orgânicas em Titã, satélite de Saturno.
Carl Sagan recebeu diversos prêmios e homenagens de diversos centros de pesquisas e entidades ligadas à astronomia, inclusive o maior prêmio científico das Américas, o prêmio da Academia Nacional de Ciências (no caso, o Public Welfare Medal). Recebeu também 22 títulos honoris causa de universidades americanas, medalhas da NASA por Excepcionais Feitos Científicos, por Feitos no Programa Apollo e duas vezes a Distinção por Serviços Públicos. O Prêmio de Astronáutica Jonh F.Kennedy da Sociedade Astronáutica Norte-Americana. O Prêmio de Beneficência Pública por “distintas contribuições para o bem estar da humanidade”. Medalha Tsiolkovsky da Federação Cosmonáutica Soviética. O Prêmio Masursky da Sociedade Astronômica Norte-Americana. O prêmio Pulitzer deliteratura, em 1978, por seu livro Os Dragões do Éden e o prêmio Emmy, por sua série Cosmos. Em homenagem, o asteróide2709 Saganleva hoje seu nome.
Por volta dos dez anosa de seu falecimento sua mulher, Ann Druyan, escreveu em seu site:
“É provável que, se você veio aqui para se juntar a mim em um ato de recordação neste décimo aniversário da morte de Carl, você já conheça bem as numerosas realizações científicas e culturais do homem. É provável que você saiba que ele desempenhou um papel principal na exploração de nosso sistema solar, que ele acrescentou algo a nosso conhecimento das atmosferas de Vênus, Marte e Terra, que ele abriu caminho a novos ramos de investigação científica, que ele atraiu mais pessoas ao empreendimento científico que talvez qualquer outro ser humano e que ele era um cidadão consciencioso tanto da Terra como do cosmo. Talvez você seja um de muitos que foi levemente empurrado a uma trajetória de vida diferente pela atração gravitacional de algo que ele disse ou escreveu ou sonhou. Em minha estimativa parcial, ele era uma figura histórica mundial que nos incentivou a deixar a espiritualidade geocêntrica, narcisista, “sobrenatural” de nossa infância e abraçar a vastidão — amadurecer ao tomar as revelações da revolução científica moderna de coração.”
A boa música
“A qualidade de uma música pode ser medida pela sua durabilidade.
Os discos são como pessoas. Você os ouve e se apaixona.
Alguns, você pode ouvir muitas e muitas vezes.
Outros, você houve quatro vezes e o caso de amor termina”.
Burt Bacharach
Quem Somos Nós?”, crítica de Ken Wilber
O surpreendente sucesso desse filme independente mostra simplesmente como as pessoas estão necessitadas de algum tipo de validação para uma visão-de-mundo mais espiritual e mística. Mas os problemas com ele são tão grandes, a ponto de ser difícil saber por onde começar. What the Bleep foi montado a partir de uma série de entrevistas com físicos e místicos, todos fazendo afirmações ontológicas sobre a natureza da realidade e sobre o fato que – sim, adivinhe – “você cria sua própria realidade”. Mas você não cria sua própria realidade; quem faz isto são os psicóticos.
Há no mínimo seis importantes escolas de física moderna e nenhuma delas concorda com as afirmações genéricas e radicais apresentadas no filme. Nenhuma escola de física acredita que um ser humano possa colapsar a equação da onda de Schroedinger em 100% dos átomos de um objeto de modo a “trazê-lo” para a existência. A física é simplesmente terrível nesse filme, e o misticismo não fica atrás, sendo aquele de uma pessoa (”Ramtha“) que afirma ser um guerreiro de trinta e cinco mil anos de idade proveniente da Atlântida.
Física ruim e misticismo fosfórico: as pessoas estão famintas desse tipo de coisa; Deus as abençoe. Entre o modernismo (e o materialismo científico) e o pós-modernismo (e a negação da profundidade), não sobra nada para alimentar a alma; assim, What the Bleep teria de ser recebido com um reconhecimento febril. Desculpe-me por ser tão severo com ele, já que, sem dúvida, as intenções são decentes; mas é exatamente esse tipo de bobagem que gera uma inacreditável má fama para o misticismo e a espiritualidade entre os cientistas reais, todos pós-modernistas, e entre as pessoas que conseguem ler sem mover os lábios.
(Tradução de Ari Raynsford, excerto do livro Integral Spirituality)
26.11.06
O Guia Cético para assistir a “What the Bleep do We Know?” – Parte 1
É um trabalho chato mas alguém tem que fazê-lo. Depois de ver o documentário “What the Bleep do We Know” sendo citado seriamente em rodas acadêmicas e vazando para além do circuito nova-era até chegar às aulas das universidades sem que nenhum cientista sério desse país reagisse, decidi fazer alguma coisa: arregacei as mangas, preparei o espírito para 90 minutos do mais terrível besteirol esotérico que um homem deveria se obrigado a suportar, e comecei a escrever o “O Guia Cético para Assistir ‘What The Bleep do We Know’”.
Este guia será composto de duas ou três partes, e talvez duas versões: uma mais descolada, que será postada nesse blog, e uma mais séria com um pouco mais de embasamento científico, que será publicada posteriormente no Projeto Ockham.
Traduzindo literalmente, “What a Bleep do We Know” ficaria algo como “Que raios nós sabemos?” embora o “bleep” seja uma onopatopéia para os irritantes bips que os pudicos americanos usam para soterrar palavrões de 4 letras muito mais pesados do que “raios”. Por isso os distribuidores brasileiros, que sempre se acham capazes de melhorar o título original de um filme ficaram com o título “Quem Somos Nós?“. Pelo menos nos livraram de ver o filme se chamar “Um Físico Muito Louco” ou “A Física Quântica do Barulho”, o que pensando bem, talvez fosse mais apropriado neste caso.
“Quem Somos Nós?” narra a estória de Amanda, uma fotógrafa surda que é levada a percorrer uma jornada espiritual em busca das respostas que todos os seres humanos gostaram de ter: de onde viemos, para onde vamos e tudo o mais que acontece entre essas duas coisas. A diferença é que aqui as respostas buscam embasamento nos conceitos de física quântica, aquele assunto cabuloso que já levou o físico prêmio Nobel Richard Feynmam a dizer: “Se você acha que entende física quântica então você não entende física quântica”.
Apresentando os culpados
Antes de se perguntar quem somos nós, você deveria perguntar quem são as pessoas que fizeram esse filme. Porque isso pode afetar completamente a experiência de assisti-lo.
Um dos principais narradores de “Quem Somos Nós?” é Ramtha, o espírito de um guerreiro da Lemúria. Preste atenção: a pessoa que vai falar pelos próximos 90 minutos com você sobre Neurologia e Física Quântica é o espírito de um guerreiro que viveu em um continente mitológico há 35.000 anos, canalizado por um médium! Não sei quanto a você, mas se algum dos meus professores tivesse apresentado essas credenciais no primeiro dia de aula eu teria me retirado da sala e da universidade. Para evitar que você faça o mesmo no cinema essa preciosa informação somente é revelada no encerramento do filme, já nos créditos finais, o que é uma trapaça danada se você pensar bem.
O médium que canaliza Ramtha no filme é a mulher loira conhecida pelo pseudônimo de JZ Knight. Segundo ela Ramtha, um espírito iluminado que, tal qual Jesus, ascendeu aos céus depois de sua morte, se manifestou pela primeira vez na cozinha da sua casa em 1977. De lá para cá, a mulher fundou uma seita, a Ramtha School of Enlightenment e passou a faturar milhões em seminários, cursos, livros, fitas e bibelôs sobre os ensinamentos de Ramtha. Como JZ possui o copyright sobre Ramtha, é pouco provável que o espírito se manifeste para outro futuro milionário por um bom tempo (será que alguém já registrou o domínio intelectual sobre o Dr. Fritz?).
Ah sim, por coincidência os produtores e os três diretores de “Quem Somos Nós?” são membros da seita de Ramtha. Você sabe o que isso significa, certo? Que “Quem Somos Nós?” é simplesmente um longo comercial sobre uma lucrativa seita que promove a crença em reencarnação, continentes lendários, UFOS e outras bobagens esotéricas. Se você está apto a aceitar isso será mais um expectador feliz desse filme; na verdade, depois dele, pode até ingressar na seita.
Outro falante em “Quem Somos Nós?” é Jeffrey Satinover. Jeff é um médico que acredita que a homosexualidade é uma doença e que ele tem a cura (http://www.satinover.com/main.htm clique no link “homosexuality”). Além de afirmar que o homosexualismo é um mal psiquiátrico que pode ser tratado com antidepressivos, Satinover afirma que o liberalismo causa danos cerebrais. De acordo com um artigo exposto em seu site (use o link “liberalism”), Satinover acredita que…
“…é possível que dos mais ou menos 70% que apoiaram, digamos, Bill Clinton, uma parte substancial sofresse de retardadamento mental como resultado da influência liberal das universidades e da mídia”
Ou seja, basicamente este homem, que logo falará conosco sobre física quântica, consciência global e paz mundial, está dizendo que se você está contra Bush provavelmente é um retardado mental. Se você ainda por cima for gay isso quer dizer que é doente e retardado mental. Isso sem mencionar que Satinover também mantém links para sites que tratam do Código da Bíblia — a crenca pseudocientífica de que a Bíblia traz criptografadas previsões sobre o futuro da humanidade.
Temos ainda em “Quem Somos Nós?” o físico PhD, John Hagelin. Hagelin é físico téorico com importantes trabalhos publicados na área das supercordas, embora sua última contribuição decente para a ciência tenha sido em 1994. Desde então Hagelin envolveu-se cada vez mais com a Meditação Transcedental, técnica do guru indiano que-diz-que-pode-levitar-mas-que-ninguém-nunca-viu-levitar Maharishi Mahesh Yogido qual Hagelin é discípulo, assim como o foram os Beatles. Suas sucessivas tentativas de incorporar o misticismo oriental em suas teorias físicas o deixaram à margem da comunidade científica e o afastaram de seus ex-colaboradores. Seu mais notável trabalho desde então foi um estudo sobre como a meditação coletiva diminuiu a criminalidade na cidade de New York. Por este trabalho irreprodutível Hagelin foi laureado do prêmio Ig Nobel da Paz, uma paródia do prêmio Nobel. Hagelin foi quatro vezes candidato à presidência dos EUA; hoje preside o Instituto de Ciência, Tecnologia e Política Pública da Universidade Maharishi, uma universidade nova-era fundada por seu guru.
Completando o time de “Quem Somos?” vêm o quiroprático Joe Dispenza (só para esclarecer: a quiroprática é uma pseudomedicina sem nenhuma comprovação científica) e Michael Ledwith, ex-quase arcebispo de Dublin, Irlanda. Michael, que mudou seu nome para Miceal, foi afastado da Igreja Católica por defender a tese de que Jesus Cristo tinha um irmão gêmeo idêntico (embora possa ter colaborado para seu afastamento o fato de ter sido acusado de abusar sexualmente de um jovem seminarista, caso que foi resolvido mediante um acordo financeiro). Autor do livro “O Universo Hamburger” (não, eu não estou inventando!) Ledwith ministra o curso “Além do Código Da Vinci – Revelando a Vida Quântica de Jesus”, unindo de maneira inacreditável dois dos mais lucrativos filões em voga atualmente. Ambos são discípulos do culto Ramtha, embora isso não seja revelado nos créditos do filme.
Quem também aparece no filme é o físico David Albert, professor na universidade de Columbia, nos EUA. David é um físico respeitável com credenciais sólidas. Por isso ficou chocado ao ver como as entrevistas que deu foram editadas de maneira a dar a entender que coaduna com as opiniões místicas dos produtores do filme:
Eu fui editado de maneira a suprimir completamente meus verdadeiros pontos de vista sobre o assunto que o filme trata. Eu sou, na realidade, profundamente contrário às tentativas de unir física quântica a consciência. Mais ainda, eu expliquei tudo isso, com grandes detalhes, em frente à câmera, para os produtores do filme. Se eu soubesse que eu poderia ser tirado do contexto tão radicalmente eu com certeza não teria aceitado participar do filme.
Um ex-padre que pregava o evangelho do irmão gêmeo de Jesus, um médico que quer curar os gays e acha que os liberais são retardados mentais, outro que exerce uma terapia não reconhecida pela ciência, um físico praticante de levitação, um cara morto há 35.000 anos baixando em uma dona loira e, em má companhia nesta turma, um físico sério enganado pelos discípulos de uma seita maluca. Bem, agora que você já sabe onde está pisando vamos assistir ao filme.
multimidia
O termo multimidia descreve diversas tecnologias que permitem que a media audio e visual se combinem de novas maneiras com o propósito de comunicação. As aplicações da multimidia incluem no entretenimento, educação e propaganda. A multimidia, muitas vezes se refere a tecnologias de computação. Atualmente, quase todos os PCs montados são capazes de reproduzir multimidia porque incluem um drive de CD-ROM ou DVD, e um bom video/som card. Mas esse termo pode também descrever outras aplicações de media como as cameras de gravar digitais (DVRs), a televisão interativa, MP3 players, aparelhos wireless e display publico de video.
Primeiramente usado nos anos 70 para descrever um tipo de experiencia que envolvia slide-shows, colagens, filme e teatro, nas décadas de 80 e 90, o termo multimidia começa a se prevalecer como uma categoria de software que possibilita designers a desenvolverem programas interativos de computador, sem que se precisasse de um conhecimento avançado de programação.
Tipos de media
Natureza espaço-temporal
• Estáticos – Agrupam elementos de informação independentes do tempo, alterando apenas a sua dimensão no espaço, tais como, por exemplo, textos e gráficos;
• Dinâmicos – Agrupam elementos de informação dependentes do tempo, tais como, por exemplo, o áudio e a animação. Nestes casos, uma alteração, no tempo, da ordem de apresentação dos conteúdos conduz a alterações na informação associada ao respectivo tipo de media dinâmico.
Origem
• Capturados – São aqueles que resultam de uma recolha do exterior para o computador;
• Sintetizados – São aqueles que são produzidos pelo próprio computador através da utilização de hardware e software específicos.
Interacção
Existe quem diferencie as categorias de multimidia linear e não-linear.
• Na multimidia linear o utilizador não tem qualquer tipo de controle no desenrolar do processo
• A multimidia não-linear oferece interactividade com o utilizador.
Divulgação
• Online – Divulgação online significa a disponibilidade de uso imediato dos conteúdos multimidia. Pode ser efectuada, por exemplo, através da utilização de uma rede informática local ou da WWW.
• Offline – A divulgação offline de conteúdos multimidia é efetuada através da utilização de suportes de armazenamento, na maioria das vezes do tipo digital. Neste caso, os suportes de armazenamento mais utilizados são do tipo óptico, CD e DVD.
Tipos de produtos multimidia
• Baseados em páginas
São desenvolvidos segundo uma estrutura organizacional do tipo espacial. Esta é uma organização semelhante à utilizada nas medias tradicionais com suportes de papel como revistas, livros e jornais.
Em alguns produtos multimidia, os utilizadores podem consultar as suas páginas utilizando as hiperligações existentes entre elas. Neste tipo de produtos, os componentes interactivos e temporais podem estar presentes através da utilização de botões, ícones e scripts. Os scripts vão permitir a criação de pequenos programas para a execução de ações em determinadas situações como, por exemplo, a visualização de um vídeo ao fim de um determinado intervalo de tempo ou após um botão ter sido pressionado
• Baseados no tempo
São desenvolvidos segundo uma estrutura organizacional assente no tempo. Esta é uma organização com uma lógica semelhante à utilizada na criação de um filme ou animação.
Durante o desenvolvimento deste tipo de produtos multimédia os conteúdos podem ser sincronizados permitindo assim definir o momento em que dois ou mais deles estão visíveis.
A interactividade neste tipo de produtos é adicionada através da utilização de scripts.
A componente da organização espacial é também, neste caso, utilizada durante a fase de desenvolvimento deste tipo de produtos.
Em ambos os tipos de produtos multimédia (baseados em páginas ou no tempo) as componentes espaço e tempo coexistem, distinguindo-se na estrutura organizacional utilizada como ponto de partida para a disposição dos conteúdos.
Um blog sobre ciência e pensamento crítico.
29.12.06
O Guia Cético para assistir a “What the Bleep do We Know?” – Parte 2
Na primeira parte deste Guia, apresentei as pessoas por trás da realização do documentário “What the Bleep do We Know?” (Quem Somos Nós?). Mostrei que os produtores, os três diretores e até alguns dos cientistas convidados fazem parte de uma exótica (e lucrativa) seita americana (na verdade me abstive de mostrar o quão exótica e lucrativa ela é — você ficaria espantado).
Agora na segunda parte analisarei a primeira meia hora do filme mostrando onde o filme erra ao tentar combinar ciência e misticismo, embalando os dois na agradável linguagem da auto-ajuda.
Por favor me desculpem o longo post. Empolgado, acabei produzindo muito mais material do que seria adequado para um blog. E olha que nem tudo o que escrevi está aqui; na edição final mantive apenas o resumo da ópera e deixei a versão completa para ser publicada mais tarde no Projeto Ockham. Espero que a mesma curiosidade que motivou o leitor a ir ao cinema buscar respostas para Quem Somos Nós, mantenha seu interesse até o final do texto. Ao menos, talvez você descubra Quem Não Somos Nós.
Então vamos ao Guia Cético para assistir a “What the Bleep do We Know?” — A Ciência Contra-Ataca.
0:04:47
Cada idade, cada geração tem suas premissas pré-construídas. Que o mundo é plano, ou que o mundo é redondo, etc. Existem centenas de postulados, coisas que aceitamos como certas, que podem ou não ser verdadeiras. É claro que na grande maioria dos casos, historicamente, estas coisas não são verdadeiras. Assim, presumivelmente, se a história serve de guia, muita coisa que aceitamos como certas simplesmente não são verdadeiras.
Ao afirmar que não se pode assumir nenhum conhecimento como definitivo o filme prepara o caminho para a visão alternativa do mundo que será apresentada a seguir. É um truque velho.
O problema deste argumento está no conceito de “conhecimento verdadeiro”. Para a ciência um conhecimento é “verdadeiro” enquanto for capaz de explicar os fenômenos observados na natureza, nada mais.
Por exemplo, muita gente pensa que os antigos eram estúpidos porque acreditavam que o Sol girava em torno da Terra. Na verdade o modelo geocêntrico permitiu que os navegadores se orientassem com uma precisão boa o bastante durante muitos séculos e na prática era menos complicado que o modelo heliocêntrico que o substituiu mais tarde. Foi só quando dados astronômicos mais precisos puderam ser obtidos que o geocêntrismo pôde finalmente dar lugar ao seu sucessor. Já a Terra pôde ser considerada plana pelo tempo em que isso permitiu aos homens orientar-se em seu reduzido universo, que usualmente limitava-se até onde a vista conseguisse alcançar. Quando o mundo se ampliou, com a invenção da bússola e do telescópio e a conquista de novos continentes, foi preciso admitir que a Terra não era plana, exatamente como hoje, na era dos satélites espaciais, somos obrigados a admitir que ela tampouco é esférica (chame-a de “pêra” se quiser).
Da mesma maneira a física clássica não se tornou inválida de uma hora para outra, como um paradigma com data de validade vencida. A física de Newton trouxe avanços impressionantes para a ciência e foi bem sucedida em prever inúmeros fenômenos — os mais notáveis deles provavelmente foram os descobrimentos dos planetas Urano e Netuno, além de ter fornecido uma explicação satisfatória para o fenômeno do eletromagnetismo. Mas chegou o momento em que a física clássica não podia mais explicar certas observações experimentais à respeito dos átomos e precisou ser, no que diz respeito à este universo, substítuida. Assim mesmo ela permanece perfeitamente válida para quase todos os aspectos da vida cotidiana.
Mas mais importante do que isso é o fato de que sabemos sim algumas coisas com certeza. Quando um paciente com câncer é diagnosticado através de um exame de ressonância magnética e depois tratado com sucesso em um aparelho de radioterapia é porque sabemos bastante sobre os elementos químicos e as partículas atômicas; se você está usando um microcomputador para ler este blog é porque alguém precisou saber bastante coisa sobre a física quântica para construir o microprocessador que o equipa; e quando levamos o homem à Lua o fizemos porque sabíamos bastante sobre a gravitação de Newton, o eletromagnetismo de Maxwell e toda uma lista enorme de conhecimentos bem estabelecidos. Todas estas coisas são muito mais do que suposições ou modismos de uma era ou de uma geração.
0:11:24
Esta câmera está vendo muito mais ao meu redor… do que há aqui… porque ela não faz objeções e nem julgamentos. O único filme que está sendo exibido no cérebro é o que temos a habilidade de ver. Assim, será possível que nossos olhos, nossas câmeras, veja mais do que nosso cérebro tenha habilidade de ver, de conscientemente projetar?
Aqui Ramtha, o espírito lemuriano canalizado pela médium, afirma que um equipamento eletrônico pode ver mais do que um homem porque não é capaz de julgar aquilo que vê. Isso é mais ou menos como dizer que os homens daltônicos escolhem ver menos cores (ou que tem alguma objeção ao amplo espectro de tons de rosa, por exemplo).
Ramtha não diz o que há mais para ser visto por nosso cérebro pré-conceituoso mas considerando que estamos diante de uma mulher cujo sotaque vem de um guerreiro de um continente mítico hospedado em seu corpo, podemos supor que se trata de algo espiritual. Neste caso estamos fora do domínio da ciência.
Note-se que aqui se estabelece pela primeira vez uma das idéias fundamentais deste filme: a de que o mundo como o conhecemos pode ser fisicamente moldado pelas nossas crenças pessoais. Veremos mais sobre isso adiante.
Logo em seguida outra mulher continua:
Bem, o modo como nosso cérebro é construído… nós somente vemos o que acreditamos ser possível. Hmm… nós comparamos padrões que já… uh… existem em nós mesmos atraves de condicionamento.
Esta é a mesma hipótese que deu origem ao clássico adesivo de carro “duende, vê quem acredita”. Ela prossegue:
Assim, uma história maravilhosa que acredito ser verdadeira, é que quando os índios, os índios nativo-americanos das ilhas do Caribe, viram os navios de Colombo… eles não podiam vê-los realmente. Porque eles eram tão… diferentes de qualquer coisa que eles tinham visto antes, que eles não podiam vê-los.
Assim contada, a história poderia passar como apenas um causo ou uma parábola. No entanto logo em seguida a história ganha ares oficiais quando dramatizada sob a locução de um dos cientistas do filme (pela voz, provavelmente Joe Dispenza, o quiroprático membro da seita Ramtha):
Quando a armada de Colombo chegou à América, nenhum dos nativos podia ver os navios, mesmo que eles estivessem no horizonte. A razão porque eles nunca viram os navios é porque eles não tinham conhecimento em seus cérebros que navios (no original “Clipper Ships”) existiam. Logo o pagé começou a notar as marolas no oceano mas ainda não via os navios… mas ele começou a se perguntar o que causava as marolas. Assim, cada dia ele olhava e olhava e olhava. Até que um dia viu os navios e contou a todos os outros que os navios estavam lá. Como todos confiavam nele, foram capazes de ver os navios também.
Não há o menor traço de veracidade nesta história. Não há registros escritos por Colombo nem tradições orais das tribos indígenas que habitavam a América de que qualquer coisa assim jamais tenha acontecido com navios, armas de fogo, instrumentos metálicos, ou qualquer outra tecnologia nunca antes vista pelos nativos. Não há tampouco registros nos relatos dos modernos conquistadores do século XIX que chegaram à África, ao Alasca, à Amazônia ou em outros territórios onde habitavam civilizações tecnologicamente mais atrasadas, de que qualquer coisa assim jamais tenha acontecido.
Esta é uma história inventada, provavelmente dentro da seita Ramtha, para impressionar discípulos pouco espertos. E que história absurda! Imaginem um beduíno do deserto que nunca viu nada além de camelos em toda a sua vida de repente deparando-se com homens brancos flutuando à meia altura do solo e deixando velozmente atrás de si uma nuvem de areia! E os animais? Eles também precisaram se acostumar com as tecnologias do homem moderno antes de serem capazes de vê-las? Quanto tempo um chimpanzé precisou olhar para uma banana frita invisível antes de poder realmente comê-la?
A propósito, os navios de que Ramtha fala (Clipper Ships) só foram inventados no século XIX. Talvez por isso ninguém podia vê-los…
0:21:06
O garotinho — uma espécie de Mini-Me do Morpheus de Matrix — lança a bola com força sobre Amanda.
- Machuca! Amanda diz.
- Ela nunca te tocou
- Tá bom…
- E ela não é sólida. A bola é quase completamente vazia.
Aqui temos três afirmações: (1) a bola não tocou Amanda; (2) a bola não é sólida e (3) a bola é vazia, em sua quase totalidade. Das três, somente a afirmação (3) é verdadeira.
O átomo é cerca de 100.000 vezes maior do que o seu núcleo. Isso quer dizer que se o átomo fosse um grande auditório vazio, seu núcleo, onde estão os prótons e os neutrons, seria um pontinho do tamanho da cabeça de um alfinete, bem no centro. Agora imagine todo este enorme auditório completamente vazio, com alguns outros pontinhos ainda menores do que uma cabeça de alfinete rodopiando por todo este espaço. É um verdadeiro latifúndio atômico.
Mas só porque há um bocado de espaço vazio no interior da matéria que constitui a bola de basquete isso não quer dizer que ela não seja sólida. Os átomos, com toda aquela imensidão vazia, estão ligados entre si por forças combinadas de atração e de repulsão, como imãs muito fortes. O que define o estado físico da matéria é basicamente a intensidade destas forças atômicas. Em um líquido as forças entre os átomos são muito tênues, por isso é tão fácil que você mergulhe sua mão na água, afastando os outros átomos do seu caminho. Em um gás os átomos estão ainda mais fracamente ligados fazendo com que sejam capazes de ziguezaguear livremente por grandes distâncias. Já em um corpo sólido os átomos ocupam posições estáveis, bem definidas, muito próximos uns dos outros e fortemente ligados entre si. Por isso é muito mais difícil tirar do lugar um átomo de uma bola de basquete do que da água ou do ar.
Concluindo, dizer que uma bola não é sólida somente porque os átomos que a constituem possuem um monte de espaços vazios é quase a mesma coisa que dizer que ela não é sólida porque é oca. É falso.
A seguir mais sobre a primeira alegação.
0:21:22
Nós pensamos no espaço como vazio e na matéria como sólida. Mas na verdade essencialmente não existe nada na matéria. Ela é completamente insubstancial. Dê uma olhada em um átomo. Nós pensamos nele como em uma bola dura. Então dizemos: “Oh bem, não na verdade. Ele é como um pequeno ponto de matéria muito densa cercado por uma nuvem de probabilidade, saltando para dentro e para fora da existência”. Mas acontece que nem isso é correto. Mesmo o núcleo, que pensamos ser tão denso, salta para dentro e para fora da existência da mesma maneira que fazem os átomos. A coisa mais sólida que podemos dizer sobre toda essa matéria insubstancial é que ela é mais como um pensamento — é como um bit concentrado de informação.
Outro físico entra em cena e diz:
O que constitui as coisas não são mais coisas, mas ideias, conceitos, informações.
Os átomos são os tijolos da matéria. Mas o filme vem mostrando que esses tijolos são insubstanciais, constituídos de partículas minúsculas em um espaço enorme quase totalmente vazio. Que tipo de casa seria aquela construída com tijolos etéreos dispostos a vários metros uns dos outros que nem ao menos se tocam!? Mas a casa existe, nós a vemos e ela não é de fumaça. A conclusão, sugere o filme num salto lógico enorme e desonesto, é que não são os tijolos em si que sustentam a casa mas pensamentos, idéias, informação.
(Veja como o filme empurra o expectador na direção da crença de que os pensamentos são capazes de moldar a matéria. É importante identificar o exato momento em que isso acontece.)
Mas tijolos são tijolos e átomos são átomos. Um tijolo não sofre nenhuma força de outro tijolo distante a não ser uma fraquíssima e completamente desprezível força gravitacional. Já na escala atômica um átomo exerce sobre seus vizinhos uma forte força de natureza eletromagnética. Estas forças são como as vigas invisíveis (ou molas rígidas como preferem os físicos) da estrutura molecular que mantém o edifício da matéria em pé. Quando queremos derrubar este edifício não o fazemos com a força do pensamento e sim quebrando as vigas atômicas, fornecendo a elas energia, como calor por exemplo. É assim que o gelo se transforma em água.
Continuando com o filme, finalmente o jovem Morpheus volta à cena:
É como eu disse, a bola nunca te tocou.
O narrador toma a palavra e emenda:
Os elétrons constroem uma carga… e empurram os outros elétrons, assim ninguém toca ninguém.
Aqui o filme faz um enorme esforço para confundir o expectador
Só porque no nível subatômico os átomos não se tocam isso não quer dizer que as coisas não se tocam aqui em cima. Ocorre apenas que o que chamamos de tocar aqui é diferente de “tocar” na escala atômica. É apenas uma questão de linguagem.
No mundo macroscópico tocar significa entrar em contato, encostar. Mas no mundo atômico os átomos raramente “encostam” um no outro; eles apenas se repelem quando ficam muito próximos. Pense nisso como se os átomos estivessem ligados por molas invisíveis muito duras; quanto mais próximo um átomo fica de outro mais a mola o empurra de volta (em certas circunstâncias os núcleos de dois atómos podem realmente encostar um no outro até se fundir, como acontece no interior das estrelas e na bomba de hidrogênio).
Note que toda esta discussão sobre como a bola não é sólida e como ela não toca no que encosta é apenas uma maneira de levar o espectador a concluir que a realidade física é bastante diferente do que lhe diz a intuição, preparando o terreno para que ele possa aceitar as idéias metafísicas que virão, que igualmente desafiam o bom-senso.
0:24:22
Uma partícula, na qual pensamos como uma coisa sólida, existe num estado chamado “superposição”, uma onda espalhada de localizações possíveis. No instante em que você olha… ela imediatamente surge em uma única localização.
Enquanto o narrador explica o que é a superposição quântica um monte de bolas de basquete surge ao mesmo tempo na quadra. Amanda então se vira e todas, excepto uma, desaparecem. Aqui o filme comete (de novo) o pecadilho de comparar uma partícula subatômica a um corpo massivo. O porquê do erro veremos adiante.
Em seguida outro físico pega o bastão e prossegue conduzindo o pensamento:
A superposição quântica implica que uma partícula pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. É um conceito bizarro e um dos mais importantes do mundo quântico.
A superposição quântica é não só uma das características mais importantes do mundo quântico, mas também a que suscita as discussões filosóficas mais acaloradas. É bom entendê-la já que ela será usada de maneira recorrente durante o filme.
Na física quântica o elétron não é visto como um ponto material, tal qual uma minúscula bola de bilhar, e sim como uma entidade matemática chamada “função de onda”. Esta função de onda representa a probabilidade de se encontrar o elétron em uma determinada posição do espaço. Pense na função de onda como se ela fosse uma nuvem, só que uma nuvem de probabilidade; onde a nuvem é mais densa é mais provável encontrar um elétron, onde ela é mais tênue a probabilidade de que haja ali um elétron é muito pequena. O problema é que a função de onda leva a uma consequência muito interessante que é a possibilidade – teórica – de que um objeto permaneça em dois estados simultaneamente.
Para entender o que isso significa imagine que uma carta de baralho está perfeitamente equilibrada sobre uma ponta. A física clássica nos diz que na ausência de qualquer infuência externa a carta ficaria equilibrada para sempre. Já a física quântica nos diz que a carta caíria imediatamente, para a direita e para a esquerda ao mesmo tempo. Este bizarro resultado é chamado de superposição quântica.
Mas se isso é verdade por quê ninguém nunca viu uma carta ao mesmo tempo com a face para cima e para baixo? Uma das explicações propostas para o enigma, proposta na década de 20 com o nome de interpretação de Copenhagen, é que quando um observador vê a carta pela primeira vez ele força a natureza a escolher entre um dos estados quânticos possíveis. A natureza então escolhe aleatoriamente entre os estados “carta com face para cima” e “carta com face para baixo”. Isso é chamado de colapso da função de onda e é o nascedouro de todo o papo sobre consciência no qual se baseia “Quem Somos Nós?”.
O único problema é que, segundo a mecânica quântica, a função de onda não deveria sofrer nenhum colapso! Na verdade o colapso da função de onda é apenas uma maneira pragmática de explicar por que nunca observarmos a superposição quântica no dia a dia; ela não é uma decorrência natural da mecânica quântica; ela é um postulado, uma carteada filosófica, um puxadinho que os físicos fizeram na teoria quântica para poderem aplicá-la com sucesso sem precisar antes concluir o arcabouço filosófico que desse conta de suas estranhezas.
Até hoje a superposição quântica nunca foi observada em objetos maiores do que algumas dezenas de átomos e há bons motivos para acreditar por que nunca será, conforme veremos. Por isso a analogia das bolas de basquete que Morpheuzinho quica com a força do pensamento é tão enganosa.
0:25:50
Uma voz pergunta…
Como pode um sistema ou um objeto estar em dois lugares ao mesmo tempo?
E outro responde imediatamente:
(…) Nós todos temos o hábito de pensar que tudo ao nosso redor já é uma coisa… que existe independente da nossa escolha. Nós temos que banir esse hábito de pensar. Em vez disso você tem que aceitar que mesmo o mundo material ao nosso redor, as cadeiras, as mesas, as salas, o carpete, mesmo a câmera, tudo isso não são nada mais que movimentos possíveis da nossa consciência. Eu estou escolhendo o tempo todo entre esses movimentos… para fazer com que a experiência real se manifeste. Este é o único pensamento radical que você precisa, mas ele é tão radical, tão difícil… porque nossa tendência é aceitar o mundo como se ele já estivesse lá, independente da minha experiência. Ele não está! A física quântica é tão clara a respeito disso. Em vez de pensar nas coisas como coisas, temos que pensar nelas como possibilidades da consciência
Agora as coisas ficam sérias e o filme mostra suas garras esotéricas.
Você se lembra do salto lógico que aconteceu aos 21 minutos de filme, quando o narrador sugeriu que a matéria era formada de pensamentos? Aqui ocorre outro destes saltos, na mesma direção. Num instante o filme está falando de física quântica e no seguinte postula que o mundo é literalmente moldado pelos nossos pensamentos, sem estabelecer nenhuma ponte entre essas duas idéias.
Segundo esta idéia toda a realidade física é construída por nossos pensamentos. Como se vivessemos na Matrix, mas sem nenhum computador criando a realidade a não ser nossa própria consciência.
As pessoas que admiram este filme pelo seu lado mais auto-ajuda costumam tomar esta afirmação de maneira frouxa, quase metaforicamente. É como se o filme estivesse defendendo apenas uma postura mental positiva, do que tipo que faz com que você persiga um sonho, consiga um disputado emprego, se relacione melhor com sua família, arranje uma namorada bonita, esse tipo de coisa. Não é isso! O que o filme repete incessamentemente é que você pode construir fisicamente a realidade com a força do pensamento. Isso significa levitar bolas de basquete (como Morpheuzinho), estar em dois lugares ao mesmo tempo (outra das de Morpheuzinho), curar doenças de todo o tipo (como Amanda descobrirá ao final do filme), aprender kung-fu num piscar de olhos e outras coisas do tipo “there is no spoon“.
Antes de mais nada a física quântica nada diz sobre isso e qualquer extrapolação do mundo atômico para o mundo macroscópico é um exercício falacioso. Além disso, por detrás do agradável conceito de que o mundo é fisicamente configurado pela força do pensamento se esconde uma egoísta e terrível idéia: a de que o sofrimento não passa de um hábito de pensamento. Você diria a um portador de uma doença degenerativa como o Mal de Alzeimer, que sua condição é uma escolha? Você diria a um portador da síndrome de Down que seus pensamentos determinam sua deficiência mental? que sua condição, impressa em seus genes, é um mero hábito de pensar? Em que momento uma pessoa que nasceu cega optou por não enxergar o mundo?
0:27:10
Você pode ver em diversos laboratórios ao redor dos EUA, objetos grandes o bastante para serem vistos à olho nú…
Aqui há um vísivel corte entre esta frase e a que se segue.
…e elas estão em dois lugares ao mesmo tempo. Você pode tirar uma fotografia daquilo. (…) “E daí?” você diria, “eu vejo duas coisas aqui”. Não, não! não são duas coisas, é uma coisa só. Uma coisa só em dois lugares simultaneamente!
Experiências recentes realmente mostraram que fótons e pequenos agrupamentos de átomos podem estar em dois lugares ao mesmo tempo. Isso é de fato impressionante e confirma esplêndidamente a teoria quântica. Contudo até o presente momento nenhuma experiência foi feita mostrando objetos visíveis a olho nú em dois lugares ao mesmo tempo. Nem mesmo objetos muito maiores do que átomos, mas ainda assim microscópicos, como vírus, foram observados em dois lugares ao mesmo tempo. Isso é simplesmente falso. (Na defesa do médico, o filme foi editado de maneira a dar a impressão de que a experiência mencionada foi realizada com corpos visíveis a olho nú, mas provavelmente não era a isso que ele se referia.)
Há explicações perfeitamente naturais para porque a superposição quântica não funciona para objetos muito maiores do que o átomo. Mas vamos deixar esta explicação para daqui a pouco.
0:28:37
Física quântica calcula somente possibilidades… mas se aceitarmos isso, então a questão que surge imediatamente é: quem, o quê, escolhe entre todas as possibilidades… para determinar a experiência real? Nós diretamente vemos que a consciência precisa estar envolvida. O observador não pode ser ignorado.
A questão aqui está relacionada aos trechos anteriores e finalmente podemos encerrá-la.
A experiência da carta de baralho sugere que é preciso a ação de um observador para que o estado da carta seja definido. Mas e na experiência cotidiana? Quem faz o tempo todo o papel de observador?
A resposta é que não há necessidade de observador. Os físicos descobriram que a teoria quântica dava origem a um comportamento que denominaram não-coerência. Segundo a teoria da não-coerência uma superposição quântica só pode existir enquanto permanece secreta para o mundo. No instante em que uma única mólecula de ar zanzando pelo ambiente, ou um único fóton dos quaquilhões que compõem um raio de luz, esbarram na carta, o estado da carta passa a ser conhecido; não há mais espaço para a indeterminação. Este ínfimo contato com o resto do universo é tudo o que basta para que a superposição se revele. Em outras palavras, a própria natureza faz o papel de observador.
Isso explica porque não se vê pessoas em dois lugares ao mesmo tempo, gatos suspensos entre a vida e a morte e outras superposições quânticas por aí. É praticamente impossível isolar um corpo macroscópico de toda e qualquer influência externa. Basta que uma fortuita molécula de ar esbarre no objeto para fazer com que uma estado quântico torne-se não-coerente, isto é, fique idêntico a um estado clássico.
A teoria da não-coerência foi proposta pela primeira vez em 1952 pelo físico David Bohm mas foi ignorada no início. Só bem mais tarde, no início dos anos 80, a teoria foi retomada e finalmente, em 1996, foi comprovada experimentalmente. Hoje ela é aceita pela maioria dos físicos no lugar da interpretação de Copenhagen.
0:31:35
Em Washington, a chamada “capital mundial dos homicídios” houve um grande experimento no verão de 1992… onde 4000 voluntários vieram de vários países para meditar coletivamente por longos períodos de tempo durante o dia. Foi predito que com um grupo deste tamanho o número de crimes violentos caíria em 18%, como definido pelo FBI naquele verão. (…) Ao final, o departamento de polícia tornou-se colaborador e autor do estudo, pois os resultados demonstraram que fato a criminalidade diminuiu 18%.
O que o físico John Hagelin não disse no filme é que o crime diminuiu 18% em relação ao que ele previu que subiria se os meditadores não tivessem meditado.
Funciona assim: Hagelin prevê, através de um modelo que considera, além de estatísticas pregressas da criminalidade, dados como a temperatura e flutuações no campo magnético da Terra, que a criminalidade subirá, digamos, 30% no verão. Mas enquanto o grupo de meditadores recita seus mantras, em vez de 30% a criminalidade aumenta apenas 15%. Desta maneira Hagelin pode dizer que a criminalidade foi 50% menor do que ele previu que seria.
No final das contas o que interessa para os moradores da cidade de Washington é que, com meditadores ou sem meditadores, no ano de 1992 a criminalidade lá atingiu o terceiro valor mais alto de sua história (quando consideradas as taxas de homicídio).
Não é a toa que uma pesquisa deste gabarito tenha merecido o prêmio igNobel, uma paródia do prêmio Nobel…
What the bleep do we know? (Quem somos nós?) ? Crítica do filme Por Janos Biro 02/03/2006 às 23:33
Esta produção independente foi exibida nos cinemas brasileiros e já faturou 8 milhões de dólares.
Este é um filme sobre física quântica. A visão de mundo e de ciência sendo apresentada lembra bastante a tendência da revista Superinteressante: ?a ciência da felicidade?. Uma mistura bizarra de curiosidades científicas superficiais com auto-ajuda. É na prática a ramificação cientificista da auto-ajuda, e em essência continua promovendo a mesma coisa: ?Não se preocupe com as causas globais, elimine os efeitos pessoais e seja feliz?. A onda agora é embarcar em ?novos paradigmas?. Este novo paradigma realmente quebra os conceitos-chave do velho ou é apenas uma extensão dele? O velho paradigma é representado pelo mecanicismo, pelo determinismo e pelo cartesianismo. O novo paradigma é influenciado pela era da informação e dos computadores, criticando a era industrial. O universo não pode mais ser visto como uma máquina comum, mas sim como um grande computador, feito de bits e bytes. Uma máquina avançada, mais complexa, com novas regras que ?unificam? todos os seres. Somos todos um só. Elevam o grau do reducionismo ao extremo. Não é o computador apenas o próximo passo lógico do relógio? Este novo paradigma é na verdade uma grande vitória do dogmatismo científico. É tudo que ele critica elevado ao quadrado. Algumas regras mudam, mas a essência continua a mesma. É uma mudança necessária para a que a natureza seja melhor ?explicada? termos de matemática. Ou seja, para que a natureza seja ainda mais humanizada, com a desculpa de que assim estaríamos entendendo-a melhor e ao mesmo tempo entendendo a nós mesmos… Outra hipótese, que pode ser descartada por um amante das ciências, é que estamos apenas dando um passo além na conformação a realidade natural a um ideal mental e artificial, enquanto os interesses econômicos e políticos por trás disso são completamente ignorados.
As implicações do novo paradigma são aparentemente maravilhosas para a vida humana, mas assim também parecia às pessoas quando paradigma anterior surgiu. Levou anos para perceber as reais e desastrosas conseqüências do mecanicismo. Toda a visão de mundo foi moldada em torno da maravilha tecnológica da época: o relógio. As leis da física eram um incrível mistério, mexiam com a imaginação das pessoas. Elas ainda têm as mesmas expectativas em relação à física que tinham na época de Newton: esperam que ela salve o mundo, ou pelo menos tornem suas vidas melhores. O novo paradigma é tão cientificista quanto o antigo, com o computador e o holograma como as novas maravilhas tecnológicas ao redor das quais a nova visão de mundo se molda. Com que bases eu faço essa acusação? Supostamente é preciso uma ciência mais ?avançada? para criticar a ciência anterior. A ?ciência?, se é que merece esse nome, está presa num ciclo de feedback positivo da qual jamais poderá se libertar, enquanto não deixar de lado seu papel de ?salvadora? e ?detentora da verdade?.
A relação com a religião também é basicamente a mesma, mas agora se baseia mais na mística oriental que na mística cristã européia. Não se afasta muito dos textos de teológicos medievais que tentavam provar um ?deus racional?, e tinham incríveis fundamentações matemáticas. A crítica à religião não deixa de ser religiosa e até mesmo um tanto intolerante, colocando a culpa dos males do mundo nas outras religiões, e tentando substituí-las por uma religião científica, como se fosse a única válida apenas por ser ?científica?. Mas esta religião não tem nada de novo, é a velha religião salvacionista com novos termos, na velha tentativa de unir os homens em torno do mesmo conceito de deus. Este conceito de deus não deixa de ser artificial. Mais especificamente, não deixa de servir aos interesses da cultura dominante.
Uma das mudanças do novo paradigma é a influência do observador. O objetivo da ciência sempre foi determinar uma verdade independente de qualquer observador, ou seja, uma regra geral. Isso permitia afirmar a superioridade da mente humana em relação ao mundo material. Agora a própria realidade depende do observador. O observador não está mais separado do fenômeno, a realidade depende dele para existir. O funcionamento do mundo é basicamente explicado pelo funcionamento da mente. Este é o antropocentrismo levado ao extremo. É neste sentido que este novo paradigma é apenas um passo além na mesma direção. É um grande projeto de transformar a vida em algo artificial, matemático, simbólico, destituído de valor próprio. De retirar da experiência ?sagrada? todo valor intrínseco e substituir por valores humanos, culturais e utilitários. Ao mesmo tempo de dar alívio e conforto ao sofrimento de viver num mundo sem sentido próprio, prometendo juventude, felicidade, saúde, harmonia, etc… As velhas promessas de ?evolução? ou ?iluminação? do homem através de um autoconhecimento linear. Fica implícito nesta promessa o aumento da dependência tecnológica e a idéia de que a racionalidade humana é o objetivo central da evolução do universo.
O filme tenta infiltrar o seguinte meme na cabeça do espectador: a realidade é maleável, basta pensar positivo e tudo pode acontecer! Junto com esse meme é propagada a idéia de que nós somos o novo critério da nossa própria evolução, não precisamos mais nos adaptar ao meio. Também conhecido pelo dogma: não mais evoluímos, apenas progredimos. É como dizer: ?Esqueça o equilíbrio do ecossistema, nós adaptamos o meio a nós! Podemos mudar o que quisermos em nós mesmos, podemos ser nossos próprios artífices e levar em consideração apenas nossos próprios desejos e necessidades?. Afirmar que nós somos deuses é apenas o próximo passo lógico de afirmar que somos os favoritos de deus. Justifica o fato de subjugarmos o mundo, e é exatamente o que os dominadores esperam e querem ouvir: uma justificativa científica nova e atraente para suas ações irresponsáveis. Mas para a maioria das pessoas, é apenas um filme inocente que só quer o nosso ?bem?, nos deixando mais tranqüilos e harmonizados enquanto nos entregamos voluntariamente à miséria e a degradação social. Como as pessoas respeitam a autoridade dos filmes e dos doutores estadunidenses, a tendência é que esse tipo auto-ajuda apenas aumente, infelizmente.
O mínimo que podemos dizer sobre o Filme Quem Somos Nós? é que gerou muita polêmica. Há uma comunidade no Orkut sobre o assunto. Na blogosfera, também achei muitos posts. No Wikipedia, li que o filme causou reação da comunidade científica internacional.
Seria o filme uma mera peça de divulgação mística? Estaria a ciência sendo “usada” a favor de teses New Age? O que tem o filme de tão especial para atrair multidões mundo afora?
Compreensível a reação dos cientistas por uma razão bem plausível: A ortodoxia científica avançou nos últimos 4 séculos lidando com fatos observáveis instrumentalmente, replicáveis experimentalmente e “compreendidos” sob a luz do paradigma da Física Newtoniana, das macro-realidades.
Sob esta ótica, ao raciocinar na compreensão da realidade quântica, tenderá a ciência a querer transpor os mesmos métodos, os mesmos esquemas mentais e a “velha ortodoxia” para este “mundo novo”. Mas será isto possível?
Nessa lógica, o que não pode ser medido nem observado externamente, não é ciência. Mas, e quando o experimentador afeta a experiência, como no mundo quântico, não seria necessário se repensar novas variáveis afetando o próprio método científico?
E quando se pretende estudar a consciência (consciousness), na sua individualidade e idiossincrasia, não haveria a necessidade de se repensar o próprio paradigma?
Será que a nossa realidade como ser humano não pode transcender a realidade física ordinária? E o fato do filme ser inspirado em canalizações mediúnicas (o que é questionável), seria mereceria mais crítica por isso?
Questiono se a ciência comete ou não falácia ao categorizar aquilo que não compreende como pseudo-ciência. Ou quando ataca opositores e não argumentos…
Questiono igualmente a mania de usar ciência como argumento de poder. Principalmente quando cientistas que são questionados dentro da própria comunidade científica utilizam de suas credenciais para gerar mais credibilidade.
Já vi o filme mais de uma vez e recomendo. O que mais importa é avaliar por si mesmo e formar uma opinião. Se está difícil compreender, estude mais. Abra a mente e procure se informar. Amplie suas fontes. Seja cético, mas não limitado!
Estudar a realidade é sempre um bom caminho. Te deixa mais seguro intelectualmente. E aprenda também a questionar a si próprio
A seguir, um vídeo gravado com a opinião de dois professores brasileiros que ilustra a reação ao filme (em português, sem legenda):
1ª parte:
2ª parte:
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Ótimo texto, muito boa sua argumentação. Nem vou entrar em detalhes sobre o que achei das opiniões das pessoas nestes dois vídeos, porque na melhor das hipóteses estas pessoas não me parecem ter informações suficientes para fazer uma análise crítica bem embasada. Cientistas, físicos ou não, claramente faltam informações a estas pessoas. E é bem isso que você falou no seu texto, nada a acrescentar.
Abraços,
… respondi direto no seu blog, mas agora registro mais algumas idéias aqui …
A ciência faz o conhecimento avançar o que é sempre bom. Mas a ciência não prescinde do cientista e, desde que o mundo é mundo, pela própria natureza humana, todo conhecimento está sujeito a erro.
Extremos são comuns, como nas crenças cegas ou como na ingenuidade daqueles que se crêem infalíveis ou ainda, com bastante frequência, como na cegueira daqueles cujo pensamento se fossilizou no tempo.
A realidade pode ser até mais curiosa que a ficção. A mesma paisagem (realidade) pode ser descrita de diferentes formas, a depender de quem observa e seu interesse imediato, se é um turista, fotógrafo, geólogo ou um astronauta, por exemplo.
A realidade depende sempre, em última instância, de quem vê.
Bem, caro colega, pelo tom “salgado” do seu comentário, nada mais posso dizer a você além de te eleger exemplo-vivo do meu postulado sobre crítica falaciosa, reproduzido novamente a seguir:
“…Questiono se a ciência comete ou não falácia ao categorizar aquilo que não compreende como pseudo-ciência. Ou quando ataca opositores e não argumentos…”
Sem entrar muito no mérito das questões científicas expostas, devo dizer que assisti o filme menos de uma vez, foi a metade mais chata dentre todos os documetários científicos que já vi.
A ciência exposta nele está muito mais próxima da fé que do empírico. Talvez não seja culpa dos cientistas presentes, mas da própria ciência de hoje que chegou a um ponto em que os estamentos são visões, imaginários, teorias. Essencialmente, não vejo muita diferença entre os p-branas e a virgindade de Maria, nem cientistas nem religiosos podem provar uma coisa ou outra.
Graças a Deus cientistas costumam duvidar das suas próprias verdades, o que pode levar a percepção hoje quase ficcional ao empírico. Religiosos estarão sempre longe da luz.
Existem vários princípios que usamos para definir ciência. Queria comentar dois, para diferenciar o empirismo (que você menciona) do universalismo (que você não cita).
Se o empirismo possibilita formular juizos pela confiança que temos nos nossos 5 sentidos (rs.), o universalismo premia uma certa confiança de que fenômenos são universalmente reproduzíveis, em quaisquer circunstâncias e para quaisquer observadores.
Bem, o que a nova epistemologia vem tentando mostrar é que para micro-realidades (onde o mundo quântico se insere) não é assim, necessariamente. Se uma simples atitude otimista ou pessimista é capaz de qualificar os cristais de água, como nos inúmeros experimento do Dr EMOTO *achei vários videos e fotos do trabalho dele em P2P*, então acabamos de falsear a premissa do universalismo, já que o otimismo é desigualmente distribuído pela Terra…
Em ciência, pode-se discutir tudo, inclusive e principalmente os métodos, que deveriam estar de acordo com o objeto estudado. Por isso Físicos e Psicólogos usam aproachs diferentes para estudar seus objetos.
Daí o questionamento que fiz, quando digo que para estudar a consciência humana, sem cair necessariamente na fé ou no dogma, talvez tenhamos que rever o próprio paradigma. Lembremos que métodos são alinhados com paradigmas e evoluem, a depender da compreensão que possuímos das realidades estudadas. A história da Medicina não me deixa mentir.
É isso, meu. Recomendo para seu aprofundamento um video *achei também em P2P* do Prof. V R Ramachandran, neurologista, de nome “Phantoms in the Brain”. Muito esclarecedor.
Lemos um antigo post seu que comentava o filme ‘Quem somos nós?’ e achamos que a sua visão de mundo pode muito bem ser ampliada através dos ensinamentos quânticos e das novidades da Ciência. Para tanto, convidamos o senhor a se aprofundar mais neste maravilhoso mundo novo, através das opiniões de profissionais do Instituto Quântico Brasileiro. Você nunca mais será o mesmo!
Finalmente consegui redirecionar o post do Instituto Quântico Brasileiro para este espaço. Agora a minha tréplica.
Em respeito aos leitores do Blog, acrescento que a ciência tem ótimos pesquisadores, gênios da humanidade. Não faz sentido colocar a ciência subjudice mas cientistas sim. Na sua maioria, são péssimos divulgadores. A informação custa a sair do mundinho dos institutos e das Universidades e quando sai, vai por via indireta, por jornalistas ou pela via da ciência aplicada, que é a tecnologia, capitaneada pela iniciativa privada. Mas o debate aberto com a patuléia é coisa rara. Obviamente, não se trata de um fato científico. Apenas minha opinião.
Entendo que a Internet e as Novas Midias impõem a popularização da ciência. O que eu não entendo é entrarem aqui no Blog, dizendo para “abrir minha cabeça”, sem nenhum argumento sequer. É muita cara de pau! Me lembrou aquelas histórias antigas de lobotomia, o lado obscuro da Psiquiatria, que de vez em quando pipoca aqui e ali
Se o post tem muito acesso é porque é pertinente. Será que eles não desconfiaram que aqui tem espaço para divulgação da própria ciência? Se acham que não bastam os vídeos com as entrevistas dos professores que postei, então venham aqui e escrevam mais. A ciência agradece.
Mesmo cientistas Hard Science precisam aprender a lidar com críticas e não exibir o “velho” orgulho altaneiro de sempre. O filme trata da consciência humana, algo abstrato, que nem sequer físico é …
É preciso admitir sim que a ciência não sabe tudo, o que não quer dizer que não possa buscar os meios para saber. E desde já aviso que não censuro conteúdo, apenas bossalidades, palavrões essas coisas.
Se já é possível debates abertos, interessantes, registrando uma micromemória de fatos ligados de certa forma a ciência, porque ainda existem pessoas com essa postura? Não sei responder.
Baixei em P2P a versão original, sem cortes, de What a Bleep Do We Know. São 6 horas de depoimentos no total, que viraram um filme de 2 horas após a edição. Basicamente, assuntos ligados a crítica ferrenha ao dogmatismo religioso ficaram de fora, para tornar o filme mais palatável para as massas.
“A ciência exposta nele está muito mais próxima da fé que do empírico. Talvez não seja culpa dos cientistas presentes.”
Evidentemente não há culpa dos cientistas presentes, pois a opinião deles não está representada no documentário. David Albert, por exemplo, o físico da Universidade de Columbia, que aparece no filme, foi a público, dizendo que os produtores do documentário editaram grosseiramente suas falas. Ele é completamente contrário a tentativas de ligar a mecânica quântica a questões de consciência (qualquer um que entenda minimamente de física deve, necessariamente, ser contra esse salto de fé…). Ele ainda afirma que explicou exaustivamente aos produtores que discordava da visão exposta no filme e que, se soubesse que suas visões seriam tão mal representadas, ele jamais teria concordado com o uso de suas entrevistas no filme. Só se pode tirar uma conclusão disso: o documentário é extremamente desonesto, tentando basear toda aquela baboseira numa edição grosseira da fala de um cientista sério.
“Bem, o que a nova epistemologia vem tentando mostrar é que para micro-realidades (onde o mundo quântico se insere) não é assim, necessariamente. Se uma simples atitude otimista ou pessimista � capaz de qualificar os cristais de água, como nos in�meros experimento do Dr EMOTO *achei vários vídeos e fotos do trabalho dele em P2P*, então acabamos de falsear a premissa do universalismo, já que o otimismo é desigualmente distribuído pela Terra�”
Leia meu comentário a teu outro post. A maneira como o trabalho de Masoto Emoto foi mostrado no documentário é mais um exemplo da maneira desonesta com que os “fatos” são demonstrados no filme… Não há nada ali que possa falsear a premissa do universalismo, como tu a expôs…
Monteiro Lobato escreveu Emília no país da gramática, livro em que a boneca de pano, montada no rinoceronte Quindim, leva Pedrinho, Narizinho e o Visconde de Sabugosa para conhecer os habitantes de um mundo animado. Lá, os neologismos são jovens que andam soltos pelas ruas da periferia, à espera de autorização para morar no centro da cidade. Lá, o Verbo Ser, substância de todos os outros verbos, tosse um pigarro de séculos. Lá, a Senhora Sintaxe governa e dirige a concordância entre todas as palavras.
Lá vive também Dona Etimologia, uma velhinha muito da sabida, cuja casa está sempre entupida de filólogos, gramáticos e dicionaristas. E de escritores. Lygia Fagundes Telles, por exemplo, gosta muito de visitá-la para descobrir onde nasceram, que filhos têm, qual a essência de certas palavras aparentemente tão desprovidas.
Recentemente, Dona Etimologia resolveu fazer marketing e divulgar melhor os seus conhecimentos. Tem certeza de que vai aparecer no “Jô” para contar ao público a história que se oculta por trás da face às vezes inofensiva de palavras que usamos sem a menor consciência.
Dona Etimologia sabe que enfezada é aquela pessoa que está cheia de fezes, e se sente mal, e briga com todo mundo, cheia de coisa ruim por dentro.
Dona Etimologia sabe que cosmético vem de cosmos. A mulher, quando sente que seu rosto está um caos, precisa dar uma ordem, organizar-se com batom, rímel, sombra, delineador, corretivo etc.
Dona Etimologia sabe que parabéns é uma advertência: — Você ganhou um carro? Parabéns. Para bens, para coisas boas, e não para males, certo?
Dona Etimologia sabe que ambição é querer ambas as coisas, é querer tudo, como ambulância é aquele veículo que anda para ambos os lados, para todos os lados, num constante ir e vir.
Dona Etimologia sabe todas as línguas, que guardam segredos intraduzíveis. Em inglês, por exemplo, friend, amigo, e freedom, liberdade, têm a mesma raiz. Pois uma grande amizade deixa-nos realmente à vontade.
Dona Etimologia sabe que aluno provém do verbo latino álere, que significa nutrir, alimentar, sustentar. O bom aluno se alimenta… do professor.
Dona Etimologia sabe que atestado de óbito é um documento sobre alguém que resolveu obire, outro verbo no latim, que significa ir na frente.
É, Dona Etimologia vai à luta: pretende publicar um novo dicionário, e abrir-nos os olhos para a verdade original das palavras.
CATETO em grego significa ” os que são perpendiculares”
ou seja formam um ângulo de 90º.
HIPOTENUSA em grego ” o que fica por baixo”, pois eles colocavam o triângulo de madeira sobre a mesa e a hipotenusa ficava sob a mesa.
(hip.)² = cat² + cat²
hip² = 15² + 25²
hihp = V(15² + 25² ) = …….onde V = raiz quadrada
O QUE É UM PALÍNDROMO?
Um palíndromo é uma palavra ou um número que se lê da mesma maneira nos dois sentidos, normalmente, da esquerda para a direita e ao contrário.
Exemplos:
OVO, OSSO, RADAR.
O mesmo se aplica às frases, embora a coincidência seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase;
é o caso do conhecido:
SOCORRAM-ME, SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS.
Diante do interesse pelo assunto (confesse, já leu a frase ao contrário), tomei a liberdade de seleccionar alguns dos melhores palíndromos da língua de Camões… Se souber de algum, acrescente e passe adiante.
ANOTARAM A DATA DA MARATONA
ASSIM A AIA IA A MISSA
A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA
A DROGA DA GORDA
A MALA NADA NA LAMA
A TORRE DA DERROTA
LUZA ROCELINA, A NAMORADA DO MANUEL, LEU NA MODA DA ROMANA:
ANIL É COR AZUL
O CÉU SUECO
O GALO AMA O LAGO
O LOBO AMA O BOLO
O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO
RIR, O BREVE VERBO RIR
A CARA RAJADA DA JARARACA
SAIRAM O TIO E OITO MARIAS
ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ
PROFUUUUUUNDO!
ISSO É QUE É CULTURA!!!!
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O que é tautologia?
É o termo usado para definir um dos vícios de linguagem.
Consiste na repetição de uma ideia, de maneira viciada, com palavras diferentes, mas com o mesmo sentido.
O exemplo clássico é o famoso ’subir para cima’ ou o ‘descer para baixo’.
Mas há outros, como pode ver na lista a seguir:
- elo de ligação
- acabamento final
- certeza absoluta
- quantia exacta
- nos dias 8, 9 e 10, inclusive
- juntamente com
- expressamente proibido
- em duas metades iguais
- sintomas indicativos
- há anos atrás
- vereador da cidade
- outra alternativa
- detalhes minuciosos
- a razão é porque
- anexo junto à carta
- de sua livre escolha
- superávit positivo
- todos foram unânimes
- conviver junto
- facto real
- encarar de frente
- multidão de pessoas
- amanhecer o dia
- criação nova
- retornar de novo
- empréstimo temporário
- surpresa inesperada
- escolha opcional
- planear antecipadamente
- abertura inaugural
- continua a permanecer
- a última versão definitiva
- possivelmente poderá ocorrer
- comparecer em pessoa
- gritar bem alto
- propriedade característica
- demasiadamente excessivo
- a seu critério pessoal
- exceder em muito
Note que todas essas repetições são dispensáveis.
Por exemplo, ’surpresa inesperada’.
Títulos de Nobreza
Na Idade Média, o monarca dava terras e autoridade aos súditos mais poderosos
DUQUE
Depois do rei, era o nobre mais poderoso, recebendo grandes extensões de terra para administrar. Os primeiros duques vieram do Império Romano, onde os comandantes militares eram agraciados com o nome de dux (”aquele que conduz”, em latim). Seguindo a tradição, países como Espanha e Portugal davam o título a seus maiores generais
MARQUÊS
Abaixo do duque na hierarquia da nobreza, o marquês governava os marquesados, áreas do tamanho dos estados atuais. Alguns tomavam conta dos territórios reais localizados em fronteiras, lutando para evitar invasões. A origem do nome deixa clara essa função: em latim, marchensis significa “o que fiscaliza as marcas”
CONDE
Assessorando o rei num monte assuntos, do recolhimento de impostos aos combates militares, o conde era tão importante no dia-a-dia dos reinos que tinha até um substituto para suas ausências, o visconde.
O conde também administrava os condados, área menor que os marquesados. O título vem do latim comes, “aquele que acompanha”
VISCONDE
Era o substituto do conde — em latim, vicecomes significava vice-conde.
Esse título de nobreza, assim como o de barão, surgiu bem mais tarde, apenas durante o século 10. Em termos administrativos, os viscondes podiam dirigir pequenos territórios, do tamanho de vilas
BARÃO
Mais um título criado com o feudalismo já em decadência. A honraria era concedida a súditos fiéis dos reis, geralmente homens ricos. As terras governadas pelos barões eram ainda menores, do tamanho de fazendas ou sítios. Em sua origem germânica, a palavra barão significa “homem livre”
Curiosidades Lingüísticas
Moeda, moneda, money… todos têm origem no nome da deusa Moneta, deidade do templo romano onde eram cunhadas as moedas imperiais. (Fonte: As línguas do mundo, de Charles Berlitz).
Chamamos de suíte, em português, o quarto adjunto ao banheiro. O termo se originou do francês, “la chambre ensuite la salle de bain”, do qual tomamos emprestado só um pedacinho.
O terno, palavra que designa o conjunto do vestuário masculino composto por calça e paletó de mesmo tecido, tem esse nome porque era originalmente composto de três peças, sendo a terceira peça o colete.
Os japoneses, assim como os brasileiros, têm bastante dificuldade em pronunciar palavras que terminam em consoantes. A solução, para os brasileiros, é geralmente colocar um não-tão-discreto “i” no final das palavras, e o programa “Word”, por exemplo, vira “Wordi”. Já os japoneses preferem o “u”. Então, para facilitar (já que outra conhecida dificuldade dos japoneses é pronunciar o “L”), até adaptaram o internacionalmente conhecido McDonalds para Makudonarudo.
A etimologia de uma palavra pode ser extremamente poética. Esse é o caso da palavra nostalgia, que vem do grego nostos (retorno para casa) e algia (dor, aflição). Nostalgia seria, portanto, o suave sofrimento que nos traz a “volta para casa”, ou seja, as lembranças de um tempo que já passou.
O nome correto do Canal da Mancha deveria ser Canal da Manga, segundo Cláudio Moreno, autor de “O prazer das palavras”. O erro seria conseqüência da tradução equivocada do nome dado pelos franceses, La Manche, que não significa “a Mancha”, mas sim “A Manga”. Os alemães e os italianos foram mais fiéis à lingua francesa e chamam o canal, respectivamente, de ÄrmelKanal (Canal da Manga) e La Manica (A Manga).
Às vezes, palavras de sentido bastante diverso e mesmo de classes gramaticais diferentes têm a mesma etimologia. Esse é o caso do substantivo ilusão e do adjetivo lúdico. Ambos derivam do Latim illudo (brincar com, zombar).
A palavra hospital veio do latim hospit, ou hóspede. Se é para ser hóspede, garanto que a maioria das pessoas prefere ser hóspede em um hotel!
Em muitas línguas, ainda que de origem etimológica diferente, a palavra para expressar a idéia do ser supremo é escrita com quatro letras. Alguns exemplos: Deus (latim e português), Dios (espanhol), Teos (grego), Gott (alemão), Godh (dinamarquês), Goth (sueco), Godt (Holandês), Ball (Fenício), Alah ou Amir (árabe), Deva (sânscrito), Coru (persa), Papa (inca), Kami (japonês), Rama (hindu).
Tanto Champagne como champanha são nomes que não podem ser usados pelas vinícolas, a não ser que a bebida seja realmente produzida na região de Champagne, na França. Assim, os diferentes países criaram a própria nomenclatura: sekt na Alemanha, cava na Espanha, prosecco na Itália, sparkling wine na Inglaterra e espumante nos países de língua portuguesa.
Quase todo mundo sabe que o nome do nosso país foi dado a partir de uma riqueza da nossa terra, muito abundante na época do descobrimento,o pau brasil. O que poucos sabem é que o nome do nosso país vizinho, a Argentina, também vem de uma riqueza bastante cobiçada naquela época: a prata, ou argenta, em latim.
A nitidez da imagem em televisores, monitores de computador, scanners e outras tecnologias baseadas na imagem é medida em pixels. Pixel é, na verdade, uma combinação “sonora” de duas outras palavras: picture cell. Por isso, quanto maior o número de pixels (células de imagem), mais nítidez.
A palavra entusiasmo vem, segundo o frei Leonardo Boff, de en Theos mos, ou seja, ter Deus dentro. Deve ser por isso que as pessoas entusiasmadas pela vida, pelo trabalho e por aprender parecem irradiar uma certa luz…
O nome Papai Noel veio do francês, Père Noel, sendo Noel uma provável derivação da própria palavra Natal, que por sua vez deriva de Natalis dies, ou dia do nascimento. Já o nome inglês para o bom velhinho, Santa Claus, se originou de Klass, a forma reduzida de Niklass (Nicolau, em alemão). Como se sabe, vários países associam a figura de Papai Noel a São Nicolau. Ele foi um bispo em Myra, na Ásia, durante o século IV.
Bíblia é, na verdade, o plural da palavra grega Bíblion, que significa livro. A palavra Bíblia passou para o latim como o conjunto dos livros sagrados que formam o antigo e o novo testamento.
A expressão “saber alguma coisa de cor” (by heart, em inglês) e o verbo decorar surgiu da crença, na Antigüidade, de que o centro da inteligência e da memória estava no coração.
A palavra Tango, quem diria, tem origem africana. Em alguns dialetos africanos, a palavra tan~go significa “lugar fechado onde as pessoas se encontram”. No final do século XVIII os escravos chamavam de Tango o lugar onde eles se encontravam para tocar música e dançar. A história do Tango como marca registrada da cultura argentina começa por volta de 1870 e foi uma combinação de diversos estilos musicais. (Fonte: Mónica Hass de la Conte, no livro “The Tango”)
Satã, um dos vários nomes do diabo, veio do hebraico satan, que significa, simplesmente, adversário. Ao que parece, algumas torcidas organizadas já sabiam disso, a julgar pelo fanatismo com que se comportam perante os adversários nos jogos de futebol…
Embora haja versões de que SOS seria uma sigla para “Save our Souls” (salve nossas almas) ou “Save our Ship” (salve nosso navio), segundo a Encyclopedia of Word and Phrase Origins, de Robert Hendrickson, essas letras não significam nada e foram escolhidas porque qualquer operador de código Morse, mesmo com pouca experiência, poderia lembrar e executar facilmente a mensagem. No Código Morse, SOS ficaria assim: três pontos, três traços, três pontos. (…—…)
Cada vez mais, a prática de Yoga vem conquistando espaços na sociedade. A palavra Yoga provém do sânscrito yug e significa união. Refere-se à união do corpo, da mente e das emoções, no sentido de obter um equilíbrio entre estes três aspectos. Nada mais desejável, então, do que trabalhar esta união também no ambiente escolar. Se você se interessa pela idéia, visite o site http://www.ced.ufsc.br/yoga/yoga.html
Segundo Ricardo Schütz, na página sobre a história das palavras do site EMB, palavra etimologia, etymology em inglês, vem do grego étumos (real, verdadeiro) + logos (estudo, descrição, relato) e significa hoje o estudo científico da origem e da história de palavras. Nem sempre, entretanto, a etimologia das palavras é a correta, e nos Estados Unidos existe (ou, pelo menos, existia) até um concurso de falsa etimologia. Em uma de suas edições, a falsa etimologia vencedora foi a da palavra politician (político, em português): a palavra viria do grego poli (muitos) + tête (cabeça, em francês). Político seria, então, o indivíduo com muitas caras.
Muitas vezes, a criação das palavras ocorre a partir de um engano. “Vitamina”, que tem forma semelhante em várias línguas, é uma delas. O bioquímico americano que a inventou usou a palavra latina vita (vida)associada a “amine”, pois acreditava que um aminoácido estava presente nessas substâncias orgânicas necessárias à boa saúde. Na verdade, os aminoácidos nada tem a ver com a história.
No inglês, todos sabem, as palavras tendem a encolher. Mathematics virou math, bycicle é chamada de bike e gymnasium agora é gym. O que nem todo mundo sabe é que esse encolhimento de palavras acontece em outras línguas, também. Segundo Reinaldo Pimenta, em latim estrada era chamada de via lapidibus strata, ou via coberta de pedras. Depois, diminuiu para via coberta, e depois só coberta, ou strata, que originou a palavra em português.
A palavra grève, que em francês significa a faixa de areia junto ao mar ou a um rio, é que deu origem à palavra “greve” em português. Mas nem todos os autores concordam nos caminhos que a palavra tomou para ter o sentido que tem hoje. A versão que eu conhecia era de que essa faixa de areia era considerada terreno neutro; assim, os trabalhadores que paravam em protesto por melhores salários iam para lá, pois não poderiam ser presos. Outra versão é que existia uma praça de areia à beira do rio Sena, cujo nome era Place de Grève. Lá funcionou a Bolsa do Trabalho, que cadastrava trabalhadores desempregados. Esse lugar passou a ser, mais tarde, o ponto de encontro onde os funcionários que paravam deliberadamente de trabalhar promoviam atos reivindicatórios.
Algumas línguas, como o Italiano e o Hebraico, utilizam a mesma palavra para cumprimentar e se despedir. O nosso “tchau” veio do italiano Ciao, que se origina, por sua vez, de schiavo, ou escravo. O sentido da expressão era, portanto, “eu sou seu escravo”. Metaforicamente falando, claro. Já os israelitas desejam paz, ou Shalom, aos que chegam e aos que se vão. Do jeito que as coisas andam no Oriente Médio, até que não é má idéia.
O termo nepotismo tem sido usado com tamanha freqüência no noticiário político brasileiro que poderia ser confundido com um jargão jornalístico recente. Na verdade, a palavra nepotisme existe na França desde 1653, e foi incorporada no vocabulário português em 1716, segundo o dicionário Houaiss. Nepotismo vem de nepote, que significava sobrinho (ou, mais genericamente, qualquer parente) do Papa, e passou a designar o protecionismo e benesses concedidos a pessoas devido ao seu grau de parentesco com autoridades.
Apesar de considerarem o seu país The land of the free and the brave (A terra das pessoas livres e corajosas), a liberdade dos americanos não se manifesta na linguagem considerada obscena. Embora a palavra fuck exista, de forma impressa, desde 1503, foi praticamente banida de todas as publicações nos Estados Unidos a partir do século VXIII, só reaparecendo em 1960, depois que a Grove Press ganhou na justiça a permissão para usá-la legalmente no livro “O amante de lady Chatterley.” Por causa de “fuck” e de “shit”, a expressão four letter word (palavra de quatro letras) adquiriu, em inglês, o sentidode palavrão.
Todos os anos, milhões de pessoas no mundo –inclusive professores de inglês– se perguntam por que raios as estatuetas dadas como prêmio pela Academia de Hollywood se chamam “Oscar”. Segundo explica Márcio Bueno, autor do livro A origem curiosa das palavras, em 1931 a secretária-executiva da entidade olhou a estátua –oficialmente chamada de “Academy Award of Merit” e disse: “Ele se parece com o meu tio Oscar”. E o apelido pegou, a princípio apenas nos bastidores do concurso. Foi em 1934 que o termo passou para os jornais através da coluna de um crítico cinematográfico, tornando-se assim conhecido do grande público.
Nem só de doenças vivem as epidemias e pandemias. O horroroso, pseudo-intelectual e pernóstico “a nível de” já infesta, além do português, o francês (au niveau de), o espanhol (a nivel de) e o italiano (a livelo de). Segundo o professor e doutor Cláudio Moreno, que escreveu um interessantíssimo artigo sobre o assunto no Jornal Zero Hora de 26/08/03, o “a nível de” deixa o usuário confiante, orgulhoso, crente de que está abafando. Essa é uma das chaves da popularidade da expressão, que “serve em qualquer fechadura” e poupa o usuário de escolher a forma mais adequada para cada frase entre locuções como em relação a, quanto a, no que se refere a, relativamente a, no que tange, no que respeita, no âmbito, numa escala, na esfera, no que concerne, no ponto de vista de.
As nossas amigdalas, carnes esponjosas que protegem de infeção o sistema respiratório, têm esse nome em função da sua forma, que lembra duas amêndoas (amygdalas, em latim). Conforme a explicação de Márcio Bueno, autor de “A origem curiosa das palavras”, o termo se manteve quase inalterado porque chegou aos dias atuais por via culta (sobretudo através de profissionais da área médica). Já o nome da fruta em si mudou bastante porque, ao ser transmitido oralmente através das gerações, sofreu influências e modificações até se tornar “amêndoa” em português.
A palavra morcego tem sua origem no português antigo, em que rato era chamado de “mur”. Mur cego era, portanto, um rato cego. Os morcegos tem, de fato, uma visão bem limitada, mas a compensam com um sistema de gritos ultrasônicos que funcionam como um radar com o qual mapeiam com precisão o ambiente.
A palavra latina mediocris, que deu origem ao termo “medíocre”, em português, originalmente não tinha uma conotação pejorativa. Significava, simplesmente, médio ou mediano. Também ordinário, cuja cognata no inglês (ordinary) quer dizer “comum”, acabou adquirindo em português um sentido negativo. Pelo jeito, o que é médio e comum não é bom o suficiente para nós!
Algumas palavras, apesar de bastante diferentes em duas línguas, podem seguir a mesma lógica. ‘Sombrinha” em português, por exemplo, pode dar a impressão que não tem nada a ver com a palavra “umbrella” em inglês. Até aprendermos que umbro quer dizer sombra, em latim. A propósito, a palavra “penumbra” significa “quase (pen) na sombra”.
A criatividade dos falantes nativos da língua inglesa é um problema para os lexicógrafos, ou seja, os autores de dicionários. Segundo estimativa de Graeme Diamond, editor do Oxford English Dictionary (OED), cerca de 3 mil palavras são criadas por ano em inglês. Como não se sabe quais termos vão cair no esquecimento e quais vão ser incorporados ao vocabulário das pessoas, o critério do OED é que uma palavra ou expressão precisa ser usada por no mínimo cinco anos por uma parcela significativa da população para que se considere incluí-la.
A palavra informática é uma das poucas, na área da computação, que não veio do inglês. O nome, uma combinação de informazione com matemática, foi criado ainda na década de 70 pelos italianos.
Não são apenas os animais correm o risco de extinção: várias línguas faladas no mundo também estão ameaçadas de serem erradicadas do planeta. Consideram-se línguas ameaçadas de extinção aquelas que têm menos de 100 mil falantes. Por esse critério, cerca da metade das quase 6.000 línguas faladas no mundo, aí incluídas todas as línguas indígenas do Brasil, correm o risco de desaparecer.
A palavra whiskey, já aportuguesada para uísque, veio do Gaélico que, por sinal, é uma das línguas ameaçadas de extinção de que falávamos acima. O gaélico é falado na Irlanda e na Escócia pelos Celtas. Em gaélico, uisge significa água.
A palavra Atlas, usada em várias línguas para designar a coleção de mapas que registram a geografia do planeta, vem do grego. Era o nome de um titã que, castigado pelos deuses, devia suportar o mundo, carregando-o nos ombros. Na mitologia grega, os Titãs eram gigantes que lutavam contra Júpiter.
Uma das cenas mais marcantes da copa de 2002 foi o Cafu levantando a taça e declarando o seu amor à mulher, Regina. Regina, em latim, significa rainha. Pelo jeito a Regina de Cafú não poderia ter um nome mais adequado, pois reina com toda a certeza no coração do jogador.
O húmus, aquela terra preta que é fonte de matéria orgânica para a nutrição do solo, tem a mesma origem etmológica das palavras humildade e humilde. Em latim, humus quer dizer chão, dando origem ao adjetivo humilitas, “que está no chão”. Humble, a palavra humilde em inglês e em francês, tem a mesma etimologia.
Há na cidade do Rio de Janeiro um bairro chamado Ilha de Guaratiba. É um bairro interiorano, não é uma ilha. As terras teriam pertencido a um inglês chamado William. De corruptela em corruptela, virou ilha: William, Uiliam, uília, ília, ilha. (Colaboração: Lúcio Wandeck)
A palavra “deliberar” vem de libra, que, como todos os simpatizantes por astrologia sabem, significa balança em latim. Deliberar é, pois, decidir depois de “pesar” os diferentes argumentos de uma questão.
A palavra “quadro negro” é duplamente equivocada. Primeiro, porque poucos quadros ainda são negros; segundo, porque “quadru”, em latim, significa quadrado, e a maioria dos quadros (verdes, brancos) usados nas escolas são, de fato, retangulares.
A palavra “pederasta” nem sempre teve uma conotação negativa. De paidós (criança, em grego) e erastés (apaixonado), originalmente denotava a relação afetuosa entre mestre e aluno, marcada pela admiração.
A etimologia de algumas palavras pode nos enganar. A palavra palmatória, significando o instrumento de punição tão temido nas salas de aula de antigamente, não vem de “palma” da mão, como se poderia esperar. Palmatoria é palmeira em latim. Dessa árvore fazia-se a palmatoria ferula, ou varinha de palmeira, com que também se aplicavam castigos físicos.
A expressão “Eureca!” deveria ser escrita “Heureca!”, segundo os dicionários Aurélio e Houaiss que, no entanto, consideram ambas as grafias corretas. Em outras línguas, a expressão de alegria supostamente usada por Arquimedes ao descobrir a lei do empuxo é escrita com “H” no início e “k” na última sílaba, já que vem do verbo heurisko (”achar ou descobrir, em grego). Heureca é uma conjugação desse verbo, mais precisamente a 1a. pessoa do singular do pretérito. Literalmente, portanto, significa “Achei!” ou “Descobri!”.
Xerox não é, como se poderia pensar, o sobrenome do seu inventor. Na verdade, as cópias xerográficas foram inventadas por uma dupla de físicos, Chester Karlson e Otto Kornei, em 1948. O termo vem do grego Kserós, que significa seco. Diferentemente dos processos fotográficos até então convencionais, a xerografia não usa líquidos de revelação. (Fonte: A Casa da Mãe Joana, de Reinaldo Pimenta).
As notas musicais foram criadas por um monge em Toscana, na Itália, por volta de 1030. O monge Guido, mestre do coro da catedral de Arezzo, utilizou-se das primeiras sílabas dos versos de um hino a São João Batista: ut, re, mi, fa,sol, la. No século XVII, foi acrescentada a sétima nota, si, iniciais de Sancte Ioaness (São João). Só no século XVIII a primeira nota mudou de ut para dó. (Fonte: A Casa da Mãe Joana, de Reinaldo Pimenta)
O tchocolati fabricado pelos astecas, que deu o nome ao nosso apreciado chocolate (outra palavra cognata em diversos idiomas), era bastante diferente do chocolate que conhecemos e apreciamos atualmente. Além de líquido e quase tão escuro quanto café preto, era temperado com especiarias.
O “Rom” do CD-rom é uma sigla para “read-only memory”, ou seja, memória apenas para leitura. Acho importante frisar que a pronúnia correta é “rôm” e não “rum”, como freqëntemente se ouve, inclusive de professores de inglês.
Freqüentemente associa-se a malária a países tropicais. O nome da doença, entretanto, vem do italiano mal’aria, ou ar ruim. A doença foi por muito tempo associada à cidade de Roma, pois havia, nos arredores da cidade, pântanos que eram verdadeiros berçários para os mosquitos.
O prosaico jogo de Dominó pode ter um nome “divino”. É que, embora tenha sido inventado na China dois séculos antes de Cristo, era um jogo muito apreciado pelos monges medievais. A cada boa jogada ou quando venciam a partida, eles agradeciam: Domino Gratias! ou Graças a Deus!
O prefixo grego tele, que significa longe ou distante, está presente em inúmeras palavras que são cognatas em várias línguas, como telefone (tele + phone= som distante), telescópio (tele+ scopos=observador distante), telegrama (tele + gramma= letra distante) e telepatia (tele + pathos= sentimento distante). (Fonte: Idiomas: Histórias Interessantes das Linguas, de Amir Mattos).
A palavra decibel (um décimo de Bel, que é uma medida de som) é uma homenagem ao inventor do telefone, Alexander Graham Bell.
A palavra hipócrita, que é cognata em várias línguas, vem do grego Hypokrites, que significava ator. Hipócrita, portanto, é aquele que encena, fingindo-se de uma coisa que não é.
Túlipa ou tulipa são as duas pronúncias possíveis em português do nome da flor, conforme se aproxime a palavra do inglês tulip ou do francês tulipe. Porém, são o italiano tulipano (m.) e o castelhano tulipán (m.), os nomes que estão mais perto da sua etimologia, tülbend, a palavra turca para turbante. De fato, as túlipas têm a forma de um turbante invertido, e daí o seu nome. A tulipa foi trazida da Pérsia para a Holanda, em 1593, pelo botânico francês Charles de l’Ecluse conhecido sob o nome de Carolus Clusius. (Fonte: prof. Arlindo Correia).
A palavra grega que originou o atualíssimo termo “clone” significa broto. Biologicamente falando, clone é a cópia idêntica de um ser vivo produzida artificial e assexuadamente. A prática da clonagem, entretanto, não é nova; já nos anos 50 os embriologistas conseguiram clonar sapos adultos a partir de uma única célula.
Chá, em inglês, é tea, certo? Não necessariamente. Na Inglaterra, a palavra chá também existe e é usada, às vezes como um “r”a mais (char). Tanto chá quanto tea originaram-se na China, mas a partir de línguas diferentes do país. Chá veio do mandarin (ch’a) e tea veio de um dialeto do chinês (t’e). O Mandarin é falado principalmente no norte da china e pelas pessoas mais educadas do país.
O termo graffiti é o plural de graffito, que, em italiano, significa rabisco. Os primeiros a utilizar a palavra no sentido que é conhecido internacionalmente foram os arqueólogos, no século XIX, para designar as inscrições e desenhos realizados nas paredes, muralhas e monumentos das antigas cidades.
As garrafas plásticas recicláveis de refrigerantes são chamadas garrafas PET. Esse termo, apesar de ter se originado do inglês, nada tem a ver com “pet” no sentido de animal de estimação. PET é uma sigla para Poly Ethylene Terephthlate ou, em português, politereftalato de etileno. Explicou-me o prof. Marcos L. Dias que um polímero é um material formado de moléculas muito grandes, que tem na sua estrutura química unidades que se repetem (poli=muitos e mero=partes). Os plásticos, borrachas e fibras sintéticas (as chamadas fibras de poliéster) são polímeros.
Alguns termos científicos têm origens bem pouco científicas. A palavra “bactéria”, por exemplo, vem de backterion, que é o diminuitivo em grego de baktron, galho. Ao observar pela primeira vez as bactérias no microscópio, aproximadamente em 1847, os cientistas acharam-nas muito parecidas com galhinhos, e resolveram batizá-las de acordo.
A palavra “gringo”, para desigar cidadãos dos Estados Unidos, provavelmente se originou da cor verde dos uniformes americanos durante a guerra contra o México. Seria uma modificação uma dessas duas possibilidades: “Green, go” (Verdes, vão embora) ou “green coat” (os homens de) casaco verde. Segundo a Encyclopedia of Word and Phrase Origins, de Robert Hendrickson, a palavra pode ainda ter se originado de uma música cantada pelos americanos durante essa mesma guerra que começaria pelo verso “Green grow the rashes O”. Finalmente, havia ainda um major americano de nome “Ringgold”, que se parece com a pronúncia de gringo sem o “g”. em algumas regiões do Brasil, “gringo” também se aplica a estrangeiros de outras nacionalidades além da americana, ou mesmo a pessoas de pele muito clara.
A palavra Laser é uma sigla que significa Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation. Se a sigla existisse em português, seria ALEER (Amplificação da Luz por Emissão Estimulada da Luz).
De acordo com a Bíblia, em Gênesis, no princípio todos os homens da terra falavam a mesma língua. Os habitantes da cidade de Babel, entretanto, teriam decidido construir uma torre até o céu, o que atraiu a ira de Deus. Como punição, Ele confundiu a língua de todos, criando os vários idiomas que nós conhecemos hoje. Babel e Babilônia são a mesma cidade.
Para os surdos congênitos, a língua de sinais (no caso do Brasil, Libras), é considerada a sua língua natural. Como a sintaxe da comunicação gestual é bastante diferente da língua falada, o aprendizado do português, mesmo na sua forma escrita, apresenta tantas dificuldades quanto o aprendizado de qualquer outra língua estrangeira.
A palavra “adolescente” vem do particípio presente do verbo em latim adolescere, crescer. Já o particípio passado, adultus deu origem à palavra “adulto”. Em português, as palavras seriam equivalentes a “crescente”e “crescido”, respectivamente. Apesar de consideramos a fase da adolescência uma “invenção sociológica” relativamente recente, a palavra adolescente é cerca de cem anos mais antiga do que a palavra adulto. (Fonte: Word and Phrase Origins, de Robert Hendrickson)
A palavra absurdo, cognata em muitas línguas, é um termo que veio da música. O seu orifginal em latim significava “fora do tom ou de harmonia”. Foram os romanos os responsáveis por começar a usar a palavra com o sentido figurativo que conhecemos hoje.
Há cerca de 2.796 línguas no mundo, divididas em pelo menos 60 famílias. Isso sem contar os 8.000 dialetos ou variantes. Esse número tende a diminuir, entretanto, devido à aproximação de países e culturas via globalização.
Oxalá! (em castelhano, ojalá! ) , que tem origem na expressão árabe “ua xá illáh, que quer dizer “e queira Deus!” Outra curiosidade:em português e espanhol, as palavras derivadas do árabe conservaram em geral o artigo al, ao contrário do que aconteceu noutras línguas. Assim, dizemos alcaparras (em português e castelhano), mas os franceses dizem câpres e os italianos capperi. Dizemos alcatrão (alquitrán em castelhano), mas em francês diz-se goudron e em italiano catrame. Fonte: http://arlindo_correia.tripod.com/101001.html
A palavra náusea vem de naus, que em grego quer dizer navio. Nausia era, a princípio, a palavra grega que designava enjôo em alto mar. Foi “importada” por outros idiomas (português, espanhol, inglês, francês e italiano) significando qualquer mal-estar estomacal que induza ao vômito
A palavra “cretino” tem uma etimologia um tanto surpreendente: vem de “cristão”. Mas não tire conclusões apressadas! Na idade Média, em vales isolados dos alpes suíços,a ausência de iodo na comida fez surgir indivíduos deformados e com inteligência reduzida. Para que as pessoas os tratassem com compaixão, os padres lembravam que essas criaturas também eram cristãos (em francês, chrétien; no dialeto da região, cretin.) Fonte: Revista Superinteressante, dez/2001.
Etimologicamente falando, todas as mães (e pais) são, em essência, pedagogos. O termo pedagogia vem do grego paidós (criança) e agodé (condução). O pedagogo é aquele, portanto, que conduz crianças. Andragogia seria um termo mais preciso quando nos referimos à educação (ou condução) de adultos.
Como muitos já sabem, a expressão “L.A.” é uma abreviatura de “Los Angeles”. O que quase todos desconhecem é que também “Los Angeles” é uma forma bem abreviada do nome original da cidade: El Pueblo de Nustra Señora la Reina de los Angeles de Porcinúncula”. Ou seja, entre o nome original e o apelido “L.A”, lá se vão 52 letras. (Fonte: The facts on File Encyclopedia of Word and Phrase Origins).
Até os cachorros falam línguas diferentes, ou pelo menos os seus donos ouvem línguas diferentes quando eles latem. No Brasil, as pessoas dizem que os cães fazem “au, au”; na Tailândia, que fazem “hong,hong”, na Argentina, “gua-gua”, no Japão, “won-won”, e nos Estados Unidos, “bow-wow”. A questão é… será que cachorros de diferentes nacionalidades se entendem?
Embora quase metade das palavras em inglês tenham origem latina, poucas foram incorporadas durante os quase 400 anos de ocupação romana da Grã Bretanha (anos 43 a 410). A grande maioria das palavras de origem latina foram introduzidas na língua inglesa durante e depois da renascença.
O oceano Ártico tem esse nome por estar situado sob a constelação Ursa Menor, no Pólo Norte. Arctus é urso, em grego. Já o continente Antártico, mais comumente chamado Antártida, em português, é o que está em oposição ao Ártico (portanto, anti-ártico) no Pólo Sul.
A palavra morfina, que, como vários outros termos médicos, é cognata em diferentes idiomas, obteve seu nome de Morfeu, deus dos sonhos. O nome Morfeu, criado pelo poeta romano Ovídio, vem do grego “morphe”, que quer dizer “forma”. O nome seria, portanto, uma alusão às formas que enxergamos nos sonhos.
O termo “dengue” é um substantivo masculino no português, portanto “o dengue”. Foi utilizado pela primeira vez no Caribe para designar uma febre extremamente violenta provocada pelo mosquito Aedes aegypti. A palavra originou-se da adaptação espanhola de ki denga pepo, que na língua dos nativos da região significava “cãimbra causada por espíritos maus”. O dengue ocorre sob duas formas: a mais branda, cujos sintomas desaparecem em cerca de uma semana, e a hemorrágica, que pode ser fatal.
O período da quaresma inicia no Carnaval e termina na Páscoa. A palavra Carnaval está justamente relacionada ao espírito de purificação e penitência e à tradição cristã de não comer carne no período que precede a paixão de Cristo. “Carnaval” deriva do latim carnelevamen (tirar a carne), que depois modificou-se para carne, vale (adeus,carne). Os Carnavais mais famosos do mundo acontecem em Veneza, Londres, Port of Spain, Nova Orleans e Rio de Janeiro.
Não é só no Brasil que a cultura árabe anda lançando moda. O termo francês écharpe, usado também no português, vem de icharb, o lenço que as mulheres árabes usam para cobrir a cabeça, deixando só o rosto à mostra.
A palavra “asterisco” vem do grego asteriskós, que é o diminuitivo de aster, estrela. Embora seja um termo cognato em várias línguas (asterisk em inglês, astérisque em francês e asteristico em espanhol), a língua alemã partiu para uma tradução literal: sternchen (estrelinha).
A palavra alfabeto deveria ser, a bem da precisão, “alfabeta”. Afinal, a origem dessa palavra, cognata em muitas línguas, são as primeiras letras do alfabeto grego, alfa e beta. O alfabeto é uma das mais importantes invenções do homem, e a sua origem vem sendo estudada, discutida e polemizada há vários séculos. Tudo leva a crer, porém, que foram os fenícios os seus inventores.
O símbolo @ já existe desde os tempos do Império Romano, quando representava a palavra latina “ad”, da qual adveio o “at”, em inglês. Graficamente, o @ latino procurava representar, ainda que forma meio tosca, um pequeno “a” dentro de um “D”. Já em português, o @ representa a arroba, uma medida de peso equivalente a 15 quilos. A palavra arroba origina-se de um termo árabe que também designa peso, ar-rubá. (Fonte: Odisséia Digital 2)
A palavra “cookie” em inglês, que já é conhecida e usada internacionalmente com o sentido de “biscoito”, vem do holandês koekje, diminuitivo de bolo. Em informática, “cookie”significa ainda um tipo de arquivo que alguns sites “plantam” no computador do usuário para rastrear suas futuras visitas na internet. Mas não se preocupe: o Língua Estrangeira não plantou biscoitinho algum…
O termo “genocídio”, crime de que está sendo acusado Slobodan Milosevich pelos massacres na antiga Iugoslávia, é relativamente novo: a palavra foi criada pelo professor Raphael Lemkin da Duke University e usado para se referir aos criminosos nazistas em 1945. A palavra vem do grego “genos” (=raça) e do latim “cadere” (= matar).
A palavra grega “pathos”, usada em muitas línguas como raiz de palavras relacionadas à medicina (como patologia, por exemplo), tem duplo sentido. Por um lado significa doença; de outro, significa paixão.Uma “paixão patológica” seria, portanto, uma redundância.
O “til” (tilde, em inglês) costumava ser a própria letra “N”, indicando que a letra sobre a qual estava escrita deveria ser lida com som nasal. Com o passar do tempo, o “N” foi perdendo os seus ângulos agudos para se tornar a linhazinha curva em formato de onda que conhecemos hoje.
De acordo com a revista Veja, Antraz não é uma boa tradução para a palavra “Anthrax”. Anthrax é uma palavra que vem do grego e significa “carvão”. A forma cutânea da doença produz manchas escuras na pele, daí a analogia. Já a palavra “antraz” é usada no meio médico para um outro mal, bem menos agressivo: uma forunculose provocada por estafilococos. A tradução mais apropriada seria “Carbúnculo”, uma enfermidade relativamente comum causada pelo Bacillus Anthracis aos rebanhos no interior do Brasil.
O criador do simpático e medroso cachorro Scooby Doo, personagem de desenhos animados, inspirou-se em Frank Sinatra para achar um nome para a sua criatura. Explica-se: o artista, um japonês, achou muito sonoro o floreio vocal de Sinatra ao final da música “Strangers in the night”, onde ele canta “Scooby Dooby Doo…”
Ao contrário do que possa parecer, a palavra judô significa, em japonês, “o jeito ou maneira gentil”. Explica-se: este esporte foi inventado por volta de 1882, quando um educador japonês, Jigoro Kano, inquietou-se com a violência do ancestral esporte ju-jitsu. Resolveu então cortar os movimentos mais perigosos e violentos, sobretudo os golpes com o pé, substituindo-os por outros mais “gentis”.
A terceira língua mais falada no mundo, depois do chinês e do inglês, é o desconhecido Hindi-Urdu. Nada menos que 333 milhões de pessoas falam o idioma na Índia e no Paquistão. O português ocupa o quinto lugar, com 175 milhões de falantes, depois do espanhol (266 milhões).
A expressão “O.K”, muito usada em língua inglesa e já transplantada em outras línguas, como o português, teria surgido entre os habitantes de Boston do século XIX a partir da grafia intencionalmente errada da expressão “all correct”. Usando as iniciais de “oll korrect”, evitava-se que a abreviatura ficasse “A.C.”, também usada para “alternating current”. Segundo Priscila A. Velloso, no livro “Oh, Dúvida Cruel”, a expressão tornou-se popular depois de usada na campanha presidencial de 1840 nos Estados Unidos.Já a professora Maria Thedim contribuiu com outra possível explicação: nos campos de guerra, após uma batalha, era fixado o número de mortos na “barraca hospital”: se fossem 15 mortos (15 Killed = 15 K), se fosse 0 mortos (0K= 0 Killed), então ninguém morreu, por isso tá OK! .
O http:// no início de quase todos os endereços da web significa Hyper text transfer protocol, ou seja, protocolo de transferência de hiper texto. E hiper texto? É um estilo de texto onde os usuários da internet podem clicar em um hiper link e serem transportados para outro site ou página da web. E hiper link? Bom, esse é o nome completo do que a gente chama apenas de “link”. E link? Link significa elo ou vínculo em inglês, mas em “internetês” é tudo que vira “mãozinha” com a chegada do cursor.
O nome dos dias da semana em português têm origem nas festas ou feiras romanas (ferias)–exceto pelo Sábado (do hebraico Shabbath) e Domingo (do latim “Dominicus”, ou dia do Senhor). Já a maioria das outras línguas homenageia planetas e corpos celestes, como a lua (Lunes, em espanhol), Marte (Mardi, em francês), Mercúrio (mercoledi, em italiano), e Saturno (Saturday, em inglês). Fonte: Deonísio da Silva, “De Onde Vêm as Palavras”, Ed. Siciliano.
O nome “agosto” é uma homenagem a Otávio Augusto César, sobrinho e sucessor de Júlio César. Foi ele quem sugeriu que se tirasse um dia do mês de fevereiro (o último no calendário romano, já que o ano começava em março) para evitar que o “seu” mês ficasse com apenas trinta dias –e conseqüentemente com um dia a menos do que Julho, o mês dedicado a seu tio e antecessor.
Não só o mês de julho tem sua origem em Júlio César. Após a morte do imperador romano em 44 a.C., os súditos lhe prestaram uma homenagem, tornando o nome César sinônimo de imperador. As palavras “czar” e “kaiser” também têm essa origem etmológica.
Segundo Robert Hendrickson, autor da Encyclopedia of Word and Phrase Origins, a palavra idiota (que tem cognatas em muitas línguas) nem sempre teve uma conotação negativa. Na Antiga Grécia, era usada com o sentido de prosador, ou alguém que escrevia em prosa. Assim, um escritor poderia ser poeta ou idiota.
O termo “nós” (em inglês knots), unidade que mede a velociadade de embarcações, surgiu da precariedade dos instrumentos navais na época do descobrimento das Américas. Sem outra opção, os marinheiros amarravam nós em uma corda em intervalos regulares. Com um pequeno peso na ponta, a corda era lançada ao mar. A velocidade com que os nós passavam pelas mãos de quem a segurava era registrada em nós/hora.
Um dos mais devastadores entre os 50.000 vírus já identificados pela International Computer Security Association é o Melissa, de 1999. Seu criador admitiu à polícia que deu o nome ao vírus em homenagem a uma stripper que havia conhecido em Miami. Diariamente, entre dez e quinze novos vírus são criados espalhados no mundo, infernizando a vida dos usuários de computadores.
A famosa frase de Fernando Pessoa “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” provém de um poema chamado “Mar Portuguez” (na sua graia original com “z”), onde ele fala sobre o sofrimento daqueles que cruzaram o Atlântico da Europa para o Brasil à procura de uma nova vida nas Américas. Vale à pena ler o poema na íntegra, prestando atenção aos termos do português antigo, que às vezes mais parecem uma língua estrangeira.
Octobre, Oktober, October… em muitas línguas a palavra “outubro” deriva da palavra latina “octo”, que quer dizer oito. É que no calendário romano, outubro correspondia ao oitavo mês do ano, e não décimo, como é no calendário atual. É que o ano começava em março.
As letras que usamos no alfabeto moderno sofreram múltiplas alteraçãoes até hegarem à sua forma atual. A letra “m”, por exemplo, surgiu como “mem”, que no alfabeto fenício significava água e era representado a partir do hieroglifo egípcio de ondas do mar. Deu origem ao “mi” dos gregos e ao nosso “M”.
Embora seja verdade que menos de um quarto das palavras em inglês hoje tenha origem anglo saxônica, essas são as mais comuns e podem constituir até 90% das palavras utilizadas nas conversas cotidianas. Como se explica isso? É que as palavras mais comuns, como and, if, but, who, that, when, the, a, for, there and with são derivadas do idioma anglo saxão.
A palavra “bug” começou a ser utilizada em informática em 1945, quando uma mariposa conseguiu entrar num daqueles computadores enormes da base naval de virgínia, nos Estados Unidos, travando todo o sistema. Daí em diante, dizer que “há um bug no sistema” passou a ser sinônimo de qualquer tipo de falha ou erro. (Essa informação e páginas inteiras de outras curiosidades sobre os computadores e a internet vêm do encarte Odisséia Digital, um especial da Abril que vale a pena ser lido na íntegra).
URL, ou “endereço” na Internet, é uma sigla em inglês para “Uniform Resource Locator”, ou Localizador Uniforme de Recursos. Nenhum parentesco com HTML, apesar de ambas as siglas terminarem com a mesma letra: HTML significa Hyper text Markup Language.
As palavras “mamãe” e “papai” têm equivalentes tão semelhantes em outras línguas porque o “m” e o “p” são sons labiais e, consequentemente, os mais fáceis de produzir nos primeiros meses de vida dos bebês. A palavra “balbuciar” (em inglês, to babble, em francês, babiller, em italiano, balbettare e em espanhol balbucear) também advém do fato de, sendo o “b” igualmente um som labial, várias das tentativas de fala dos pequenos incluírem essa letra.
A primeira maneira que os seres humanos encontraram para mostrar a que quantidade estavam se referindo foi com os dedos das mãos. Assim, a palavra em latim para dedo, digitus, sobrevive até hoje no português e, de forma cognata, em várias outras línguas, na palavra “dígito” (com o sentido de algarismo).
A sigla SPAM, das malfadadas mensagens que a gente recebe por e-mail, seria uma abreviatura de Sending Particularly Annoying Messages. Isso quer dizer que, se traduzida, a sigla em português seria MMPI: Mandar Mensagens Particularmente Irritantes.Outra possibilidade é que o termo tenha saído de um quadro no seriado cômico o grupo Monty Python em que alguns vikings caricatos pedem repetidamente a marca norte-americana de presunto enlatado Spam.
A palavra cinestesia e as traduções da Programação Neurolingüística
Cinestesia é uma percepção de movimento. É causada pela sensação em nosso ouvido
interno (labirinto) que nos dá uma sensação especial quando estamos nos
movimentando. Pode ser percebida claramente quando rodamos no mesmo lugar: nosso
labirinto continua a rodar quando paramos e ficamos com “o mundo girando”,
mesmo parados. O nosso labirinto se acostuma com movimentos cíclicos e isso
também justifica o fenômeno de “pernas de marinheiro” – quando ficamos um bom
tempo em um barco, ao saltar em um cais nós sentimos a terra firme oscilando.
Se você leu algo sobre PNL (Programação Neurolinguística)…
Na PNL a palavra cinestesia é utilizada com uma
outra acepção. Pode estar até errada, se pegarmos a definição do dicionário, mas
o pessoal usa porque as traduções dos livros de PNL foram muito mal-feitas…
Existe, em Inglês, o termo “synesthetics” que foi traduzido por “cinestesia”.
Mas a tradução correta é “sinestesia”, com o significado de “intropercepção”,
sentidos internos. São nossas sensações internas, do próprio corpo, reações
fisiológicas tais como as de “estômago embrulhado”,
retesamento muscular, tensão, relaxamento etc. O termo correto, em Fisiologia,
seria propriocepção.
Mas nenhum tradutor de livros de PNL adotou este termo, e sim cinestesia. Eles
entenderam que cinestesia, como é um tipo de propriocepção (sensação de
movimento corporal) poderia também ser estendida para todo tipo de sensação
corporal, incluindo as viscerais, musculares, esqueléticas e
neurológicas.
Assim, depois deste intróito prolixo, vou responder a sua pergunta, pressupondo
que os termos que você quer saber mais pertencem ao universo de estudo da PNL.
Cinestesia quer dizer “tudo o que é percebido fisiológicamente, exceto o sentido
da visão e audição”. Isto é, abrange o tato, olfato e paladar e também a
propriocepção própriamente dita. Lembre-se que a PNL distingue o sentido
objetivo e o sentido subjetivo (aquele apenas imaginado). Os sentidos subjetivos
podem ser também visuais, auditivos ou cinestésicos.
Poderíamos detalhar um pouco mais, dizendo que existem vários tipos de tato:
tato pressão, tato temperatura e tato dor. E que os sentidos de olfato e paladar
são estreitamente ligados neurológicamente. Mas isto fugiria um pouco de sua
pergunta. O principal talvez seria responder o que significa, em PNL, estar em
“um estado cinestésico”, ou “focar a cinestesia de uma situação”.
Estado cinestésico, em PNL, é aquele estado onde o indivíduo está intensamente
ligado ao que sente dentro de si mesmo, seja de maneira objetiva (o seu corpo, o
que cheira, toca, sua sensação de peso, temperatura, tensão muscular) ou
subjetiva (o que imagina neste tipo de percepção). Isto é, é aquele estado onde
sua consciência está precípuamente focada nas sensações proprioceptivas,
gustativas, olfativas e táteis. E focar a cinestesia significa orientar-se para
estes tipos de percepções, descurando dos aspectos apenas visuais e auditivos,
os mais costumeiramente no limiar da consciência.
Usa-se o desenvolvimento do “estado cinestésico” para se facilitar o contato com
o inconsciente e favorecer a intuição. Tudo isso em PNL, bem entendido.
Cinestesia, Cenestesia ou Sinestesia.
Para quem ouve, é uma só palavra.
A homofonia contudo, esconde conceitos diversos.
Sinestesia.
Trata-se de uma disfunção sensorial que dá ás pessoas – que dela sofrem ou beneficiam ? – a capacidade de simultaneamente processarem cognitivamente duas interpretações sensoriais, a partir de um único estímulo. Quer se trate da percepção associada de forma sistemática de um número a uma cor (sinestesia Grafia-Cor), ou o gosto doce do Azul, o mistério continua, sendo um campo de investigação da neuro-ciência, não ficando pelos exemplos apresentados, as formas pelas quais se manifesta.
Mais estranho ainda é o facto de que na primeira forma de sinestesia, os sujeitos experienciam diferentes cores para o mesmo elemento conceptual. Assim o 2 pode ser verde mas o “dois” amarelo. Mais estranho ainda é que os sujeitos, conseguem distinguir as cores em que o algarismo está impresso, mantendo ainda a percepção associativa.
Agora que deve ser fantástico saborear a cor azul e cheirar o perfume verde do 2..
Já a Cenestesia, é a consciência (senso-percepção) que temos do próprio corpo. É a representação consciente do próprio corpo, de sua posição, de seu movimento, de sua postura em relação ao mundo à sua volta e em relação ás suas diversas partes e segmentos. Esta consciência corporal é o refúgio de algumas pessoas, quando confrontadas com determinados estímulos psicológicos. É a característica Kinocinética da sua forma de responder ao estímulo. É um comportamento típico das crianças, quando inquiridas sobre um assunto pouco confortável para elas. Torcem invariávelmente as mãos, olhando cabisbaixas para os movimentos que fazem, balbuciando uma resposta.
Cinestesia já diz respeito à senso-percepção dos movimentos corporais em relação ao ambiente à sua volta. Esta percepção é muito fácilmente ilustrada, naquela frase….”é como andar de bicicleta”.
Outro exemplo é o que decorre do esforço de aprendizagem de um novo passo de dança ou a evolução numa determinada postura de Yoga. Em qualquer dos casos, o que fazemos é socorrermo-nos da nossa memória cinestésica, por forma a “pensar” o movimento e executá-lo. Após aprendizagem, precisamos apenas de visualizar mentalmente o mesmo movimento, até que ele se torna automático..e fácil.
Pesquisa identifica sinestesia onde pessoa ‘ouve’ imagens A nova Biblioteca de Alexandria
A Biblioteca de Alexandria foi uma das maiores bibliotecas do mundo e se localizava na cidadeegípcia de Alexandria. Considera-se que tenha sido fundada no início do século III a.C., durante o reinado de Ptolomeu II do Egito, após seu pai ter construído o Templo das Musas (Museum). É atribuída a Demétrio de Falero sua organização inicial. Uma nova biblioteca foi inaugurada em 2003 próxima ao sítio da antiga.
Estima-se que a biblioteca tenha armazenado mais de 400.000 rolos de papiro, podendo ter chegado a 1.000.000. Foi destruída parcialmente inúmeras vezes, até que em 646 foi destruída num incêndio acidental (acreditou-se durante toda a Idade Média que tal incêndio houvesse sido causado pelos árabes).
Conta-se que um dos incêndios da lendária biblioteca foi provocado por Júlio César. Em caçada ao seu inimigo de Triunvirato (formado por César, Pompeu e Crasso), Pompeu, César deparou com a cidade de Alexandria, governada na época por Ptolomeu XII, irmão de Cleópatra. Pompeu foi decapitado por um dos tutores do jovem Ptolomeu, e sua cabeça foi entregue a César juntamente com o seu anel. Diz-se que ao ver a cabeça do inimigo César pôs-se a chorar. Apaixonando-se perdidamente por Cleópatra, César conseguiu colocá-la no poder através da força. Os tutores do jovem faraó foram mortos, mas um conseguiu escapar. Temendo que o homem pudesse escapar de navio mandou incendiar todos, inclusive os seus. O incêndio alastrou-se e atingiu uma parte da famosa biblioteca.
A instituição da antiga biblioteca de Alexandria tinha como o principal objetivo preservar e divulgar a cultura nacional. Continha livros que foram levados de Atenas. Existia também matemáticos ligados à biblioteca, como por exemplo Euclides de Alexandria. Ela se tornou um grande centro de comércio e fabricação de papiros.
A lista dos grandes pensadores que frequentaram a biblioteca e o museu de Alexandria inclui nomes de grandes gênios do passado. Importantes obras sobre geometria, trigonometria e astronomia, bem como sobre idiomas, literatura e medicina, são creditados a eruditos de Alexandria. Segundo a tradição, foi ali que 72 eruditos judeus traduziram as Escrituras Hebraicas para o grego, produzindo assim a famosa Septuaginta.
Vista interior da biblioteca
Os grandes nomes da Alexandria antiga
Euclides: matemático, quarto século a.C. O pai da geometria e o pioneiro no estudo da óptica. Sua obra Os Elementos foi usada como padrão da geometria até o século XIX.
Aristarco de Samos: astrônomo, terceiro século a.C. O primeiro a presumir que os planetas giram em torno do Sol. Usou a trigonometria na tentativa de calcular a distância do Sol e da Lua, e o tamanho deles.
Arquimedes: matemático e inventor, terceiro século a.C. Realizou diversas descobertas e fez os primeiros esforços científicos para determinar o valor do pi (π).
Calímaco(c. 305-c. 240 a.C.): poeta e bibliotecário grego, compilou o primeiro catálogo da Biblioteca de Alexandria, um marco na história do controle bibliográfico, o que possibilitou a criação da relação oficial (cânon) da literatura grega clássica. Seu catálogo ocupava 120 rolos de pariro.
Eratóstenes : polímata (conhecedor de muitas ciências) e um dos primeiros bibliotecários de Alexandria, terceiro século a.C. Calculou a circunferência da Terra com razoável exatidão.
Galeno: médico, segundo século d.C. Seus 15 livros sobre a ciência da medicina tornaram-se padrão por mais de 12 séculos.
Ptolomeu: astrônomo, segundo século d.C. Seus escritos geográficos e astronômicos eram aceitos como padrão.
A nova biblioteca
A atual biblioteca pretende ser um dos centros de conhecimento mais importantes do mundo. A estrutura, que tem o nome oficial de Bibliotheca Alexandrina, integra, para além da principal, quatro bibliotecas especializadas, laboratórios, um planetário, um museu de ciências e um de caligrafia e uma sala de congresso e de exposições.
A Biblioteca Tahan Hussein é especializada em cegos e invisuais, a dos Jovens é dedicada a pessoas entre os 12 e os 18 anos, a das Crianças é para quem tem entre seis e 12 anos, e a Multimédia está dotada com CD, DVD, cassetes áudio e vídeo, diapositivos e fotografias. Há ainda uma sala de microfilmes, uma de manuscritos e outra de livros raros.
Inicialmente, a ideia era dotar a biblioteca de oito milhões de livros, mas como foi impossível angariar essa quantidade ficou pela metade. Assim, foi dada prioridade à criação de uma biblioteca cibernética. No local estão ainda guardados dez mil livros raros, cem mil manuscritos, 300 mil títulos de publicações periódicas, 200 mil cassetes áudio e 50 mil vídeo. No total podem trabalhar na Biblioteca de Alexandria cerca de 3500 investigadores, que têm ao dispor 200 salas de estudo.
O telhado de vidro e alumínio tem quase o tamanho de dois campos de futebol, este teto da biblioteca é um disco com 160 metros de diâmetro reclinado, que parece em parte enterrado no solo. Ele é provido de clarabóias, voltadas para o norte, que iluminam a sala de leitura principal. Os espaços públicos principais ficam no enorme cilindro com o topo truncado, cuja parte inferior desce abaixo do nível do mar. A superfície inclinada e brilhante do telhado começa no subsolo e chega a 30 metros de altura. Olhando à distância, quando a luz do Sol reflete nessa superfície metálica, a construção parece o Sol quando nasce no horizonte. A entrada é pelo Triângulo de Calímaco, uma varanda de vidro triangular, assim chamada em homenagem ao bibliotecário que sistematizou os 500 mil livros da antiga biblioteca.
A sala de leitura tem vinte mil metros quadrados e é iluminada de forma uniforme por luz solar directa. Ao todo a biblioteca tem onze pisos, sete à superfície e quatro subterrâneos, sustentados por 66 colunas de 16 metros cada uma.
As paredes sem janelas revestidas a granito que sustentam a parte do círculo que fica à superfície têm incrustados os símbolos utilizados pela Humanidade para comunicar, como os caracteres dos alfabetos, notas musicais, números e símbolos algébricos, códigos das linguagens informáticas, etc.
O projecto da biblioteca é da autoria de uma firma de arquitectos noruegueses, a Snohetta. A construção demorou sete anos, mas a ideia nasceu em 1974. Os principais financiadores da instituição foram a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) e o governo egípcio e o custo total da obra rondou os 200 milhões de euros.
A reconstrução da famosa Biblioteca de Alexandria resultou numa estrutura de forma incomum. A construção principal da Biblioteca Alexandrina, como agora é oficialmente chamada, parece um gigantesco cilindro inclinado.
A ampla fachada do cilindro central, de granito cinza, tem letras de alfabetos antigos e modernos. Dispostas em fileiras, as letras representam apropriadamente as bases fundamentais do conhecimento.
A maior parte do interior do cilindro é ocupada por uma sala de leitura aberta, com o piso em vários níveis. No subsolo há espaço suficiente para 8 milhões de volumes. Há também espaços reservados para exposições, salas de conferências, biblioteca para cegos e um planetário — uma estrutura esférica, à parte, que lembra um satélite. Esse prédio moderníssimo inclui ainda sistemas sofisticados de computadores e de combate a incêndios.
Uma biblioteca à altura do seu passado
A biblioteca reconstruída foi aberta ao público em outubro de 2002, e contém por volta de 400 mil livros. Seu sofisticado sistema de computadores permite ainda ter acesso a outras bibliotecas. A coleção principal destaca as civilizações do Mediterrâneo oriental. Com espaço para 8 milhões de livros, a Biblioteca de Alexandria procura realçar ainda mais a importância dessa cidade antiga.
08/08/2008
Uma pesquisa realizada pelo California Institute of Technology, nos Estados Unidos, identificou um novo tipo de sinestesia, em que pessoas “ouvem” aquilo que estão vendo.
A sinestesia é uma condição neurológica benigna em que o indivíduo associa impressões percebidas por sentidos diferentes. Há casos em que a pessoas associa cores a palavras. Outras associam cores a números ou letras, ou sentem gostos quando tocam objetos.
Esse tipo de sinestesia – que os cientistas acreditam ser rara – foi descoberta quando um aluno da pesquisadora Melissa Saenz disse estar ouvindo sons vindos de um protetor de tela em um computador. Depois de fazer algumas perguntas ao estudante, a pesquisadora se deu conta de que a vivência do aluno se encaixava nos critérios da sinestesia. O fenômeno ocorrera durante toda a sua vida e acontecia com várias imagens em movimento.
Além do aluno, Saenz também verificou que mais duas ou três pessoas, dentre centenas de voluntários, ouviam sons, como batidas, zumbidos e chiado quando olhavam as imagens do protetor de tela.
Para comprovar se realmente se tratava de sinestesia, a pesquisadora fez testes com os indivíduos que supostamente tinham a condição e também com um grupo de voluntários neutros.
Ambos os gupos ouviram várias séries de sons, sempre aos pares, e observaram seqüências complexas de imagens em movimento, também aos pares. O objetivo era saber se as seqüências de sons e de imagens eram idênticas.
Estudos anteriores mostram que padrões sonoros são mais fáceis de identificar e, de fato, ambos os grupos acertaram 85% dos testes sonoros. No entanto, quando fizerem os testes com imagens, os indivíduos que tinham sinestesia tiveram um índice de acertos de 85%, enquando o outro grupo acertou apenas 55% dos testes.
A neurologista Julia Simner, que faz pesquisas sobre sinestesia na University of Edinburgh, na Escócia, disse que algumas formas da condição são mais comuns do que outras. Segundo Simner, é comum encontrar pessoas que tem um tipo inverso de sinestesia, ou seja, vêem cores quando ouvem música.